dia de uma depressiva
enrolado na toalha tĂŁo pequenininho e frĂĄgil, meu gato escaldado com os pelinhos eriçados. meu marido o segura, enxuga com carinho. cozinho arroz com milho, frango de forno crocante e macio. peço para que todo dia seja assim, com alegria mil, com a tristeza no mudo. hoje tive energia, como se o sol me recarregasse. mas estĂĄ frio. eu sou eu. sento preguiçosa na cadeira macia. escolhemos bem a cadeira, esfreguei os dedos na madeira, no tecido fofo. olho o gato, o amor, sentados prĂłximos. se aquecendo um no outro e conversando nĂŁo me lembro quando foi a Ășltima vez que acordei assim. penso numa viagem futura. penso numa viagem passo-a-passo e depois ponho blusa, lavo as mĂŁos passo ĂĄlcool em gel periodicamente nas coisas, arrumo as mĂĄscaras esticadas no vento me lembro da primeira vez que senti meu corpo pender, exausto, mesmo ao acordar. quando esqueci de sonhar de verdade, insone, indeterminada, brasileira. firme cristal de acordar e dormir de novo. eu acordo todos os dias, penso em escrever essa Ă© a primeira vez que sento, apĂłs o sol descer e a lua desaparecer, e escrevo. que sombrio e misterioso o descer dos astros. que momento em que eu digito meu coração, caio, caio, estrela cadente queimando. -queimando dentro, quente- ponta da lĂngua que arde de afta, ouvido que dĂłi e cabeça que se assusta na dor. caio, despenco, suspensos no momento dos cĂ©us em escuridĂŁo entre a luz e a completa treva.















