Alpha Entrevista: Rhoger Chagas
Rhoger Chagas, Olhar Pequeno
Quais são suas principais influências?
Artisticamente falando eu sou uma pessoa que pode receber influencias no meu processo criativo vindo desde aquilo que eu comi no café da manhã, passando por alguma sensação que tenha me acometido a tarde ou alguma energia vinda do mainstream durante a noite. Eu estou sempre com meus poros abertos para o ar de novas inspirações, ou, novas formas de me expressar.
Mas se a pergunta se dirige a um tom referencial: eu gosto muito dos trabalhos de Wassily Kandinsky, Piet Mondrian, Van Gogh, Salvador Dali e El Greco. Todos eles são grandes mestres para mim, mas posso dizer que são mestres que me influenciam mais psicologicamente do que em estilo e técnica propriamente dito.
Como desenvolveu seu estilo?
Minhas raízes na arte são de verdade os desenhos em quadrinho. Foi daí que comecei e essa é minha base e tenho características disso impregnadas até hoje na minha pintura, sobretudo na atual fase. Quando eu estava amadurecido sobre o que eu queria produzir [como artista], iniciei trabalhos que seguiam uma linha homoerótica - linha essa que foi a resposta de traumas de adolescência. Um momento de levantar as questões de desconstrução do meu corpo na arte. Foi nessa época que vi que não é uma questão de aceitação e sim de entendimento. "-Todo corpo pode ser belo!" Esses trabalhos tinham toda bagagem dos meus traços de raiz explorados.
Mas o tempo passou e eu não queria seguir apenas essas linhas de trabalho e questões. Queria falar de sentimentos humanos e como eles configuram em sociedade.
Estava de frente a uma sociedade que caminhava em linhas tortas, onde os valores e a vida humana em si eram banalizados. E nisso eu me senti no dever de ter minha arte como porta voz da denúncia de todo esse cenário em que vivia.
Mas eu ainda estava muito preso na zona de conforto da arte figurativa e quando iniciei essa nova linha de obras eu percebi que a cada trabalha sentia falta exatamente de conseguir o que eu mais queria: expressar o sentimento humano.
O figurativo não me comportava isso e nesse caso me limitava. Quando eu falava de corpos desenhando homens, o figurativo atendia minhas necessidades. Mas como eu poderia figurar algo que só se sente? Não se toca e não se vê? Faltava algo muito importante e naquele momento eu não tinha ideia do que poderia ser. Mas sabia que faltava a peça que daria sentido a minha busca de congelar sentimento em arte. Pelo menos da forma que eu queria vivenciar.
No final de 2015 após o termino do meu primeiro relacionamento eu vivi de longe uma das fases mais tristes que eu tenha me lembrado em toda minha vida e sem perceber comecei a vomitar visceralmente toda essa dor nos meus trabalhos. Eu retratava meu mundo interno, como eu me sentia de forma subjetiva e pra dizer a verdade nada fazia muito sentido. Eu só queria me libertar do que transbordava em mim e que num paradoxo ao mesmo tempo se mantinha entalado.
Extraordinariamente, não sei exatamente em que ponto foi que as linhas do meu figurativo se arrebentaram e libertaram todo esse choro. Mas os trabalhos passaram a propor uma nova conversa. Uma terceira linguagem entre abstrato e figurativo. As lágrimas se materializaram em arte abstrata.
O resto da historia se deu por construção técnica do estilo por base de testes e estudos. Foi então que eu cheguei a Gherró.
Fale um pouco do estilo Gherró? O que seria?
Gherró: O neologismo significa "-Você sente? Você sentiu? ou Você esta sentindo?", a palavra é uma critica indireta para tantas situações as quais o ser humano parece ser omisso e também um convite direto para se envolver no discurso denso das obras criadas pelo manifesto Gherró. Classifico como manifesto Gherró o seu período de criação.
Batizei o estilo em Niterói fazendo trabalhos com tons Subjetivos e Inconformistas. Trabalhando valores de Sentimento Humano e Valor da vida. As técnicas apesar de livres em sua maioria eram o interlúdio do abstrato com figurativo como característica principal através de pinceladas para contorno e preenchimento chapado somado ao dripping e a mistura das cores de forma parcial. As composições visuais das cores se davam pelo uso de quase que direto de apenas 7 cores: (Preto,Branco,Vermelho, Prata,Dourado,Bronze e Cobre.)
Com inspirações em movimentos de militância, reformas e protestos sociais contemporâneos e sobre minhas crises existenciais de artista, eu iniciei uma gama de trabalhos onde discursava sobre o amor humano. Acredito que Gherró é de forma impar sentir a mensagem que não esta visível na obra.
Qual foi o fator principal que o levou à arte?
Essa pergunta me causa um desconforto e grande estranhamento.
Eu na verdade sinto que não fui ou fora levado para arte. Ela já nasceu comigo. Em mim. É parte do que eu sou e é o que eu mais entendo por mim.
Você já trabalhou ou tentou trabalhar com outras técnicas? Você pensa em se apropriar de novas linguagens, como a digital?
Sim, além de pintura em tela e desenhos em papel, faz uns anos que já venho divulgando trabalhos em arte digital. Estou estudando a possibilidade também de divulgar futuramente obras grandes em outros suportes como: de video art e quem sabe performances.
Nós sabemos que a arte tem, por uma de suas metas, refletir o contexto social de sua época. Como ela se caracteriza nos tempos atuais e o que estaria refletindo sobre o mundo em que vivemos?
Acredito que a arte como o próprio tempo esta em constante mutação. Eu vivo em uma época de dias escuros. Uma era onde o amor este escasso e a pratica de amar é um ato lendário de coragem. Eu reflito esse cenário amargo problematizando as situações cotidianas e mostrando questionamento sobre os sentimentos humanos.
Em sua opinião, como anda o mercado de artes plásticas no Brasil? Há alguma tendência a melhorar?
O mercado esta funcional. Mas as portas para novos artistas são sempre trancadas. Faltam oportunidades. Para mim infelizmente a tendência é piorar. Não podemos mais bater em portas se quisermos nosso espaço ao sol. E sim é necessário arrombar essas trancas. As válvulas de escape como a internet estão ai para mostrarmos nossos trabalhos. A elitização de centros culturais com relação a curadorias diminui a oportunidade de conhecermos e vermos novos nomes sendo valorizados. Supervalorizo iniciativas como a Alpha. Acho que o aspirante a artista tem que criar um site, expor seu portfólio de obras e por a cara de verdade a tapa.
Como você vê o momento cultural no dia de hoje?
Com o país em crise eu vejo poucas luzes de esperança. Museus mais elitistas do que nunca, galerias alugando seus espaços a valores altíssimos entre tantas outras coisas. Mas eu acredito que a insistência e a garra podem nos levar aos patamares que são desejados. O caminho de um artista nunca é fácil e esperar que a visibilidade e a valorização de seu trabalho venham de forma fácil é uma visão muito onírica. Existem muitas barreiras a serem quebradas e o único fato nisso tudo é que ter talento e empenho no seu trabalho é apenas o primeiro passo.
Como sobreviver de arte num país como o Brasil?
É complicado sabe. Até que você seja validado e reconhecido de verdade e seu nome seja o nome que o mercado da arte vá respeitar... você vai vender um trabalho ou outro mês a mês. Mas vai ter sempre aquele mês que você não vendeu nada e vai perceber que a realidade de viver daquilo que dá sentido a sua vida ainda é um desejo preso num sonho. Mas se você optar por lecionar algum viés artístico as suas chances de viver indiretamente de arte por assim dizer aumentam.
O que falta atualmente para incentivar mais o gosto dos jovens pelas artes?
Sendo bem direto eu acredito que uma valorização com potencial cultural e incentivo financeiro nos diversos nichos da arte pelo país.
Que conselho você daria a um jovem aspirante a artista plástico?
Vivemos dias, no Brasil, onde o apoio à Cultura e à Arte se encontram mais escassos do que nunca! Onde panelas fechadas impedem cada vez mais que novos artistas tenham acesso a espaços em galerias e em diversos outros espaços culturais. O segredo é não desistir e fazer o possível para que seu trabalho seja visto para o maior numero de pessoas. A Internet esta aí para isso. Outro conselho é que não se prendam a sua zona de conforto. Ao meu ver um artista mais completo sempre vai ser o melhor. Por mais que seu estilo te cative muito eu acredito que a versatilidade de um profissional é o que pode abrir mais espaço para ele.