_ Vai ser melhor para nós dois, Hélio. Eu não aguento mais essa sua cabeça. Você deixa qualquer um doido – disse a mulher, enfática e fatalista.
_ Vai você e esse quarto assombrado pros quintos dos infernos, Vilma! Foi esse quarto que deixou minha cabeça assim! Pra que esse quarto, Vilma? Pra quê?
A mulher colocou mais uma peça da roupa na mala, ignorando a pergunta do marido. Já tinham discutido muito por causa do jeito de ela gostar daquele quarto. Por causa do carinho dispensado às estantes entulhadas de passado e gavetas do quarto, e isso era problema dela.
O homem, bêbado, parou a porta, com os cotovelos apoiados nos batentes para que o corpo e o quarto parassem de oscilar.
Era toda noite a mesma coisa. Hélio raramente voltava direto para casa. Tinha que encher a cara. Vilma já estava cansada da situação. Amava o marido, mas a cada madrugada acordada pelos escândalos do marido, a cada garrafa de uísque ingerida, aquele amor era ferido e removido, empurrado para camadas inferiores de sentimento. O coração parecia vazio daquele amor que durara dezesseis anos e começara a degradar no dia do nascimento da pequena Mariana. Hélio mudara naquela ocasião. Ele não devolvia o mesmo amor. No peito de Vilma brotara uma incerteza. Daquelas que fazem a gente perder o sono e ficar horas pensando de madrugada. Parecia que ele não gostava da filha.
Hélio também estava cansado. Bebia. Bebia tentando aplacar aquela amargura. O alcoolismo foi despertado dois anos antes. Um choque. Um desespero que não quis dividir com a mulher… falar para Vilma só o faria se sentir menor. Logo ele! O bom Hélio! O cara mais invejado da rua. O dono do carro mais bonito, da esposa mais bonita, do sapato mais caro. O que poucos sabiam é que Hélio era agora dono do coração mais sujo. Bebia para afogar a culpa. Para afogar a consciência e tentar manter a cabeça longe daqueles pensamentos. Sempre que estava sóbrio a depressão vencia. Se estava sozinho, o choro vinha. Era um homem, pombas! Porque chorava? Tudo culpa daquela desgraça que se abatera em sua vida. Por que tinha conhecido Vilma? Por quê? Por que não tinha colocado a droga da camisinha? Aquele fruto fraco só poderia ter sido uma provação. Por que isso na sua vida, Deus? Teria sido tão ruim nas vidas passadas? Merecia tamanha provação? Essas eram as lutas mais leves do inconsciente. Tinha uma briga ainda mais forte, uma que ele sempre perdia. Ele, que se orgulhava de ganhar, de vencer, perdia sempre aquela contenda. Sempre. Os soluços vinham. O choro desvairado. Parecia um homem louco. Um homem fraco. Pra que tanto sofrimento? Por que Deus deixava que o destino armar contra a gente? Hélio saiu do quarto. Ela que fosse embora. Que arrumasse um canto para ficar. Aquela era sua casa. Ele não sairia dali. Só odiava ficar sozinho. Odiava. Via fantasmas pelos cantos. Uma menina fraca lhe apontando o dedo e o acusando. Quando o fantasma lhe dava paz e se conseguisse ficar sozinho, lá vinham as lembranças de dias ruins. No bar da sala encheu um copo com gim. Tinha que apagar. Tinha que apagar tudo aquilo da lembrança. Sentou-se tonto no sofá. Ficou quieto olhando para a luz do lustre refletindo no copo de bebida. Inspirou fundo. Lembrou aquele dia, na piscina. Ultimo lugar. O que ela queria? Tinha falado que a menina não conseguia. Para que insistir? Fraca daquele jeito nunca conseguiria ser uma atleta. Lembrava o rosto de Mariana a ocasião… ela teria o quê, oito, nove anos. Ali na beira da piscina mesmo ele passou o pito. Onde já se viu? Me tirar de casa para passas vexame! Põe na cabeça, Mariana, você é doente, não nasceu para ganhar. E eu não nasci para passar vergonha. Foram essas as palavras de incentivo que ele dissera para a menina. Vilma que a consolasse. Que explicasse porque ela nunca poderia ganhar merda de competição nenhuma. Não podia e ponto, para que insistir? Se fosse inteligente, pelo menos, poderia estudar alguma coisa e se destacar como engenheira… médica, sei lá. Mas nem na escola ia bem. Para que gastar dinheiro, investir numa pessoa que não iria para frente? Estava cansado daquilo.
Hélio tombou no sofá. Lembrava-se da filha na piscina. Nadando, nadando. Ultimo lugar. Quando as duas chegaram em casa, ele não disse nada. Ficou olhando, com cara de reprovação que só ele sabia fazer… um homem capaz de ferroar com os olhos. Vilma ficava furiosa nessas ocasiões. Mariana chorava. Correu para o maldito quarto, em prantos. Aquele mesmo maldito quarto, motivo de tantas brigas! A menina doente tinha ido embora, mas seu espectro ainda infernizava a existência do homem. Hélio encostou a cabeça no couro do sofá e adormeceu.