"E no tarô as suas cartas dizem que coisas passadas voltaram com toda força"
Coincidências - Jão.
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"E no tarô as suas cartas dizem que coisas passadas voltaram com toda força"
Coincidências - Jão.

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Não consigo ir embora
“Não consigo ir embora”
Foi o que me disse.
Enquanto percorria cada canto,
Frestas íntimas,
Embora nunca tenha me tocado.
A culpa me engolia,
Mas eu jamais pude negar
O desejo que era intrínseco
Tão difícil de crer
Pior ainda de digerir
Sua beleza me assusta.
A que vive dentro de você,
Que me atinge com palavras,
Sons, imagens, interpretações,
Aquela que é difícil de esquecer.
O seu rosto sempre me apavorou.
Teus olhos escuros profundos,
Seu cabelo enrolado,
Que me levava a caminhos intermináveis.
É tão fácil de lembrar.
Não queria querer,
Pois sempre soube que não podia,
Mas estar ao seu lado
Era a traição mais bonita
Que eu poderia cometer.
E mesmo quando foi embora,
Continuei relembrando,
Quase como se suas palavras,
Fossem as últimas.
As únicas.
Noites sonhando acordado,
Esperando alguma manhã
Poder despertar ao seu lado
Cumprir as histórias, fábulas,
Que juntos continuaremos a sonhar
Onde se sente o medo
Você pode ouvir que amor se sente no peito,
mas no meu peito apertado,
batendo descompassado,
desregulado,
sinto só o medo
Você pode ouvir que ansiedade se sente no estômago
mas no meu estômago,
embrulhando e revirando,
comprimindo minha bile,
sinto só o medo
Você pode ouvir que tristeza se sente no rosto,
mas no meu rosto,
limpo por lágrimas,
de olhar inconfundível,
sinto só o medo
Você pode ouvir que raiva se sente nos músculos
mas nos meus músculos contraídos,
tensos ao ponto de doer,
punhos cerrados,
sinto só o medo
Você pode ouvir que o nojo se sente na garganta
mas na traqueia fechada,
na voz falhando,
no grito abafado,
sinto só o medo.
Você pode ouvir sobre onde se sente o medo
mas por onde se passa,
sem resposta bonita,
ou localização exata,
sinto só o medo.
Amar algo que ajudamos a criar
Amar algo que ajudamos a criar é absolutamente inevitável. Pois, ao criarmos algo, deixamos para trás fragmentos de nós mesmos, cristalizados em cada passo daquela produção.
Quando nos deparamos apaixonados por outra pessoa, e nos vemos diante da intenção de conquistá-la, temos de tomar ações. Estas são, palavras, gestos, elogios, presença, presentes. E, muitas vezes, vejo-me tornando alguém mesmo disposto a atingir aquele objetivo. Pois a sensação de agradar alguém é, absolutamente, agradável.
Mas quando tomamos essas iniciativas, acabamos começando a construir algo por nós mesmos. E se este algo, por sua vez, não é recíproco, criamos ele completamente sozinhos. E quando falamos de criar uma relação com alguém, obviamente, temos a outra parte. E ela sim influencia muito de como iremos agir, e é esperado que aquela pessoa nos tenha deixado apaixonados por quem ela é. Mas a paixão é um sentimento intenso, de entusiasmo, atração e interesse forte pelo outro. Já o amor, é um termo complexo, que engloba a afeição, o companheirismo, a intimidade e o compromisso com alguém.
O entusiasmo gerado pela paixão, nos faz criar gestos que atingem o ponto do compromisso para com o outro. Mas este outro, é mesmo o outro pela qual se detém da paixão?
A ideia que quero trazer, é que o amor muitas vezes está centrado não no outro e nas suas qualidades, mas na experiência de amar. E essa, muitas vezes, não é alimentada pelo outro – mas por mim. Nos gestos de parceria, na companhia dividida, nas conversas, nos flertes. Mas isso é objeto de amor pela reciprocidade, ou pelo investimento que eu mesmo fiz na relação? Porque se há esforço para manter uma relação, você está construindo isso, e nessa construção há muito de você.
A dor ao deixar uma relação, pode não vir por deixar de ter aquela companhia na sua vida, mas sim por não existir mais aquela versão de si que existiu para com aquele outro. Não existem mais as palavras, os gestos, os momentos, a experiência.
Por isso, é fácil observar a ida rápida para outras relações. Isso prova que não é sobre a outra pessoa, mas sobre o amar. E muito provavelmente, sobre quem você é quando está construindo algo. Perdendo uma relação romântica, você perde todo o investimento e todo aquele “eu” que foi construído na narrativa com o outro. Por isso, essa perda precisa ser suprida com a construção de outro projeto de amor.
Se ao amar, você repete os mesmos passos que fez com diferentes pessoas, e nessas diferentes pessoas (mesmo sem ser um objeto de paixão recíproco) você se vê apaixonado, o objeto de paixão não é a sua rotina? Os seus rituais de amor? A sensação que você sente?
Podemos observar isso com autores que amam suas obras, e passam anos e anos construindo elas. E ao apresentá-las, ou tentar divulgá-las e vendê-las, são recusados. Ou então um cientista apaixonado pela sua própria descoberta; um arquiteto que admira cada parte da sua construção; um chef obcecado pela sua própria gastronomia. Porque, esse amor pode não estar ligado exatamente a qualidade dessa construção, mas a parte deles que foi deixada ali. O investimento.
Então seríamos, muitas vezes, amantes do brilho dos nossos olhos que são refletidos no olhar do outro?