A OSTRA
Quando tive que cortar o cabelo sozinho pela primeira vez, percebi que não tinha nada. O granizo batia com força no teto de vidro e me peguei pensando em enfiar a tesoura no pescoço. Será que doeria muito? Quanto tempo levaria até eu morrer? (Resposta: Muito menos do que para limpar o sangue do chão.)
Lentamente atravessei a lâmina entre a franja e meus olhos. Não precisava que fosse bom, e não seria mesmo se precisasse. Quando minha mãe cortava meu cabelo sempre saía parecendo um filhote de rato. Era o último de quatro, um a um, sempre o outro mais feioso que o anterior, até que não sobrava nada. Paciência, tempo. Cabelo.
Nada. Eu nunca tive qualquer coisa para começo de conversa.
Tratei de tosquiar a ponta da orelha, uma dor ardida seguida de sangue ralo. Mas era bom saber. Ia doer demais enfiar a tesoura no pescoço.
Morar num palácio não era para qualquer um. As paredes se estendiam para sempre e sumiam no limite da visão; o teto era quase tão alto quanto a lua. Eu podia ser ninguém, um bicho sem dono na civilização moderna, mas dormir na maior biblioteca do mundo me dava uma extremidade. Durante o inverno, li mais de 40 títulos, de capa a capa. Meu pai teria me dado um esporro e me mandado trabalhar. Ser homem de verdade, viver no mundo real...
É suspeito que são dessas coisas que eu sentia falta.
A noite não conseguia pensar em outra coisa. O silêncio era sufocante, a neve era sufocante. Depois que conheci Nicholas não passei mais tanto frio, mas meus ossos sempre doíam e eu nunca parava de tremer.
Nicholas foi quem veio falar comigo primeiro. Sempre tive medo de que gritassem comigo, mesmo quando não tinha motivo, mas ele falava baixo. Entre dias e dias, me ensinou a tostar café, me deu uma tour pela biblioteca e algumas vezes me levou para o castelo onde dormem os alunos, o que era, aliás, contra as regras.
A grande diferença entre o palácio e o castelo era a grossura da pele, ali a gente passava uns maus bocados sem isolamento térmico. Mas eu poderia estar morto. Era o que eles diziam quando alguém levantava a voz. Quanta ingratidão, você poderia estar morto. Mais um corpo estirado na neve fofa, ninguém ia nem saber.
Dormir em paz? Bem que eu queria.
Nos últimos dias de março, já chegada a primavera, chegaram também os reajustes. Me registraram oficialmente como aluno da academia e aplicaram alguns testes de nivelamento, o que já era de se esperar. Uma criança que nunca pôs um pé numa instituição formal? Totalmente selvagem.
Gostaria de dizer que me saí bem, li todos aqueles livros no inverno e tinha uma memória razoável, mas não fazia a menor ideia do que eles queriam de mim. Ficava tonto sempre que pensava em voltar para casa. Não tinha casa pra voltar.
— Não precisa se preocupar, não é nenhum monstro de sete cabeças — explicou Alexei, um dos professores voluntários — É só pra saber se dá pra colocar você com o pessoal da sua idade.
Não conhecia ninguém da minha idade, talvez não fizesse amigos nunca.
— Mais tarde começa o ritual de iniciação, e aí você vai ver — continuou a divagar em seu otimismo inabalável — É em momentos de desespero conjunto que fazemos os melhores amigos.
Se eu tivesse dito alguma coisa ele provavelmente teria ficado sem graça. O que eu não sabia sobre desespero conjunto?
Meu estômago dobrava sempre que ouvia qualquer coisa como a Ostra. “Uma ostra que não é ferida não produz pérolas”. Uma ostra que não é violada é uma ostra inútil? Um dos livros na biblioteca explicava em detalhe teorias de como experiencias traumáticas e tortura física fortaleciam e duplicavam a eficiencia do qi. Eu só conseguia pensar em comer marisco refogado. Como eu poderia ser forte? Como eu poderia ter qualquer energia que prestasse, qualquer coisa que produzisse sentido? Eu estava caindo aos pedaços, desnutrido ao ponto de amarelar a pele, num país estrangeiro sem nem um lugar para cair morto.
Otimismo me emputecia.
No caminho todo pelo labirinto fingi que na volta ia comer frutos do mar. Anthon, meu irmão mais velho, trabalhou como marinheiro por um período curtíssimo e trazia muita comida fresca das navegações. Ele passava o resto da tarde arrancando as escamas e ensopando a carne em molho temperado, de vez em quando me chamando a atenção por ficar correndo na cozinha. Uma vez até cortei o queixo numa...
Deus. Deus, eu preciso parar de pensar.
O estalo seco de ossos se chocando me tirou do meu estado semi-adormecido, percebi que estava, enfim, no coração do labirinto.
Três figuras policiavam a passagem, ocupados em sua própria euforia ritualística. Um deles era Nicholas (eu saberia de olhos fechados). Me arrastei até o altar e me pus de joelhos, era isso que eu sabia que tinha de fazer. Nicholas enfiou as mãos na mistura espessa de sangue e seiva, pouco antes de enfiar as mãos no meu rosto.
Mesmo depois de mergulhado em água fria, continuei por muito tempo a me sentir sujo. Era o tipo de podridão maliciosa que uma criança sentia vendo os seios da Vênus de Milo pela primeira vez. Uma certa culpa atrelada a uma certa satisfação de curiosidade sanada. Talvez eu gostasse muito de ser tocado assim.
O tempo pesou às minhas costas, fui forçado a me mover. Teria ficado ali para sempre se pudesse. No final do percurso, cuspi a pedra que protegia debaixo da língua e Alexei, o professor voluntário, faltou arrojar arco-íris pela bunda. Dali em diante seria do círculo Aia (seja lá o que isso significasse).
Estava contente, entretanto, porque sabia que Nicholas era um deles. Me sentia seguro perto dele. Aparentemente sentia muitas coisas.
No jantar, contei a ele sobre a iniciação e fizemos graça de coisas bobas. A comida parecia que não acabaria nunca e mesmo assim não pude arriscar comer devagar. Ele me convidou para dormir no castelo de novo. Senti que ia ficar tudo bem.
Na manhã de primeiro de abril, acordei com Nicholas já me metendo em problemas. Justo dizer que eu não sabia muito bem como funcionavam as coisas por ali, mas se o jeito furtivo e o sorriso travesso fossem de alguma indicação, ele havia burlado mais alguma regra trazendo aquelas garrafas até ali.
— Você é mesmo uma má influência — caçoei, ainda murcho de sono.
— Eu sei — ele riu — mas hoje estou afim de ficar apenas aqui com você.
Senti minha pele formigar.
Sabia que o festival já havia começado. Tinha esperado muito tempo para saber como seria uma comemoração assim, até lido livros a respeito, mas aquele meio segundo entre Nicholas terminar de falar e colocar a garrafa na boca me despiu de qualquer intenção outra que não fosse ficar ali.
Havia muito que eu não entendia sobre afeto. Certamente mais do que não entendia sobre festas.
As horas se passaram como se um dia inteiro coubesse numa fração de segundo. Entre uma garrafa e outra até tirei um cochilo, o estômago completamente vazio porque havíamos pulado o almoço. Nicholas tinha muitas histórias para contar e estávamos muito bêbados para descer seis lances de escada sem quebrar uma perna.
Em algum momento decidimos que era hora de parar de beber e retomar alguma sobriedade; depois decidimos beber mais.
No final da noite, caminhando até o palácio para jantar, eu mal conseguia ver um palmo à minha frente. Nunca tinha bebido tanto, Deus, como eu havia bebido.
Para nossa sorte, a maioria dos alunos estava exatamente do mesmo jeito. Surrados, sujos de terra e desequilibrados. Nicholas, que estava um tanto melhor do que eu, me arrastou até um lugar vazio na mesa.
Meu estômago rugiu mal-contente e, sem perder tempo, parti para cima do pato, arrancando a carne do osso em tempo recorde antes de me esticar e pegar mais. O salão estava mais cheio do que ontem, talvez dessa vez a comida fosse mesmo acabar.
Antes que eu pudesse passar a travessa de knödel para Nicholas, som de vidro se estilhaçando me tirou a atenção. O cômodo, antes preenchido por burburinho, mergulhou em silêncio absoluto. Todos se sentaram. Uma mulher se levantou.
— Alunos — sua voz era grave e veemente, arrastando os espaços entre uma palavra e outra — Com a quebra de mais uma taça, encerramos mais um período de festividades e iniciamos um novo ano de aprendizado e disciplina. Agradeço e reverencio mãe-Gaia, que, sem falha, continuamente nos presenteia com a chegada da primavera. Que assim seja até o fim dos tempos. — seus olhos correram pelas fileiras a sua frente, demorando-se, enfim, no meu rosto — Antes que a oportunidade me escape, gostaria de trazer sua atenção aos recém-chegados… nossos irmãos poloneses, que escaparam de um inverno muito frio… de circunstâncias muito infelizes… sinto que temos muito trabalho a ser feito. Um brinde — comandou ao levantar sua taça — ao futuro... ao passado… e ao presente. Para os que se juntaram a nós, boas-vindas… para os que se foram... meus sentimentos — arrastou o silêncio por algum tempo, levando a bebida até a boca — Não tenham medo. Ainda temos tempo.
Senti meus ossos gelarem por debaixo da pele, imagens atravessando meu estado de consciência como fogos de artifício. Pensei que fosse desmaiar.
Nicholas me olhou com apreensão.
— Tudo bem? — perguntou ao se aproximar.
— Hm… — respondi, inquieto. Se falasse qualquer coisa talvez começasse a chorar.
— Vem aqui.
E eu fui.
Acomodei meu rosto na curva do seu ombro e tentei respirar devagar. Ainda que bêbado, me senti um completo idiota. Por mais inacreditável que fosse, até aquele momento ninguém nunca havia dito nada. Ninguém disse: Aos que se foram. Meus sentimentos. Nossos irmãos. Infelizes.
Um brinde.
Senti o peso da realidade me trazer de volta ao eixo. Esse complexo de segurança e afeto não tem aplicação prática dentro do meu sofrimento. Eu perdi tudo. O calor da fornalha acesa dentro de casa enquanto minha mãe acaricia meu rosto. O som do sino da porta. As flores amarradas num arranjo. Um livro que tem de ser devolvido. Anthon. Dima. Constantine.
Qualquer coisa que fosse motivo de felicidade. Qualquer coisa que eu amasse e me amasse de volta.
Subitamente: Nada.
Nicholas me observou com prudência, sem interromper, e entrelaçou os dedos no meu cabelo. Quando parei de chorar, ele perguntou baixinho, como se estivesse pensando nisso a muito tempo:
— Você cortou seu cabelo?















