Levantei-me extremamente disposto. Mimi ainda estava completamente aéreo e sonolento quando eu o levei para o banheiro e fiz o que quis com ele lá. É claro que apenas uma noite não saciara meu desejo. Impossível. Do jeito que DongHae me deixara, seria necessário algumas seções de sexo selvagem para que eu me restabelecesse. E, graças a Deus, Zhou Mi tem esse apetite sexual que é o seu natural; eu, porém, só experimentava aquilo quando um DongHae da vida vinha me atiçar. Zhou Mi era quem saia ganhando no final das contas.
A muito esforço, conseguimos deixar a banheira e, enrolados na mesma toalha, voltamos ao quarto e nos vestimos. Eu teria que voltar ao meu dormitório e me aprontar devidamente para as aulas, de modo que me despedi de Mimi com um beijo caloroso e uma encoxada marota no meio do corredor e segui para os meus aposentos, assobiando Have you ever seen the rain? Eu adorava músicas sobre chuva, chuva me lembra outra coisa saindo de alguma outra coisa, um fluído corporal qualquer saindo de um orifício aleatório... vocês estão me acompanhando? Eu sou tão pervertido, não sou?
Cheguei a meu quarto, já tirando as roupas e atirando-as ao chão. RyeoWook, que estava a dar o nó em sua gravata, não se surpreendeu ao me ver só de cueca passeando pelo cômodo, afinal ele já estava acostumado com minha falta de pudores. Tão acostumado – e bem adestrado – que ele mesmo apanhou minhas roupas, as dobrou e as colocou em meu armário. Eu tenho que reconhecer que, apesar de ser uma cobra traiçoeira, RyeoWook era muito útil e competente em seu ofício como meu lacaio. Testemunhando toda a sua dedicação ao realizar aquela tarefa, sua maneira delicada em dobrar minhas vestes e guardá-las, eu até o desculpei por não ter votado em mim. Mas meu perdão durou só alguns segundos, o suficiente para que eu me recordasse de como eu fora humilhado e traído. Eu não o perdoaria.
RyeoWook era discreto o bastante para não me perguntar sobre a noite passada. Ele não daria um pio sobre o que vira. Por mais chocado que estivesse, ele não seria inconveniente. Isso era um ponto a favor de RyeoWook. Ele sabia manter a compostura, ele não me contrariava com perguntas impertinentes. Ele, como estava em meu encalço, não raro me encontrava em uma dessas situações em que não cabe um espectador. Talvez ele até já estivesse habituado e, portanto, não me aporrinhava.
Mas, em relação à noite passada, recordei-me de que ele mencionara sobre alguma novidade com voz entusiasmada; aquilo provavelmente me interessaria. Lembrei-me de que, ao sair, tive a intuição de que eu deveria tê-lo ouvido.
Resolvi perguntar-lhe do que se tratava.
“O que você tinha para me contar, Wookkie?”
Ele abriu um sorriso vistoso e, num gesto afetado, colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha. Sentou-se sobre a cama, cruzando as pernas.
“Kyu-ah, você não sabe quem veio buscar TaeMin hoje de manhã!”
Bufei, rolando os olhos. Eu estava peidando lindamente para quem quer que tivesse buscado TaeMin àquela manhã. Todos estavam cientes de que o pobre garoto era terrivelmente assediado por metade daquela escola – incluindo professores e funcionários – e aquilo jamais mudaria. TaeMin era um botão de rosa, obviamente virgem, e dez entre dez alunos queriam desvirginá-lo. Não me admirava que alguém o tivesse apanhado, ele vivia rodeado de machos que o secavam o tempo inteiro. Ele nem ao menos se dava conta disso, o pobrezinho.
“Não sei mesmo, Wookkie”, retruquei, visivelmente desinteressado. “Pode ser qualquer um, pode ser todos. Quem liga?”
“Foi Choi MinHo”, ele anunciou, ignorando minha fala anterior.
“Por Deus, Wook, você é que nem uma mulher de vila. Pare de fofocar sobre a vida alheia, sim? E me conte o que você tinha para me falar ontem”
Eu vi seus olhos flamejarem com um brilho intenso, nada o alegrava mais que pôr lenha na fogueira e aguardar o circo pegar fogo. Ele queria assistir o pau quebrar, era isso. Não existe ninguém no mundo que tenha tanta vocação para ser repórter de programa policial do que Kim RyeoWook. Simplesmente ele havia nascido com o propósito nada nobre de fermentar boatos – ele nunca os espalhavas, apenas semeava a dúvida e dava dicas que acabavam por se transformar em grandes rumores – de saber tudo sobre a vida de todos, de estar sempre no epicentro do furacão. Nenhum outro aluno da Shinhwa High School estava tão interado de tudo o que se passava, nenhum outro conhecia tão a fundo os podres de cada um de nós.
Por sorte, eu havia conseguido que RyeoWook se afeiçoasse a mim quando nós nos conhecemos no primeiro ano. O motivo que eu acabei de mencionar, foi um dos que me interessou em RyeoWook. Não seria extremamente aprazível que eu o tivesse como aliado? Sim, seria. Com o tempo, eu decidi que ele não me serviria como aliado, e sim como subordinado. De toda forma, eu o tinha em meu poder e ele cumpria bem meus mandados.
Por isso mesmo, descobrir que ele não votara em mim na última eleição fora um golpe e tanto. Eu estava ciente de que RyeoWook não era tão manipulável como a princípio eu pensara que ele fosse, ele tinha vontade e pensamento próprios e, se eu o controlava, era porque ele se deixava controlar, somente isso.
Infelizmente, eu não havia verificado isso tão cedo quanto deveria, o que foi um equivoco que me desestabilizou tão logo ele mostrou sua verdadeira face. RyeoWook era sagaz. Contraditoriamente, isso me beneficiaria. Apesar de decepcionado, eu reconhecia que ter um subalterno inteligente era melhor do que ter um idiota ao meu lado.
Eu havia decidido fazer bom uso dos talentos de RyeoWook, torná-lo definitivamente um fiel escudeiro. Seria como uma elevação de cargo, e ele seria grato por toda a vida.
Calçava meus sapatos enquanto o observava buscar em sua pasta seu celular de última geração. RyeoWook, como a maioria ali, era podre de rico. Seu pai era da indústria fonográfica coreana, algum produtor ou dono de agência a quem eu não conhecia. É claro que ele não estava nem perto de ter o dinheiro que eu e Zhou Mi possuíamos, mas ele não era nenhum pobretão como SungMin.
“Ontem à noite, HeeChul-sunbae me pediu que eu fizesse algo para ele jantar”, ele começou, ditando cada palavra com o maior orgulho. Otário. Não consigo compreender como certas pessoas amam se submeter. E eu, de fato, não tinha o que era necessário para compreender isto – e não é como se eu quisesse, pretendo estar sempre léguas de distância desse entendimento, porque compreender seria como vivenciar. Nada mais me deixaria mais enojado do que me sujeitar a alguém. “Eu estava na cozinha dos estudantes com HeeChul-sunbae quando Hankyung-hyung chegou. Eu fingi estar cozinhando, mas ouvia atentamente a conversa dos dois. Você nem imagina o que eles falavam!”
Como de hábito, apesar de ser um paspalho, RyeoWook não me desiludia. Óbvio que, àquela altura, qualquer coisa relacionada a HeeChul me interessaria. Principalmente se envolvesse Han Geng também. Ou SiWon, aquele alma sebosa. Ah, como eu o odeio!
“Hm, continue”, ordenei, amarrando meus cadarços.
“Han Geng-hyung perguntou a HeeChul-sunbae se ele já havia dado a notícia a SiWon-hyung. Você sabe, sobre você ser o novo vice-presidente da chapa deles e tal. HeeChul-sunbae disse que não tivera coragem, pois sabia que SiWon-hyung ficaria possesso~ Olha só, eu discretamente gravei em áudio a conversa... Vou colocar pra você ouvir”
Ele gargalhou sinistramente, teclando com destreza os botões do celular e, não demorou, ouvi a voz pausada e serena de Hankyung soar.
“Quando Siwon souber... tenho dó de KyuHyun”
“Pois eu não! Ele quem provocou toda essa situação, não foi? Então que ele arque com as consequências... Hannie, você não deveria estar penalizado por Cho KyuHyun! Você sabe o que ele fez comigo!”
“Sim, Chullie. Só seja sensato. Eu sei o quanto essa candidatura era importante para SiWon, mas não há nada que possamos fazer. Ele também iria querer proteger você, com certeza iria”
O tom que Han Geng usava era quase um sussurro; tive que apurar bem meus ouvidos para entendê-lo. Ele falava como se estivesse se dirigindo a uma criança birrenta. Entretanto, sua voz era mansa e carinhosa. Que porra?! Será que aqueles dois...? Esse colégio está empestado desses tipos! E pensar que DongHae estava seguro de que HyukJae não gostava de garotos! Absurdo! HyukJae é quebrado, convenhamos. Ao contrário de Han Geng. Han Geng é quase másculo, não tanto quanto SiWon, mas... SiWon não serve de modelo nesse caso. Ah, deixa pra lá.
“Geng~ Amanhã nós conversamos com ele. Nós dois, certo?”
HeeChul pediu manhosamente. A ameaça que o arremedo de Lady GaGa me fizera na sala do grêmio, valia para ele. Sim, Kim HeeChul também sofreria com a ‘fúria de Shisus’.
“Claro, Chullie. Nós dois”
RyeoWook desligou o áudio e me encarou, seu sorriso atravessava seu rosto de ponta a ponta. Era de momentos como aquele de que sua vida se fazia valer a pena. Esses pequenos instantes, quase como um orgasmo, um prazer mórbido e culpado, que o atingiam em cheio, e ele transbordava daquela satisfação imensurável que sentia após disseminar alguma intriga. Eu lhe lancei um riso desdenhoso e me levantei da cama, já pronto para mais um dia de peleja naquele ringe que era a Shinhwa High School.
Arrumei meu uniforme, o aprumando sobre minhas omoplatas com um puxão firme. Me mantive ereto e segui para fora, confiante em mim mesmo e imperioso, como de costume. RyeoWook vinha logo atrás de mim, segurando nossas pastas. Chegamos ao refeitório e ainda não eram sete e meia. Eu acordara cedo e sequer dormira o tempo apropriado àquela noite. Como se não bastasse, o dia anterior havia sido tão estafante quantos os outros dias desde que aquela eleição de merda chegara à reta final. Eu estava a alguns passos da exaustão, mas me conservava inabalável. Todavia, eu precisava descansar...
Como as aulas começavam às oito e meia, muitos alunos sequer haviam descido ao refeitório. A maioria provavelmente estava despertando àquele horário. Escolhi uma mesa central, pois queria desfrutar de uma visão geral do recinto, de quem entrava e de quem saia. Na noite anterior, o que eu menos esperava, depois de ter com Kim HeeChul, era topar com algum dos meus inimigos; nessa manhã, porém, era exatamente isso pelo quê eu ansiava. Daria o braço de RyeoWook em troca de algum confronto.
Minhas divagações sobre aquele assunto em particular, entretanto, foram instantaneamente turvadas quando eu vi quem entrava porta adentro. Era simplesmente incoerente demais que alguém fosse tão gostoso já logo de manhã. Era loucura também que eu o desejasse tão veemente. Mais que uma vontade carnal, eu o cobiçava por que tê-lo sob mim seria a consumação mais profunda e irrevogável de minha vingança. Tomá-lo como meu, seria tripudiar sobre a sua pretensa superioridade, seria conspurcar sua pureza intocável. Eu provaria que ele não era tão diferente de mim. E, oh, como eu me divertiria fodendo-o, eu mal podia imaginar.
SungMin se convertera em meu alvo. Um alvo tão fixo quanto nenhum outro. Eu o acertaria em cheio, eu tinha que fazê-lo, uma questão de honra, mais que isso, uma questão de limpar a própria honra. Eu a limparia da melhor forma: sujando a de SungMin. Àquela manha, eu dei como certo que o plano inicial seria seguido, mas com um adendo: antes ou depois de Henry, ele passaria pelas minhas mãos. E isso seria executado de maneira a não deixar SungMin com dúvidas sobre minha integridade e minha empatia à sua pessoa. Não, não. Ele ficaria arrasado por minha causa, por ter escolhido a Henry e não a mim, quando eu me mostrava tão apaixonado e sincero em meus sentimentos. E eu estaria blefando o tempo inteiro. E, no término, eu sairia como o injustiçado da história.
SungMin andava, pé ante pé, não com hesitação, mas com serenidade. Um caminhar completamente alheio à realidade. Talvez ele estivesse sonhado, apesar de já ter se erguido da cama. Ele era especialmente encantador àquela hora do dia, eu constatei. Seus cabelos que alcançavam a nuca esvoaçavam levemente à brisa que o acompanhava desde a entrada. Como uma aura etérea que o revestia, ele estava encerrado em uma bolha que o separava do mundo real. SungMin era diferente do resto de nós. Nós estávamos atolados em sujeira e iniquidade. O mais isento de nós, não estava livre de pecados. Estava apenas isento. SungMin, todavia, estava limpo da perversidade que o rodeava. E era justo deixá-lo de fora do nosso mundo? Eu só tencionava vê-lo integrado. Eu tinha uma boa justificativa.
Ele rondou pelo refeitório, confuso e deslocado. Eu o assistia; ele uniu as sobrancelhas e sua expressão confusa me pareceu penosamente melancólica. Ele era um estranho no ninho, um gatinho na cova dos leões. Eu era mais um dos tantos que tentavam acossá-lo. HyukJae, que nitidamente era louco por ele, KangIn, que tentava guiá-lo por estradas estranhos a ele – eu tinha certeza de fora YoungWoon quem o convencera a se candidatar a líder de sala, mais tarde explico o porquê – LeeTeuk que o queria como aliado, eu que planejava destruí-lo. Nós éramos abutres planando sinistramente sobre ele. Nós tentávamos arrancar algo essencial de SungMin, e era daquele jeito, desnorteado e inseguro, que o deixávamos.
Haveria um sem número de usurpadores sem escrúpulos se fosse do conhecimento de todos o que aquele garoto tinha dentro de si. O quanto aquilo era valioso. Eu não sei explicar bem o que é essa coisa, mas é algo extremamente interessante a nós. Por algum milagre, nós quatro éramos, até agora, os únicos que enxergávamos esse potencial em SungMin. Eu era o único que queria aniquilá-lo.
Essas reflexões me abateram profundamente. Eu não ia dar pra trás ou desistir de nada do que eu havia planeado, porém, enxergá-lo sob essa nova perspectiva me entristecera. Era justificável? Eu não sabia. Talvez não. Quem separa o certo do errado? E o que importa? Eu não era muito apegado à ética, eu não era um bom exemplar da raça humana. Eu tinha minha própria cartilha, a qual ditava as regras do meu comportamento. Não havia razão por que me questionar se era ou não moralmente correto confabular contra alguém. É claro que não era correto, mas que se dane. Eu nunca fora correto. E tampouco o seria com Lee SungMin.
Dei como encerradas essas dúvidas que bombardeavam minha mente, e já era tarde demais para tentar retomar o meu bom humor daquele começo de manhã; estava tudo arruinado. Em dado momento, SungMin encontrou onde se sentar e foi num lugar bem longe de nós, graças a Deus. Eu não estava a fim de provocá-lo, atiçá-lo ou mesmo me redimir e ser gentil com ele. Não me restara ânimo. RyeoWook trouxe meu desjejum que consistia em uma maçã e uma xícara de cappuccino, os quais bebi e comi sem muita vontade. Ao terminar, levantei-me da mesa e me dirigi à nossa sala, onde teríamos aula de chinês no primeiro tempo.
Eu falava chinês fluentemente, e não teria nenhum prejuízo se não prestasse atenção em uma palavra sequer dita pelo professor. Olhando de soslaio, eu notei que Zhou Mi e Henry conversavam compulsivamente através de bilhetes que eles passavam um para o outro quando o professor dava as costas para a turma e se voltava ao quadro negro. Pelo menos eu estava bem assessorado, Zhou Mi tinha mais sangue frio que eu e não falharia.
De vez em quando eu, quase inconscientemente, eu procurava SungMin entre os colegas. Ele parecia tão solitário e desligado do mundo real, nem HyukJae e sua inconveniência usual o tiravam daquele torpor. E eu me sentia pior a cada segundo. As demais aulas se passaram maçante e vagarosamente. Física e Geografia eram os próximos créditos. Eu permaneci quieto, não trocando nenhuma frase com ninguém. Nem Zhou Mi se deu conta de minha presença, acho, pois ele me ignorou por toda a manhã. RyeoWook tinha os olhos fixos na nuca de YeSung, que sentava algumas cadeiras a sua frente, e era normal que fosse assim, ele era obcecado por aquela criatura bizarra e não deixaria de admirá-lo para prestar atenção a mim.
Eu estava tão sozinho quanto SungMin.
Na hora do almoço, ao invés de ir ao refeitório, fui para o meu quarto e me refugiei em uma partida de Starcraft. Até as duas horas, eu estava livre de toda aquela merda. E eu estava tão cansado, tão desmotivado! Inaceitável que meu mal estar tivesse sido desencadeado por SungMin e a compaixão que eu inoportunamente sentira por ele. Era estúpido! Eu estava revoltado, mas alquebrado demais para ousar reverter a situação. Eu me entreguei à minha fraqueza de espírito.
Minha tarde foi nada além de uma repetição ridícula daquela manhã sem graça. Cinzenta. Voltei para meu quarto ao fim do dia e mergulhei no Starcraft. Eu tinha montes de matéria para estudar e revisar, o que eu perdera naqueles dias em que eu me dedicara exclusivamente aos meus planos diabólicos. Pff. Soava patético então. Eu não queria mais me torturar com nada daquilo, minha intenção era jogar incessantemente até que o cansaço total me abatesse e eu caísse sem forças sobre a cama.
Em algum ponto da noite, RyeoWook chegou sem me encher o saco; perdi-o de vista assim que o vi cruzar a porta do quarto. Eu o anulei de meu campo de visão e continuei com o Starcraft. Pelos céus, era insano que eu estivesse tão mal só por causa de SungMin. Ele não era porra nenhuma! Mas não era ele, era eu. Eu era um filho da puta, eu não prestava. Eu sempre tivera consciência disso, porque só agora aquilo me incomodava? Esse pensamento me perturbava.
Que merda SungMin era para me deixar assim?
No dia seguinte, Zhou Mi dera por minha falta e foi me buscar em meu quarto quando o sol já ia alto lá fora, provavelmente passava do meio-dia. RyeoWook tentara me acordar, mas eu o rechaçara, expulsando-o, berrando que ele não tivesse a ousadia de me importunar outra vez. Eu perdera as aulas da manhã, mas estava pouco me lixando. Eu não queria ver ninguém e, ademais, eu precisava descansar! Quem me julgaria por isso?
Entretanto, Mimi não era tolo como RyeoWook. Se meu lacaio lhe tivesse relatado o ocorrido, ele obviamente pegara no ar o que se escondia por trás daquela minha reação. Ele pressentiria que havia algo de errado, ele me conhecia. Eu podia esperar perguntas aos montes de qualquer outra pessoa; Zhou Mi, no entanto, não agia assim. Ele, com seu tato e sensibilidade, me convenceu a descer ao refeitório e a me alimentar. Tudo bem se eu não estivesse a fim de ir às aulas, ele ficaria comigo mesmo assim.
Por demonstrações do tipo é que eu considero Mimi meu único amigo. E, que droga, eu podia confiar nele, ele sim era meu aliado, só que simplesmente não dava para eu virar pra ele e vomitar toda aquela viadagem sobre SungMin. Sobre como eu estava abalado por causa dele... Zhou Mi não aceitaria numa boa, ele arrancaria meu cérebro pelo nariz, isso sim. Eu não tinha ninguém com quem compartilhar meus problemas. Ah, que porra!
Ele conseguiu me levar ao refeitório e se ofereceu para pegar nossos pratos. Eu aceitei e o esperei em uma das mesas. Correndo meus olhos pelo recinto, vi meus colegas por ali. YeSung, KiBum e RyeoWook estavam assentados em uma mesa, comendo e conversando entusiasticamente. Eu sempre achei que eles dariam um bom threesome, aquelas três pequenas aberrações. Mais adiante, avistei Creepy!Teuk e HyukJae que também discutiam fervorosamente, provavelmente sobre algo relacionado às eleições para o grêmio estudantil.
Num canto bem reservado, HeeChul e Hankyung tomavam sua refeição. Eles estavam tensos segurando nos talheres e se olhavam com um misto de cumplicidade e temor. Supus que eles tivessem sido acuados pela fúria de Shisus, pff. Esses dois escrotos filhos da puta. Alguns minutos depois, Mimi voltou se equilibrando com as duas bandejas. Macarronada à bolonhesa, muito italiano para o meu gosto. Abri a lata de coca-cola e enchi meu copo.
Eu remexia em meu prato sem nenhuma vontade quando me deparei com DongHae cruzando a porta. Instantaneamente, um arrepio percorreu todo o meu corpo e alcançou proporções indevidas numa área meio íntima demais. Por mais chateado e abatido que estivesse, eu ainda era a mesma besta do sexo de sempre. Oh, inferno... Ele vinha quase saltitando, uma gazela sem tira nem pôr. Droga, eu podia fodê-lo naquele refeitório de tão excitado que ele me deixava. Eu devo sofrer de um transtorno mental qualquer, certeza. Insano que alguém mudasse de humor tão repentinamente, mas, ei, esse era eu, Cho KyuHyun. Eu me reconhecia naquela perversão. Totalmente típico de mim.
Era uma pena que Zhou Mi estivesse comigo, realmente, uma pena. Não seria prudente que eu fosse até DongHae... e se ele soltasse algo sobre a noite retrasada? Ele não era tão estúpido assim, mas não era seguro arriscar. Na verdade, o arriscado era eu não poder me controlar.
Entabulei uma conversa com Mimi, e assim me afastava daqueles tormentos. Começamos a falar sobre Henry e o progresso que minha bonequinha chinesa alcançara com ele. O filho do embaixador estava completamente à vontade com Mimi, que estava só esperando a situação ideal para tocar no assunto delicado que era se ele se sentia ou não atraído por outros garotos, alguma porra assim. Com aquilo, eu não me preocupava minimamente. Confiava o bastante em Zhou Mi para deixar essa parte do plano em suas mãos. Ele não me desapontaria, certamente não.
Fiquei entretido no relato que Mimi fazia sobre os últimos dias e sobre Lau Henry e acabei por perder DongHae de vista. HeeChul e Han Geng, entretanto, vez ou outra me lançavam olhares furtivos, temerosos. Eu não dava porra nenhuma por aquilo. O que quer que eles tentassem contra mim, não me importava. Eu tinha mais trunfos contra eles do que eles jamais sonhariam em ter contra mim. Eles não iriam muito longe.
“Quanto a Henry, você não precisa se preocupar”, anunciou Zhou Mi, dando uma garfada em sua almôndega e sorrindo de canto com malícia. Eu esfreguei minhas mãos, excitado. Não fora preciso muito para que eu recuperasse meu bom estado de espírito. Mimi dava conta do recado.
“Eu sei que não, Mimi. Acho que eu tenho que me preocupar com outras coisas, é isso”
Zhou Mi mordeu o lábio inferior de um jeito tão sexy. Porque diabos ele era tão fodidamente sexy? E porque eu sempre saia do foco quando se tratava de sexo? Ou qualquer coisa que se relaciona a sexo. Eu era um ninfomaníaco, tal qual Zhou Mi. Era por isso que nós nos dávamos tão bem, eu tinha que admitir.
“Preocupar-se com HeeChul, por exemplo?”
“Sim, com ele”, respondi, buscando novamente por Heenim. Ele mantinha aquela expressão reticente, assim como Han Geng. Eles estavam tensos. Imediatamente, eu supus que uma bomba estava prestes a ser detonada. Onde estaria SiWon a uma hora dessas? Eu não o via já fazia algum tempo, tempo demais considerando que nós morávamos sob praticamente o mesmo teto. E, que inferno, ele, mais do que qualquer outro naquela escola, sabia de podres meus que poderiam liquidar comigo. Eu devia me preocupar com ele... E era difícil, intragável lidar com SiWon. Eu não o suportava.
Eu precisava agir – e rápido.
“Mimi, eu tenho algo pra resolver”, disse, depositando um beijo no topo de sua testa – apenas uma artimanha para que ele não ficasse todo curioso e preocupado comigo. Deixei a mesa, cruzando o hall do refeitório e me retirando dali. HeeChul me acompanhara com o olhar, eu notei. Dei por certo que havia algo de muito errado ali. Peguei meu celular em um dos bolsos e liguei para RyeoWook. Pedi que ele encontrasse SiWon onde quer que essa praga estivesse. Alguns minutos depois, ele me retornava, avisando que a alma sebosa estava no ginásio, jogando basquete ou idiotice semelhante. Desci a escadaria da entrada do prédio e sai à sua procura.
Eu o avistei na quadra esportiva, suado e sem camisa, aquela visão perfeita do pecado e, puta que o pariu, como ele era odioso e gostoso! Choi SiWon, você me paga. Eu jurei, naquele instante, que por todas as minhas próximas vidas, eu me dedicaria a infernizar a existência de SiWon, eu o acharia nem que fosse no fim do mundo, e o atazanaria em cada uma de nossas encarnações porque nem toda a eternidade seria tempo suficiente para que eu me vingasse dele.
Havia outros terceiranistas junto a ele, mas nenhum era tão bem sucedido em atrair a atenção alheia para si quanto Choi SiWon. Na realidade, era como se não houvesse ninguém mais sobre a terra. Porque ele tinha que ser tão sensual, porque ele tinha que correr batendo aquela bola no chão, e qualquer outro pareceria um idiota fazendo aquilo, mas ele era perfeito e... merda, ele era como um deus do sexo, ele exalava sexo pelos poros, e ele me fazia querer terrivelmente... querer sexo... com ele.
Definitivamente, eu era a porra de um adolescente com os hormônios à flor da pele e ninguém me atiçava mais – e melhor – do que SiWon, tampouco havia alguém a quem eu poderia odiar mais em toda a minha vida. Incoerente, era como eu poderia definir meu estado mental àquele momento.
Ele jogava com fúria. A fúria de Shisus. Ele era feroz, ele tinha ginga, ele era implacável driblando os jogadores e indo direto à cesta e marcando um ponto, com um cálculo certeiro de distância e tudo mais. O suor constituia uma fina película que envolvia todo o seu corpo. Eu balancei minha cabeça energicamente, e era idiotice achar que teria sucesso em varrê-lo de minha mente, isso não se concretizaria quando eu o assistia exibir aquele corpo, quando ele estava seminu e há alguns metros de mim. Eu não conseguia evitar fantasiar, no máximo, eu estava me impedindo – não sem muito custo – de ir até a quadra e tirar o resto de sua roupa e copular com ele até o fim do dia. Que merda, KyuHyun.
Ele estava centrado demais no jogo para me reparar, mas o jogo iria acabar. E eu esperei. Sentei na arquibancada e continuei observando-o. Cada lance, cada singelo movimento de seus músculos era um espasmo, um início de tontura que delatava meu nervosismo.
Ao término da partida, ele saiu da quadra. E eu tremi dos pés à cabeça, energicamente. Eu pensei que ele estivesse muito concentrado em si mesmo para prestar atenção em mim, mas eu estava errado. Ele me encontrou na arquibancada e o que se seguiu depois foi pura insanidade. Eu só vi que ele bufava como um touro, todos os trejeitos de um touro, puta que o pariu, num segundo ele estava correndo até mim, e o que eu tinha a fazer senão correr também e procurar me salvar? O que aquele doido estava querendo, pelo amor de Deus?
Infelizmente, aquele filho de uma égua era infinitamente mais rápido que eu e ele me alcançou num piscar de olhos. Nós estávamos à porta do vestiário e ele me empurrou para dentro sem dar uma palavra. Tudo o que eu tinha em mente era que ele ia me estuprar como retaliação, mas, caralho, eu não era nenhuma donzela indefesa! Eu estava enfezado, puto da vida com os retardados daquela escola, HyukJae, RyeoWook, SungMin e a corja toda. Subitamente, toda a minha revolta veio á tona e eu chutei SiWon em suas partes e, assim, me desvencilhei dele LIKE A BOSS. Ele tinha que saber quem mandava ali.
“SEU VIADO, VOCÊ TÁ LOUCO? OH MEU DEUS, MINHAS BOLAS VÃO INCHAR”, ele bradou, se curvando pela dor e segurando naquele lugar... erm, enfim.
“Por mim, você perdia suas bolas”
“Você quis dizer: ‘Por mim, eu chupava suas bolas’?”
“Oh, SiWon, ooh~! Porque você é tão convencido? Por um acaso você acha que tem açúcar na virilha?”
“Não sei, você me diz”, ele arqueou uma sobrancelha e arrumou a postura. Agora ele parecia um pavão ou um galo, algum animal presunçoso e exibido, qualquer um. Ele me estava me desafiando e... que droga! Porque ele tinha que me lembrar daquilo? Mas é lógico que ele ia tocar naquele assunto.
Eu nunca havia desabafado sobre SiWon com ninguém. E poderia? Eu estava cercado por cobras, e o único que me servia como confidente – Zhou Mi, o próprio – me transformaria num eunuco se soubesse do que aconteceu no fatídico fevereiro daquele ano. Ah, eu não conseguia aceitar. Por mais que eu estivesse bêbado, por mais que sangue houvesse sido substituído em minhas veias por vinho tinto, eu não atinava como eu permitira, como eu agira tão impensadamente e o fato de eu estar alcoolizado não era desculpa.
Certo, vou contar o ocorrido. No último fevereiro, eu e Zhou Mi brigamos feio. O motivo não interessa. Como vingança, já que SiWon, o puto-mor da escola, vivia se insinuando, eu lhe dei uma chance. E nós ficamos, e ele me fodeu e desde então, eu não sou mais feliz.
E isso, caramba, era tudo culpa dele. De Choi SiWon. Ele era gostoso demais pra se recusar.