MAXUNE
       Deitou os olhos sobre a loirinha controladora. NĂŁo sabia se tinha mais vontade de beliscĂĄ-la ou de beijĂĄ-la, ĂŠ. â GordĂssima, obesa. Socorro. â Deu um sorriso de canto. â VocĂŞ ĂŠ linda, Kitty⌠â AdorĂĄvel nĂŁo ĂŠ? â âŚUma pena ser tĂŁo chata. â TĂŁo adorĂĄvel que Max havia de estragar. Mas isso era porque jĂĄ estava visivelmente alterado. O remĂŠdio nĂŁo servia pra nada alĂŠm de arrancĂĄ-lo com todas as forças do cĂŠu. Atirava-o feito um capacho ao inferno, onde lĂĄ ficava. Pousando de depressĂŁo, Ă realidade, da realidade, Ă depressĂŁo. Agora ao lado de Kitty as coisas com certeza se tornariam mais fĂĄceis, ela seria sua dose de felicidade diĂĄria, assim seja. Mas Max nunca teve doses de felicidades que nĂŁo fosse subalternas, clandestinas⌠EntĂŁo entrou facilmente na defensiva e lĂĄ se refastelava. Subiu as mĂŁos para a cintura de Kitty empurrando-a lentamente â deuses que nĂŁo vejam o que pensou por alguns segundos â para o lado. Ajoelhou-se no chĂŁo e levantou-se em seguida, estendendo uma das mĂŁos para a loirinha.
           â Eu vou parar com essa droga, atĂŠ porque nĂŁo deveria ter começado. â Mirava bem no fundo dos olhos azuis, podia passar dias mirando-os, ĂŠ. Mas o principal fator era que tudo o que o moreno realmente sentia transbordava pelos olhos vermelhos, um grito de âEU NĂO SUPORTO MAIS ISSO.â Era o que escorregava de sua pupila. Kitty teria que ajudĂĄ-lo a suportar, ĂŠ, ĂŠ. De todos os malucos desse e dos outros mundo a japonesa escolheu logo um dos exemplares mais complicados. â Mas deixa pra lĂĄ. Vamos jantar. Quer pedir alguma coisa? â LĂĄ vai um louco fugindo da raia.
ç ¤âUm segundo, meu caro leitor. A loirinha precisa de um tempo para assimilar as coisas. Era impressĂŁo dela ou o cachorrĂŁo malvado estava a elogiando? E, melhor que isso, parecia estar sendo realmente sincero.Â
                    ⼠VocĂŞ ĂŠ linda, Kitty âĽ
A frase causara tanto impacto na mente da ninja que seu coração disparou. Ok, para alguns aquilo era um simples elogio, nada demais. Mas para Kitty aquele simples comentårio era tão especial que parecia ter ganho algum prêmio importante. Sim, era a primeira vez que era elogiada assim. Nunca ninguÊm, exceto seu irmão, dissera que era linda. Seu rosto adquiriu um tom de vermelho gritante e isso era ruim, jå que não poderia disfarçar. O elogio ecoava em sua mente, tanto que nem ao menos ligou para o que ele disse depois disso. Só se deu conta do mundo real quando o moreno lhe estendeu a mão.
âMaxâŚâ Começou antes mesmo do outro continuar com a pseudo-pirraça. Precisava que ele entendesse de uma vez por todas que os medicamentos eram necessĂĄrios. NĂŁo podemos fazer apenas o que queremos na vida, certo? â⌠Por favor, tome os remĂŠdios. VocĂŞ precisa deles.â Levou sua mĂŁo atĂŠ o rosto pĂĄlido do outro, lhe fazendo carinho com o polegar. E lĂĄ vem o dialeto de olhares. âPor favor.â
       Ficou ali, retesado por um tempo, esperando algum sinal, alguma reação da loira que fosse capaz de interpretar. E o resultado fora mais que afĂĄvel. Estar ali, parado, com uma loirinha linda e extremamente corada aos seus pĂŠs. Max tentava adivinhar quais os pensamentos que navegavam naquela cabeça loura, mas analisando sua expressĂŁo, que parecia nĂŁo atravessĂĄ-lo, mas mergulhar nele e em todo o resto como um sĂł â tanto que nĂŁo se tinha o foco em nada -- nĂŁo pode evitar sorrir, nĂŁo um daqueles sorrisos milenares, mas um meio-sorriso satisfeito. AlĂŠm de tentar adivinhar o que Kitty pensava, admirar a adorĂĄvel visĂŁo de seu rosto corado e manter-se retesado controlando a tremedeira de suas mĂŁos, Max tambĂŠm nĂŁo deixava de inventar mil motivos para os quais a japonesa corara tĂŁo repentinamente â claro que nĂŁo imaginou tĂŁo de pronto que fosse pelo simples fato de dizer que ela era linda, primeiro porque era uma verdade incontestĂĄvel para ele, e segundo porque a chamara de chata como uma neutralização do elogio (mau-criaçþes de cachorrinhos vira-latas) â nĂŁo encontrara nenhum aparente, entĂŁo sĂł apreciou a imagem enquanto esperava que ela voltasse Ă realidade e fossem entĂŁo comer alguma coisa.
           Consegue-se então imaginar quão grande fora sua surpresa ao ser tomado com aquele comando da loira?
           Ficara perdido de imediato, e nĂŁo soubera como responder, ficara calado, a encarando, dançando a passos rĂĄpidos o olhar entre o chĂŁo e os olhos azuis. Sim, algumas coisas nĂŁo podemos escolher, e Max convivia com tal fato tĂŁo cruelmente que quebrar a idĂŠia algumas vezes nĂŁo lhe parecia tĂŁo mal â sim, nem que isso pudesse lhe custar Ă vida, alguma vez. O efeito que a mĂĄxima trazia era dominĂł, e começara desde que Max era um feto: nĂŁo queria ter nascido matando a mĂŁe, nĂŁo queria ter sido um filho tĂŁo burro, nĂŁo queria ter sido um fardo para o pai, nem queria ter nutrido tanto Ăłdio pelo irmĂŁo, tambĂŠm nĂŁo queria ter se transformado em um mutante emocional, nem ter trazido tantos problemas a tantas pessoas. Ah! Vamos lĂĄ! NĂŁo queria nem ter que lidar com a existĂŞncia, se ĂŠ que se pode querer algo antes de se existir. A Ăşnica coisa que nĂŁo queria e foi benĂŠfica, foi esse amor pela loirinha. NĂŁo, nĂŁo queria ter se apaixonado por ela, mas dentre todos os fardos com que teve de lidar sem ter chance de escolha, amĂĄ-la foi o Ăşnico que houvera sido bom (bom? Max me bate se deixar sĂł âbomâ, digo: maravilhoso, antes que leve bordoada). EntĂŁo isso constava, e nĂŁo era pouco. O sentimento por ela devia equilibrar a balança de âfazer algo que eu quero â fazer o que nĂŁo tenho escolhaâ? Max nĂŁo sabia. E mais uma vez se encontrava em um paradoxo, uma encruzilhada, uma perdição.
           Deu de cócoras, olhando a loira nos olhos novamente. Mas foi apenas por alguns segundos, sabia que ela estava certa, só não estava certo de que o certo Ê o que devia seguir. Apoiou as mãos sobre as suas coxas, e encarou-as por alguns instantes. Era o måximo. O måximo de Max. Não poder tocar Ê não poder viver. O que saiu de seus låbios foi um suspiro cansado.
           -- Ă.... â complicado, ia dizendo, mas parou. Decidiu que Kitty era quem tinha de falar, era a Ăşnica que naquele instante tinha o poder de dizer algum argumento para convencĂŞ-lo a amar a vida, amaria a vida, por ela.Â











