Uma e trinta e sete e eu preciso escrever porque as palavras rondando minha cabeça não me deixam dormir.
Andei pensando que não tô fazendo arte porque, diferentemente de Van Gogh, Frida e aqueles mil artistas com histórias românticas de sofrimento, eu não consigo pintar num péssimo estado de espírito.
Sobre o que vou falar diante e durante todo esse sentimento de pânico que afeta o mundo? Será que registrar meu rosto, meu gato ou um objeto de casa pra me distrair do desconhecido que se afoga neste exato momento sem estar no mar, é o mais indicado pra minha saúde mental? Falando em mar, eu não quero respirar por aparelhos sem antes entrar no mar, como sempre fiz quando achava que a vida era um conto de fadas - e era.
A agonia que tive achando que ia sofrer um assalto ou insulto por conta de bens e do meu bem, que tem o mesmo sexo que eu, não chegava perto de imaginar que qualquer um de nós poderia sofrer por algo que não vemos. Pelo ar. Pela ignorância, pela ambição, pelo descaso, pelo presidente. Independente de bens ou de sexo.
Eu até poderia falar sobre isso, mas tem outra coisa que me vem chamando atenção: minha falta de fé.
Na verdade, ela ainda não morreu. De vez em quando acendo vela, acendo incenso pedindo proteção. Mas ao mesmo tempo, parece que dessa forma eu compactuo com o egoísmo de querer me salvar, tendo bilhões de pessoas que nem conheço, que merecem viver tanto quanto eu. Só porque elas não acreditam como e no que eu eu acredito, têm mais chances de ir no meu lugar, ou simplesmente estar numa esfera espiritual abaixo da minha? A espiritualidade ser seletiva e hierárquica é algo que me inconforma.
Olhando meus deuses diante de tanta injustiça, vejo a cor da crença se desfazer do quadro até voltar a ser um esboço a lápis. Mas não a ponto de eu me desfazer do meu altar. Ainda acredito nos guias.
Sobre o quê pintar sem ser isso, se só tenho isso isso e isso na cabeça, na TV, na internet, no mundo e no ar? Não quero parecer oportunista, por mais que essa seja uma possível fonte de sobrevivência da merda de um bom artista (os maus ignoram os problemas do mundo).
Decidi que eu vou escrever, que é a melhor coisa que eu faço. Veja bem: é a melhor coisa que eu faço, não é a coisa que eu faço de melhor.
De melhor, eu faço é nada. Só existir e observar tudo ao meu redor, já que me pus pra fora desse sistema de engrenagem, mesmo meu sangue tendo gosto de ferro.
Não posso seguir os ensinamentos budistas que me orientam a olhar meu interior, porque eu já nasci do avesso.
No meu mapa astral saturno está em aquário na oitava casa e ouvi dizer que é meio sinistro. Não sei a fundo, mas posso associar à infiltração que surgiu na parede da minha cozinha em forma de crânio, caveira. Também ao meu chuveiro queimar sempre um dia depois do verão.
Dediquei Janeiro a lidar com o luto, mas não pareceu o suficiente. Pulei carnaval pra recarregar as energias, e vamos ver se vai dar pra suportar o que virá pela frente. Mas não quero falar de lá da frente, quero falar de agora.
Agora eu não quero pintar sobre o nosso desastre. Agora não. Nem sei se vou querer depois, que se foda. Há algo maior a se fazer.
O que é, eu ainda não sei. Talvez seja isto.
É.
O céu me deu a função de narrar a história.
Então que eu engula o choro e escreva.