As férias de Kei foram um pouco melhores já que ela tinha passado boa parte com sua amiga Nashi. Era muito divertido estar e conversar com Nashi, as duas eram como irmãs e por isso, mesmo que Kei tivesse um diário, ela era peso pena e nunca conseguia protegê-lo com sucesso e Nashi sempre sabia de tudo dela. Elas tinham ido a cidade natal da mãe de Nashi que fica na base de uma serra. Era uma cidade tranquila e acolhedora, aqueles foram os melhores momentos da vida de Kei. No seu aniversário subiram a serra e foram para uma cidade mais acima, fria, bonita e com uma visão espetacular que Kei nunca mais se esqueceria, o caminho era tortuoso mas cheio de vida, flores, encostas, ventos gelados e a cada metro que completavam, os efeitos da altura se manifestavam, era delicioso e confortável, uma família que Kei vai levar sempre no coração. E as férias acabaram e com elas o ano começava, novo, astuto e cheio de surpresas, metade boas, metade más. O primeiro dia foi bem normal, os calouros pivetes chegavam e Kei se sentia renovada. Mas os problemas com faltas e notas chamavam atenção dos professores e coordenadores. Por isso na semana seguinte foram ter uma conversa com Kei. A diretora e a coordenadora a chamaram na aula de história:
-- Kei venha para a próxima sala para conversamos sim?
-- Tudo bem.
E Kei se foi, mal sabia ela a conversa indistinta que iria começar. Quando ela se sentou em frente a mesa onde as duas estavam, começou o interrogatório:
-- Kei, porque sempre chega atrasada e quando não chega diz ter ido ao médico ou outras vezes não vem à escola?
-- A senhora deve saber que minha saúde não é das melhores e por isso vou ao médico e sempre trago o atestado mas parece que ele só serve como um passaporte para entrar, já que eu fico com falta do mesmo jeito.
-- E os atrasos hein?
-- Como o caminho de minha casa para a parada do ônibus é significante, as vezes acabo perdendo o ônibus daquele horário, eu já decorei os horários que eles passam.
-- E porque não se acorda mais cedo?
Kei ficou em silêncio, não podia dizer que não queria de jeito nenhum estar ali e não tinha ânimo pra vir para este colégio. Mas acabou confessando.
-- Eu não gosto de estar aqui.
-- Mas porque Kei? Qual o problema? Suas notas também estão sendo prejudicadas.
E ela contou. É agora ou nunca Kei!
-- Tem uma turma da minha sala, que vive fazendo coisas vergonhosas comigo, me fazendo caricias indesejadas, me beijando à força, fazendo brincadeiras de mal gosto e me batendo.
-- E porque você não pediu para parar, que não gostava disso?
-- O problema é que não é só um, são vários, e eu já tinha pedido antes, tinha até falado com o coordenador ga-... -cof, cof- da sala para pedir para eles pararem, ele falou com o cabeça da "equipe" e eles cessaram por um tempo mas depois de uma semana começaram com as coisas de antes novamente.
-- Isso DEVE ser coisa da sua cabeça Kei, pois eu vejo você se divertindo com eles, isso não deve estar acontecendo, você está imaginando coisas.
"Mas o que? Minha última tentativa de dar um fim nisso está indo por água abaixo?"
-- A senhora já ouviu falar desse ditado? "Se não pode com eles, junte-se a eles".
Silêncio.
-- Bom a senhora quer que eu grite e chore toda vez que eles fizerem isso comigo? No começo eu até chorava mas acabei me acostumando e fingindo estar me divertindo com eles, o que quer que eu faça? Agora eu já sei que a culpa de tudo é minha, por não ser nem ter uma beleza aceitável e sim uma nerd estranha de aparelho dentário e óculos.
-- Mas, mas você é linda Kei.
-- A maioria não acha, e a maioria eu digo quase todos menos um ou dois.
-- E quanto as notas o que você irá fazer? E mais uma vez digo que você é bonita, não ligue para o que os outros dizem ok?
"É bem difícil não ligar para o que eles dizem quando eles estão gritando COISA FEIA no seu ouvido."
-- Ok, eu vou melhorar as notas e quanto a turminha que me insulta?
-- Nós iremos fazer algo quanto a isso.
-- Tudo bem vou voltar para a sala então.
-- Pode ir.
Kei ficou um pouco fortalecida depois daquilo, mas como conhecia aquela escola não criou tantas expectativas. Ludevick não gostava mesmo dela, naquele mesmo dia ele estava na sala I de Moda, paquerando uma das novatas. Kei não criaria expectativas novamente, ela era feia e tinha que aceitar isso querendo ou não. O seu único caminho era ser notável em algo, o inglês era seu forte e sua voz era notória, quando cantava todos paravam para escuta-la mas Saori que cantava no Coral de sua Igreja e era a que ficava com o microfone, guiando a assembléia e o próprio coral tinha tomado seu posto, evidentemente sua voz era linda e suave, Kei no entanto nunca tinha cantado em um microfone nem sequer tinha feito algum curso de música, ela só cantava nas horas vagas e embaixo do chuveiro mas mesmo sendo uma leiga, não desafinava. "O que se pode fazer não é? Quando alguém é melhor que você em tudo e mais um pouco?"
Kei continuaria esperando algum resultado da diretora até que o incidente ocorresse, daqui a alguns meses, naquele mesmo ano.