O tempo estava se esgotava, a plateia vibrava em seu último adeus enquanto as luzes se apagavam. Mentiroso. Kiho fechou os olhos por um segundo, desejando que a escuridão lhe desse o mínimo de força, mas a parcela de caos bem à sua frente era muito maior. Você é um mentiroso. Não podia discordar do outro. Na verdade, não conseguia. Era como se seu próprio corpo, mente e tudo que o cercava, se negasse a reproduzir mais uma de suas farsas diárias das quais prosseguiam com tremendo desgaste há longos meses. Procurava não se mover sequer um centímetro de onde permanecia, sem tocá-lo, apenas mantendo contanto visual que alimentava a chama acesa. Mas agora com as mãos de Jae em volta, a tarefa se tornava ainda mais árdua. Era difícil até mesmo respirar com tamanha aproximação do capitão. Um mentiroso, Nam Kiho. A falta de argumentos deixava sua garganta seca. Por um instante, sentiu repulsa do seu próprio eu. Nunca dissera o que realmente queria da vida, mesmo que isso significasse destruir sonhos predestinados pela família e entre tantas outras coisas que passaram a se tornarem reais de tanto fingir. Era um mentiroso, sempre fora. Sung Jae só ali para cuspir fatos na sua cara. E pior ainda, mostrar que em meio a tanta mentiras, essa definitivamente era a pior de todas. É isso o que você é. Alguém preso, trancafiado em um círculo cada vez mais vicioso e tentador demais para ser de lado e arriscar escapar. Porém, mesmo que tentasse, todas as tentativas seriam falhas. Era tarde demais. Estava acorrentado por um sentimento, por alguém. Não importava o quão longe fugia, Nam sempre acabava no mesmo ponto, no mesmo lugar. No mesmo sentimento, nas mesmas mentiras, no mesmo alguém. As têmporas se enrugaram, uma sensação de agonia começara a consumir Ki, que olhava para os olhos castanhos como se estivesse frente a um espelho, onde, pela primeira vez na vida, conseguia ver a si mesmo de forma tão nítida. Só assim conseguiu entender como a energia usada para inibir aquele fragmento se encontrava escassa. Depois de tanto empurrá-la o espaço se tornara insuficiente. Não havia outra alternativa, aquela era a hora da verdade. Precisava ser honesto consigo mesmo. Não conseguiria mais continuar enterrando um sentimento tão puro quanto a nudez da própria alma. Porque não importava por qual caminho seguia: das mentiras, da negação e até mesmo da raiva. No final do dia, todos eles acabavam o levando de volta aos verdadeiros sentimentos que sustentava por Jae. “Por quê?” A indagação soava como uma pergunta retórica ao hesitar por alguns segundos. “Porque eu não consigo evitar de me sentir completamente atraído por você. Quando te vejo, só consigo pensar em como todos os detalhes -as mãos não tão grandes, a cicatriz nas costas, o jeito que você tenta se gabar por algo- caem igual feitiços e me puxam para você como um imã. Eu tentei. Tentei ignorar, mas é impossível. E eu sei que tudo isso é errado.” A sinceridade das palavras era visível por tudo que vinha de Kiho no momento: seu olhar, sua convicção e a dor que se manifestava por meio dos olhos marejados. Finalmente estava colocando tudo para fora, finalmente fora posto contra a parede e encarou uma realidade da qual negava. Mas ao mesmo tempo que as coisas pareciam dar certo, tudo parecia tão errado ao ser pronunciado em voz alta. O peso nos ombros se esvaiam lentamente, mas o nó no estômago se formava por outro motivo. Medo e insegurança, talvez? Nem ele mesmo compreendia. “Mas eu não posso evitar de estar apaixonado por você.” As cortinas se fecharam. O espetáculo havia chegado ao fim.
Sentiu os músculos se libertarem daquela tensão que antes os incomodava tanto que quase causava cãibra. Os olhos eram a única coisa que não tinha sofrido alteração alguma: o corpo inteiro de Jae havia recuado. Como um animal que percebe que sua presa é muito maior do que é capaz de capturar, mas que em um momento de arrogância ou necessidade, esquece-se disso e aproveita a oportunidade que lhe parece única. Por Deus! Esperava qualquer coisa, qualquer coisa, menos o que tinha acabado de ouvir. E então os olhos também mudaram. Deixaram de lado um viés antagônico, hostil, que teria ferido Ki se tivesse poder para tanto. Era difícil descrevê-los agora, mas era como se eles tivessem notado algo que sempre esteve ali, à plena vista. Era o olhar de alguém que finalmente consegue arrancar um segredo das camadas mais profundas da pele de outra pessoa: um segredo que queria, melhor, precisava conhecer. Ainda não sabia se tinha feito a coisa certa ao arrancá-lo tão brutalmente de Kiho, mas não negava que estava satisfeito. Isso não inflava seu ego sob aspecto algum, pelo contrário, o fazia calçar os sapatos do outro e obrigá-lo a enxergar de seu ponto de vista. Já tinha ouvido muitas pessoas dizendo que a repressão de um amor transforma-se em ódio e nunca acreditou nisso. Não até aquele momento.
Jae ficou em silêncio, os braços ainda prendendo o corpo do outro enquanto seus traços tornavam-se quase doces. Sentia um calafrio bem na boca do estômago que era difícil de explicar. Ainda não entendia o que tinha acabado de acontecer, mas o calafrio cresceu, transbordou, espalhou-se por seu corpo inteiro e o fez tomar uma atitude que não esperava. Em questão de segundos, uma mão segurou o loiro pela cintura e o puxou para perto, a outra indo encontrar repouso na nuca alheia. Esqueceu-se de sua racionalidade completamente ao que unia seus lábios ao de Kiho em um beijo quase desesperado. Jae não ia, não queria pensar sobre a verdade que ouvira. Tinha desligado seu cérebro e agia como um verdadeiro animal: baseado nos instintos. Era só isso que queria, pelo menos uma vez na vida fazer o que sentia vontade e não o que era certo. E essas suas ideias só aumentavam a cada vez que se dava conta do quanto os lábios do outro eram macios, de quanta sintonia havia entre os dois, mesmo que essa nunca tenha se mostrado durante todo o tempo que passaram juntos. Deu alguns passou para frente, colocando Nam novamente contra a parede. A respiração estava pesada e ainda estava imerso em todas aquelas sensações, até que separou-se dele com lentidão, abrindo os olhos para encará-lo. Ainda inebriado, sussurrou: “Por que isso é errado, Ki?”