O feminismo intersecional também é feito por aliadxs
Por Renata
Uma das feministas estadounidenses de quem mais gosto é a Melissa Harris-Perry. Ela tem um programa no canal MSNBC focado em análise polÃtica e justiça social, que vai ao ar todo sábado e domingo de manhã. É exatamente o tipo de programa que não teremos tão cedo, ainda mais sendo apresentado por uma feminista intersecional negra que dá ênfase a questões raciais e de gênero. A inclusão nas pautas é tamanha que causas trans*, tão ignoradas pela mÃdia, são discutidas com a mesma disposição e relevância que o machismo. Enquanto no Brasil, bom, por aqui ainda temos de sofrer muito para tentar impedir a invalidação de identidades -- além de mal conseguirmos debater livremente, de forma inteligente e ponderada sobre certos temas na internet, por exemplo.
Sábado, 30/03, a Melissa falou sobre aliadxs em movimentos sociais, deu algumas dicas de posições a tomarem e debateu com xs convidadxs sobre as melhores formas de apoio às quais aliadxs podem se dedicar.
Quando falamos da urgência de intersecionalidade no feminismo, também nos dirigimos a pessoas aliadas de quaisquer causas. Aliadxs são importantes não só pela união dentro do movimento mas como conscientizadorxs fora dele. Enquanto feminista intersecional, como você exerce o papel de aliadx em interseções e causas das quais não faz parte diretamente é crucial para o desenvolvimento e efetividade do feminismo.
A Melissa iniciou o assunto dando o exemplo de uma aliada (branca) do movimento negro que, em 1965, foi morta por membros da Ku Klux Klan simplesmente por ajudar em um dos mais importantes protestos por direitos civis nos Estados Unidos. Essa mulher, como bem apontou a Melissa, saiu do conforto e segurança do seu privilégio e foi lutar pela causa em que acreditava. Ao ser alertada por uma pessoa amiga sobre o perigo, ela apenas respondeu: "eu quero fazer parte disso". Ter sido assassinada não foi consequência de sua decisão e sim de extremistas contra os quais ela queria ajudar a lutar.
Ser aliadx é exatamente isto: reconhecer seus privilégios, entender onde e como eles afetam as outras pessoas e não mais ignorá-los por saber que há vidas sendo prejudicadas. Este é o principal ponto para se tornar aliadx. Uma notÃcia boa: sua vida não vai mudar para pior com isso.
Comento sobre os pontos levantados pela Melissa, colocando o que ela disse em negrito.
Uma coalizão que inclui aquelxs que não são o foco primário da agenda de uma causa pode fortalecer um movimento ao puxá-lo da margem para a corrente principal.
Como falei acima, isto é basicamente reconhecer seus privilégios e torná-los úteis. Ser aliadx não significa apenas saber como sua vida é socialmente melhor e bem aceita. "Ah, mas não precisamos nos lembrar disso o tempo todo, ninguém pode nos obrigar", exclamam certxs feministas. Certo, ninguém pode obrigar mesmo. Mas precisamos nos lembrar, sim. Melhor dizendo, precisamos viver a partir desse princÃpio. É nosso dever. Não é que um dia, caso feministas privilegiadxs façam mágica, poderemos lutar por causas que não são nossas pela perspectiva de quem faz parte delas. Não. Ser feminista intersecional é, principalmente, assumir enormes responsabilidades que o feminismo generalizado insiste em não reconhecer. Queremos união e solidariedade? Então devemos entender nossas raÃzes na sociedade e cortá-las pelos direitos de todxs e pela evolução do movimento. Pode doer no começo, dependendo da quantidade de privilégios, mas vai ficar tudo bem.
Não exija que aquelxs que você apoia produzam prova da desigualdade que estão lutando para resistir.
Só o fato de você desconfiar do real efeito das opressões e exigir algum tipo de prova, como se a sociedade como um todo não fosse a prova mais gritante, já é um indÃcio do pleno exercÃcio de seus privilégios. Você não precisa ser convencidx, as pessoas oprimidas é que urgem por reconhecimento. Você acha que a mulher negra, que tem seu corpo sexualizado de forma sistemática há séculos, deve alguma explicação? Ou acredita que uma criança vÃtima de exploração sexual quer chamar a atenção? De onde vem o pensamento de que você tem direito a provas de desigualdades que não afetam sua vida? Se uma pessoa diz que se sentiu ofendida por algo que você fez ou disse, ou você acredita ou vai embora, porque sem dúvida ela não quer aliadxs questionando sua própria vida.
Reconheça que o escudo do seu privilégio pode cegá-lx à experiência de injustiça dxs outrxs.
Este escudo do qual a Melissa fala é o mesmo usado em situações nas quais privilégios são usados como desculpa para opinar de maneira injusta e autoritária sobre discriminações. Uma pessoa cis querendo definir o que é transfobia, por exemplo, é um uso bastante comum, e muitas vezes proposital, desse escudo.
Não ofereça sua relação com um membro do grupo marginalizado como evidência de seu entendimento.
Na minha opinião, alguém com este pensamento horrendo está bem distante de se tornar aliadx de qualquer causa. Não vou dizer que nunca será, mas enquanto não houver a consciência de que pessoas oprimidas não são argumentos e sim, bom, pessoas, não haverá uma aliança honesta. Quando brancxs usam amigxs e familiares negrxs como prova de não serem racistas, penso que ou são ignorantes quanto ao que racismo realmente significa ou são racistas mesmo. Ou os dois, que é mais frequente. Portanto, usar a existência de pessoas de grupos marginalizados em sua vida é somente evidência de uma atitude desumana.
Esteja abertx a aprender e expandir sua consciência ouvindo mais e falando menos.
Como escrevi neste texto, não dar atenção ao que pessoas oprimidas de formas diferentes de você têm a dizer significa que a prioridade é você. Egocentrismo definitivamente não é uma caracterÃstica de aliadx. Converse de forma aberta e não abusiva com as pessoas, esteja dispostx a não só dar mais espaço ao que elas têm a dizer mas também a entender que você, em muitas situações, tem o poder de decidir quanto espaço elas terão. Tal poder só é válido e justo se usado a favor dessas pessoas.
Não se veja como o Kevin Costner em Dança com lobos ou o Tom Cruise em O último samurai. Você não é o salvador cavalgando ao resgate num cavalo branco. Note que você está entrando em um grupo de pessoas que já estão lutando para salvar a si mesmas.
Este, para mim, é um dos principais pontos tanto sobre ser aliadx como ser feminista. Será que quaisquer privilégios em nossas vidas as tornam automaticamente heroicas? Somos mesmo a solução de toda opressão por ter uma simples compreensão do sistema? Quem nos deu a medalha de salvadorxs? E por que sua imaginária capacidade de salvação é a prioridade enquanto pessoas estão sendo mortas apenas por existirem ao lado de quem faz outros usos de seus privilégios? É a vida delas que importa, a identidade delas, a luta delas, as causas delas. Lembre-se de que aliadxs jamais ocupam posição de liderança ou têm poder de decisão. Não deve estar na mão delxs o presente nem o futuro dessas vidas.
E perceba que o único requisito que você precisa para entrar no time dxs aliadxs é o compromisso com justiça e igualdade humana.
Se o feminismo é um movimento para acabar com a desigualdade, não é possÃvel ser aliadx se há restrições em sua concepção de justiça e igualdade para todxs. Volto a tocar na responsabilidade. Um dxs convidadxs no programa da Melissa foi Dorian Warren, professor e pesquisador de polÃticas raciais e étnicas e polÃticas urbanas. Ele disse:
Qual é a minha responsabilidade enquanto ser humano para assegurar que a dignidade de outro ser humano não seja desprezada? Penso que solidariedade deveria ser um princÃpio fundamental entre movimentos assim como entre pessoas.
Não existe solidariedade quando se invalida a vida das pessoas. A dignidade dx próximx é a sua dignidade, mas tente não agir a partir da motivação própria ao ser aliadx. Aja a partir da solidariedade, aja acima de diferenças e incompreensões, acima de orgulho pisado e ego ferido, para além de você. Nossa responsabilidade como feministas intersecionais e aliadxs é o que nos move em direção a mudanças.
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