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Você provavelmente não sabe quem sou e sequer sabe de quem é essa grafia, e isso deve permanecer assim por enquanto.
Tudo que importa é que preste atenção no que escreverei aqui: Não esqueça de anotar nada nesse diário.
Cada informação escrita aqui é crucial para que o futuro aconteça, para que cada um de seus amigos, parentes e até mesmo você exista, Boreal.
Então não deixe de anotar NADA nesse diário.
Esse diário é o centro de tudo.
Esse diário é a chave para tudo.
Nossa quanto tempo eu não escrevo ? 1 mês e meio não ?
Mais ? Não tenho certeza . . .
Bem . . . Antes de mais nada, sim eu recuperei o diário, sim estou viva, não, não escrevi o que está acima. . . Essa grafia acima é totalmente desconhecida.
Paginas antes tinha a escrita do Armin (Que aliás, me fez chorar . . . )
Não tenho nenhum amigo com essa letra . . . Eu gostaria de saber DE VERDADE quem foi que escreveu aquilo . . . Seria o tal "ele" do qual o Armin se referia . . . ? Não faço ideia.
Quem é ele ? São coisas que ecoam na minha cabeça desde que recuperei meu diario, que alias, foi hoje de tarde. . .
Eu vou escrever como foram meus dias enquanto estava sem o diário até o momento que recuperei ele(hoje). Até porque me foi ordenado isso. . . Eu não sei quem foi a pessoa que escreveu, mas se o Armin confiou nessa pessoa e essa pessoa cuidou do meu diário, ela provavelmente sabe o que está falando.
Depois do aviso de que devo escrever tudo aqui . . . Fiquei um tanto paranoica sabe.
É incrível como aconteceram tantas coisas em 1 mês e meio !
Vou demorar passando tudo à limpo da minha cabeça pro diário mas . . . Vou escrever tudo.
Acho que hoje minha noite será longa escrevendo no diário.
Foi bom saber por parte do Armin que eu tenho uma "memória fotográfica".
Agora eu me compreendo melhor e isso vai me ajudar a passar tudo a limpo da minha memória pro diário . . . Fora que me sinto um pouco mais útil com essa "habilidade".
Já chorei bastante lendo aquelas anotações do Armin . . . Mesmo ele tendo brincado o tempo todo, aquilo me deixou bem abalada, afinal . . . Tudo que aconteceu . . .
Está tudo bem confuso né . . . Vamos por as ideias no lugar.
Vou começar a escrever a partir do que o Armin escreveu, mas a minha parte da visão.
Paginas atrás o Armin descreveu toda a cena a partir da visão dele, que era de longe. Ele não sabia os diálogos que havíamos travado nem detalhes.
Tirando a parte cômica que ele fez, ele descreveu tudo certinho. Não tenho nada a acrescentar.
Somente esclarecer que nos últimos segundos de vida da Ambre ela recobrou a consciência.
Tanto a Ambre quando o demônio que dividia o corpo com ela lutavam muito pela vida . . . Coisa familiar . . . Afinal, Castiel tinha essa mesma sede de vida delas duas.
Eu sinceramente senti pena de matar a Ambre . . . O olhar dela era de desespero.
Ela ali não estava lutando pra me matar em si, mas sim lutando pela própria vida.
Quando o Castiel segurou ela pra imobiliza-la de sair de lá, ela implorava pela vida.
Eu vi a Ambre chorar . . . E quase hesitei em matar ela . . .
Parte de mim se sente horrível com o que fez. Sabe, ela implorou pela vida . . . Eu não sou o monstro que ela é, que consegue ignorar algo assim . . . Por outro lado, eu tive medo da Ambre enganar a gente de novo. E pensar no que aconteceu com o Nathaniel foi o que motivou.
Pude ver policiais se aproximando do local, afinal, fizemos uma algazarra grande e destruímos coisas.
Assim como pude ver que tinha uma equipe de TV ali . . . Eu sabia que se eu sobrevivesse ao aquele dia, as coisas iriam ficar bem complicadas pro meu lado . . .
Enquanto eu ia pra cima dela ela gritava que eu e Castiel iríamos morrer junto com ela. Mas tanto eu quanto ele não ligávamos.
Ele mesmo disse que já tinha vivido bastante e que precisava por um ponto final nisso tudo.
Assim que perfurei a Ambre com meu braço eu acabei atingindo o Castiel que estava logo atrás.
Eu comecei a chorar muito pelo que fiz e por fim a Ambre, que estava colada no meu rosto, enquanto cuspia sangue falou que mentiu esse tempo todo . . .
A Ambre mentiu.
Ela inventou a historia de que se matássemos ela morreríamos simplesmente porque não queria ser morta.
"Inicialmente eu queria acabar com você pra que o Castiel não tivesse como se desprender de mim.
Mas . . . Com o tempo eu vi que vocês dois se gostavam e que seria mais útil fazer vocês temerem a morte um do outro. Castiel já estava desistindo de viver, a qualquer hora ele poderia querer me matar. . . Você foi a motivação dele pra que ele continuasse tentando viver e que me mantivesse viva. Castiel pra mim era muito mais que uma fonte de vida eterna . . . " Ambre falava fraca e chorando com uma mistura de raiva.
Nós dois tomados pelo medo da morte um do outro não tentamos matar ela . . . Castiel estava sendo movido por me manter viva, ele não iria atrás da Ambre sabendo que eu morreria, e vice versa.
Ao ouvir isso eu fiquei em pânico.
Eu pude sentir aquele vinculo se quebrando.
Eu pude senti minhas forças indo embora.
Foi pouco tempo mas é muito estranho ter uma força normal novamente . . .
E eu sabia que aquele buraco que eu fiz no Castiel não iria se regenerar . . .
Aqueles sinais de fraqueza eram a mais pura prova viva de que ela havia sido morta.
Ambre se foi . . .
Eu me agarrei com tudo no pescoço do Castiel. Eu queria poder salvar ele.
A ponte não aguentou nossa "batalha".
3 pessoas com super força mais uma tempestade acontecendo ? Ela não suportou e quebrou exatamente onde tudo se concentrou.
Eu tentei me agarrar ainda com mais força no Castiel, eu não podia perder mais gente, eu não queria perder ele de vista.
Ele quem tem lutado esse tempo todo pra se manter vivo . . . E eu simplesmente sobreviveria ? Eu daria minha vida pela dele . . . Infelizmente . . . As ondas eram fortes, era tudo muito estranho em meio aquelas ondas.
Eu perdi a consciência.
Já não sou boa nadadora, depois de uma "luta" seguida de uma queda na água durante uma tempestade, meu físico não suportou. Até porque não sou mais uma "super". Perdi minha força.
Eu me separei do Castiel e desmaiei . . . Sabe . . . Teve algo que me deixou surpresa e tirou um pouco minha cabeça do foco . . . Eu acordei na enfermaria do colégio.
Isso realmente me deixou intrigada . . .
Eu realmente esperava acordar no hospital da família do Nath, num hospital comum, na organização do Ken, ou até não acordar mais . . . Mas acordar na enfermaria da escola ?
Por uns instantes eu realmente acreditei que tudo tinha sido um delírio, porém, infelizmente, errei . . .
Eu acordei e a primeira coisa que eu vi foi a a diretora sorrindo pra mim.
"Querida que bom que acordou." Ela dizia gentilmente.
Eu olhei pros lados e tudo parecia normal.
Sem policiais, sem TV, só a diretora.
"Vocês fizeram um escândalo enorme não ?" a diretora dizia.
Eu estava assustada e confusa, então lembrei.
"Onde está o Castiel ??" eu falei um pouco alterada.
"Ainda estão buscando o corpo dele . . . Até o momento não foi encontrado nada, nem ele nem a Ambre." Ela dizia.
Aquilo me desesperou . . .
Então veio minha segunda pergunta.
"O que eu faço no colégio . . . ? Não deviam ter me levado pra um hospital ?" eu perguntei.
"Oh querida, como vocês são alunos da Sweet Amoris eu me responsabilizei por vocês. Infelizmente a algazarra que vocês causaram quase levou você a policia e eu deveria puni-la por isso . . . Mas como estou triste com a perda de 2 alunos queridos não farei nada . . . O dia foi cruel com você não é mesmo querida ? Então se quiser faltar essa semana, está tudo bem. Se precisar de mais dias de repouso basta faltar. E pode deixar que informarei caso descubramos algo sobre seu namorado Castiel." a diretora dizia sorrindo.
Aquilo estava muito esquisito, eu sinceramente não queria fica mais nenhum segundo perto daquela mulher.
Aquele sorriso dela . . . Era assustador. Eu me levantei.
Ela até perguntou se eu tinha certeza que estava pronta pra ir, eu insisti que sim.
Assim que saí pela porta estava minha mãe e meu pai.
Já era noite e eles estavam com um olhar de preocupação e vieram correndo até mim.
"Filha . . . Estávamos tão preocupados. O que você pensou quando fez aquela loucura na ponte !?" minha mãe chorava e me abraçava aos prantos.
"Eu . . . Eu não aguentava mais ter que pensar nessa ligação com a Ambre . . . E o Castiel . . . E o Nathaniel . . . Tudo que ela fez . . . PORQUE EU SOU A ÚNICA VIVA ?! cadê o Nath . . . cadê o Castiel . . . ?" eu estava chorando já a essa altura.
Minha mãe e meu pai me levaram enquanto me abraçavam para o carro minha mãe brigou durante o caminho todo e não vou escrever sobre isso aqui.
A escola estava vazia. . . E minha cabeça não saía daquele pensamento de: porque acordei na escola ?
Aliás, até agora não parei de pensar nisso . . .
Chegando em casa eu tomei um banho longo e tentei pensar em tudo que tinha acontecido.
Minha cabeça estava uma bagunça eu só conseguia chorar.
Então fui até a sala jantar.
O silêncio pairava lá no local . . .
"O que aconteceu enquanto eu estava inconsciente . . . ? Porque eu acordei no colégio ?! Era pra estar em uma delegacia, hospital . . . Mas o colégio ?" Eu quebrei o silêncio.
Meus pais se olharam de forma tensa.
"Não entendemos também . . . A diretora ligou pra gente explicando a situação e mandando a gente ir busca-la. . . Mas filha . . . Você não tem culpa de nada tudo bem ?" minha mãe dizia sorrindo, mas ela parecia nervosa.
Eu me assustei e insisti impaciente que me respondessem com detalhes, eu precisava saber o que tinha acontecido, eu fiquei horas inconsciente afinal.
"Investigaram a nossa família. Fizeram inúmeras perguntas. A diretora conversou com o pessoal da organização dos pais do Ken e . . . Bem eles liberaram você.
Ela cuidou de você enquanto cuidávamos dos assuntos burocráticos relacionado a confusão de mais cedo. Ela quem se ofereceu, foi muito gentil da parte dela. Inclusive estão passando repetidamente avisos na TV explicando o ocorrido de mais cedo como uma pequena briga de gangues." Meu pai se pôs a falar.
"A diretora sabe que eu e minha mãe somos aliens ?" Perguntei assustada pro meu pai.
"Não . . . Creio que não. Ela achava que eram só policiais normais de alguma organização governamental.
Seus colegas de classe Castiel e Ambre continuam desaparecidos.
Sinceramente não sabemos muito do que aconteceu. Mas a organização responsável por vocês teve que cuidar de muita bagunça feita hoje já que a imprensa estava envolvida."
"Como vocês não estranharam ela tratar uma BATALHA na ponte com 3 alunos dela que tinham super força como algo natural ?! Ela não devia ter me tratado com aquela gentileza !" Eu gritei.
"Filha . . . Eu até estranhei mas . . . Nós atraímos coisas estranhas lembra ? Porque ninguém acha a gente bizarra mesmo tendo 1 olho só ? Faz parte do nosso magnetismo. As pessoas a nossa volta as vezes são afetadas mentalmente e acabam vendo as coisas como algo natural. Eu acredito que a diretora tenha sido afetada."
Sabe . . . A resposta da minha mãe teve sentido, mas . . . Eu não me dei por satisfeita.
E não me dou por satisfeita . . .
Aquilo me deixou muito pensativa . . . Eu estava inquieta e dormir foi quase impossível.
Tentei algumas vezes falar com o Armin, Ken e até a família do Nath . . . Infelizmente o Ken e o Armin só dava caixa de mensagem enquanto o Nath chamava e ninguém atendia . . .
Estava ansiosa pra falar com o Armin e o Ken no dia seguinte, eu precisava de respostas . . . Infelizmente no dia seguinte . . . Eu obtive respostas que eu não queria.
Aliás, aquilo da diretora continuava ecoando na minha cabeça . . . Porque ninguém me levou ?
No dia seguinte na escola eu estava ansiosa pra encontrar o Armin e o Ken. Precisava ver se eles estavam bem e se tinham mais respostas . . .
Eu não consigo aceitar a morte do Castiel . . .Já não me bastava a morte do Nath . . . Estava sendo bem difícil me manter firme sabe . . . Eu queria chorar, eu queria me trancar no meu quarto.
Mas eu precisava de respostas, eu precisava descobrir se eles estavam vivos.
"Armin !" eu fui correndo até ele enquanto puxava seu braço e em seguida abraçava ele com força.
"Eu sobrevivi ! Eu não acredito !! E você tá bem . . . " eu abracei ele ainda mais forte enquanto chorava. Foi quando ele me afastou assustado.
"Er . . . Está procurando meu irmão . . . ?" ele dizia sem graça e assustado.
"Claro que não ! Estava te procurando. . . Como sempre."
"Er . . . Porque ? É uma piada ? Se quiser falar comigo tudo bem mas. . . Já aviso: meu irmão não veio hoje, ele tá doente." Ele falava.
"Armin . . . Para de graça, eu to falando contigo." eu já estava com medo.
"Sim eu sei. Mas você é amiga do meu irmão, e sei lá. . . É estranho você começar a falar comigo assim do nada."
Por uns segundos eu buguei.
Será que tudo que vivi foi um sonho ? Será que nunca conheci o Castiel ou o Nathaniel ?
Será que voltei no tempo ? Eu não sabia o que pensar.
"Armin para com isso. Não é a melhor hora pras suas piadas . . . Viu o Ken ?" perguntei.
"Porque eu veria o Kentin ? Só porque meu irmão tem interesse nele ? " ele respondeu . . .
Eu estava me sentindo meio deslocada . . . Sabe, ele não parecia estar mentindo ou brincando.
"Armin . . . Você lembra o que estava fazendo ontem . . . ?" Eu perguntei ao lembrar que meus pais falaram que a organização do Ken compareceu ao local ontem.
Tudo que o Armin sabe sobre mim e o Ken era escondido do pai do Ken . . . Ele provavelmente descobriu e apagou a memória do Armin, foi a primeira coisa que pensei.
"Ontem . . . Eu vim pra escola como sempre ué e depois fui pra casa . . . Que perguntas são essas ?" Ele parecia realmente confuso . . . Aquilo acabou comigo.
Só agradeci e saí de perto . . . Eu não suportava a ideia dele ter esquecido de mim . . . Eu só conseguia pensar na organização, afinal, Ken e a Manon deixaram claro que o pai do Ken se descobrisse tudo que o Armin sabe apagaria a memória dele.
Comecei a procurar o Ken compulsivamente . . . Ele precisava me explicar o que houve.
Além do mais . . . Tive esperança dele me ajudar a reverter a memória do Armin, sei lá.
Estranho que eu não esbarrei com a Rosa também . . .
Após muita busca e perguntar para inúmeras pessoas alguém me parou colocando a mão no meu ombro.
Ao virar, era o Lysandre.
"Bom dia" ele dizia.
"B-Bom dia . . . " Eu havia tomado um pequeno susto mas estava agradecida de ter encontrado alguém com quem eu poderia falar a respeito do dia anterior finalmente.
Lysandre e eu nos sentamos no pátio.
"Vi que estava procurando o Kentin certo ?" Ele perguntou.
"Sim . . . Quero saber o que houve . . . O Armin não lembra de mim." eu estava realmente abalada quanto a isso.
Lysandre respirando fundo falou.
"Ontem . . . Depois que Ambre, Castiel e você caíram da ponte, os agentes da organização da qual o Kentin, Rosalya, Nathaniel e meu irmão pertencem apareceram.
Eles me levaram com eles e começaram a tentar corrigir toda a confusão no local.
Armin conseguiu sair a tempo, antes que os agentes pegassem ele pra apagar a memória dele, na verdade, sequer vi quando ele saiu de perto de mim . . . Eu estava estático com o que estava acontecendo . . . Com a queda da ponte . . .
Me levaram com eles. O pai do Kentin estava bastante irritado, tanto eu quanto o Kentin fomos levados . . .
Meu irmão fez de tudo pra ser o responsável por mim, pra assim poder evitar que apagassem minha memória.
Joguei meu bloco de notas na mochila do meu irmão ao encontrar com ele e avisei superficialmente tudo que havia ocorrido.
Ele, então, como responsável pela minha memória, fingiu ter apagado a mesma para seus superiores. Eles de fato acreditaram que eu havia tido minha memória apagada.
Como eu estava sem meu bloco de notas, eu "esqueci" de tudo. Assim que tudo passou meu irmão me devolveu o bloco . . . Infelizmente agora ele está sob investigação junto com a Rosalya. Mas seus superiores sequer suspeitam que eu "lembro" de tudo."
"Porque você só não fingiu não saber de nada ? Se deu esse trabalho todo de ocultar o bloco . . . " perguntei curiosa.
"As vezes eles usam uns agentes que são da mesma espécie da Debrah pra confirmar se esquecemos de fato de tudo, e também pra obter informações das quais não falamos para eles, como minha mente fica vazia sem o bloco, eu passei facilmente por esse "teste". Assim não comprometi também meu irmão. Por isso me livrei do bloco." WOW ! O Lysandre realmente é muito calculista !
"Então você sabia da Debrah . . . ?" perguntei.
"Não. Meu irmão me explicou, ele sabia que iriam tentar apagar minha memória, e eu já não tenho a memória boa por conta do que aconteceu no passado com o Castiel, se apagassem ele teve medo de algo pior acontecer . . . "
"PERAI ! VOCÊ SABE SOBRE O CASTIEL ??"
"Sim . . . "
"Ele . . . pediu pra esconder de você . . . " eu não esperava que o Lysandre soubesse sinceramente.
"Eu sempre fingi não saber, descobri quando ele explicou tudo pro meu irmão e pra Rosalya, eu ouvi atrás da porta . . . Assim que descobri fiquei bastante irritado, mas eu sei que ele fez pro meu bem . . . Além do mais, eu o "forcei" a matar alguém quando ele não queria . . . Acho que recebi um pagamento justo."
Nesse momento me calei . . . E completei "E o Castiel . . . ? Sabe o paradeiro dele ?"
Lysandre pareceu deprimido . . .
"Eu bem que gostaria . . . Estão dando até o momento ele e a Ambre como desaparecidos . . . " Lysandre parecia muito triste.
Eu dei um abraço rápido nele, rápido pois tive medo da Iris ver e levar a mal. Ele parecia realmente abalado, além de ter a cabeça enfaixada, deduzi daquilo ter vindo de suas quedas . . .E bem . . . Castiel sempre foi muito importante pra ele.
Após algum tempo quieta eu puxei o assunto de volta.
". . . Lysandre . . . O que aconteceu com o Ken ? Você disse que ele foi levado . . . "
"Sim . . . Enquanto eu estava lá na organização me fazendo de dissimulado levaram o Armin para o local em que eu me encontrava. Demorou bastante.
Ele não resistiu nenhum pouco e ele estava muito abalado.
Ele parecia ter chorado muito, pude ouvir ele perguntar inúmeras vezes seu paradeiro e o paradeiro do Castiel. Eu não sei bem o que foi dito, mas o Kentin ouviu muita reclamação e aparentemente confiscaram tudo que o Kentin havia dado pro Armin.
O pai do Kentin inclusive levou muita bronca de um superior e por fim, apagaram a mente do Armin e prenderam o Kentin.
Sinceramente não sei o que foi conversado, mas o meu irmão confirmou pra mim que o Kentin está preso na organização e sobre investigação por conta de toda informação e tecnologia que ele deu pro Armin.
E o Armin teve a mente apagada e a casa toda vasculhada." nessa hora eu fiquei em pânico.
Eu havia entregue meu diário pro Armin afinal. Se descobrissem meu diário eu não sei o que seria de mim e de todos que me cercam . . . Ali tinha não só meus segredos e intimidades, mas tinha os segredos dos outros . . .
Encontrar com o Lysandre me serviu pra descobrir muita coisa . . . Tipo que não tenho mais o Kentin, Castiel, Armin nem o Nathaniel . . . Eu não conseguia evitar de pensar que talvez se eles não me conhecessem nada disso tivesse acontecido. Lysandre parecia tão perdido quanto eu.
Ele me fez companhia durante o dia todo . . . E evitamos conversar sobre o dia anterior. . . Em compensação foi difícil falar sobre qualquer coisa.
Ambos estavam perdidos em seus pensamentos. Ambos estavam sem chão.
Minha vontade foi de chorar o dia todo . . . De voltar pra casa e me trancar.
Mas . . . Eu precisava por a cabeça no lugar.
O Kentin e o Armin ainda estavam vivos . . . Talvez eu pudesse fazer algo por eles.
Eles não desistiram de mim em momento algum, eu não poderia virar as costas simplesmente.
Pensei o dia todo em algo, eu não estava completamente sozinha, eu tinha o Lysandre pra me ajudar.
Chegando em casa eu estava muito abalada . . . Minha mãe havia insistido pra que eu ficasse em casa pois estava tudo muito recente . . . Eu concordo, mas eu precisava arrumar um jeito.
Eu não vou ficar parada ou triste chorando pelos cantos . . . Nath e o Armin não iriam querer isso.
Eu fui até minha mesinha e na gaveta tinha o PSP que o Armin me deu . . . Aquilo me deixou meio abalada . . . Fazia tempo que eu não levava ele comigo. Então decidi por na minha mochila.
Foi quando olhei em uma gaveta de roupas, propositalmente, e vi aquela roupa que o Armin me deu . . . Eu estava sozinha.
Nathaniel estava morto, Castiel estava morto, Ken está preso . . . Agora o Armin, minha ultima esperança, estava sem memória alguma referente a mim.
Eu decidi por a roupa, me sentir uma "super heroína" . . . A pior super heroína possível . . . Afinal, não dei conta de proteger meus amigos.
Sabe, aquela roupa me fez rir inicialmente. Primeiro porque era meio engraçado me ver de cosplay de um personagem, nunca pensei que me veria vestindo um cosplay, sinceramente.
Mas aquela mascara de 1 furo que o Armin fez . . . Confesso que chorei usando a roupa que o Armin me deu.
Me fez pensar em tudo que passei. E aquela mascara mais do que tudo.
É uma coisa boba, mas . . . Doí. Armin tinha feito especialmente pra mim, especialmente pra minha anomalia.
Eu passei por tanta coisa com eles e agora . . . Tudo foi apagado.
Nathaniel e Castiel estão mortos e todo mundo está vivendo suas vidas normalmente, como se nada tivesse acontecido. Estão fazendo anúncios constantes na TV sobre "briga de gangues na ponte". Eles queria que a massa acreditasse que nada de mais aconteceu.
Só o Lysandre lembra . . . Irônico justo ele ser o único que lembrar de tudo e sofrer comigo . . .
Ken, meu amigo de infância está preso por minha culpa ! Se ele não tivesse me acobertado e se dedicado tanto à mim talvez ele estivesse bem agora . . .
Armin, meu precioso amigo sequer lembra de tudo que vivemos.
Sabe o quanto isso é pesado pra mim ? E pensar que eu sou a aberração que atraí tudo de mais bizarro pra vida das pessoas que amo . . .
Cada minuto vendo aquela roupa no meu corpo me fazia chorar mais. Uma roupa que era pra me divertir e me sentir uma super-heroína me fazia me sentir uma fracassada patética e incapaz.
Por mais que doesse, eu não queria tirar aquela roupa . . . Era o mais próximo que eu tinha das minhas lembranças antigas.
Eu passei boa parte da noite chorando, e adormeci mais cedo que o normal. . . Meu corpo estava exausto de estresse.
Meu olho pesava de tanto chorar . . .
Adormeci e acordei no dia seguinte com a roupa que o Armin me deu.
Não posso dizer que ver aquela roupa em mim me deixou feliz na manhã seguinte . . .
Eu sei que não tenho mais ligação com a Ambre, mas estou sendo mais cuidadosa com minha alimentação.
Levei tanto esporro por isso que acho justo.
E bem . . . Armin, Nath, Ken e até Castiel não iriam querer que eu ficasse me alimentando mal não é mesmo ?
No dia seguinte na escola, eu estava vivendo uma vida monótona e chata de aluna comum.
Acho que sei agora o que o Armin tanto reclamava . . .
Mas afinal, o que eu faço ? Sabe, monotonia é legal quando se tem gente pra compartilhar, ISSO AQUI é chato . . . Eu não tenho ninguém. Talvez se eu estivesse com essa vida monótona junto com os meus amigos fosse divertido.
Eu vivia uma vida monótona com o Armin. Jogar o dia todo não é algo diferente e cheio de aventuras . . . Mas eu me divertia pois tinha uma companhia.
Eu gosto de jogar, atualmente mais que o normal, mas . . . Jogar me lembra o Armin, e isso me deixa triste.
Pude ver no pátio enquanto eu chegava o Armin sentado em um banco lá longe. . . Fui perto dele só pra ver mesmo.
Queria poder chegar perto dele falando como sempre, mas . . . Ele ia achar muito esquisito, como ele falou, eu era amiga do irmão dele. Eu teria que reconquistar a confiança dele.
Não é mais a mesma coisa . . . Se eu chegasse já falando tudo que vivemos ele jamais iria acreditar.
Parei atrás dele e vi que ele estava lendo o HQ que ele me apresentou, Powerful Girl.
"Quer ler ?" ele falou sem mais nem menos . . . Eu saí de trás da árvore sem graça.
"Não precisa ! Era só curiosidade . . . Esse HQ é divertido." Falei sem graça e apontando pro HQ.
"Essa edição é especial e saiu hoje . . . Se você for fã da serie acho que não vai recusar ler ela em primeira mão." Ele deu aquele sorriso "Armin" dele.
Por uns segundos aquele sorriso dele me fez rir, afinal, eu era acostumada com o lado do Armin que ele não expõe. . . Mas ele não sabia disso, e por isso estava me tratando como uma menina comum com quem ele não tinha intimidade . . .
"Irei ler então já que insiste." Sabe . . . Eu queria que ele falasse agora "eu não insisti, só ofereci, até porque ler com você é chato, você é lenta" ou qualquer coisa desse tipo que ele já falou pra mim . . . Mas ele não me conhece mais então . . . Ele ficou quieto.
Eu me sentei do lado do Armin e começamos a ler juntos . . . Era uma edição especial onde contava como ela ganhou os super poderes . . . Aquilo me fez chorar um bocado sem mais nem menos.
Não a historia em si, mas o conjunto de coisas . . .
Eu estava do lado do meu melhor amigo e ele sequer lembrava quem eu era.
"Tá tudo bem com você . . . ?" Armin estava me olhando enquanto eu chorava lendo o HQ . . . Ele parecia confuso e sem graça.
"A-Ah ! Sim ! É só que . . . " Eu não sabia o que dizer então levantei de uma vez.
"C-Com licença ! Tenho que ir em um lugar." no que eu estava saindo ele segurou meu braço.
"Eu não consigo evitar . . . Você está muito estranha. Assim, não sou a melhor pessoa pra definir se sua personalidade tá normal ou não mas . . . Você parece muito abalada e eu ouso falar que por minha culpa. Eu te fiz algo ?Você tem me rondado um bocado desde ontem . . . Isso não é muito normal sabe." ele parecia preocupado de ter feito algo inconscientemente . . . Armin sempre está curioso, e se ele acha que pode ser o centro do problema ele tira a limpo. Era de se esperar essa atitude dele.
"Não ! Nunca ! Você não fez nada ! Sério ! Eu só . . . To com uns problemas pessoais . . . Não tem nada a ver com você, sério." Eu menti e tentei sorrir pra ele.
Conhecendo o Armin como conheço sei que aquela franzida de testa dele com a sobrancelha direita ligeiramente levantada era sinal de que não tinha acreditado em mim.
Mas ele não insistiu e só falou "tudo bem" enquanto me soltava.
É capaz dele começar a procurar sobre isso . . . Sabe eu fiquei feliz.
Se ele começar a procurar sobre mim quem sabe ele não ache coisas e se lembre de mim sem mais nem menos ? Era isso que eu pensava o tempo todo.
Por outro lado fiquei triste . . . Porque talvez seja melhor assim.
Afinal, desgracei bastante com o psicológico dele.
Mas isso me fez pensar . . . Porque não atiçar a curiosidade dele sobre mim . . . ? Talvez isso funcionasse de alguma forma.
Era o que eu ia tentar . . .
Eu voltei a ir frequentemente pras aulas, sem ficar cabulando . . . Até porque sinceramente eu nem tenho com quem fazer isso.
De qualquer forma, no intervalo eu vi o Armin sentado perto de uma arvore. Ele estava jogando.
Então eu decidi sentar na frente dele pra jogar também . . . Apesar de tudo, sei lá, me sentia próximo ao "antes" dessa forma, afinal, era uma coisa que fazíamos juntos com frequência.
Ficar aproveitando a companhia um do outro em silêncio cada um jogando em seu console.
Me sentei e comecei a jogar na frente dele . . . Só pra enganar minha mente mesmo, de que ainda tínhamos um relacionamento próximo.
Reparei que o Armin por muitas vezes ficou olhando pra mim sem parar. Admito que eu ri.
Até que . . .
"MEU PSP !! VOCÊ ROUBOU !!" Ele levantou gritando e apontando na minha cara.
Por uns instantes me assustei e demorei a voltar a realidade . . . De fato o PSP que eu tinha era do Armin, mas ele quem havia me dado.
"Meu PSP sumiu faz um tempo e eu tive que começar a usar o PSP do meu irmão ! Agora sei quem pegou !!" Ele gritava mais.
"EU NÃO SOU LADRA !!" Eu gritei.
"AH NÃO ?! E O QUE TÁ FAZENDO CONTIGO ?! ESSE "AD" AI É MARCA MINHA ! AD DE ARMIN DUNARD !"
"SERÁ QUE É PORQUE ESSE PSP ERA SEU ?!" Eu gritei de volta.
Eu realmente estava assustada e era tudo por impulso.
"ERA" ?! COMO OUSA !!" Ele estava muito irritado.
"VOCÊ ME DEU !! NÃO TENHO CULPA SE NÃO SE LEMBRA MAIS !!" Eu acabei gritando por impulso.
"EU NUNCA TE DARIA MEU PSP !! EU DOU MUITO VALOR PROS MEUS CONSOLES !"
"EU NÃO TENHO CULPA SE VOCÊ É UMA AMEBA QUE NÃO CONSEGUE SEQUER LEMBRAR DE MIM !! MAS VOCÊ ME DEU SIM SENHOR ! E INCLUSIVE, VOCÊ ACHA QUE SE EU TIVESSE ROUBADO EU IRIA PARAR COM O PSP BEM NA SUA FRENTE ?! COMPLEXADO DO JEITO QUE VOCÊ É ISSO SERIA BULLYING !" Eu comecei a gritar ainda mais alto. Admito que foi bom chamar ele de ameba . . .
"EU NÃO SOU COMPLEXADO !!"
"Não imagine . . . Armin dá licença que tenho mais o que fazer . . . Se você não lembra de mim só lamento ! Não vou perder meu tempo." no que eu ia saindo ele me segurou.
"NÃO VAI EM LUGAR NENHUM ! Devolve meu PSP !!" Armin começou a me apertar e tentar puxar o PSP de volta.
"Eu não vou te dar !!! É A ÚNICA LEMBRANÇA QUE TENHO ! EU SÓ TE DEVOLVO QUANDO VOCÊ LEMBRAR DE MIM !" gritei ainda mais alto.
"LEMBRAR DO QUE SUA DOIDA ?!"
". . . Tchau Armin. Aliás, para de usar esse braço escroto, não entendo como alguém complexado como vocÊ curte a ideia de te julgarem." Eu então virei as costas e tentei sair, mas ele realmente não me deixava ir.
Armin parecia meio assustado.
"Meu irmão te falou ou você descobriu sozinha ?" Ele perguntou.
"Você confessou . . . " olhei bem pra ele e respondi a pergunta. Foi quando ele finalmente me soltou, ele parecia incrédulo.
Enquanto ele se afastava eu soltei: "Vai lá. Vai pra sua casinha me hackear e procurar saber tudo sobre mim. Típico seu. Se quiser eu te mando minha vida por escrito." ao mesmo tempo que eu estava revoltada eu estava curtindo a ideia de fazer o Armin de trouxa. Ver aquelas caras de bocas dele estava sendo impagável.
Pude ver o Armin virar assustado pra mim. Acho que ele realmente não esperava por isso . . . Acho ? Tenho certeza.
"Do que você tá falando . . . ?" Ele perguntou pausadamente.
"Armin, para de se fazer de dissimulado. Sei que você tem o hobby de invadir a vida privada dos outros, principalmente quando fica curioso sobre os outros. Assim como sei que você "caça" criminosos nas horas vagas por fazer."
"Essa sua acusação é seria . . . " Ele estava suando frio, era visível.
"Não é uma acusação, é uma afirmação"
"Como pode ter certeza ? " Armin parecia desesperado. Era algo visível pra poucos. Eu por exemplo consigo perceber com precisão quando ele esta desesperado atualmente. Nem eu sabia que conhecia ele a esse ponto.
"Você é meu melhor amigo, se eu não soubesse essas coisas . . . Seria estranho não ?"
Ele pareceu tonto com tanta informação.
Ele realmente não insistiu em mais nada.
"Armin . . . Fale comigo quando lembrar de mim. Sério. Porque esse cara aí, conformista, com essas memórias falsas não é o meu Armin, é só um garoto aleatório." Depois disso o Armin não voltou a me seguir.
Eu segui com a aula normalmente . . . Triste sabe.
Eu realmente tive esperança de que o Armin lembrasse de mim depois de eu ter atirado tanto nele . . .
Tudo que me restava era andar com o Lysandre e tentar "recuperar" meus amigos.
Além do mais, eu via o Lysandre sempre com olhar triste passando pra lá e pra cá, não poderia deixa-lo sozinho agora.
Na hora da saída decidi falar com o Lysandre.
"Lysandre ? Desculpa não ter falado contigo ao longo do dia . . . Eu estava sem jeito, admito." eu falei.
Sabe, desde que eu havia recebido o fora dele e aceito meus sentimentos pelo Nathaniel, se tornou mais fácil falar com ele novamente.
Era triste pensar que depois de eu superar ele e aceitar o Nath na minha vida eu perdi o Nath e voltei a ter que olhar pra cara do Lysandre todo dia.
Se bem que, além de eu não sentir mais nada por ele como antes . . . Certas coisas mudaram nesse período . . .
Nesse mesmo dia na hora da saída, o Lysandre falou que ia na casa do Castiel.
"Estou indo todos os dias na casa do Castiel dar comida pros animais dele . . . Quer vir comigo ?" Ele falou.
Eu não tinha mais o que fazer e bem . . . Eu iria gostar de rever o Charlie.
Eu e Lysandre então fomos juntos pra casa do Castiel.
Na saída pude ver o Armin olhando pra mim fixamente.
Mas ele não veio falar nada comigo nem eu fui falar com ele, só fui embora com o Lysandre.
Chegando na casa do Castiel, estava um silêncio . . . Me batia uma tristeza.
Passei tanto tempo nessa casa, e apesar de tudo foram momentos bons. Era meu ponto de escape correr pra lá e fugir dos problemas.
E o ar pesado que a casa transmitia por não ter o Castiel me fazia querer chorar, até porque tudo ali tinha o cheiro do Castiel, um perfume que lembro sempre dele ao sentir a fragrância.
Lysandre parecia tão melancólico quanto eu.
"Obrigado por vir . . . Tem sido difícil vir nos últimos dias sozinho . . . " Ele falou com um sorriso terno no rosto.
"Pode me chamar quando quiser." eu respondi.
Então fui até o quarto.
Normalmente os animais se encontram lá . . . ao chegar no quarto tinha mais bichos que da ultima vez.
"LYSANDRE ! DE ONDE VEIO ESSES BICHOS TODOS ?!" eu gritei espantada.
Fora o cão, o hamster, o gato e o sapo . . . Tinha mais outro gato, uma cobra enrolada na cabeceira da cama, um camaleão e um cão de porte pequeno . . . Meu Deus.
"Sabe da ultima vez que vocês terminaram ? Ele ficou mal e começou a pegar um monte de bicho no petshop pra ressuscitar afogando as magoas . . . " Lysandre dizia.
"É ASSIM QUE ELE AFOGAVA AS MAGOAS ?! TRAZENDO BICHO DE VOLTA A VIDA ?!" eu gritei.
"Eu ainda parei ele . . . Ele estava querendo trazer um leão pra cá do Zoológico local."
"PERA ! VOCÊ ESTAVA COM ELE ? PORQUE NÃO PAROU ELE ?!"
"Era isso ou ele ia trazer o leão. Preferi deixar ele trazer animais pequenos . . . Além do mais, eu acho justo ele usar animais. Animais são coisas boas, bebida não. E eu não iria gostar que o Castiel ficasse com cirrose a cada desilusão que ele tinha na vida . . . " quando o Lysandre falou isso eu fiquei me perguntando onde estava a lógica, até porque o Castiel era praticamente imortal !
E ao expressar isso o Lysandre pareceu pensativo, e tudo que ele respondeu foi um "ah" e se silenciou com uma expressão pensante.
Vi o cachorro do Castiel em cima da cama dele com um olhar triste e me aproximei.
Ele nunca foi de fazer festinha com a minha chegada, mas sempre veio me receber bem.
Dessa vez ele só ficou ali quieto.
"Charlie tá parecendo tão tristinho . . . " eu disse
"Charlie ? O nome dele é Totó" assim que o Lysandre falou isso o cão rosnou.
"Você também usa essas variações ridículas do Castiel Lysandre ?" eu falei.
"Não . . . É o nome dele mesmo. Sempre foi Totó. Mas quando eu trouxe ele de volta a vida ele não agiu bem ao nome, então Castiel passou a chamar ele de qualquer coisa que vinha em mente." admito que ri . . . Totó ? Castiel dando esse nome pro cachorro ? Se bem que ele era uma criança "fofa" né . . .
"Bem, vou continuar chamando de Charlie porque é melhor . . . " então comecei a acariciar o cachorro dele.
Ele parecia realmente triste. É incrível como ele veio de volta a vida da mesma forma que a Ambre mas trata o Castiel com tanto carinho diferente da Ambre com seus parentes . . .
"Ele não quer comer nada. . . " o Lysandre dizia.
"Já deu algo pra ele ? Tinha um freezer na varanda com carne só pra ele." Eu falei indo pra varanda.
"Aquele Freezer agora só tem carne de boi, te aconselho a não mexer." Lysandre me parou.
"Mas ele come isso também . . . "
"É que o Castiel teve a ideia de juntar pedaços de boi naquele freezer, costurar tudo e depois tentar trazer a vida . . . Sei lá, prefiro deixar aquela carne lá parada um tempo até eu ter coragem de por o plano dele me pratica . . ." quando o Lysandre falou aquilo . . . Eu só consegui ficar muda e apática.
Não tive reação, serio. PIOR QUE O LYSANDRE APOIA ESSAS IDEIAS DO CASTIEL !
As ideias do Castiel estavam cada vez mais perturbadoras.
Por uns segundos até agradeci o fato dele estar morto . . . Mas claro, prefiro que ele traga esse boi exodia de volta a vida do que esteja morto . . .
"Ok . . . Então na geladeira. Castiel as vezes guardava comida pro Charlie na geladeira e---"
"Aconselho a não abrir a geladeira . . . " quando o Lysandre falou isso eu só respirei fundo.
"O que tem lá ? Carne que ele ia usar em ritual também ?" Eu já estava impaciente.
"Não . . . Ele já usou. Ele pegou um frango de mercado e testou vendo se voltaria a vida. Como voltou, ele decidiu ter essa ideia do boi. Juntar partes de boi compradas em mercado e trazer um único de volta a vida. Mas o frango está meio descontrolado . . . Então trancamos ele na geladeira."
Quando o Lysandre respondeu eu simplesmente voltei em silencio pro lado do Charlie e fiquei lá quieta acariciando ele.
Lysandre então pegou uma sacola no freezer com comida e tentou dar pro Charlie. Ele sequer olhou pra comida, só olhava pra janela.
"Viu ? Ele não come . . . E não importa o que eu fale com ele, ele ignora e sequer me responde."
Aquilo me partia o coração.
"Peraí . . . Responde ? Ele fala desde quando ?" quando me toquei do que ele falou eu tomei um susto.
"Ele não fala . . . Mas eu falo com animais lembra ? Lá na corrida eu tentei pedir ajuda pra um cervo."
Quando ele falou isso eu me lembrei perfeitamente.
"Então . . . mas aquilo era delírio da sua cabeça não era ?"
"Não . . . Eu realmente entendo o que eles falam."
Eu não tive reação . . . É muita coisa pra minha cabeça . . . Eu mal estava sabendo lidar com a morte do Castiel e do Nathaniel e já tenho que ouvir esse tipo de coisa em pleno inicio de noite.
"Charlie . . . Eu sei que você está mal com o sumiço do Castiel, eu também estou. Mas e se o Castiel estiver vivo ? Você vai mesmo ficar sem comer ?
O Charlie olhou pro meu rosto e depois de alguns segundos pareceu se esforçar pra comer . . . Por algum motivo ele me deu ouvidos mas não deu ao Lysandre, algo que realmente achei estranho.
"Ele realmente gosta de você" Lysandre sorria.
"Estranho . . . Ele te conhece a mais tempo, porque ele deu atenção pra o que eu disse ?" eu questionei.
"Você é adorável. Acho que isso já responde." Admito que na hora, ouvir isso do Lysandre me cabulou um pouco.
"Venha cá, quero te mostrar algo que fiz ontem." Ele pegou minha mão e me puxou pro quarto dos pais do Castiel.
Chegando lá ele abriu uma pequena caixa no canto e voltou até mim.
"B-Bimbo ?!" Eu exclamei.
"Sim ! Eu trouxe ele de volta a vida !" Lysandre falou sorridente.
Era pra eu considerar tudo lindo e fofo mas . . . Por um lado achei, por outro achei BEM bizarro . . . Bem, foi o Lysandre quem ensinou esse ritual pro Castiel, não era pra eu me espantar com o fato dele fazer o ritual pra trazer o Bimbo . . .
O pobre coelho estava com a pele podre, era nojento.
Sua orelha estava partida, a pele do rosto esburacada, ele estava bem magro . . . Estava decadente.
"OK . . . De onde tirou o Bimbo ? Você matou outro coelho pra trazer o Bimbo ?!"
"Eu desenterrei ele pouco depois da morte dele e decidi trazer ele de volta a vida, mas usei um coelho com doença terminal . . . Além de ter tido pena, pensei dele responder coisas a respeito da Ambre. No fim deixei ele na minha casa, mas ele não se dava bem com os demais coelhos e tentava comer eles sempre. Eu isolei ele de todos os coelhos e decidi trazer pra casa do Castiel esses dias." ouvir aquilo tudo era bizarro demais pra mim. Sinceramente, se existisse uma premiação de pessoa mais bizarra, daria empate entre o Castiel e o Lysandre . . . Aliás, acho que o Castiel ganharia por pouco. Minha vida é estranha mas esses aí batem o record.
"E o Bimbo revelou algo ?" Eu ria. Afinal, era estranho pra mim essa ideia do Lysandre falar com animais. . .
"Ele só explicou o objetivo dele em vida. A Ambre quando beijou o Kentin estava com o objetivo de fazer com que o Kentin tirasse sua virgindade para que o Castiel não te usasse. Mas o Kentin terminou passando o "feitiço" para o Bimbo. Como consequência, ele ficou exalando uma espécie de afrodisíaco em cima de você, fazendo assim com que você desse em cima de todo menino que visse. Simplesmente ele ficou com o objetivo de fazer com que você perdesse a virgindade.
A Ambre nunca soube que você não era mais virgem. "
"Era por isso que o Ken tentou me beijar . . . Ele não faria isso. Depois que ele beijou o Bimbo ele teve vergonha de falar comigo até" eu retruquei.
"Sim, o beijo era pra ter sido diretamente em você. Como a Ambre sabia que o Kentin gostava de você, ela acreditou que caso você investisse pra cima dele com o feitiço apossado de ti, ele iria aceitar tudo de bom grado." Lysandre então completou.
Por mais que a Ambre não viesse mais ao caso, foi bom descobrir isso . . . Minha mente se sente completando um quebra cabeça que faltava as peças finais. Teria sido bom saber disso na época . . .
Eu acariciei o Bimbo, estava feliz apesar de tudo de ter encontrado com ele depois desse tempo todo.
Mesmo ele estando todo podre, parecia o mesmo coelho de sempre.
Eu me apeguei a ele. E como esses rituais de ressurreição não tem mais efeito em mim na hora do "susto", tanto faz.
Lysandre sorria pra mim. Admito que mesmo não sentindo nada por ele, eu ainda me sentia nervosa.
O Lysandre foi uma paixão tão duradoura minha que agora que eu estava sozinha com ele na casa do Castiel eu fiquei nervosa o suficiente pra meu coração disparar.
Mas logo meu nervosismo passou ao reparar em algo peculiar . . .
"L-Lysandre . . .Seus olhos estão trocados . . . ?" eu estava espantada.
Eu sabia cada traço do rosto do Lysandre de cabeça e eu tinha certeza que o olho verde dele ficava do lado direito.
Ele então espantado colocou o Bimbo no meu colo e foi pro banheiro pedindo licença.
Alguns minutos depois ele estava de volta com os olhos na ordem certa.
"Pode me explicar ?"
"A lente estava trocada. Bem que eu estranhei que estava vendo tudo desfocado . . . " ele dizia.
"Peraí . . . Lente ??? Você não tem heterocromia ??"
"Não . . . Só miopia no olho esquerdo. Por isso uso uma só lente. Tenho lente verde e amarela. Mas sempre achei que a lente amarela com meus olhos verdes ficariam mais estilosa. Então eu uso uma lente só. Só um lado tem grau." Ele completou.
Aquilo foi um baque pra mim . . . Então aos poucos reparei mais detalhes no Lysandre.
"Lys . . . Er . . . Você sempre teve sardas ?. . . E esse cabelo com raiz ?!" ele então olhou pra cima como quem quisesse ver.
"É eu relaxei ultimamente em retocar minha raiz . . . Até porque a ultima vez que cai fiquei enfaixado um bom tempo . . ." ele completou.
"EXPLICA ISSO ?!"
"Eu sou ruivo . . . Eu admito que escondo esse detalhe. . . E eu uso base pra esconder minhas sardas . . . Não gosto delas . . . " ele parecia sem graça.
"Mas porque . . . ? Eu pensava que você tinha pintado o cabelo de ruivo no passado . . . E eu sempre pensei que seu cabelo branco fosse natural, sinceramente. Porque o meu é natural, então acabei fazendo essa associação."
"Não . . . Eu sou ruivo. Vou retocar essa semana."
Após um curto silencio eu falei.
"Sabe. . . Eu sempre quis te ver ruivo desde que já teve essa cor . . .Tem alguma foto ?"
"Não que eu lembre . . . " ele completou.
Ficamos ambos em silêncio.
Eu estava processando o que tinha descoberto . . . Um Lysandre ruivo de olhos verdes e sardas . . .Meu Deus.
"Uma coisa que você falou está ecoando na minha cabeça . . . Ele ficou muito mal com nosso termino mesmo ?" eu comentei sem mais nem menos quando estávamos sentados na varanda do Castiel.
"Sim . . . Ele ficou péssimo . . . " Lysandre parecia lamentar.
"Eu . . . Não podia continuar. Eu até gostava dele mas . . . Não o suficiente pra continuar com aquilo. Eu me sentia enganando ele de certa forma."
"Era por causa de mim ?" Lysandre foi bem direto como sempre.
". . . Inicialmente sim . . . Mas quando terminei já não tinha nada a ver contigo." Eu não me sentia mais constrangida como antes, já tinha na minha cabeça que ele fazia parte do meu passado, e eu focava somente e recuperar meus amigos.
Mas o Lysandre parecia tentar arrombar as portas do meu presente. . .
"Eu estava bastante feliz por ele ter ficado contigo. Você não sabe o quanto fez bem pra ele. Eu abri mão de você exatamente porque acho que ele merecia coisas boas na vida dele . . . " Quando o Lysandre falou aquilo eu fiquei chocada e espantada.
"Lysandre . . . Como assim . . . Abriu mão ???" eu estava sem reação. Foi quando ele se aproximou e olhando fixo pra mim falou "Sim . . . Eu sempre gostei de você. Na verdade, eu fui o primeiro a chamar atenção pra você. Ele só começou a prestar atenção em você depois que eu falei que havia te achado encantadora." Naquele momento, depois desse tempo sem sequer pensar no Lysandre, meu coração disparou.
Mas minha cabeça brigava com meu coração, era um conflito enorme.
Minha cabeça queria que eu me focasse em ficar triste pelos meus amigos, afinal, mal fazia 3 dias que toda a bomba tinha estourado.
Mas meu coração estava descontrolado.
"Lysandre, respeite a Iris por favor . . . Não fale essas coisas pra mim." Eu falei.
"Eu respeito e muito. E ela com certeza iria adorar ter você como cunhada . . . " quando ele falou isso eu fiquei muda . . . Eu não tive reação.
"c-cunhada . . . ?"
"Iris é minha irmã, ninguém sabe disso no colégio . . . Só o Castiel sabia. Quando eu vi que você começou a achar que éramos um casal, eu deixei que continuasse daquela forma pra que assim eu pudesse deixar o caminho livre pro Castiel."
Meu coração estava cada vez mais disparado . . . E aquilo estava me corroendo.
"Eu sei que não é o melhor momento . . . Mas . . . Boreal, eu sempre gostei de você." o Lysandre então tocou minha mão gentilmente.
Parecia que meu coração ia sair pela boca . . . Eu não sabia como agir.
Por impulso eu só me levantei e saí da casa do Castiel.
"Com licença eu . . . Preciso fazer algo . . . " Eu não olhei pro Lysandre eu não consegui voltar.
Eu fui direto pra casa . . . Eu estava muito nervosa . . . Eu estava com vontade de vomitar de tão ansiosa.
Eu esperei isso por tanto tempo . . . Porque justo agora o Lysandre decidiu se declarar pra mim ?
Daisy suspirou e deu uma boa olhada para a incrível visão do pôr do sol que ela tinha de sua varanda e então sorriu de volta para Helen, que tinha Dominik brincando em seu colo, com seu carrinho.
- Está sendo maravilhoso... É uma pena que logo eu tenha que voltar. – Suspirou. – Ontem fomos a uma ilha, que agora não me recordo o nome, pois é muito difícil de se pronunciar. Foi maravilhoso, meu Deus... É maravilhoso! E sabe, eu achava que o Rio era o único lugar bonito por aqui... Fernando de Noronha, Fortaleza... É tanto lugar maravilhoso que uma funcionária do hotel me mostrou, que sinto que Harry e eu teremos que voltar aqui mais vezes.
- Poderíamos ir todos juntos! – Sugeriu Helen empolgada. – Dominik já está mais grandinho... Me sinto mais segura em leva-lo.
Daisy sorriu para o pequenino que levantou o rostinho curioso ao escutar seu nome. Helen suavemente o ofereceu um lanchinho e ele acenou com a cabeça. Sua melhor amiga se voltou então para o webcam.
- Eu só vou preparar um chá com biscoitos pra ele... Eu já volto. – Disse Helen. – Fique aqui, fazendo companhia pra tia Daisy e aproveite para pedi-la um monte de presentes!
Daisy riu jogando a cabeça pra trás, vendo como Dominik, tão diferente de Helen, tão George, sutilmente sorriu e corou com os ombros encolhidos. Porém, é claro, Daisy não precisava que Helen a lembrasse de levar um presente para seu afilhado.
- É claro que eu estou levando presentes pra você, amorzinho. – Disse Daisy sorrindo. – Não tem nada de mais, é claro, mas eu acho que você vai gostar. Eu estou tomando muito cuidado para não estragar...
- O que é? – Perguntou ele curioso, com os olhos brilhando.
- Ah é uma pipa, mas aqui eles chamam de papagaio. – Explicou-o com um sorriso. – O bobo do seu tio Harry comprou uma pra ele também... É linda, tem uma rabiola enorme, muito maior que a nossa e ela vai bem no céu! Bem alto!
- Uau! – Nik disse com os olhinhos arregalados e sorrindo. – Deve ser linda tia Daisy... Obrigado.
- Não tem de quê, meu bem. – Ela sorriu. – Eu estou levando presentes pra todo mundo, mas não conta pra ninguém... É segredo. – Piscou e riu.
- Eu sei guardar segredo!
- É claro que sabe! Mini George.
Nik, logicamente riu e Daisy sentiu vontade de agarrar aquelas bochechonas vermelhas e mordê-lo, mordê-lo, mordê-lo! Ela suspirou angustiada de saudades.
- Quando eu voltar pra casa o que você acha de nós dois sairmos pra empinar sua pipa? Aliás, você vai dormir com a dinda e nós empinamos pipa com o tio Harry, o que acha? Chamamos o Georgie, a Victoria e todo mundo! Uh?
- Será que a mamãe vai deixar eu dormir com você?
- Eu não sei... Por que não perguntamos a ela? – Sugeriu.
- Perguntam o quê?
Mesmo Daisy se surpreendeu com a repentina volta de Helen. Sua amiga tornou a colocar Nik no colo e o mostrou a bandeja com biscoitos e chá. O pequeno agradeceu educadamente, quase nem parecendo filho de sua melhor amiga e se serviu de biscoitos, bebericando o chá em seu caneco de carrinhos.
- Nik e eu estávamos combinando que ele poderia ir até o Kensington empinar pipa comigo e com o tio Harry. – Explicou a amiga, sorrindo empolgada. – E ele poderia dormir conosco.
Se havia uma coisa que Daisy admirava em sua melhor amiga, era a mãe fabulosa que ela havia se tornado! Pessoalmente, Daisy sempre imaginou que Helen seria um pouco relaxada, mas ela era na verdade superprotetora em relação a Nik.
Não foi surpresa para Daisy, vê-la temerosa e mordendo o lábio inferior.
- Por favor mamãe! Eu quero dormir na casa da dinda... – Implorou.
- Ah Daisy... Ele é tão novinho, ele vai fazer quatro ainda e...
- Eu não sou novinho! – Disse ele. – Sou rapaz.
Daisy jogou a cabeça pra trás rindo, enquanto assistia a discussão de Helen e Nik, vendo-o implorá-la e dizer que era grande o suficiente para dormir sozinho. E Helen o aterrorizava, dizendo que se ele acordasse de madrugada chorando, não haveria como leva-lo para casa, porque todos estariam dormindo.
- Eu não vou acordar chorando. – Suplicou Nik.
- Ok, ok! – Suspirou Daisy decidindo se meter naquela bagunça que ela mesma havia feito. – Nik, eu vou conversar com sua mãe... Até eu voltar e reorganizar minha vida, falta alguns dias.
Helen pareceu ficar agradecida e concordar com Daisy, e então logo depois, sugeriu que Dominik fosse comer seus biscoitos e tomar seu chá na sala de TV assistindo a algum desenho. O pequenino que não tinha muita oportunidade de uma proeza como aquela, tendo que fazer todas as refeições regularmente a mesa, pegou seu caneco de chá que já devia estar frio e a tigelinha de bolachas – ele igualmente se despediu rapidamente de sua dinda.
- Ah ele é o amor da minha vida... – Suspirou Helen rindo e balançando a cabeça negativamente. – Eu tenho muita sorte por tê-los.
Daisy sorriu concordando. Quem diria que ela escutaria Helen dizer uma coisa daquelas... Ela já estava habituada, claro, mas ainda era vívida na memória de Daisy, sua melhor amiga sem juízo que chorava, contorcendo-se numa cama, aterrorizada com um filho, com um casamento que tecnicamente era “indesejado”.
- Verdade... Nik é lindo e George é um ótimo homem. Você tem muita sorte mesmo Helen... – Disse sorridente.
- Sim... – Ela acenou com a cabeça e com um enorme sorriso completou. – E você sabe... O pequenino também.
- Nik, eu disse...
- Não... Outro pequenino. – Os olhos dela brilhavam.
Daisy franziu o cenho não entendendo o que Helen queria dizer com ‘pequenino’, mas ao ver as feições radiantes de sua amiga, ela não acreditou. Helen estava grávida outra vez!
- Mas espera... Eu pensei que vocês iam começar a tentar ainda...
- Pois é. – Ela riu maravilhada. – E nós íamos até que minha menstruação atrasou, eu vomitei o café da manhã, suspeitei e é isso aí, eu estou grávida de novo!
Os olhos de Daisy se arregalaram, enquanto Helen tagarelava contando sobre a consulta que ela marcara imediatamente com sua médica, sobre como George estava feliz e cantando aos quatro ventos que tinha certeza que agora seria uma menininha.
Ramón Cajal citou que “A inveja é tão vil e vergonhosa, que ninguém se atreve a confessá-la”. Por mais errado que possa parecer, de repente Daisy sentiu uma enorme inveja de Helen...
Sentiu inveja do diamante que ela ostentava no anelar e a sua aliança no outro. Sentiu inveja do brilho que havia nos olhos dela, o brilho que só uma grávida teria... Sentiu inveja do fato de que ela experimentaria outra vez aquela dádiva, sentiu inveja do fato de que George nunca hesitou, nunca quis esperar um pouco mais...
As pessoas ao seu redor, todas pareciam ter encontrado o que buscavam... Todas elas estavam levando aquela vidinha pacata, em casal, com filhos. Ela não podia evitar pensar em como gostaria daquilo, em como era tudo o que seu coração mais implorava naquele momento.
- Daisy? Você está escutando?
Percebeu que havia divagado, quando Helen mais de uma vez chamara sua atenção. Tornando a olhar para a tela do notebook em seu colo, ela sorriu sem graça por ter se dispersado.
- Eu estou, estou sim. Parabéns! Eu estou tão feliz por você e sua família...
Era verdade, é claro, porque por mais que tivesse aquele bichinho verde da inveja a incomodando, Daisy jamais se sentiria menos do que feliz por sua melhor amiga. Por isso, tratou de preencher seus lábios com um maravilhoso sorriso – mas é claro que o fato de que ele não alcançava seus olhos, não passou despercebido por Helen.
- Aconteceu alguma coisa com você? – Helen suavemente perguntou.
Daisy mordeu o lábio inferior, incerta se deveria contar aquilo para Helen. Na maior parte do tempo, nenhuma das duas gostava de colocar problemas pessoais com seus respectivos marido e namorado, em pauta nas conversas. Muito raramente elas reclamavam deles um pouco, mas era bem supérfluo...
- Daisy... Eu sou sua melhor amiga há mais de dez anos! Qualquer coisa que você precise dizer, apenas diga, sem medo. Seu pior segredo, sua pior ressaca, seu maior mico, eu já sei de tudo... Anda, põe pra fora.
Lançando um olhar para a porta de seu quarto que poderia se abrir a qualquer momento e Harry voltaria, Daisy pegou o laptop e foi até a sacada, fechando a porta atrás de si. Ela sabia que poderia facilmente ser fotografada, mas não seria ouvida...
- Lembra que eu disse que achava que o pedido estava próximo? – Murmurou.
- Oh não... – Helen havia possivelmente adivinhado.
- Pois é. Eu acho que não tem mais pedido... – Encolheu os ombros sem graça. – Eu posso ter feito uma besteira enorme e ter sabe, o pressionado um pouco. Fiquei falando de casamento, filhos e filhos mais uma vez e ele ficou um pouco assustado e meio que abriu o jogo.
Ela se sentiu um pouco acanhada de contar a Helen que na verdade ela havia tido um surto de tesão, havia praticamente assediado seu próprio namorado e o implorado para engravidá-la – era devastadoramente humilhante e Daisy recusava-se a lembrar daquilo.
- Ah Daisy... Eu sinto muito. Meu Deus, eu sinto muito. Se tem alguém que está tão surpresa, sou eu. – Disse Helen com o cenho franzido. – Eu não entendo, sinceramente... Ele comprou uma casa pra vocês!
- Então você sabia da casa? – Indagou à melhor amiga, franzindo o cenho.
- Mas é claro que sim... Ele me perguntou tudo antes. O que eu achava sobre a casa de campo em nome de vocês, sobre você morar com ele. Só não disse porque achei que não cabia a mim e também porque achei que era tudo parte de um esquema...
- Eu também, mas não é. – Deu de ombros tristemente e desviando o olhar, sentindo suas bochechas pegarem fogo. – Foi tão vergonhoso... Eu me sinto tão mal agora.
- Vergonha do homem que você lava as cuecas? Daisy, pelo amor de Deus!
- Eu não lavo as cuecas dele, mas eu entendo a sua metáfora. – Disse Daisy revirando os olhos. – Ainda assim... Você nunca teve que implorar ao George por um filho ou para que ele se casasse com você.
- Isso porque ninguém é louco a esse ponto... Você é a única doida que sai assediando as pessoas e pedindo para seu namorado colocar filhos na sua barriga. – Helen disse rindo.
Daisy a acompanhou, porque olhando por aquele lado já não era mais tão vergonhoso e sim engraçado. Helen estava certa, ninguém da idade delas estava muito preocupada em aliança no anelar e filhos na barriga e talvez fosse esse o motivo que Harry queria esperar mais... Talvez pensava que era injusto.
Não era injusto, Daisy queria que ele entendesse isso. Porque por mais que a maior parte das pessoas da idade dela não estivessem pensando em casamento, ela estava... Nem todo mundo é igual, nem todo mundo está preocupado em farrear o tanto que puder, para sossegar apenas aos quarenta. Ela não via mal nenhum em dali em diante, passar o resto de seus dias como esposa de Harry, como uma Duquesa sabe-se lá das quantas, que deveria satisfações a coroa e só poderia usar saia no joelho.
Ela não via mal nenhum porque na verdade, gostava daquela ideia... Gostava da maior recompensa que vinha toda aquela bagagem: Harry. O Harry marido, o Harry pai de seus filhos, o Harry amante, o Harry melhor amigo...
Havia o Príncipe Harry, claro, e ela também o amava do fundo de seu coração, mas aquele cara, com aquelas vestes engraçadas, seguindo protocolo à risca, não chegava nem perto daquele Deus do Sexo que ela encontrava na cama, esperando-a todos os dias.
- Escute... Sei que está chateada, mas talvez seja bom que espere. Talvez ele queira fazer as coisas do jeito certo, sem coloca-la sob enorme pressão... Talvez primeiro queira que você tenha um pouquinho do gosto da vida ao lado dele. – Disse Helen. – Harry ama você... Ele ama!
- Eu sei... – Ela acenou concordando. – Só foi...
- Brutal.
- É...
- Entendo. Não se preocupe, quando ele deslizar uma aliança com um diamante do tamanho de um morango no seu dedo, você nem vai se lembrar de qualquer merda que ele tenha feito.
Daisy encolheu os ombros. Mais do que três anos atrás, a aliança parecia estar muito distante... Será que Harry pretendia fazê-la esperar mais três anos? Será que ele queria ter um relacionamento mais longo, como o de William, antes de fazer uma escolha?
- Você acha que ele vai querer esperar mais alguns anos? – Perguntou à melhor amiga.
- Talvez... – Helen disse dando de ombros. – Um ano ou dois.
- Você não acha que ele quer esperar que eu faça trinta, acha?
- Quê? Não, claro que não! Vinte e cinco talvez, mas trinta já é demais! Vocês tinham seis meses de namoro e ele já tinha falado umas cinquenta vezes que vocês deveriam se casar.
Daisy riu e concordou, tornando a olhar para o horizonte e se dar conta que o sol havia sumido. Que lentamente, escurecia e logo a lua tomaria o lugar, como uma bela lamparina rochosa, ao invés da bola de fogo que os aquecia durante o dia.
- Eu vou indo... Acho que vamos a uma balada essa noite, não tenho certeza. – Daisy sorriu.
- Certo. Qualquer coisa, sabe como me encontrar...
- Obrigada H.
- Não tem de quê, D.
-x-
Harry soube que ela estava no recinto, quando o cheiro de morango e rosas brancas impregnou o ambiente e percorreu o caminho até suas narinas. Aspirando profundamente, ele tirou os olhos de seu celular e ergueu o rosto para ver Daisy, usando um vestido curto, de costas nuas e mangas compridas. Era preto, simples, apenas com aquele detalhe em pedras nas mangas, mas ainda assim, ela estava linda de morrer...
- Isso tudo é pra mim? – Provocou-a.
Daisy sorriu e piscou, não o respondendo. Ela na verdade começou a dar os últimos retoques de sua maquiagem bem feita e Harry suspirou, apoiando o queixo em sua mão, pacientemente a esperando. Ela odiava ser apressada e ele não tinha muito problemas em ver aquela... Princesa se arrumando para ele.
- Você pode parar, Henry? – Ela perguntou em meio aos risos.
- Parar com o quê? Não estou fazendo nada. – Defendeu-se inocentemente.
- Você fica me olhando desse jeito... – Ela explicou corada e sorriu. – É constrangedor...
- Faz cinco anos quase que eu olho pra você desse jeito... Como é que pode ser embaraçoso?
Daisy deu de ombros e ele sorriu ao perceber que ela ainda estava corada e sem resposta. Ele suspirou fortemente, repensando em suas últimas palavras... Cinco anos! Era tempo pra caralho...
Não fazia realmente cinco anos juntos, mas havia quase cinco anos que Daisy era parte de sua vida. Eles ficaram muito tempo separados e também só haviam começado a namorar em Outubro de 2013.
Outubro eles completariam os devidos cinco anos... Deus, ele não podia acreditar no tempo e em como ele havia passado tão rápido. Ele não podia acreditar que seu coração ainda acelerava e ele suspirava ao ver aquela belíssima mulher, a sua frente, se arrumando para ele.
Ele havia a conhecido, e ela era só uma garota... Sim, ela era menina ainda naquela época, por mais que ele tivesse dito tantas vezes a si mesmo que ela era madura, que ela podia lidar com a responsabilidade que era namorá-lo, Daisy era uma menina na época, só hoje ele percebia isso.
Ela havia sido uma menina que amadurecera na marra... Ela se transformara em mulher em pouco tempo ao seu lado. E mais do que isso, ele também não era tão diferente... A única coisa é que ele em registros, tinha quase trinta, mas mentalmente? Bem, ele era possivelmente dez anos mais atrasado que ela.
A coisa sobre seu namoro com Daisy é que havia sido arrebatador... Ela entrara em sua vida e bum! Seus dias só começaram ser produtivos se ela estivesse envolvida, se ele tivesse escutado o ‘bom dia’ dela, se ela dormisse com ele e perfumasse todo seu enxoval com o perfume de morangos e rosas brancas.
- No que é que você está pensando? – Ela perguntou ao perceber o olhar perdido em seu rosto.
- Ah... Na vida. Nos cinco anos que vamos completar em Outubro. – Explicou-a, dando de ombros. – Só estou me recordando da garota do clube de polo...
- Ugh, ela era muito brega. Como você se apaixonou por ela?
- Eu sei lá! Eu achei que ela era... Sexy.
- Hm... Você vivia dizendo que ela tinha peitos pequenos. – Comentou Daisy, brincalhona, estreitando os olhos.
- Não era realmente um problema. – Harry jogou a cabeça pra trás rindo. – Ela também zombava da minha barriga de cerveja...
Daisy sorriu e então girou os calcanhares, caminhando na direção dele e então se sentando em sua perna, passando os braços ao redor de seu pescoço, encostando a testa na sua. Ele suspirou, vendo-a de olhos fechados, ainda sorrindo brincalhona e a apertou contra si.
Deus... Ele a amava tanto. Tanto. E ele sentia tanta a falta dela durante a semana inteira, que ele ficava fora... Ele estava tão feliz de chegar em casa e encontra-la vestindo sua camisa, encontra-la no simulador de caminhada e assistindo aqueles vídeo clipes repetidos que ela nunca se cansava...
Ele amava a forma como ela colocava os travesseiros na cama. Amava os adereços que ela acrescentara a decoração desde que se mudara. Amava o fato de que ela se sentava a mesa e discutia as contas pra pagar, assim como fazia a lista do supermercado, para completo desagrado de Mercedes.
Aquela vidinha magnífica deles, era tudo o que Harry sempre havia pedido. E ele sentia, do fundo de seu coração, que nunca havia sido tão feliz em sua vida, como era com Daisy.
- Jurando que nós temos que voltar pra Inglaterra? – Murmurou ela. – Eu gosto do meu bronzeado tropical...
- Hm... Você quer viver aqui? – Ele perguntou suavemente e apertando a coxa dela. – Vamos fazer assim. Eu abdico, você faz as malas, nós voamos para cá, compramos um apartamento de frente pra praia e vamos viver assim. Eu viro piloto da Força Aérea Brasileira e você cuida das crianças... O que acha?
- Não me iluda Wales... – Ela abriu os olhos e sorriu, roçando seus narizes. – O importante não é aqui... É qualquer lugar que você esteja. Eu tenho sentido sua falta... Muito, muito sua falta.
Ele suspirou, sabendo exatamente o que ela queria dizer e acenou com a cabeça, porque mais do que ninguém, ele a entendia. Beijando-a suavemente no pescoço, percorreu o caminho até o lóbulo da orelha dela para murmurar.
- Sei que está cansada já de escutar isso... Mas vou compensá-la. Ok? Não importa o quanto demore, a recompensa vai valer a pena. Eu sei que estou distante, ocupado nos últimos tempos, mas isso tudo vai ser benéfico para nós dois no futuro.
- Eu sei... – Ela disse no mesmo tom que ele. – Eu acredito em você.
-x-
Quando Harry a disse que eles iriam a uma balada, ela havia literalmente acreditado que era uma Boujis da vida, porém não – o que a deixou, para ser honesta, verdadeiramente grata. Uma coisa era ir a Boujis com uma galera animada e outra era Harry e ela irem a balada, sozinhos... Eles não tinham mais o mesmo pique e vontades de cinco anos antes.
Eles estavam na verdade num pub... Comida tipicamente brasileira, música popular ao vivo tocando. Um local incrível, bem rústico, bem o que eles estavam procurando! Felizmente, o pub disponibilizava a eles, pessoas com o inglês mais avançado e também um cardápio em sua língua de origem, o que tornava tudo mais prático.
Eles se limitaram com a isca de peixe e fritas, não era realmente muito diferente do que comiam na Inglaterra, mas tinha um sabor, um tempero ainda melhor. E Harry havia pedido caipirinha para ele e Daisy uma bebida de hortelã Made in Brazil que era simplesmente maravilhosa!
- Você vai sair daqui trocando as pernas... – Ela disse em tom de repreensão, quando Harry pediu ao garçom outra.
- E uma para minha namorada também, por favor. – Ele pediu e o garçom anotou, saindo em seguida.
- Eu não pedi caipirinha. – Daisy revirou os olhos um pouco impaciente.
- Eu insisto que prove. É forte, mas é bom... Muito bom!
Ela não reclamou, porque não queria provocar uma discussão boba entre eles. O clima do ambiente era tão maravilhoso, que ela não se sentia no direito de estragar. Suspirando, ela sugou mais um pouco de sua bebida.
- Hm... Com licença.
Os dois ergueram os olhos ao mesmo tempo e Daisy sorriu, imediatamente, já sabendo do que é que se tratava, ao ver uma mulher com uma menininha segurando sua mão. Com as bochechas vermelhas e muito sem graça, porém ansiosa, ela olhava para os dois.
- Desculpe a intromissão... – Disse a mulher com um inglês cheio de sotaque. – Mas a minha filha, Alice, simplesmente adora você... E ela não para de olhar pra cá desde que chegamos.
Harry e Daisy se entreolharam e ela sorriu, incentivando-o, sabendo que ele seria incapaz de dizer não para a menina – a menos que aquilo incomodasse Daisy, mas, felizmente, não a incomodava.
Apaixonadamente, Harry se levantou e agachou na altura da menina, conversando com ela. Sua mãe traduzindo o que ele dizia e ela mostrando os dentinhos num sorriso, respondendo-o através de sua mãe ou em frases curtas e simples em inglês.
Silenciosamente, ela observou o quanto ele era atencioso e sincero. Ele tirou uma foto com a menina, que se chamava Mariana e a abraçou gentilmente, na hora de se despedir, quando a menina cutucou a mãe, outra vez.
- Desculpe, mas acha que pode tirar uma foto com ela? – Perguntou a mulher sorrindo sem graça.
Daisy se deu conta então de que estava falando com ela e primeiro, ela procurou o olhar de Harry que sorrindo, deu de ombros. Ela então olhou para a menina que ainda sorria ansiosa e sem saber o que dizer, por estar tão surpresa com aquele pedido, acenou com a cabeça e completou.
- Claro! Vamos lá Mariana, vamos tirar uma foto.
Agachando-se na altura da menina, Daisy sorriu para a câmera e após a foto, aproveitou para conversar um pouquinho com a menina, escutando atentamente o que ela dizia empolgada em português para a mãe traduzir. Ela contou que fazia balé, contou que estava aprendendo a ler e que em breve visitaria a Disney com sua família.
E foi quando, a mãe dela traduziu...
- Ela quer saber quando você vai se tornar uma princesa...
Daisy engasgou com a própria saliva e ela tinha certeza que Harry estava prendendo o riso atrás dela. Olhando para a menina, que ansiosamente esperava por uma resposta, Daisy não sabia o que dizer e então olhou para a mãe da mesma, com um sorriso sem graça.
- Acho que vocês vão ter que esperar mais um tempo pra descobrir... Porque eu mesma não sei nada sobre isso. – Disse rindo.
A mãe riu e então explicou a menina e Daisy sentiu-se derreter ao ver o quanto ela parecia decepcionada. Sorriu na direção dela, tocando os cabelos castanhos encaracolados, sentindo-se extremamente passional, até que então, as duas se despediram deles e ela estava, outra vez, sentando-se a mesa com Harry.
Prendendo o riso, ele enfiou um pedaço inteiro de peixe na boca e continuou olhando para ela. Daisy imaginou que estava corada e desviou o olhar, tentou se distrair com sua bebida, se concentrou na melodia gostosa que saía da boca do cantor do pub, até que então, aborrecida, ela se voltou para Harry.
- Ora, fique quieto Wales!
- O que foi que eu fiz? – Replicou Harry arregalando os olhos e tentando se fazer de desentendido, quando nem mesmo prendia a risada.
Daisy revirou os olhos, impaciente, mas mesmo ela não podia esconder o riso, porque ela estava meio que... Orgulhosa de si mesma. Ela tinha uma admiradora!
Tendo que receber tantas críticas negativas da comunidade britânica e sendo alvo dos comentários raivosos de tabloides importantes, Daisy estava surpresa de que aquela menininha visse algo de bom nela!
Aquela menininha queria vê-la se tornar uma princesa... Talvez aquela menininha se espelhasse nela um dia.
-x-
Eles não foram diretamente para o quarto. Eles na verdade, foram para a área da piscina e dispensaram um muito hesitante Simon, que havia insistido por tempos, que talvez o adequado seria que eles fossem para o quarto, mas eles não queriam.
A caipirinha estava fazendo efeito...
- Senhor, talvez seja mais indicado que vocês se recolham. Já passa das uma da madrugada e eu não tenho certeza se o hotel permite que os hóspedes fiquem na área da piscina nesse horário. – Dizia Simon.
Num baque surdo, Daisy empurrou Harry, jogando-o contra a parede e ambos ignoraram o que Simon dissera. Nenhum deles se importava naquele momento... Porque naquele momento, a única coisa que visavam era: Tesão. O louco e descomunal tesão que Daisy sentia pelo homem de ombros largos e costas fortes e o desejo fatal de Harry pelas curvas sutis de sua namorada.
Não que eles estivessem muito preocupados, e Daisy também não se deu ao trabalho de responde-lo – e quem dirá Harry – porque eles estavam presos um ao outro, se beijando como dois adolescentes cheios de hormônios, como se nunca tivessem se beijado antes.
Daisy não dava a mínima para a presença de Simon e geralmente – ao menos quando o álcool não lhe subia muito a cabeça – ela é quem controlava o limite da situação. Ela não deixava Harry ficar a beijando e a tocando, quando Simon estava assistindo aquilo tudo ao vivo, mas naquela noite, ela estava, se é que era possível, com mais fogo que ele.
- Senhor... Eu insisto em lhe alertar que tal vez seja o ideal que vocês se recolham e...
Dessa vez, Harry respondeu ao Oficial de Proteção.
- Simon... Deixe-me aproveitar dos meus status um pouco essa noite. – Disse Harry em ofegos, enquanto Daisy o beijava pelo pescoço. – Você pode ir dormir, vamos ficar bem.
- Mas senhor...
- Não. Vá! Eu quero privacidade.
Privacidade não era realmente algo que eles poderiam se gabar de ter em seu relacionamento, mas às vezes eles tinham um pouco de sorte e poderiam simplesmente aproveitar daquela raríssima dádiva, sem nem um pouco de culpa.
Por exemplo, Daisy sabia que seu vestido estava mais levantado e que Harry tinha uma ereção a cutucando no baixo ventre, mas ainda assim, ela não se importava – mesmo que ela tivesse chances de ser fotografada.
Ela tinha certeza que aquele era um daqueles dias divinos... Que a sorte sorria para eles e que eles poderiam simplesmente se agarrar loucamente, sem parar na página principal do The Sun – como dois anos atrás, quando fotografaram Daisy sentada no colo de Harry e o beijando na Mahiki.
- Você tem certeza que ninguém irá nos pegar aqui? – Daisy, porém, se sentiu na obrigação de perguntar, muito embora, durante aquele processo, ela não tivesse deixado de beijá-lo nem por um instante.
- Claro que tenho... Está tudo já conversado Cooper. – Harry respondeu-a com um sorriso devasso e percorrendo as mãos pelo corpo dela. – Está tudo bem, ninguém vai nos pegar.
Daisy não tornou a fazer a oferta e também não reclamou. E Harry também não disse nem mais uma palavra, apenas suspirou e estremeceu quando Daisy tirou a camisa dele de dentro da calça e escorregou suas mãos frias, pelo peito quente. Ele na verdade apertou-a no bumbum, fazendo um gemido escapar de seus lábios.
Os dedos dela foram em direção as costas de Harry e suas unhas penetraram a pele primeiro com leveza, mas quando a boca dele começou a trabalhar na área de seu pescoço e nuca, seus dedos seguraram com mais firmeza e suas unhas desceram firmes pela carne macia.
O rosnado que ele soltou contra sua pele, a fez sorrir e quando Harry notou que ela parecia estar se divertindo com suas demonstrações de prazer, decidiu também fazer o mesmo.
As mãos dele abandonaram seu glúteo e Harry levou as mãos até o tecido negro de seu vestido e rapidamente o tirou, deixando-a apenas de sutiã e calcinha. Quase que automaticamente, Harry levou uma das mãos em seu centro – já úmido e implorando pelo toque íntimo.
Daisy soltou um suspiro, tombando a cabeça pra trás e também sentiu-se ser mudada de posição. Agora, contra a parede, ela o sentiu assumir o controle da situação e adorou aquilo. Ainda sobre o tecido de sua calcinha ele, com o dedo do meio, deslizou-o por suas dobras, fazendo-a gemer mais alto que devia.
- Shhh! – Foi o que ele disse, tampando sua boca. – Não vamos abusar da sorte.
Daisy riu e ele riu junto, enquanto ainda a beijava. Abusar da sorte... Tratando-se deles, aquilo já não era um completo abuso?
- Oh Deus... – Murmurou ainda deliciando-se com os toques e investidas de Harry.
Ela desejou que pudesse ter qualquer controle de seu corpo, porque daí tinha certeza que não gemeria alto demais e tomaria cuidado para não chamarem a atenção, mas quando Harry e ela estavam naquele tipo de situação... Bem, nenhum deles respondia por seus atos.
Harry pareceu prever que não levaria tempo para ela reclamar de suas provocações, então afastou o tecido da calcinha e colocou um dedo dentro dela, afastando sua entrada estreita para então, colocar outro.
Daisy gemeu baixinho, olhando-o no rosto e vendo o sorriso presunçoso nos lábios dele. Lábios que ela beijou outra vez, enquanto sentia os dois dedos, dentro dela, brincando com seu corpo, seus hormônios e sentimentos.
Era injusto que estivesse fazendo aquilo com ela, depois de tanto tempo, não era como se seu corpo pudesse suportar muito. Mesmo ela que adorava coisas lentas, tinha que admitir que o que ela queria agora era Harry dentro dela e pronto.
Suas mãos trêmulas escorregaram novamente para o peito e Daisy deslizou os dedos com mais suavidade, até a fivela do cinto. Suas bocas afastaram-se ao mesmo tempo; Daisy gemendo com o outro dedo inserido dentro de si e Harry suspirando de excitação pelo o que sabia que o aguardava.
O membro dele, já grande e duro contra o tecido, sempre causaria surpresa em Daisy. Parecia que não importava quantas vezes Harry e ela fizessem; ainda haveria excitação e ansiedade no ato.
- Deus... – Harry fechou os olhos momentaneamente quando a mão firme de Daisy acariciou sua ereção. – Continue, pelo amor de Deus, não pare.
Sorrindo, ela beijou-o no queixo, amando a sensualidade do ato. Ela tocando-o enquanto ele a tocava, ambos suspirando de prazer, gemendo juntos. Mas é claro que alguém tinha que estar no controle e era ele...
Seus dedos começaram a penetrá-la de forma muito mais intensa, dessa vez em movimentos firmes e fortes, a mão livre de Harry abaixou a alcinha do sutiã que usava e reclinando-se, a boca dele sugou o mamilo que estava de fora, fazendo-a novamente buscar apoio na parede.
Ela não conseguia mais manter seus olhos abertos e quando os dentes de Harry, levemente, puxaram seu mamilo, soltou um gritinho, levando a mão livre a própria boca, na tentativa de abafar a si mesma.
Harry sugou-o cheio de vontade uma última vez, até que então, tirou a mão de dentro dela e abaixou a calcinha, até o meio das coxas. Daisy sorriu, ao perceber que ele, tal como ela, não fazia muita questão de prosseguir com os joguinhos – não quando havia tanto tesão reprimido e impaciência.
Ela tomou cuidado de não deixa-lo muito exposto, visto que era ele quem cobria o corpo dos dois. E soltou um suspiro, quando os braços dele suspenderam-na pelas coxas e ele a apoiou contra a parede, o rosto escondendo na curva de seu pescoço.
Plantando beijos ali, Daisy sabia que ele tentava tornar aquele ato o mais gentil e romântico possível, mas ela não precisava do romance – não naquele momento. Era bom e tudo, mas a pressa dela em tê-lo era maior.
Quando ele a penetrou, Daisy sentiu a consequência daqueles dias afastados. Harry colocou a mão na boca dela, novamente, quando percebeu o gemido alto que ela soltaria e por lá ele deixou – até porque não era de tudo ruim, ela poderia gritar se quisesse e ele não teria que controlar as investidas das estocadas, porque a mão abafaria suas reações vocais.
Ele investia sua dureza dentro dela, sem receios, sem preocupações e sem maiores cuidados. Ele tirava e colocava de uma só vez, o membro inteiramente dentro dela e ficou naquilo por longos minutos, até que então, as estocadas além de profundas começaram a ser rápidas.
Era dolorosamente prazeroso, se é que aquilo fazia sentido. Porque ao mesmo tempo em que ela estava se derretendo de prazer em seus braços, também estava querendo que aquela tortura acabasse, que ela pudesse atingir seu máximo e que Harry atingisse o dele – porque ele só pararia quando atingisse o próprio.
Harry colocou-a no chão novamente, saindo dela e por um momento Daisy achou que ele quisesse que ela o masturbasse oralmente, mas ele a virou de costas, contra a parede e deslizou para dentro dela outra vez. As mãos agarrando seu glúteo e entrando e saindo de seu sexo, sem parar.
Seus olhos se fecharam e as pernas ficaram fracas. O braço livre de Harry sustentou seu peso e ele permaneceu estocando dentro dela, dessa vez numa velocidade mais constante. Ela estava tão perto do clímax... Tão perto. Ela queria segurar-se mais um pouco, queria prolongar o momento de prazer dele, porque depois que ela chegava, Harry não demorava para liberar a si mesmo.
- Não segure... Vamos, relaxe. Não fique tensa. – Ele sussurrou em seu ouvido. – Eu vou, quando você for...
Os joelhos cederam e ela sentiu seu sexo apertando ao redor da dureza de Harry e a estocada profunda dentro dela, a faz gemer baixinho. Ela sentiu que podia ver estrelas, ela jurou que nunca sentiu tanto prazer antes e Harry estocou últimas duas vezes, antes de enfim tirar o membro de dentro dela, deixando seu líquido quente e viscoso, dentro dela.
-x-
Ele não se lembrava exatamente de como haviam chegado até o quarto, mas Harry acordou e o sol ainda estava nascendo. Ele acordou com o perfume de morangos em suas narinas, com a cabeça dela em seu peito e Daisy vestindo sua camisa, enquanto ele estava apenas de cueca.
Sorrindo, Harry passou os dedos pelos fios castanhos dela, beijando-lhe a testa e a abraçando mais forte. Ainda, ferrada num sono profundo, ela ronronou agradecida e o abraçou de volta, como se nunca mais fosse soltá-lo...
O que era bom, porque ele também não queria soltá-la. Nunca. Jamais.
Ainda não completamente crédulo, de como a vida podia ser tão boa, mesmo para aqueles que haviam errado tanto, Harry suspirou agradecido demais. Agradecido pela vida, agradecido por ter um amor tão grande em seus braços, por ter encontrado a pessoa que por um momento, ele imaginou que não existisse.
Por um momento em sua vida, ele desacreditou no amor verdadeiro. Ele apenas havia cruzado os braços e aceitado que talvez o ideal fosse ter um relacionamento mais ou menos feliz com Cressida e um dia se casar e ter filhos.
Até que ela chegou... Ela chegou e bagunçou o plano de jogo inteiro. Ela chegou repentinamente e primeiro ele a desejou, primeiro ele só queria a carne, o corpo, e depois... Deus, depois do dia na adega ele estava apaixonado. Completamente pasmado com o efeito que aquela menina tinha sobre ele...
Pelo efeito que aquela, agora, mulher, ainda tinha sobre ele.
- Hmmm... – Daisy ronronou outra vez, mas agora, abrindo os olhos lentamente.
- Bom dia luz do dia... – Ele brincou, escutando sua voz rouca de sono.
- Awww... Eu quero dormir mais. – Ela sorriu preguiçosa. – Sonhei que nós estávamos em Bariloche dessa vez... Você vai ter que providenciar uma ida a Argentina para nós dois Wales.
Ele riu e então a beijou suavemente no rosto, não tão preocupado em ter que destruir aquele momento. Ele a daria mais alguns minutinhos naquele universo perfeito que era o quarto de um hotel, no litoral do Brasil.
. O GABRIEL era mais parecido comigo do que eu gostaria, mas até que era um molequinho legal. Quero dizer, ele é filho da namorada do meu pai, eu deveria odiá-lo. Sem contar que ele tem treze anos, ou quatorze, não sei. Não consigo passar mais de cinco minutos falando com alguém muito mais novo do que eu. Mas até que a gente se dá bem. Eu sentia que ele tinha um pouco do Fred e até um pouco do Matt, e isso era bom. Tinha bastante de mim também, o que não era tão bom assim. Se alguém nos vê na rua e eu não falo nada, acho que as pessoas tem certeza de que somos irmãos de verdade. Mas to curtindo ser o irmão mais velho de mentira dele, por incrível que pareça.
Gabriel: Minha mãe sempre me enche o saco com essas coisas.
Eu: Que coisas?
Gabriel: Ah, pra eu sair mais de casa, praticar exercícios, e tal.
Eu: E tu continua andando de skate?
Gabriel: Às vezes, mas não falo nada pra ela. Não sei se ela ia curtir saber que eu ando com caras mais velhos que, tipo, fumam maconha.
Eu: A parte da maconha ela não precisa saber.
Gabriel: É.
Confesso que meu pai me enchia um pouco com esse tipo de coisa quando eu era menor também. Eu só brincava com o Matt. A gente não curtia praticar esportes tipo os outros garotos, só skate. E, até hoje, meu pai acha que skate não é esporte. Eu acho que os pais deviam respeitar os filhos que não gostam muito de sair de casa. Eu gostava, mas fico pensando nesses garotos que gostam mais de computador do que de menina. Deixa eles. Duvido que o cara que inventou a NASA ou sei lá gostava de jogar bola na rua.
Gabriel: Falando nisso, quer jogar Tony Hawk agora?
Concordei e passamos mais um bom tempo jogando Tony Hawk. Pelo menos eu tava mandando melhor do que no jogo de antes.
Gabriel: E esse olho roxo?
Eu: Digamos que eu devia ter brigado mais na rua quando criança.
Gabriel: Mas como aconteceu?
Eu: Cara, eu nem sei. Eu já não fui com a cara do moleque e ele começou a tratar mal uma guria.
Gabriel: Tua namorada?
Eu: Não, não tenho namorada.
Gabriel: Ah, tu entendeu. Uma guria que tu gosta.
Eu: Não. É uma outra.
Ficamos jogando quietos por um tempo, só ouvindo o som do jogo. Aliás, o Tony Hawk tem uma das melhores trilhas sonoras de video game.
Eu: E aquela guria tua?
Gabriel: Que guria?
Eu: Aquela que tu gostava mas não chegava nela.
Gabriel: O que tem?
Eu: Ah... Eu sei lá. Pegou ela?
Gabriel: Não.
Ele respondeu meio desanimado, relaxando as costas no sofá. Parecia ter feito alguma merda.
Depois me lembrei de que ele tinha treze anos.
Eu: Tu chegou nela pelo menos?
Gabriel: É... Sei lá.
Eu: Não, né?
Gabriel: Acho que não.
Ele ficou tão desconcertado que até perdeu uns mil pontos no tombo que levou de skate no video game. A gente conversava olhando pra tela da TV.
Eu: Tu já chegou em alguma mina?
Gabriel: Jááá, já. Claro que já.
Eu: E como foi?
Gabriel: Ah, tu sabe, tipo, como é.
Esse moleque tá me enrolando. Fiquei quieto por um tempo só esperando ele responder. Se mudasse de assunto, era por que nunca tinha pegado guria nenhuma na vida. Moleques dessa idade adoram contar sobre as gurias que já pegaram.
Gabriel: Tu sabe o nome dessa banda que tá tocando no jogo?
Eu: Tu nunca pegou ninguém, né?
Gabriel: Ahn?!
Eu: Tu nunca beijou a boca de uma menina. - tentei ser mais claro.
Gabriel: Nem de um menino!
Ele jogou o controle longe, indignado.
Eu: E nem de uma menina.
Gabriel: É claro que já!
Eu: Ah, é? Como foi.
Gabriel: Ah. Foi assim... Tipo... Ela gostava de mim. E ela era a mina mais bonita da escola. Do pré! Eu tava no pré. Mais ou menos no pré. Eu tava na quinta série.
Eu: Hm.
Vamos ver o poder de enrolação do garoto.
Gabriel: E ela era a mais bonita da escola toda e gostava de mim. Aí eu beijei ela.
Eu: Hm.
Gabriel: É isso.
Eu: Onde foi?
Gabriel: Na boca.
Eu: Não, cara. O lugar tipo escola, festa, tal.
Gabriel: Foi numa festa. Po, que papo de gay! Vamos mudar de assunto.
Eu: Tu ia em festa na quinta série?
Se tem alguém que sabe enrolar nesse mundo, sou eu. Não vou ser enrolado por um moleque com 5 anos a menos do que eu. Ele já tava ficando vermelho e não sabia mais pra onde olhar. Deixei o controle de lado, cruzei os braços e fiquei encarando só pra deixá-lo mais sem graça. Uma hora ele teria que falar.
Eu: Quantas gurias tu já beijou na vida?
Gabriel: Não sei.
Eu: Não?
Gabriel: Chega uma hora que a gente perde a conta.
Ele me olhou com um sorrisinho de cumplicidade no rosto. Até parece. De repente me veio uma ótima idéia pra tirar com a cara dele.
Eu: Bom saber que tu é assim, cara.
Ele me olhou com atenção.
Eu: Uma amiga minha gostou de ti.
Gabriel: De mi... Cof! De mim?! - até engasgou.
Eu: É. Mas sabe como é, ela é amiga minha. Tem a minha idade.
Ouso dizer que os olhos do moleque ficaram maiores do que os do Fred por um segundo.
Eu: Mas acho que não tem problema, já que tu é tão experiente.
Ele virou a cabeça de volta pra televisão lentamente, provavelmente pensando no que dizer. Eu sou muito cuzão.
Eu: Digo, tu já comeu alguém, certo?
Gabriel: Cara, eu gosto muito dela, eu gosto muito mesmo! Eu até fiz uma música pra ela e eu ia cantar mas eu não sei e o Alan falou que ficou idiota e que eu seria zoado pela escola toda. Mas o Alan não sabe o que diz. Mas cara! E-eu gosto dela, mas eu não sei o que fazer! Ficam esperando que eu faça alguma coisa, só que eu nunca beijei uma menina antes, não sei como agir. Eu acho que...
Eu: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
Dei tanta risada que precisei me deitar no chão de tanta dor que senti na minha costela machucada. Nunca vi alguém falar tão rápido e angustiado.
Gabriel: O QUE FOI?
Eu: HAHAHAH!
Gabriel: Porra, tu já nasceu pegando todo mundo?
Eu: Ai, caralho. HAHAHA!
Gabriel: Tu era o terror do maternal então? Pegava as menininhas em troca de giz de cêra?
Eu: HAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!
Gabriel: Que chato, mano!
E aí ele cruzou os braços e ficou emburrado olhando pra parede feito criancinha.
Eu: Eu tô de rindo de outra coisa. HAHAH!
Gabriel: Falou.
Eu: É sério! HAHAH
Continuei deitado no chão rindo muito. Uma hora ele perdeu a paciência e voltou a jogar sozinho. Quando eu já não aguentava mais rir, me sentei de novo do lado dele no sofá e tentei consertar as coisas. Ele ainda tava com cara de cu.
Eu: Me fala mais sobre essa guria.
Gabriel: Eu nunca beijei ela. Fim.
Eu: Pff.. HAHAHAH!
Juro que não queria rir na cara dele, mas não dava. Sei como é foda esse tipo de coisa. Eu vivia mentindo pra semi conhecidos que já tinha pegado várias quando ainda nem tinha coragem de perguntar as horas pra uma menina. Faz parte da chamada sobrevivência social na escola. Eu não era do tipo que ligava muito pra popularidade no recreio, mas também não queria que os moleques maiores me batessem porque eu era BV. O período de escola é mesmo muito cruel. Eu seria um cara legal se pudesse ajudar o Gabriel com isso. Tenho certeza de que ele sobreviveu bem até aqui mentindo pra todo mundo, mas seria melhor se ele não precisasse mais mentir sobre isso.
Gabriel: Tsc.
Eu: Sério agora. Ela é tua amiga?
Gabriel: ...
Eu: Porra, Gabriel.
Gabriel: É.
Eu: Muito amiga?
Gabriel: Não o suficiente pra me beijar.
Eu: Entendo.
Agora eu sabia que ele não ia querer me falar mais nada com medo de que eu desse risada. Provavelmente eu ia rir mesmo, mas queria saber mais pra poder ajudar. Quem me dera se eu tivesse alguém pra me dar uns toques nessa época. Tudo o que eu ouvia era "treine com uma laranja". Claro, o gosto, inclusive, é o mesmo de quando tu beija uma menina. Tem muita idiotice nesse mundo.
Eu: Também foi meio difícil ficar com a guria que eu gosto hoje.
Ele não tava nem aí, continuou jogando e olhando pra tela.
Eu: Acho que era porque eu não conseguia admitir que tava a fim dela.
Percebi que ele me deu uma olhada de canto.
Eu: Rolou naturalmente depois de um tempo.
Gabriel: Hm.
Eu: Mas a segunda vez foi ainda pior. Parecia que eu nunca tinha beijado ninguém na vida.
O carinha andando de skate no video game parou numa calçada. O Gabriel ficou olhando pro próprio tênis, me ouvindo.
Eu: Sério, cara. Foi bizarro. Eu suava, minhas pernas não me obedeciam, minha boca secou.
Ele olhou pra minha cara esperando que eu continuasse a história.
Eu: Mas criei coragem. E deu certo. - sorri.
Gabriel: Sei.
Eu: Na boa, não é nada muito complicado. Tu que acaba transformando tudo num negócio muito foda por causa do nervosismo. Mas não é nada de mais.
Gabriel: É que eu não sei nem por onde começar.
Eu: Ela estuda contigo? Mora perto da tua casa?
Gabriel: Tá na minha sala.
Eu: É tua amiga mesmo ou é aquela gostosa que todo mundo paga pau e senta do outro lado da sala?
Nem preciso falar de quem eu me lembrei.
Gabriel: É minha amiga mesmo.
Eu: Então relaxa. Não vai faltar oportunidade pra vocês ficarem sozinhos.
Gabriel: É verdade.
Eu: Quando vocês estiverem sozinhos, dá um jeito de fazê-la rir.
Gabriel: Eu nem consigo falar.
Eu: Aí tu fode tudo, Gabriel.
Ele voltou a olhar pro próprio tênis. Sou tão sutil nos meus comentários.
Eu: Digo... Assim fica difícil. Tu é um carinha engraçado, não deve ser difícil ela dar risada contigo.
Ele sorriu, provavelmente se lembrando de alguma coisa.
Eu: Ela tem que se sentir à vontade contigo, liga? E aí, quando acabar o assunto, tu continua olhando pra ela. Olhando, olhando. Se quiser ir direto ao ponto, fique olhando pra boca dela. Depois presta atenção. Se ela sorrir, tá feito.
Gabriel: Falando assim parece tão fácil.
Eu: E é!
Sorriu de novo. Acho que fiz minha boa ação do dia.
Eu: Confia em mim. É de boa.
Os olhos do moleque até brilhavam. Ele era realmente muito parecido comigo, tipo, fisicamente falando mesmo, só que com olhos claros. Isso é muito louco.
Gabriel: Mas e depois?
Eu: Depois o quê?
Gabriel: Depois que ela sorri.
Eu: Tu beija ela.
Silêncio. Ele ficou me encarando, sério.
Gabriel: TÁ! Acho que tu é o único cara pra quem eu posso perguntar esse tipo de coisa, então vamo lá. COMO eu beijo ela?
Hein?!
Eu: Porra, encosta a tua boca na dela, coloca a língua e tipo...
Ele começou a fazer uma careta, quase que se querer. Achei melhor nem continuar a frase.
Eu: Não dá pra explicar, velho! Ela já ficou com alguém?
Gabriel: Já.
Eu: Então é suave. Ela te ensina.
Ele não fez uma cara muito boa, mas senti que ele ia ser mais pró ativo depois de tudo o que eu disse. E eu fui sincero.
Eu: Pode confiar. É muito simples. Muito simples mesmo. O mais difícil é tu conseguir que a guria queira ficar contigo. Depois disso, é suave.
Gabriel: Beleza.
Eu: Quero dizer, depois é só tu não fazer nada errado. Tipo, não fique parecendo uma múmia, nem coloque muito a língua, nem fique sem mexer a língua, tenta não babar, e não vai direto passando a mão na bunda da mina também. Só se ela deixar. Se ela deixar, tudo bem. Se não, tu tenta de novo. Depende de onde vocês estiverem. Ah, e bater o dente também não é legal. E...
A cara dele foi piorando a cada frase. Era melhor eu ficar quieto.
Eu: Depois tu me diz se rolou.
Gabriel: Er... Tá.
Ouvi um barulho de vidro quebrando no andar de cima. Nós dois quase tivemos um infarto de tanto susto.
Eu: Caralho!
Gabriel: Que isso?!
Digamos que eu não tenha boas lembranças de pessoas aparecendo na minha casa do nada. E eu já tinha apanhado o bastante pelos próximos anos. O Gabriel ficou me olhando com os olhos azuis arregalados, me esperando fazer alguma coisa.
Eu: Vai tu lá ver!
Gabriel: Vai tu!
Ficamos empurrando a responsabilidade um pro outro até ouvir um grito vindo lá de fora.
Matt: Seu retardado!
Fred: Foi sem querer, porra!
Respirei aliviado. Eram só meus dois melhores amigos idiotas fazendo idiotices. O Gabriel deu risada e voltou a jogar video game enquanto eu ia atender os caras. Abri a porta e lá estavam os dois discutindo.
Fred: A gente sempre chamou o Thom jogando alguma coisa na janela dele.
Matt: E ninguém nunca precisou quebrar a janela!
Ah, que ótimo. Quebraram minha janela, como se eu já não estivesse fodido o bastante com o meu pai.
Eu: Oi.
Eles nem tinham visto que eu tava ali e levaram um susto quando eu disse "oi". Ficaram me olhando de cima a baixo com uma cara não muito boa.
Eu: Que foi? Tomei banho pelo menos.
Fred: Agora que eu to sóbrio é que eu to vendo o quanto tu apanhou.
Matt: O que teu pai falou desse olho?
Eu: Nada. Deixa pra lá.
Me afastei da porta pra dar passagem pra eles, que entraram em casa.
Fred: Olha só quem tá aí!
O Gabriel virou o pescoço pra trás e acenou pra eles do sofá.
Gabriel: Oi!
O Matt olhou pra ele, olhou pra mim, olhou pra ele de novo. Pois é. Arranjei um lil brotha, como diria o Sick Boy. O Fred foi logo se sentando do lado do moleque e perguntando mil coisas sobre o que ele tava jogando.
Matt: Cadê teu pai?
Eu: Saiu.
Matt: E tu tá aqui de boa?
Eu: É. O Gabriel tava aí. Ficamos jogando video game.
O Matt deu um sorriso de Matt e se sentou do lado deles no sofá. Eu me sentei na poltrona grande do meu pai.
Cara, essas "tardes de moleques" são muito boas. A gente costumava fazer isso bastante quando tava na escola. Depois da aula, sempre íamos pra casa de alguém pra fazer absolutamente nada, só ficar de boa, jogando video game, falando das meninas, vez ou outra fazendo umas bobagens tipo botar fogo nas almofadas da casa do Fred. Acho que ele nem tem mais nenhuma.
Fred: Ei, o que aconteceu contigo? Teu pai te convenceu a passar o fim de semana aqui?
Eu: Tá brincando? Ele me prendeu em casa depois que tu saiu.
Matt: O Fred é tão maluco que achou que tivesse te perdido pelo meio do caminho.
Gabriel: HAHAHAH!
Fred: É, mano! Eu fui conversando contigo até chegar na minha casa, e aí eu percebi que tu não tava.
Eu: Puta merda... HAHAH!
É muita leseira. Muita mesmo. Continuamos conversando um bom tempo sobre tudo, revezando a vez no video-game. Óbvio que o Gabriel ganhava de todo mundo. Já era tardezinha... E eu não tinha ido ver a Alícia. Mas não conseguia esquecer que ela tava tão perto. O que eu posso fazer? Aparecer lá na casa dela do nada? Se o moleque atender, ele me bate. Se a mãe dela atender, vai pensar que eu to ficando louco. Se o pai dela atender, ele me mata. Se ela atender, eu não sei.
Fred: Qual vai ser a boa de hoje?
Olhei de canto pro Matt. Não queria falar nada.
Matt: Não sei. Thom?
Eu: Nada.
Fred: Ótimo. Tem uma festa animal na casa do Ale hoje.
Eu: Do Ale? A mãe dele é chata pra caralho. Duvido que ela deixe ele dar uma fest...
Fred: Os pais dele viajaram.
Eu: Hm.
Fred: Tá a fim, Gabriel?
Gabriel: Sei lá.
O Gabriel me olhou de canto. Acho que ele tava esperando que eu o chamasse, ou sei lá. Mas eu mesmo não tava muito a fim de ir.
Fred: Vocês tão desanimados pra caralho.
Resolvi mudar de assunto e aproveitei pra ajudar o Gabriel.
Eu: Fred, tu tinha quantos anos quando pegou uma guria pela primeira vez?
Fred: Que papo de gay.
Por que sempre falam isso?
Matt: Deve ter sido no pré.
Fred: Pior que não, cara.
Eu: O Fred já xavecava a tia do maternal.
Fred: Não, mano. Uma guria falou que gostava de mim na escola e eu quase bati nela.
QUÊ? Esse mundo é mesmo muito louco. O Matt até engasgou quando ouviu isso. Só o Gabriel não ligou muito, provavelmente porque não sabia da fama do Fred e nunca tinha visto ele pegando umas cinco gurias ao mesmo tempo durante a semana.
Fred: Eu era o capeta da sala que as gurias odiavam.
Eu: Eu imagino.
Fred: É sério. Eu não conseguia ficar parado, e aí minha mãe me mandou pro psicólogo na terceira série.
Disse isso batucando na própria perna, olhando pro vídeo game, conversando comigo e sacudindo a cabeça pra arrumar o cabelo.
Matt: Acho que não deu muito certo.
Fred: Mas era legal porque eu ganhava doce.
Silêncio.
Fred: E desenhava.
Silêncio.
Fred: E era uma tia gostosa. Acho que foi aí que eu comecei a gostar de mulher.
O Matt apertou os olhos enquanto olhava pro Fred. Eu tentei imaginar o que tava passando na cabeça dele. Devia ser algo do tipo: "quê?".
Eu: Tu falou tanto e nem respondeu o que eu perguntei.
Fred: AH! Eu perdi o BV com uma guria filha de um amigo do meu pai.
Eu: Quantos anos?
Fred: Sei lá. Dez.
Eu: E tu, Matt?
Matt: Eu tinha quinze.
Quinze? Eu não consigo me lembrar de quando o Matt perdeu o BV. Acho que... PORRA, LEMBREI!
Eu: NOSSA, TU PEGOU A FLAVINHA! - apontei pra ele quase tendo um surto.
O Matt se afundou no sofá de vergonha.
Fred: Hahaha. Quem é Flavinha?
Eu: Uma guria da minha rua. Que engraçado! HAHAH!
De repente me vieram várias lembranças. Eu e o Matt demoramos pra pegar alguém se comparado com os outros moleques da nossa rua. Óbvio que a gente sempre mentia sobre isso. Eu falava que já tinha pegado a prima do Matt e ele falava que a namorada dele morava do lado da casa da minha vó. Assim ninguém nunca ia atrás pra saber quem era. Num dia qualquer eu tive a sorte de ficar com uma guria da minha sala e aloprei o Matt até não poder mais, como se eu fosse o maior pegador. Que idiota. Acho que ele ficou tão desesperado que resolveu dar uma chance pra essa Flavinha, uma guria muito zoada que morava na minha rua e gostava dele. Mas fui um cara legal e não contei nada pro Fred dessa vez.
Fred: Queria conhecer vocês nessa época.
Eu: Bons tempos.
Matt: Nem tanto.
Eu: Tu é desse jeito desde os dez anos, Fred?
Fred: Desse jeito como?
Ele perguntou sorrindo. Era óbvio que ele sabia o que eu tava querendo dizer, só queria que eu falasse alto que ele pegava todo mundo.
Eu: Um idiota.
Fred: HAHAH! Não, eu demorei mais de um ano pra pegar outra guria depois.
Matt: Isso é muito estranho de se ouvir.
Fred: É. Acho que foi na sexta série que eu percebi que as gurias me curtiam. Sabe como é.
Pff.
Fred: E tu, Gabriel? Tá quietão aí.
Puta merda, coitado do moleque. Justo o Fred foi perguntar pra ele sobre isso. Se ele disser que tem treze anos e nunca ficou com ninguém, acho que vai ser zoado até perder a virgindade. E olha lá. Olhei meio tenso pra ele.
Gabriel: Eu tenho namorada.
Fred: Tu?
Gabriel: É. Faz dois meses, mas já to de saco cheio. Acho que não nasci pra namorar. Dá muito trabalho.
Ele mentiu com tanta naturalidade que eu mesmo quase acreditei.
Fred: HAHAHAH! Boa, Thomzinho.
Tinha que ser meu "irmão". Ele continuou jogando video game como se nada tivesse acontecido. Eu ri sozinho.
Fred: Tem comida aí?
Eu: Sei lá.
Gabriel: Tinha lasanha, mas o Thom comeu tudo.
Fred: Porra, Thomaz.
Matt: A gente podia comer lanche da tia da pista hoje.
Fred: BOA! Vamo aí, Thommo?
Eu não tava com fome depois de ter comido uma lasanha inteira sozinho. Mas seria legal ir pra lá encontrar os caras.
Eu: Vamo aí.
Fred: Tua namorada deixa tu ir, Gab?
Gabriel: Ela não precisa saber.
Subi pra pegar umas sedas que tavam no meu quarto e depois encontrei todo mundo lá fora. A época em que eu morava nessa casa era boa porque eu podia fazer tudo a pé. É perto da escola, da pista, da Alícia. É até meio perto da Mondal, se tu tiver a fim de andar um pouco. O Fred hiperativo que foi pro psicólogo na terceira série foi cantando rap da minha casa até a porra do outro quarteirão.
Fred: Recite some old lyrics, make a bitch fall in love then I'm on to the next 'cause one is not enough! One is not enough! Nah, one is not enough!
Eu: Fica quieto, caralho.
Fred: Thommo, tu vai ser um velho muito chato.
Eu: Tsc.
Fred: Tomara que tu tenha vários netos iguais a mim.
Eu: Não vou ter netos.
Fred: Vai sim. Eles vão ficar cantando rap na tua cabeça.
Matt: Hahahaha.
Fred: O Matt vai ser aquele vovô da horinha que usa suspensório e boina.
Eu: E tu vai morrer com 21 anos.
Fred: Que beleza! Tenho mais três anos pra cantar pra ti.
Já aturo esse cara há uns cinco anos, o que seriam mais três? Passamos em frente ao bar onde a Alícia trabalhava há um tempo atrás. Lembranças e mais lembranças.
O Fred continuou cantando e cantando e cantando... Mas já estou tão acostumado a ignorá-lo que me esqueci que ele tava ali em segundos. O Matt ficou de boa com seu melhor amigo, o iPod. Só o Gabriel tava dando atenção pra cantoria do Fred. Nunca a pista me pareceu tão longe. Devia ser porque eu tava todo machucado e fodido, que bosta. É melhor eu pensar numa história muito boa pra contar pros caras antes que alguém conte que eu apanhei pra caralho de um mauricinho.
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