A Caçada por Jonathan Biam
A primeira e mais marcante expedição de uma vida estava para começar. Um grupo de pesquisadores incluindo o jovem biólogo Guilherme chegava a uma região recém descoberta e praticamente inexplorada no sentido científico. Os colonizadores cruelmente eliminaram os nativos e expulsaram os sobreviventes há poucos anos, e agora uma nova civilização se estabelecia naquela terra batizada de Orbis por seus invasores. Acadêmicos de várias áreas estavam entusiasmados para descobrir os segredos e novidades sobre aquela terra tomada por seu povo.
Guilherme tinha um profundo fascínio por todas as criaturas vivas, por esse motivo escolheu a carreira de biologista e seu desejo era encontrar novas espécies, mas principalmente cuidar dos seres à sua volta. Embora vários de seus colegas estivessem entusiasmados com o que fosse talvez a maior oportunidade de suas carreiras, Guilherme sentia desconforto e tristeza ao lembrar da tribo que vivia em Orbis anterior à chegada de sua gente. E sentia também pena de todos os bichos que sofreram e ainda sofriam ao serem explorados e mortos, muitas vezes sem necessidade pois não eram nem usados para alimentação ou vestimenta, eram apenas abatidos como se a vida fosse descartável. Ele mal podia esperar para estar em contato com as bestas daquela terra, entendê-las e se conectar com elas, como sempre fazia em todos os lugares que visitava.
No dia após a chegada, antes da alvorada, os pesquisadores se equiparam e foram divididos em grupos. Guilherme foi designado para a equipe que exploraria as ruínas, juntamente com Nadir e Antônio, um casal de estudiosos vindos de famílias abastadas, pretendiam fazer fama com suas descobertas sobre as construções antigas do povo que antes habitava Orbis.
— É tão injusto que tenhamos que passar por tudo isso — reclamava Antônio — As acomodações do barco não eram nada cômodas, a viagem foi longa e nauseante além de entediante, agora temos que estar nesse lugar sujo, acordar cedo e andar nesse mato, e ...
— Por que se tornou pesquisador de campo então? — interrompeu Guilherme apenas para ser ignorado.
— Deixa de ser chato, Toni, você sabia que chamaram voluntários porque essa viagem não ia ser nenhum passeio agradável. Os recursos foram destinados à equipamentos e utilidades para os estudos. Só viemos aqui para fazer nosso nome.
Em meio a conversa, os dois se distraíam enquanto Guilherme coletava informações e fazia anotações, guardava amostras interessantes do local em sua bolsa quando percebeu que na trilha havia um gafanhoto prestes a ser pisado por Nadir.
— Ai! Que isso? — Nadir gritou.
— Larga o pé dela — mandou Antônio
— Desculpa — disse Guilherme deitado no chão, com a cara na terra, embaixo de Nadir, enquanto segurava em uma mão a bota da mulher e protegia o gafanhoto com o outro braço.
— Sério que você se jogou por causa de um inseto? — Antônio desdenhava.
Guilherme não se importou e, aliviado, libertou o gafanhoto que saltou para longe. A trilha continuava e a caminhada era interrompida para observar tendas e casas dos antigos habitantes abandonadas. Antônio fazia rascunhos de diferentes construções precárias que encontravam enquanto Nadir observava e escrevia sobre as estruturas, as quais contrastavam com o acampamento de caçadores, mineradores e vários outros tipos de trabalhadores braçais que vieram nas primeiras levas da colonização. E as conversas no percurso passaram a incomodar mais a Guilherme.
— É só seleção natural. Não é errado que uma civilização avançada suplante a ultrapassada. Não tinham tecnologia... — Nadir dizia.
O biólogo não se prestou a ouvir o resto daquele absurdo e se embrenhou na mata ao lado do caminho para seguir a trilha de um caçador a qual já havia reparado. Ele observou que as pegadas e as feridas de corte nas plantas levavam até uma ruína de uma masmorra. Visualizou então o homem armado apontando sua espingarda para um grande gato selvagem de um tipo desconhecido. Guilherme desesperadamente gritou para que o caçador se afastasse enquanto corria em sua direção para impedi-lo de ferir a criatura, ou o oposto. Devido aos tropeços e escorregões do biologista, o felino se afastou e sumiu de vista em meio aos corredores da ruína, mas outro grande gato surgiu por trás e cercou os dois homens contra um canto das paredes de pedra. O caçador disparou e avançou em direção à fera, mas esta desviou com graça incrível para uma besta de dois metros de comprimento que pesava mais que os dois homens juntos.
Guilherme então tentou, em vão, imobilizar o caçador, já que este não ouvia seus apelos de não violência. O caçador respondeu com uma forte coronhada na cabeça do biólogo e um chute na perna que o desestabilizou gravemente, indo com o rosto de encontro ao chão enlameado. Agora com a visão obstruída, Guilherme precisava contar com seus sentidos para salvar a todos os presentes naquele conflito. Se arrastando com dificuldade na direção do som de carregamento da espingarda, o biólogo avança ao que pensa ser a arma e puxa o braço do atirador, mandando o disparo para cima, no momento preciso, enquanto o gato os encarava ameaçadoramente rugindo, à distância de um salto. Guilherme tateou a mão do caçador e conseguiu forçar mais um disparo direcionado ao nada, seu adversário irritado e apreensivo se desvencilhou e o golpeou mais uma vez, levando-o ao chão.
Nesse momento, o outro gato selvagem retornou por cima da parede cercando os dois homens no cômodo da prisão de pedra, rugindo ruidosamente, exibindo suas presas gigantes, pronto para atacar a qualquer instante. Ficaram fechados em meio às paredes e entre as feras. Guilherme, abatido, levantava-se e limpava seus olhos da lama, apenas para se deparar com um felino rosnando atrás de si e um homem apontando uma espingarda engatilhada para seu peito.
— Não atire, ninguém tem que sair ferido daqui — clamou Guilherme.
— Esses bichos vão matar a gente e as pessoas no acampamento se eu não matar eles aqui! — bradou o caçador.
Então o biólogo apontou em direção a um outro cômodo o qual se podia enxergar pelas falhas nas paredes, e ali podia ser observado um "ninho" com filhotes felinos de olhos ainda fechados.
— Não é verdade, eles estão apenas se protegendo, aposto que antes de você vir aqui eles nunca atacaram, porque evitam áreas movimentadas, não é mesmo?
— É, mas não pode brincar com a sorte. Agora sai da minha frente, que eu vou atirar.
O biólogo se manteve de pé como podia entre as violentas criaturas, mas os grandes gatos selvagens eram racionais o suficiente para defender seu território sem ferir um invasor desnecessariamente. Toda aquela tensão parecia durar horas, mas tudo ocorreu em instantes e, por fim, o caçador cedeu, e abaixou sua arma.
— Cê tem coragem, sorte sua que só tenho duas balas. Tira a gente dessa situação então.
O biologista tomou uma posição encolhida para demonstrar que não tinha intenções hostis e começou a assobiar uma melodia que sabia ser de uma frequência tranquilizante para as feras. Em alguns momentos, os gatos selvagens se retiraram aos saltos pelas paredes e deixaram os homens irem em paz.
Guilherme era apenas um iniciante na carreira que tanto amava, mas a experiência seria ganha durante sua estadia em Orbis, e sua preocupação e cuidado com as criaturas trariam importantes mudanças àquele lugar.
















