CapĂtulo 1 - Protocolo de chegada
Acordo antes de entender que estou acordando. Não há uma passagem clara entre o momento do impacto e este aqui, nenhuma luz no fim do túnel, nenhuma sensação de flutuar. Só um vazio que dura o tempo que dura, e depois: uma cadeira desconfortável sob mim, uma luz branca e o som de uma caneta riscando papel, devagar e monótona.
Levo um segundo para perceber que estou sentada. Outro para notar que não estou tremendo de frio, embora devesse pois lembro da chuva e do vento. Aqui não chove. Aqui, na verdade, não parece haver clima nenhum, só essa luz artificial e um zumbido baixo de ventilação constante.
— Nome — diz o homem à minha frente, sem levantar os olhos.
Ele está sentado atrás de uma mesa metálica, preenchendo algo com uma letra tão precisa que parece impressa. Não é bonito, nem feio é apenas neutro, do jeito que um formulário é neutro, do jeito que uma sala de espera de hospital é neutra. Terno cinza. Cabelo cinza. Até a pele parece ter um pouco de cinza.
— Onde eu... — Minha voz sai rouca, estranha, como se não fosse usada há muito tempo.
— Isso não está no formulário — ele diz, ainda sem me encarar. — Mas, já que você vai perguntar de qualquer jeito: você está morta. Isto aqui é o Processamento de Almas, Setor 4. Nome, por favor.
A palavra morta deveria doer mais do que dói. Em vez disso, ela simplesmente... faz sentido. Como se alguma parte de mim já suspeitasse.
— Vesper Morrow — digo, porque não tenho mais nada além do meu nome para me agarrar.
Ele anota. Não pergunta idade, nem profissão, nem se eu tinha alguém esperando por mim em algum lugar, e é esse silêncio, essas perguntas que ele não faz, que me assustam mais do que qualquer coisa que ele poderia ter dito.
— Isso é o Inferno.
— Tecnicamente. — Ele organiza os papéis numa pilha perfeitamente alinhada, cantos batendo contra a mesa até formarem um retângulo exato. — Prefiro "Administração Central". Soa menos dramático. E é mais preciso.
Carimba a folha. O selo exala um cheiro estranho, talvez enxofre e giz molhado, e é só nesse instante, vendo a tinta escurecer sobre o papel com meu nome, que o pânico finalmente me alcança.
— Espera — digo, e minha voz sobe. — Espera, isso não pode ser... eu não fiz nada que...
— Ninguém disse que você fez. — Ele finalmente levanta os olhos. São cinzas, uniformes, sem nenhuma variação de tom, como se tivessem sido pintados com canetinha. — A maioria das almas que processo aqui não fez nada de especial. Nem bom, nem mau o suficiente para ser interessante. Você provavelmente é uma delas.
Isso, de alguma forma, dĂłi mais do que a palavra morta.
Uma criatura de uniforme cinza — criatura, pois não sei se devo chamar essas “coisas” de pessoas, embora pareçam pessoas o suficiente para que eu ache que deva chamá-las assim — me escolta pelos corredores. Ela não fala. Eu tento, duas vezes, e as duas vezes sou ignorada.
Os corredores são limpos, brancos e retos demais. Eu esperava fogo, gritos ou pelo menos escuridão, alguma coisa que combinasse com as histórias que me contaram quando criança, com os quadros da igreja, com os filmes de terror que eu via escondida depois que todo mundo dormia. Em vez disso, encontro um zumbido de lâmpadas fluorescentes e uma impressora, em algum lugar, cuspindo papel sem parar.
— Isso não devia ser... — começo, e a criatura ao meu lado finalmente fala, sem se virar para mim:
— O que você esperava? Chamas? Gritos eternos? — Há um tom de desdém na voz, um tédio de quem já ouviu essa mesma decepção um milhão de vezes. — Isso é o século errado para esse tipo de teatro. Encontramos formas mais eficientes de fazer as almas sofrerem. A burocracia, por exemplo. Espere só até você conhecer a fila de reclamações do Departamento de Contratos.
NĂŁo sei se Ă© piada, mas nĂŁo rio, de qualquer forma. Paramos diante de uma porta com uma placa de latĂŁo: DEPARTAMENTO DE DESTINOS (TRIAGEM)
— Aqui — diz a criatura — é onde decidem para onde você vai.
A palavra decidem me incomoda de um jeito que não sei explicar. Como se eu não tivesse mais nenhuma palavra a dizer sobre o meu próprio destino. O que eu suponho, já era verdade antes mesmo de eu morrer.
A sala de triagem é pequena. Uma mesa. Uma cadeira do meu lado. Do outro, uma parede inteira de gavetas de metal que sobem até um teto que mal consigo enxergar, catalogadas por letras e números que não seguem nenhuma lógica que eu reconheça.
Uma “mulher” puxa uma das gavetas, tira de dentro uma pasta fina, e a abre sobre a mesa. Ela franze a testa.
Fecha a pasta. Abre de novo.
Passa o dedo por uma linha, como se estivesse relendo, como se a segunda leitura fosse mudar alguma coisa que a primeira revelou.
— Um momento — diz, sem me olhar, e se levanta, levando a pasta com ela.
Fico sozinha. Conto os segundos porque é a única coisa que consigo fazer para não pensar no meu corpo, em algum lugar molhado de chuva e sangue, sendo encontrado por alguém, nas pessoas que ainda não sabem que nunca mais vão receber uma ligação minha, no fato de que, em algum lugar entre um guarda-chuva virado pelo vento e essa cadeira dura, minha vida inteira simplesmente... parou.
Passam cerca de dez minutos quando a porta se abre de novo, mas não é a mulher que volta. É outra pessoa. Outra coisa. E no instante em que ele entra na sala, alguma coisa dentro de mim se contrai, como um músculo que reconhece a dor um segundo antes do golpe.
Ele é alto. Vestido com uma camiseta social ligeiramente mal passada, mas perfeitamente ajustada como se tivesse sido feito exatamente para aquele corpo e nenhum outro. Cabelo escuro com cachos bagunçados para trás e tenho quase certeza que tem covinhas nas bochechas. Quando seus olhos encontram os meus não são cinzas, como os do primeiro homem, mas muito escuros, com algo dourado tremeluzindo no fundo. Ele para no meio do próprio passo, como se tivesse esquecido o que tinha vindo fazer ali.
— Você está bem? — pergunto, porque o silêncio se estica longo demais.
Alguma coisa atravessa o rosto dele e eu não consigo nomear direito o que. Não é surpresa. É mais parecido com dor.
— PerdĂŁo — ele diz, e a voz Ă© baixa, medida, cada sĂlaba pesada. — VocĂŞ se parece com alguĂ©m que eu conheci.
— Isso Ă© impossĂvel. Acabei de chegar.
Ele nĂŁo responde imediatamente. Em vez disso, olha para a pasta fina em sua mĂŁo e algo em sua expressĂŁo se fecha, como uma porta sendo trancada com cuidado para nĂŁo fazer barulho.
— Seu processo — ele diz, finalmente, puxando a cadeira vazia e sentando-se diante de mim com uma calma irritante — foi interrompido.
O medo que eu vinha segurando desde o corredor sobe até a garganta.
— O que isso significa?
— Significa que você não vai para onde os outros vão.
— E para onde eu vou?
Ele me olha por um tempo que chega a ser desconfortável.
— Vai vir comigo.
— Eu não sei nem o seu nome — solto sem querer e me arrependo, pois saber ou não o nome dele não vai mudar nada minha situação. Um sorriso cansado passa por ele e desaparece antes de se formar de verdade.
— Vai ter tempo para isso — ele diz, se levantando, estendendo a mão oferecendo algo que não é uma escolha, mas também não é exatamente uma ordem.
Sinto medo — um medo real que aperta no peito e faz minhas mãos tremerem quando finalmente aceito a mão dele.
SaĂmos da sala de triagem. Os corredores mudam, ficam mais largos e com portas mais espaçadas. Eu nĂŁo sei ainda o nome desse lugar. SĂł sei que, quando pergunto para onde estamos indo, ele responde com uma Ăşnica frase que vai ecoar dentro da minha cabeça:
— Para onde você deveria ter ido há muito, muito tempo.









