O que aprendi com a depressão
Em "O demônio do meio-dia", considerado um dos principais livros da década, o autor Andrew Solomon traça um retrato histórico e pessoal sobre a doença
Considerado pelo jornal inglês Times um dos 100 maiores livros da década, "Demônio do meio-dia" é um estudo profundo sobre a depressão. Seu autor, Andrew Solomon, também vítima da doença, faz um amplo painel sobre o assunto, indo desde a história da doença e desconstrução de mitos, passando pelo impacto sobre as várias populações demográficas (sejam crianças, homossexuais ou os habitantes da Groenlândia), a depoimentos de vítimas da depressão e a opinião de especialistas, abordando questões éticas e morais, até a descrição das medicações disponíveis e a eficácia de tratamentos alternativos. A Organização Mundial da Saúde estima que 300 milhões de pessoas, 4,4% da população mundial, sofram de depressão no mundo.
Veja abaixo trechos da sua entrevista para o jornal Nexo durante sua visita ao Brasil:
Depressão, o demônio do meio-dia
O título do livro surgiu de um salmo da Bíblia que cita um demônio que aparece mesmo à luz do dia. Na teologia medieval é associado à acédia, termo usado para depressão. Achei a definição "demônio do meio dia" perfeita para a doença. Outros problemas nos aparecem à noite, mas a depressão está presente mesmo com o sol mais brilhante. Você se sente como se estivesse desmoronando, perdendo o rumo e desaparecendo.
Há muitas teorias sobre por que o índice de depressão está aumentando, a maioria ligada ao estilo de vida moderno. Dormimos menos do que antes, a média caiu duas horas, muito por conta da TV e da internet. O estresse aumentou devido às redes sociais e a impressão que passam que outras pessoas têm vidas incríveis. A maneira como nos alimentamos mudou. E há essa onipresença dos smartphones, com ligações e mensagens constantes.
A depressão é causada por uma vulnerabilidade genética, combinada com situações que funcionam como gatilhos. Esses gatilhos são muito prováveis para quem sofre privações ou usufrui de privilégios. Se você tem privilégios e se sente mal, vai pensar porque não está bem se a vida é tão boa, então vai procurar ajuda. Quem não tem privilégios associa seu estado com a situação que está vivendo, por isso a incidência de depressão entre os mais ricos parece maior.
Um dos motivos para saber que a depressão está aumentando é pelo crescimento do número de diagnósticos, e isso é positivo. O estigma da doença, apesar de significativo, está diminuindo. Mais pessoas estão falando sobre o assunto, celebridades estão tornando públicas a sua depressão. Diminuir o estigma está facilitando a decisão das pessoas de consultarem o médico, e as notícias veiculadas na imprensa e mídias sociais facilitam o autodiagnóstico, que é o primeiro passo para se conseguir ajuda.
O mundo está muito confuso, há muitos adolescentes e jovens adultos que não sabem o que fazer. A variedade de profissões cresceu muito, as pessoas não estão convictas ao tomarem decisões que vão afetar o resto de suas vidas. O mesmo acontece com as relações pessoais. Os aplicativos de encontros, por exemplo, fazem com que as pessoas raramente se sintam confortáveis com os relacionamentos que começaram. Há sempre aquele pensamento "se eu ficar online hoje, imagine quem pode estar por aí?"
Na década de 50, se você fosse diagnosticado com depressão não teria muitos lugares para onde ir. Hoje já há diagnósticos, tratamentos e medicações muito mais sofisticados. Há remédios, terapias, psicoterapias e nos casos mais graves até estimulação cerebral profunda. Ao contrário de antigamente, os médicos hoje estão preparados para dizer "você tem depressão e vou te ajudar".
Se tivesse escolha não teria depressão, mas aprendi muito com ela, aprendi porque não fugi, procurei investigá-la com a maior profundidade possível. Escrever sobre circunstâncias difíceis nos meus livros foi uma forma de usar experiências dolorosas e transformá-las em algo que pode ter valor para outras pessoas.
Livro: O demônio do meio-dia - Uma anatomia da depressão
Editora Companhia das Letras, 2018
Clique para assistir a entrevista do jornal Nexo.