a tua voz distante
regressa como quem
diz: estou aqui.

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a tua voz distante
regressa como quem
diz: estou aqui.

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Quando a luz entrou, beijou-te
a ti,
e misturou-se ao tecido
da cortina
tão alva – tão quente,
a luz; o beijo,
aquele, que se derrama
na pele exposta, que pede,
em súplicas – pulsante
nas veias e ossos –:
“beija-me agora, tu que vens
e tocas a mim, toda terna e
tênue, com seus braços curtos
a estenderem-se sobre o
branco que é vivo, em mim,
e que, arrebatador,
me faz flutuar”.
E assim, numa tarde,
daquelas tantas, de horas muitas e
dia poucos, a luz –
não eu, quem dera fosse! –,
a balançar-se, jogou-se-te
aos pés, e
a ti
beijou.
a.mei
hoje a casa era só cheiro de chocolate e bolo. sentei no chão, de frente para a janela, à sombra do dia que já se cansava, e fiquei ali, eu, sentindo você a me fazer companhia cada vez que escapava, feito brisa, do forno e me fazia dançar o olfato.
fiquei sentada, embalada nessa valsa a um, até sentir que algo queimava — o bolo, claro. nunca fui boa com essas coisas de cozinha, você sabe. mas, para a minha alegria, apenas cheirava a queimado, não o estava, de fato. pelo menos não por completo. quer dizer, alguma coisa ainda podia ser salva.
podia?
de qualquer forma, desisti do bolo; não o comeria sozinha. não à tarde. não à janela. não com a chuva querendo se precipitar. há você demais, nisso.
em mim.
então passei um café. sentei sobre a mesa. abri o sutiã por dentro da blusa (não me lembrando nem o porquê de tê-lo colocado). observei a torneira pingando e pingando, e fiz uma nota mental de pedir a alguém para dar uma olhada o mais rápido possível. e em tudo isso, agora, era só eu — e um pouquinho de melancolia, tristeza e, talvez, saudades. mas era eu, só.
só eu.
ainda vai demorar um pouco até que eu me acostume a falar de você à parte de mim. tanto quanto as noites de inverno, ou o sol que há horas declina mas ainda não se pôs. porque leva tempo, sim. mas o tempo leva, não?
"há alguma coisa que você queria ter dito mas não o fez?", minha analista perguntou, certa vez, e me veio na cabeça a cena do último minuto que dividimos esse mesmo espaço, essa mesma casa; do desespero que me encheu a garganta, me deixando sem ar, sem voz; do último minuto em que tudo poderia ter sido diferente se eu tivesse implorado, como em todas as demais vezes, mas não o fiz. é que eu já não podia mais.
e, assim, você se foi.
saiu batendo a porta, que ressoou feito bomba explodindo contra as paredes, subiu a passos pesados pelas escadas, sacodiu os lençóis da nossa cama, fez tremer o telhado como um trovão acompanhado de raio, mas que não foi capaz de quebrar o silêncio absoluto que ficou comigo na cozinha, onde me deixou.
"e então?", ela me encorajou novamente. olhei pela janela e havia uma árvore, cruzando a rua, que aproveitava a manhã brilhante para mais um ciclo de fotossíntese.
"fica", respondi. o sol atravessou a janela e deitou-se às minhas mãos trêmulas no colo.
fica... foi tudo o que eu não disse.
confesso que ainda me pergunto se teria sido, mesmo, diferente — você, o digo. se tivesse ficado, teria realmente mudado, como o disse que faria ainda que pela quarta vez?
só que, pensando bem, talvez tenha sido melhor assim. porque a verdade é que já havíamos passado do ponto.
nós estivemos queimando todo esse tempo. ardemos, chegando ao ponto de doer tanto que sequer sentíamos, e, quando percebemos, já não mais podíamos salvar-nos.
nós não éramos mais nós. 'eu' e 'você' não somava, só diminuía.
diminuía.
e continuamos a diminuir até não nos lembrarmos nem do por que, um dia, termos sido um. termos sido algo.
e, agora, sentada aqui sobre à mesa, com uma xícara na mão e lágrimas nos olhos, tudo o que sei é que essa é única coisa que sabemos ser, hoje:
fim.
a.mei.
Está chovendo.
Ouço pouco, a chuva, mas sei que chove.
Chove e respinga no parapeito da janela.
Eu não escuto mas, sei, está lá fora — a chuva, à espreita.
Tão só, ela.
Tão só ela a se derramar.
Ora forte, ora fraca. Ora fina, ora sem classe.
Não senta à mesa, deita-se sobre ela.
E se esparrama. E desaba. E deságua... é nascente
[dos olhos].
Chuva tão quieta!
Veio de mansinho. Me assustou.
Cedo irrompeu a cair; desatando as nuvens, torcidas até secar – não houve uma gota salva.
Nada.
Sempre caindo, a chuva, a chiar!
...
E é lá fora, ou aqui dentro, que uma de nós está...
...em queda livre,
despencando c
é
u
abaixo.
a.mei.
se eu te pedisse
a voz, a lançar-se
rio adentro
a tomar-me
em silêncio
e fazer-nos
embaraços
se eu pedisse
uma só palavra
a contar o
que se abre
a cantar o
que me rasga
a tecer-nos
véus de graça
se eu pedisse
o céu que fosse
se eu pedisse
o morrer, hoje
darias-me tu
o amanhecer?
a.mei

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estou aqui,
você,
não sei.
não o posso ver
da minha janela,
por que te escondes?
a noite vem e não
te encontro,
vai tão longe!
amor, já não o alcanço,
estais aonde?
a.mei
e tem dias que a gente tá
m e i o
assim, sabe?
mais pra lá do que pra cá...
eu, à janela, antesagoradepois —
à janela, eu, a esperar
o que vem há tanto,
há pouco,
nunca...
a esperar, eu!, tu
que não vem.
foi-sim.