"Meu mar interno é agitado, sombrio, infinito. Nunca aprendi a nadar, e por isso, afundo sempre. A água gelada envolve meu corpo, mordendo minha pele como dentes invisíveis. Não há um barco de madeira antiga na superfície, nenhum socorro à vista - apenas eu e meus demônios, que jamais consegui afogar. Eles nadam ao meu redor com uma graça que me insulta, sussurrando segredos que parecem ecoar no vazio do oceano, enquanto eu me entrego às águas, exausta.
O peso que me arrasta ainda mais para as profundezas é um castelo imenso de pedras e cimento, alojado em minha alma e fora do meu corpo, erguido ao longo da minha vida sem que eu percebesse. Só agora, quando já não o suporto mais, reconheço sua existência.
Eu não construí esse castelo sozinha. De início, acreditei estar cultivando um jardim, com flores e lagartas que se tornariam borboletas livres. Vi mãos amigas trazendo pequenas pedras, aparentemente inofensivas, e as aceitei como enfeites para o meu jardim. Mas as pedras, em silêncio, se acumularam, e o cimento se fixou - impiedoso e cruel. Agora, estou soterrada.
Cada pedra carrega o peso de um trauma perturbador... de uma solidão imposta... de palavras não ditas, expectativas inalcançáveis, promessas quebradas. São escolhas que se perderam no caminho e ausência de tantas outras, como se tudo tivesse desaparecido antes que eu pudesse decidir. Não sei como dilacerar essa prisão cinzenta, essas camadas frias e sufocantes que cobrem cada centímetro de quem sou.
Minhas mãos, enrugadas por essas águas congelantes e feridas pelas tentativas incessantes de arrancar essas pedras, já não têm força. Elas desistiram. Largaram a luta. O frio estéril agora é parte de mim. Meus dedos estão tão rígidos que mal reconheço seus formatos. E cansada, com um esgotamento tão profundo quanto o próprio mar, estendi meus braços aos demônios que antes rejeitei. Eles não têm rostos, são sombras que me abraçam com um toque que parece tanto familiar quanto inevitável.
Assim, permiti que as sombras fantasmagóricas me envolvessem, que me cobrissem por completo. Num movimento de rendição silenciosa, deixei que me carregassem. Como quem se entrega ao curso de uma corrente sem resistência...
E, após tanto tempo, minhas narinas rompem enfim a barreira das águas. Meus pulmões recebem, finalmente, o oxigênio da superfície, o ar é cortante, queimando meu peito como fogo líquido. Os gritos, antes sufocados pelas águas profundas e nas minhas cordas vocais, rasgam o silêncio junto com as lágrimas que agora escorrem pelo meu rosto. Fundidas às águas gélidas até este momento, elas me permitem sentir o quão quentes e salgadas são.
Meus pés encontram algo sólido e anseiam pelo chão de areia úmida e suave, enquanto minhas mãos desejam o toque da grama macia. Mesmo com todo o peso ainda sobre mim, quero me agachar, inclinar meu rosto à terra, sentir o cheiro fresco da vida que ainda pulsa nela e, por um instante, rolar entre as folhas e pétalas de flores caídas - aquelas trazidas ao meu encontro pelos assobios dos ventos, como se fossem presentes da memória.
Quero entregar-me ao que resta. Mas sei que qualquer movimento será fatal: esse peso em minha existência frágil me esmagará, triturando os últimos fragmentos de quem sou. Talvez seja uma despedida bonita. Aceito o destino.
E, num movimento sereno e inspiração profundamente lenta, me abaixo carregando também meus demônios para a superfície do chão. Ele me recebe com o acolhimento de uma quietude indiferente. As flores brotam onde meu corpo encontra alívio; as lagartas, finalmente, tornaram-se borboletas livres.
O frio gentil da terra, que tantas vezes abrigou a vida, agora aconchega o meu corpo. Não sentirei os vermes e os insetos percorrendo minha pele, mas, de alguma forma, o tormento se foi.
No abraço de um vazio silencioso e eterno, encontro a leveza que por muito tempo pareceu inatingível. Ela me acolhe com a mesma certeza da terra que me recebe, e enfim, me liberta para descansar."