Divagações
A chuva batia na janela do meu quarto. Meu rosto estava colado na janela; eu olhava a rua, mas não enxergava nada. Talvez porque uma leve neblina tinha se unido à chuva forte, mas provavelmente porque eu estava perdido em pensamentos. Os pensamentos são coisas bem curiosas. Eles conseguem ser bons e ruins. Isso é bom quando a gente quer resolver alguma coisa rápido e os pensamento fluem, mas é horrível quando queremos ficar quietos; eles não desaparecem. Sempre ouvi dizer que, com o tempo, isso se tornava corriqueiro, e nós nos acostumávamos a eles, mas isso nunca aconteceu comigo. Eu quase tinha uma síncope quando aquele turbilhão de imagens e ideias invadia a minha cabeça. Os pensamentos desconexos se uniam ao meu tédio e me faziam divagar. Eu não conseguia distinguir as coisa lá fora, mas tentava imaginar o que elas seriam. “Aquele borrão vermelho é o chapéu do Sr. Quinn? E aquela massa marrom sacolejante, será que é o cachorro desaparecido dos Walters? Eles vão ficar felizer ao vê-lo de volta, mas só depois de gritarem por ele ter sujado o tapete persa. Oh, e aquela mancha laranja gigantesca? Ah, é só o telhado da casa da Sra. Johnson…”. Depois de um tempo, a neblina aumentou, acabando com a minha brincadeira. Resolvi deixar que o tedio e os pensamentos me dominassem, já que combatê-los era praticamente impossivel. “O tédio é outra coisa curiosa”, foi o que eu pensei. “Ele e muitas coisas ruins: a tristeza, a saudade, a solidão. No começo eles são ruins, e são tão fortes que afastam até os pensamentos inoportunos. Depois de um tempo, eles vão criando raízes e se tornando parte de nós; criam um cantinho ó deles no nosso coração. Se tornam corriqueiros, e a presença deles se torna amigável, como se sempre tivessem feito parte de nós.” Percebi que com o amor acontecia a mesma coisa, e fiquei me perguntando se ele fazia parte do rol dos sentimentos ruins ou se era uma exceção à regra.





