Apanhado de críticas #1
Inauguramos esta semana o Apanhado de Críticas, uma coleção de pequenas resenhas mais ou menos recentes que motivaram um comentário mas não justificaram a nossa tão amada forma do testamento. Esta semana apanhamos dois filmes e um disco.
«The Mortal Instruments: City of Bones» (Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos) por Hugo Gomes
Artigo aqui.
É prática comum do site C7nema pontuar as suas críticas com duas curtas frases ilustrativas do "melhor" e "pior" do filme, uma forma eficaz como qualquer outra de dar ao leitor mais preguiçoso um apanhado do essencial da crítica, garantindo o click na página mesmo que o texto não seja lido. Mas tem os seus revezes. Ora, há uma razão por que até a própria Culatra abandonou cedo essa prática, e reside no risco de poder não só falhar em captar o essencial do texto, seu propósito principal, como o deturpar pura e simplesmente.
Exemplo típico é o ultimo texto de Hugo Gomes, perfeitamente competente na análise dum filme que não tem muito por onde se analisar. Mas enquanto no texto se discorre que as personagens são algo “anoréticas” e que a trama sofre duma simplicidade que poderá comprometer o desfrutar do filme por alguém a quem nunca tenha ocorrido escolher entre Edward e Jacob, na frase final o rigor perde-se em prol duma perspetiva algo injusta, não só para o seu objeto como para o texto que pretende resumir.
O melhor - Os cenários góticos e exuberantes O pior - é cinema adolescente, desenvolvimento de trama e personagens é algo que praticamente não existe
Não sei o que é “cinema adolescente”, o que representa e quais são as suas características tipo. Pretende-se falar de filmes para adolescentes? A Pixar também os faz, assim como qualquer produtora que ainda seja milionária, e qualquer blockbuster tem os adolescentes como parte essencial (quando não principal) do público-alvo. Ou pretende-se fazer referência a filmes de temática adolescente? Tais como Mean Girls,The Breakfast Club, Juno, Dazed and Confused, Rushmore, Superbad, Get Real, …? Estou aberto à discussão, mas levem-me já preso caso seja lei que estes filmes devam ser vistos como qualquer coisa diferente de muito bons.
Acabamos por ficar sem saber o que é o cinema adolescente, uma pena, assim como a relevância desta discussão não só para a cinefilia em geral como para a leitura da crítica do Hugo Gomes. "O filme é mau, eis as razões por que é mau" não seria suficiente? É necessário ultra-generalizar com o uso de estereótipos, como se o leitor fosse um boi doente que só responde aos estímulos mais básicos? Fica esta dúvida mas também a certeza que isto das frases finais devia ter finado com a PREMIERE...
3/5
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«Pain & Gain» (Dá & Leva) por Nuno Miguel Pereira
Artigo original.
A história (baseada em factos reais) conta a odisseia de 3 culturistas (interpetados por Dwayne Johnson, Anthony Mackie e Mark Wahlberg) que, por diferentes razões ( que variam deste a cocaína, a poder e a injeções nos genitais), querem mais dinheiro. Para isso, decidem raptar multimilionários, torturá-los e obriga-los a assinar papéis a ceder-lhes toda a sua fortuna. Obviamente que este plano tem muita coisa para correr mal.
Existe na crítica de Nuno Miguel Pereira uma leve defesa de Michael Bay, pelo menos por ter oferecido uma primeira parte (antes do intervalo?) divertida. São referidos carisma das personagens, sex symbols, carradas de ação e ainda uma menção especial ao papelão de Tony Shalhoub, como “multimilionário execrável”. Basicamente, os típicos elementos que fazem dos filmes de Michael Bay filmes de Michael Bay.
Tudo bem. Mas tendo em conta que o filme, segundo o escriba, tem como protagonistas gente que "rapta pessoas para lhes extorquir dinheiro sob tortura" – também conhecidos em alguns ciclos mais conservadores como “a escória da terra”-, temo não ter ficado elucidado quanto ao que tornará este filme tão divertido, de todo. Conseguir que um filme com uma premissa destas se torne num momento bem passado na sala de cinema parece-me um feito notável, para Bay ou para quem for, e não apenas um pequeno fait-diver informativo para enriquecer um texto de análise.
Na falta de explicação adicional e tendo em conta que as únicos pontos apresentados a favor do filme fazem todos parte do manual de sobrevivência de Bay desde Bad Boys(1995), é possível que a defesa do realizador que é feita aqui seja um momento de revelação mais para o crítico que para o leitor: cresce assim forte suspeita de que Nuno Miguel Pereira aprecia pura e simplesmente o cinema de Michael Bay, com tudo o que o identifica. Estou completamente solidário com o gosto, mas o momento seria menos embaraçoso se o mesmo fosse mais assumido.
2/5
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Colleen Green – Sock It To Me, por Emanuel Graça
Artigo original. Artigo.
É praticamente lugar-comum começar a escrita duma critica por um qualquer assunto secundário, que logo à segunda frase ou parágrafo se revela pertinente com maior ou menor sucesso consoante a força da dita pertinência. Para além de revelar abertura de espírito, é por vezes a única maneira de começar um texto que não quer arrancar, e é por isso que o estou a fazer agora mesmo. Emanuel Graça também começou assim a sua resenha positiva ao bem agradável Sock It To Me da jovem Colleen Green, mas carregado de maus fígados, na forma de insulto ao trabalho – circa anos 90 – dos hoje clássicos Blink 182. O texto da Pitchfork, possível guia principal para este texto do escriba português, já revelava a influência das malhas dos rapazes de ontem na composição das canções da jovem de hoje, mas aquele que poderia ser apenas um pormenor tornou-se o alicerce de todo o texto.
Parece-me excessivo: perder tanto tempo a apelidar de ”merda” a música dos Blink 182 e ao mesmo tempo agradecer aos céus o seu papel na escrita de Sock It To Me parece-me juvenil e revelador de vistas curtas. Afinal, existe uma razão por que o texto original da Pitchfork não tece demasiadas considerações sobre os pop-punk-rockers da Califórnia, apesar e talvez exatamente devido ao facilitismo que isso revela. É aliás pouco motivante que quase todo o texto do Emanuel Graça se dedique aos sons anteriores em pelo menos 10 anos de Sock It To Me, pois para além dos Blink que o original Pitchfork refere apenas em passagem versus o festival de ódio encabeçado por Emanuel, é dedicado também um parágrafo à importância dos grupos femininos da década de 60 para o som de Colleen, embora de forma menos completa e ao mesmo tempo mais palavrosa que no original da Pitchfork. O resto das linhas são preenchidas com pequenos nadas como
“Em suma, não é fácil abordar um disco como Sock It To Me; não é uma coisa totalmente inovadora, e tudo o que aqui foi feito já o tinha sido anteriormente. É uma pop alternativa.”
e restantes esforços por complexificar a degustação de um conjunto de canções ostensivamente simples e diretas. O texto original do Pitchfork decidiu começar por este assunto secundário, o de que a música mais direta tem tanta validade como a que pretende outros horizontes mais densos e complexos. Já o Emanuel decidiu dedicar as primeiras linhas ao “legado de merda” dos Blink 182, e creio que por lá ficou.
2/5 - Reles










