Jogo de Sorte por Beatriz Martins
Eu desconheço muitas coisas, desconheço a gentileza, o amor e talvez, a vida. No entanto conheço cardiologia, os corações humanos e cada veia, artéria ou músculo. Conheço as praias de leve areia branca que ficam ao lado de fora da minha janela e todos os tipos de jogos. Mas principalmente, eu conheço a minha sorte.
Conheço-a desde o dia que chegou, numa mesa de cartas, quando tinha seis anos e jogava, com meu pai, um baralho recém comprado. Exatamente no mesmo dia em que minha mãe saiu pela porta da frente e nos deixou, sem nunca olhar para trás. A minha sorte.
Mas assim como eu a conheço, sei também sobre o meu azar. Depois de muitos anos sem saber o paradeiro de Aurora, simplesmente a vi parada diante de meus olhos como se absolutamente nada tivesse acontecido. Ela agiu como se nunca tivesse sumido, como se nunca houvera me preocupado, como se ela apenas tivesse ido às compras e nunca tivesse morado na casa ao lado.
Passou de minha melhor amiga para a pessoa que menos conheço no mundo, uma garota que eu olhava com encanto e agora tento não olhar. Antes me chocava o fato dela ter partido, em uma manhã qualquer, depois de conversamos a noite inteira à beira da praia, sem ao menos me deixar um recado. Mas acho que essa é a Aurora, a mulher que gosta de ir e vir quando quiser, embora isso já tenha me ferido muito, parece que para ela foi apenas mais um dia.
Ela já fora a menina que eu queria ver todos os dias, mas isso simplesmente morreu. Assim como tudo que pudesse sentir sobre ela. Ficou um vazio, o vazio que ela mesma escolheu me deixar.
Alguns dias já se passaram desde o seu retorno, lembro-me claramente do seu sorriso radiante, iluminado e também desalinhado. Ela retornou de algum lugar e suas sardas estão ainda mais bonitas do que a última vez que a havia visto, como se tivesse esquecido de limpar o pouco de poeira que ficou em seu rosto da viagem passada. Seus olhos são tão volumosos e cheios de brilho, ela carrega uma luz enorme consigo, mas ainda assim olhar para ela me entristece. Talvez seja seu cabelo castanho, sua baixa altura, as bochechas grandes e avermelhadas. Ou talvez ela simplesmente lembre a minha mãe, que simplesmente partiu depois de observar um jogo de cartas. Aurora também partiu, se foi, mas uma parte ficou, o abandono.
Mas como disse, já não importa mais, resta apenas o vazio que eu sinto por ela. E meu azar que antes havia me deixado, agora está aqui, na casa ao lado.
A noite é calma, estou completamente perdido entre os meus pensamentos. Minha sala de estar está silenciosa, apenas com a luz do luar iluminando as paredes cinza claro cobertas por quadros sofisticados. O som da minha respiração é o que ouço, junto com o som distante das ondas e das cortinas escuras balançando nas janelas de minha casa.
Fico aqui deitado, sozinho comigo mesmo, em paz, como jamais estaria diante de outra pessoa. Ouço um toque suave na porta de entrada e desperto um pouco. Vejo Aurora parada no jardim com seus pés descalços sobre a estradinha de pedra no centro da grama recém cortada.
— Está tarde. — minha voz soa rude.
— Eu sei. — sua voz continua doce — Preciso de um acompanhante.
— O quê? Vá embora, depois conversamos. — resmungo.
Fico olhando para o seu rosto sob a luz da lua crescente e amarelada, as estrelas estão numerosas como os fios de suas sobrancelhas não feitas e mesmo com meu tom grosseiro ela não recua. Seu olhar passeia pelo jardim, passa pelas flores coloridas, pelas luminárias apagadas, pelos pequenos enfeites e até mesmo pelo mar ao longe. Isso me traz uma certa... tranquilidade?
Lança-me um sorriso largo com os olhinhos amendoados, estende a mão no ar e acena. Suas costas se viram, olho para os meus pés vestidos apenas com meias limpas e chamo o seu nome. Ela me olha com dúvida.
— Tenho que ir à festa de família amanhã, meu pai não quer aparecer em festas desde a morte da minha mãe, acaba que eu tenho que ir no lugar dele.
— E por que acha que eu iria com você?
— Porque mesmo não querendo falar comigo, você continua falando.
Engulo seco.
...
De uma forma que ainda não sei exatamente, Aurora conseguiu me convencer a ir na maldita festa. Ao chegar no local ando direto para o pequeno chafariz, no qual havia combinado de me encontrar com Aurora. Sento em uma cadeira de frente para as águas correndo do pequeno cano do chafariz, no centro do líquido inquieto.
Ela está atrasada, mas provavelmente irá no mínimo aparecer, então acho que ainda estou em vantagem. Sinto que, embora tenha aceitado vir até esta festa, começo a me arrepender bruscamente. Talvez ter ficado em casa na sala de jogos tivesse sido melhor. Suspiro um pouco impaciente, já tentando elaborar uma desculpa para ir embora.
Mas ao erguer a cabeça vejo Aurora caminhando pelo amplo salão bem iluminado. Seu vestido longo possui um tom de vermelho vivo, semelhante ao sangue arterial que vejo diariamente no hospital onde trabalho. Um vermelho que não me remete perigo, que não me remete nada de ruim. Forte como o sol no espaço. Um tom que faz seu nome ter ainda mais sentido, como se o dia estivesse amanhecendo de novo. Não costumo reparar nesses detalhes, mas por um momento eles quase me fazem esquecer o passado. Aurora finalmente para a minha frente e suspira.
— Era melhor ter vindo de jeans... — diz com uma voz quase desanimada, enquanto alisa o tornozelo.
Danço de um lado para o outro com meu corpo colado ao de Aurora, seus olhos me deixam estranhamente desconfortável. O salão é elegante, com chafarizes, paredes texturizadas para serem semelhantes à areia da praia, lustres impecáveis e claro um grupo de músicos para deixar tudo mais agradável.
Acho que Aurora tem razão, a saudade dos jeans começa a bater, assim como a saudade das comidas simples, dos meus jogos de pôquer, das expressões naturais, de tudo simples. Começo achar o ambiente alegre demais, não uma alegria reconfortante, uma forçada. Meu incômodo aumenta, mas ao olhar a garota em minha frente, a mesma que conheço desde sempre, sua expressão parece tão calma, tão serena. Essa serenidade quase me faz lembrar de como éramos próximos, quando ela morava na casa ao lado e passávamos o dia inteiro juntos.
Antes de se tornar uma pessoa distante, que mal conheço ou finjo não conhecer. É uma festa linda e triste. Danço com uma garota linda e que me deixa triste.
Mesmo assim ignoro a festa, a música, as pessoas, deixando que ela me entristeça por inteiro. Acho que é uma boa maneira de ser destruído, frente à Aurora, o meu amanhecer (ou minha escuridão? Não sei dizer).
Fico um pouco desconcertado. Ela esteve longe, sem mandar mensagem, sem fazer ligação, sem se importar. Mas ao olhá-la eu sinto sua boa energia novamente, como se nada tivesse mudado, mesmo que tenha. Há poucos dias sua mãe faleceu e mesmo que tenha cuidado de tudo, posso jurar que não a vi derramar uma lágrima sequer.
É, disso senti falta, do seu bom humor irritante e sem fim. Ela se mantém em silêncio e eu até aprecio. Tenho evitado uma conversa direta desde que ela voltara a cidade, acho que o silêncio vale mais nesse caso.
Nunca entendi muito bem os motivos dela, nem o que se passa em sua cabeça e não que eu me importe, não me importo nem um pouco, mas ainda assim não sei o que pensar, não sei nem porquê ainda não me afastei dela. Eu adoraria dizer que depois daquela festa não a vi novamente, que simplesmente voltei a minha rotina previsível, voltei a pensar apenas na medicina e manter meus colegas de trabalho longe da minha sala de jogos. Mas isso tudo seria mentira.
De qualquer maneira nunca sei quando ela vem e nem mesmo quando vai, ela não parece se importar se está no meio de uma frase ou no meio do dia. Quando ela quer, simplesmente se levanta e vai embora. Às vezes é cansativo, esperar por alguém que você não sabe quando vem e muito menos se virá. Mas de alguma forma sou incapaz de recusá-la quando aparece e quanto mais eu tento me manter longe dela, mais eu a encontro. Seja pelos mercados, pelas ruas ou até mesmo pela minha cabeça.
...
Hoje é exatamente o tipo de noite que detesto. As frias. Daquelas que nem quem ama o mar consegue molhar os pés na água. Não que aqui faça muito frio como em alguns países, mas é o suficiente para eu odiar. Mas afinal, há alguma coisa que eu ame?
Simplesmente jogo um moletom vermelho por cima de meu tronco e caminho pelo assoalho polido da casa. Sento-me no sofá, apreciando o silêncio e o escuro, como se ambos fossem amantes e esperassem o dia todo para enfim se juntarem na madrugada.
Hoje fico feliz, meus amigos não se convidaram para vir aqui. Talvez finalmente estejam deixando de achar que meu sarcasmo é uma demonstração de afeto, porque sinceramente, não é. Provavelmente deveria me sentir culpado, talvez esteja magoando as pessoas, talvez esteja afastando quem me queira por perto, mas afinal quem não se decepciona? Eu não posso me responsabilizar por expectativas alheias.
Ouço a campainha e caminho até a porta, Aurora me dá um sorriso gentil e a convido para entrar.
— Não estou muito a fim de companhia hoje.
— Você nunca está. — ela insiste, enquanto seus dedos deslizam o pingente de seu colar de um lado para o outro.
— O que você quer? — minha pergunta é objetiva, mas se mantém sem resposta. — Você não consegue responder nenhuma pergunta? Não acho você seja interessante o bastante para esconder tudo sob sete chaves.
— Então por que se incomoda?
Engulo minhas palavras ríspidas. Aurora começa andar pela casa, passa pelas mesinhas de decoração, pelos livros nas estantes e continua sem ligar os interruptores das paredes. Apenas a lua ilumina as minhas fotos nas molduras e o piano sob a escada espiral.
Seus pés pisam com leveza, mal fazem barulho. Durante um passo e outro ela tenta puxar algum assunto. Nunca apreciou o silêncio como eu. Começo a me irritar ainda mais. Ninguém é tão gentil assim, talvez ela goste de ser maltratada.
— Vamos jogar alguma coisa. — ela sobe as escadas.
Passa pelo corredor estreito e sobe a pequena escada de teto para ir até o sótão. A sala de jogos acende a luz automaticamente por causa do sensor. Ela olha ao redor, observa a mesa de sinuca bem no centro da sala, a televisão enorme pendurada na parede, os tabuleiros empilhados no fundo do cômodo, dominós e as poltronas de couro.
Ela observa tudo, e para a minha surpresa, não dá importância para nada disso. Aurora simplesmente caminha até o canto da sala e coloca os dedos sobre um cubo de vidro que guarda meu baralho da sorte.
— Você ainda tem isso? — ela pergunta com um risinho.
— Eu prefiro que você não toque. — afasto seus dedos gelados do vidro, sua mão é tão macia... — Não quero que você estrague mais nada.
— Sabe, acho que a única coisa que você trata bem é esse maldito baralho. — seu riso tímido some aos poucos.
— Esse foi o baralho que eu e meu pai jogamos no dia em que minha mãe nos deixou. – respiro aliviado. — Isso é a minha sorte, só isso merece algo bom de mim.
— Sabe, você não precisa ser sempre cruel...
— Você também não precisa desaparecer sempre e mesmo assim... — solto as palavras que a tanto tempo estavam presas em mim.
— Isso te incomoda tanto assim?
— Não, não me incomodo com nada que vem de você. Na verdade Aurora, não sou eu que fico indo atrás de alguém que não se importa comigo. Talvez você goste de se sentir mal, e tenta esconder isso
— Olha, eu prefiro sentir qualquer coisa a não sentir nada. Prefiro estar perto desse seu mau humor de merda, do que nunca mais estar perto de você.
Sinto um aperto desconfortável no peito.
— Você não se importa com ninguém. Deixa tudo para trás e finge que nada aconteceu. Eu disse que não queria companhia, vai embora, afinal é o que você faz de melhor.
— Sempre tento ser sua amiga, mas você só sabe pensar em você, às vezes as pessoas precisam ir e isso não quer dizer que elas não te am...
— Não precisa tentar. — interrompo-a antes que consiga terminar de falar. — Eu não quero e nem preciso de você. Nem sei mais quem você é.
— E sabe quem você é?! — sua voz soa provocativa.
Ela vira de costas e vejo seu colar cair no chão. A mulher simplesmente sai da casa e temo que uma parte de mim tenha ido junto.
...
Por vários dias eu pensei que ela voltaria, para pedir desculpas, mudar de assunto, para buscar o colar com o fecho quebrado ou até mesmo dizer que sou desprezível. Tinha esperança que acordaria no meio da noite com aquele sorriso, mas ela deixou o silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
Até pensei em procurá-la, dizer que eu sinto muito, mas na verdade não sei se sinto. Apenas fiquei onde sempre estive, me perguntando o que ela poderia estar fazendo. Acho que deveria esquecer novamente, como sempre fui obrigado a fazer.
Caminho pela casa e ela parece ainda mais vazia do que o normal. Acho que nunca me senti tão estranho. Decido então ir à sala de jogos ver a minha sorte, aquelas cartas me fazem bem, me lembram de que nada é em vão. Subo as escadas e dou de cara com um vidro vazio, meu peito aperta e gela. Corro para verificar melhor enquanto o sangue já me vem à cabeça, mas não encontro as cartas, encontro apenas um bilhete.
“Acho que está claro que só conhecemos isso, a montanha russa entre idas e vindas, entre sóis e tempestades. Sua sorte não está comigo junto com esses naipes, sempre esteve contigo para fazer o que quisesse com ela. Você escolheu viver para um objeto, enquanto eu escolhi viver para coisas que ainda precisava conhecer. Nossas escolhas nos fazem quem somos, entretanto as minhas escolhas me lembram de algo bom, você e sua sorte. Mas e você, o que guarda?”
Olho para o colar na cômoda ao lado, com um pingente de prata em formato de interrogação, o lembrete daquela noite. Sinto tudo mudar. Antes eu afastava Aurora da minha cabeça, mas sempre com a esperança dela voltar. Talvez agora não reste nada.
Ela partiu com a minha sorte e com a minha esperança, com minha paz e com o meu caos. Foi um amanhecer assim como foi a completa escuridão, pode ter sido minha sorte da mesma forma que foi o meu azar, pode ter sido os dois lados de uma mesma moeda ou muitas outras coisas. Mas agora parece o fim.
Aperto o bilhete em minhas mãos e posso lembrar daquela droga de sorriso. O fim do caos e do oásis.
Ou pode ser um novo amanhecer.
Uma nova tentativa.














