curitas
NĂŁo sei se preciso de fĂ©rias, ou se preciso de saciar esta idealista vontade de existir nas memĂłrias que cuidadosamente escolho do meu passado. As fĂ©rias de trĂȘs meses. O algarve Ă beira-mar. As duas semanas que a minha mĂŁe fazia questĂŁo de nĂŁo encurtar, mesmo que os restaurantes nĂŁo tivessem existido durante mais de cinco anos nas nossas experiĂȘncias. Mas nĂŁo me queixo de boca cheia. Tenho coração quente e salgado, nĂŁo resfria no banho pelo mar e com marcadas cicatrizes do salitre que agora se abrem pela falta dele. Sangro na ressaca de uma dependĂȘncia que sĂł se agrava a cada ano. NĂŁo sei se culpo a sua ausĂȘncia por estar insatisfeito com o resto da minha vida, ou se estou insatisfeito pela incompreensĂŁo dos outros que a distĂąncia de um pĂ© na areia faz mais cĂłcegas do que um pneu a arder nas notas para andar. E para estar parado. Parado a ir, e parado a ficar. O pĂ© nĂŁo para. E por isso nĂŁo sei se aumento a responsabilidade da minha infelicidade nesse pequeno facto, jogando as fichas todas na mesma casa e no mesmo nĂșmero, acumulando, ou se Ă© sĂł inveja dos meus pais que foram ao algarve esta semana saciar a deles. E a tristeza de nĂŁo puderem pagar umas fĂ©rias como dantes. E a casa nĂŁo ser a dantes. E o tempo nĂŁo ser o de antes. AtĂ© da televisĂŁo a preto e branco sinto falta.
NĂŁo se se preciso de fĂ©rias ou se me serve tapar as previsĂ”es com as memĂłrias para me acalmar, como uma benzodiazepina a marcar o compasso do curita que descobri ser marca e nĂŁo objeto. Daquelas marcas que se torna objeto, mas que poucos na verdade parecem conhecer. Poucos parecem perceber, tal como o quĂŁo terapĂȘutico Ă© ouvir o azul, e vĂȘ-lo revolto, e mergulhar no seu casamento aberto com a areia, porque sĂŁo modernos agora, e o mar nĂŁo Ă© de ninguĂ©m.
Se pudesse, pintava o teu nome em todas as ruas. Se pudesse, ia de férias e voltava quando soubesse ao certo fazer a minha vida funcionar. Mas para jå vou tentando, existir, e por tudo junto. A jeito. Como posso. Com cuspe, fita cola, e um curita para não sangrar.
vinte e quatro julho vinte e dois, godrigues


















