Era um dia qualquer de novembro em 2015, mas foi também: a segunda vez que assisti um longa de Guerra nas Estrelas no cinema e a terceira vez que encontrei uma gatinha Bengal perdida na rua da padaria.
Dizem que a terceira vez Ă© mĂĄgica, e nas outras duas vezes eu estava SAINDO de casa e nĂŁo voltando, entĂŁo como havia prometido em meu coração desde antes de vocĂȘ saber disso, aquele era o dia em que vocĂȘ ganharia um novo lar.
Estavam lhe expulsando da nossa mesa quando mandei pararem e solicitei uma caixinha de papelĂŁo pra ajudar nessa transição. VocĂȘ, mediante toda a movimentação, ficou agitadinha por alguns minutos e depois aquietou-se e começou a ronronar.
Acho que, apesar do completo desconhecido que aquele espaço pequeno emanava, vocĂȘ sabia que a partir daquele momento nossas vidas seriam completamente diferentes.
Belinha, vocĂȘ chegou em casa com tanta fome que imediatamente comeu um arroz frio com restinho de sachĂȘ que tĂnhamos, milagrosamente, na geladeira. Lembro que vocĂȘ nunca mais comeu arroz depois disso, e que sempre brincava que Ă© porque vocĂȘ subiu de vida. VocĂȘ nunca me deixou sozinho: aonde eu ia, vocĂȘ fazia questĂŁo de ir atrĂĄs.
Especialmente se vocĂȘ sabia que eu estava tomando um sorvetinho â quantas vezes vocĂȘ nĂŁo me pediu um pouquinho e ficou esperando derreter porque era frio demais?
O tempo passou e, apesar da idade, vocĂȘ sempre foi mais brincalhona (e menos desastrada) que seus irmĂŁos mais novos. IncrĂvel o brilho no seu olhar com um ratinho falso, aquelas perninhas com chocalho ou o meu mouse durante o horĂĄrio de trabalho. Lembra de quando vocĂȘ simplesmente DILACEROU um cabo enquanto eu sĂł queria terminar meu TCC, ou de quantas vezes vocĂȘ simplesmente DEITOU em cima do meu braço INTEIRO enquanto respondia e-mails importantes? E aquela vez em que estĂĄvamos numa reuniĂŁo importantĂssima e vocĂȘ simplesmente FECHOU meu notebook (e foi difĂcil tirar vocĂȘ de cima dele)?
A sua penĂșltima internação havia lhe tirado, talvez, parte do seu prazer preferido: a audição. Sei que gostava de mĂșsica â e era bem tumblerzinha, pois adorava um LP. VocĂȘ sempre gostou de ficar observando o disco rotacionar, como se tentasse compreender como funcionava aquilo⊠o Ășnico disco que vocĂȘ encrencou atĂ© hoje foi a prensagem ruim e nĂŁo substituĂda do As Quatro EstaçÔes pela Universal Music, que ainda deve ter a marca da sua patinha atĂ© hoje.
Seus olhinhos brilhavam mesmo com os clĂĄssicos: Madonna era sua artista preferida, nĂ©? NĂŁo podia ouvir o Like a Prayer que se deitava em cima da capinha, prĂłximo da caixa de som, e começava a ronronarâŠ
Lembro de todas as vezes que chegava em casa decepcionado por um dia de trabalho ruim e vocĂȘ, sem saber, me recepcionava com uma massagem capilar e um mooonte de lambidas, me fazendo sentir a pessoa mais importante do mundo.
E quando eu te colocava no colo? VocĂȘ simplesmente, do seu jeitinho, me retribuĂa com um abraço. E vocĂȘ fazia o possĂvel pra apertar o mĂĄximo que pudesse, sĂł pra eu saber o quanto era especial. Nenhum outro gato fazia igual.
VocĂȘ sempre foi comunicativa, e a gente sempre se entendeu. Eu sabia que tinha alguma coisa de errado com vocĂȘ, minha filha, quando vocĂȘ miava alto mesmo aparentando estar bem. Ă uma pena que mesmo visitando a veterinĂĄria duas vezes naquele domingo, o universo tenha decidido que era hora de vocĂȘ ir embora. Se soubesse que aqueles eram nossos Ășltimos minutos, Belinha, saiba teria gasto estando mais do seu lado e menos conversando com a veterinĂĄria. Eu tinha muita esperança de voltar com vocĂȘ para casa.
Tinha muita vontade de ter vocĂȘ deitadinha, empurrando as prateleiras e objetos da minha mesa como sempre, inutilizando gravaçÔes de DVD-Rs quando vocĂȘ simplesmente pulava em cima do gravador externo DO NADA, me assustando na hora do trabalho sĂł pra se deitar atrĂĄs do computadorâŠ
Ă, todas as vezes que deito na minha cama e vocĂȘ nĂŁo ocupa o lugar de sempre, ou quando vou na cozinha e vocĂȘ nĂŁo estĂĄ esperando pra saber o que vamos cozinhar, ou quando vou ao banheiro e vocĂȘ nĂŁo estĂĄ na porta, me sinto um pouco vazio.
A verdade Ă© que foram nove anos e quase dois meses de muitas histĂłrias, companheirismo e amor mĂștuo, e Ă© impossĂvel descrever como todos os dias tem sido difĂceis desde que vocĂȘ se foi. Um dia desses vocĂȘ apareceu no meu sonho, e era tĂŁo real que pude sentir seu pelo mais uma vez, brincar com vocĂȘ mais uma vez⊠uma Ășltima vez. Sei que vocĂȘ veio me avisar que estava bem. E apesar do vazio que sua ausĂȘncia deixou por aqui, fico feliz de saber que agora vocĂȘ estĂĄ num lugar melhor. Muito obrigado por tudo, viu? De alguĂ©m que sente muito a sua falta.