É tempo de chuva aqui na cidade. As gotas caem sobre as árvores, escorregam pelas suas folhas, por vezes caem em galhos e escorregam pelos galhos chegando ao tronco descendo levemente atĂ© o chĂŁo, por vezes caem acertando em cheiro uma formiga que corre pela sua vida a caminho de seu lar. As cigarras tocam seus enjoosos sonidos looptantes e eles ecoam pela praça da rua ao lado reverberando sobre as paredes das casas recĂ©m construĂdas seguindo seu caminho atĂ© o ouvido daquele pobre escritor amador que custa para escrever uma breve frase para o seu blogue que ninguĂ©m lĂŞ. Cachorros de rua brigam por uma marquise, os gatos da vizinha saem de um pequeno vĂŁo que se apresenta entre duas casas, correm miando seus miados sombrios e desesperados esperando que a dona abra a persiana ou a janela por qual eles saĂram. Os fungos que cresceram em um tronco recĂ©m cortado de uma árvore que vi crescer quando eu ainda nem tinha pelos entre as pernas. Repelem os pingos que pingam sobre ele e faz a areia dos pĂ©s de algum humano medĂocre que pisando deixou sobre eles escorra para longe de si, mostrando novamente o semblante albino e poroso de sua existĂŞncia. Perto dali, a areia que o vizinho comprou para a construção de sua casa escorre pela sarjeta, entupindo a passagem de água. Ela agora tem que dar uma volta ao redor do monte, indo pela rua ou pelo passeio de outros vizinhos. Consigo ver uma criança correndo na chuva e sua mĂŁe gritando para que ela saia de lá. AĂ me vem uma memĂłria. Banho de chuva. No dia que ela completou as provas e viu que passou, quando voltou da outra cidade me ligou dando as boas novas e eu disse meu habitual “eu avisei”, me mandou calar a boca e marcamos de nos ver. Mais tarde quando cheguei lá ela estava toda molhada, tinha saĂdo na chuva e queria que eu fosse tambĂ©m. Eu disse que um dia irĂamos, disse ainda que farĂamos o famoso beijo na chuva dos cinemas, ela riu e encostou a cabeça no meu ombro. Nos amamos naquela tarde de forma tĂŁo forte que hoje me recuso a acreditar que foi tudo em vĂŁo ou encenação. … Sim, esse texto foi uma enganação. Eu ainda nĂŁo parei de falar dela. Espero um dia mortificar esse assunto.

















