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Sombras do Mundo completou 2 anos hoje!
No Mundo dos Espíritos #10
Após ter tomado a frente da situação rapidamente tomaram o caminho de volta ao hospital. Chegando lá viam o hospital lotado de almas perdidas, o clima de melancolia naquele hospital tomava conta tanto dos pacientes quanto das pessoas que trabalhavam ali.
- Entendeu porque espíritos evitam brigar? Uma lacuna se cria e ela tem que ser preenchida. Eles estão aqui negociando e influenciado os vivos ao mesmo tempo. De certa forma isso prejudica somente os vivos, é uma forma de resolver esse assunto agora pendente.
- Han... – Ela percebeu que ele tentava mudar ou até amenizar as coisas relacionas a esse assunto.
- Me acompanhe.
Desceram até o necrotério, atrás da geladeira mais antiga havia uma porta selada. A parede viva úmida e gotejava. Havia vários baldes ali para evitar que o local fosse inundado. As marcas do selamento eram evidentes, estava verde, coberto de fungos. Entraram lá atravessando a parede.
- Que escuro Slototh e que cheiro horrível...Meu pé encostou em algo que não consigo identificar. Onde está a luz?
- Vou providenciar umas velas. Afinal aqui é o único local que consigo encostar em algo sólido.
- Vai logo então e vamos pegar o que você quer pra nos proteger. Acho que eles não vão se perder aqui.
- Você está correta. Se prepare.
Acendeu uma dúzia de velas, Ângela, antes da sala ficar totalmente iluminada pela fraca luz amarela. Viu conseguiu pegar algo nas mãos, ficou feliz. Finalmente sentiu algo pra tocar em dias. Quando a luz se tornou mais acentuada, apertou os olhos para enxergar o que estava em suas mãos. Era um pequeno esqueleto frágil, frio e quebradiço. Logo entendeu, eram ossos de um bebê. Ali estava forrado deles com desenhos e formas estranhas, acima de tudo, forrado de fetos.
- Ahhh. O que é isso?
- Reservas de energia, assim que um feto ou bebê morria e a alma saía do corpo eu investia um pouco da minha energia no corpo. É a melhor forma de preservá-la.
- Você matou eles? E-estão se movendo...
- Não, peguei só os corpos. Eles se movimentam pela ação da energia demoníaca minha, eu os controlo.
- Isto é horrível! Slototh...
- Já os vi. Pra acabar com eles vou ter que gastar toda a energia que restou, vão!
Imediatamente Slototh sentiu a energia refluir para ele, a aparência voltava a ser mais primitiva, voraz. Angel via a enorme semelhança que ele havia adquirido com o demônio que seguia Josi. Assim, após a assimilação começou a lançar os corpos até então conservados sobre os Poltergeists dominados, assim como os esqueletos. Estranhamente ele iniciou um ritual de exorcismo, acuada, Ângela não via a ligação entre uma coisa e outra.
- Mas sua energia não é má? O que vai acontecer?
- Vou usar essa minha energia má e injetar neles.
- Você não pode ser destruído ou coisa assim?
- Não, e eu vou por energia maligna neles. Que não estava mais em mim, lembro. Eles estão sendo controlados por vodu daquela garota. Agora observe.
Assim que os Poltergeists atravessavam aquela sala secreta, tocavam nos cadáveres carregados de energia maligna. Foram ficando cada vez mais lentos a medida que se aproximavam de Ângela e Slototh até que mergulharam numa loucura incessante. Se debatiam no chão, diziam coisas sem nexos. Pela natureza deles, as coisas voavam a esmo ali, no caso essas coisas eram os fetos conservados em formol, em decomposição e os ossos.
- ...não entendi. – Disse Angel, cada vez mais confusa.
- Usei a energia maligna que eu havia armazenado por anos para influenciá-los. Como estavam sendo dominados, influi a minha energia neles. Se fossem maus talvez não fizesse efeito, pelo visto são de natureza boa. Espíritos maus podem influenciar tanto humanos quanto almas inferiores.
- Que coisa. Vou me vingar de Josi. Mas antes preciso recuperar a Adriana, Slototh. Sabe onde fica a Casa de Repouso Felicidade?
- Saber, sei. Mas como já disse, não sei andar fora daqui, não saio a anos...
- Entendi. Fiquei sabendo deste lugar no meu enterro, ela ia ser levada pra lá ontem. Me dá esse endereço aí.
- Aqui. – Disse apontando para uma mesa daquela bizarra sala.
- Hmmm. Fica entre a nossa cidade e a vizinha, numa área rural. Vamos?
- Por mim tudo bem, estou considerando minha ação neste hospital encerrada.
- Por quê?
- Gastei aquele tipo de energia na qual queria me livrar. Estou me revertendo a forma espiritual mais humana. E a situação neste hospital devido as nossas ações logo irá atrair coisas muito ruins pra cá.
- Nossa, vamos tentar tirar minha amiga daquele local então. Você está falando com a cara muito séria.
- Falei a verdade. Mas antes, um adendo. Hospitais psiquiátricos normalmente contém almas errantes, perseguidas e...deformadas. Pode ser perigoso, eles podem nos influenciar e ficarmos presos eternamente por lá. É uma área totalmente atípica no mundo dos espíritos, assim como bares, hotéis e outros locais de grande concentração humana.
- Não me importo, não quero que minha amiga se junte a mim aqui. Ela merece ser feliz. Temos eu conseguir chegar lá de maneira rápida, uma caminhada seria meio longa...
- Não flutuamos, no máximo atravessamos paredes, movemos objetos e nos comunicamos com os vivos nas mais diversas formas. Mas tive uma idéia, vamos, a noite está linda. – Soltou um sorriso misterioso.
A noite realmente estava bonita, caminhavam lentamente na beira da estrada rumo a Casa de Repouso. Estavam cansados, principalmente Ângela, desde sua morte não havia parado um minuto para refletir sobre a sua recente condição. Assim iam vagarosamente, em silêncio, até que Angel iniciou uma conversa:
- Pois é...então morri mesmo.
- É, dizem que a morte é o grande momento da vida. Pelo visto você nem teve tempo de refletir sobre essa hora.
- Não mesmo...só sei que estava correndo e de repente o ônibus que ia pegar me atropelou...foi estranho, tudo meio rápido. E a Josi, será que ela pode mandar mais “escravos” atrás da gente?
- Não sei, não sei até onde ela pode ir com as habilidades dela. Mas é possível.
- Hum...e como você se tornou um demônio?
- A milênios atrás. Na primeira e única vez que fui vivo. Eu era um guerreiro de uma tribo do norte inglês. Todos os conglomerados humanos daquela região era nômade, não sabíamos plantar ainda. Como se fosse um general, ordenei a tribo que saqueasse as outras atrás de comida.
- E não ficou só nisso né?
- Não, ouve dezenas de tribos dizimadas, crianças mortas, mulheres escravizadas sexualmente e estupradas. Como todos os humanos maus que são lançadas nas profundezas da miséria humana após a morte, também fui. Mas fui um pouco mais...“Agraciado”.
- Não entendi.
- Quando a humanidade surgiu, os conceitos de bem e mau não existiam, era abstrato. Nada definido ainda. Viramos espíritos após a morte porque as pessoas acreditam nisso, então acontece. O mesmo aconteceu com tais conceitos, foram julgados e separados. Desde então, cada pessoa que fizesse algo “inédito” em vida, se tornava um deus naquilo após a morte. Eu me tornei o do saque. Passei séculos nos níveis inferiores juntando poder que vinha das pessoas que praticavam esse ato. Vim pra cá para influenciá-las diretamente, ter mais poder.
- Mas... O que aquele monte de espírito tá fazendo vindo pra cá? Slototh...
- Hum...espera um pouco.
Assim, um quase exército de almas passaram entre eles. Todos com uma cara extremamente agonizante, um clima pesado pairava no ar. Estavam em farrapos, murmurando; outros gritando. Alguns pareciam estar faltando partes do corpo, como se tivessem carne, tendo-as expostas. Parecia uma reprodução de mal gosto de Thriller. Observando-os atônitos, Slototh e Ângela viam eles se afastarem ao longe.
No Mundo dos Espíritos #9
Ângela e Slototh que ainda estavam a seguindo ouviam tudo barbarizados. Inconformada o jovem espírito começou a tagarelar:
- Filha da puta, ouviu o que essa piranha falou? Se eu estivesse viva eu a estripava!!! Puta que pariu, foi ela que me profanou! Meu pai, minha mãe...minha família! Se já não bastasse o tanto que estão sofrendo pela minha morte, vem essa desgraçada e fode com o meu rosto só pra aumentar o desgosto dos pobres! Ai se eu pudesse...e a Adriana então deve estar desesperada!
- Nossa quanto palavrão garota! Essa garota é má, te avisei. Ela deve manjar de magia negra, vamos cair fora daqui. E você se acalmar...
- AINDA NÃO!
- Er...hum, tá. – Slototh olhou para ela percebendo que a recém desencarnada estava totalmente fora de si, tamanho a ódio que emanava. – Então me explica os porquês de sua amiga estar nesse estado. – Tentava desviar o assunto.
- É o seguinte, eu não acreditava em espíritos. Bom, até virar um. A Adriana e a família dela são espíritas e ela se dizia mediúnica, que via espíritos e coisa e tal. Vivia me deixando com medo! “Tem um Ciclano assim e assado ali na porta!”, “Vi um vulto na janela!”. Ela falava isso direto e eu me borrava toda. Agora to começando a sacar...aposto que ela colocou uns espíritos aos montes atrás da minha amiga e eles acabaram endoidando ela!
- É bem possível... – Analisava Slototh. – Se ela possue esse dom, ela pode ser assombrada facilmente por almas torturadas e maléficas e...
Ângela nem dava atenção ao que seu novo amigo falava. Observava Josi dar suas últimas baforadas de seu cigarro e gritou pulando pra cima da viva dizendo:
- EU VOU ACABAR COM ELA!
Em vão a atravessou por completo, e se pôs a observá-la novamente. Slototh implorava para que ela parasse com aquilo antes que fosse tarde. No desespero Angel começou a conseguir mover pedras e jogá-las em Josi. A mesma saiu correndo do local até uma esquina próxima, se refugiando em um bar.
Adentrando no banheiro do mesmo começou a esbravejar:
- Ah...ai que dor! O espírito da desgraçada então está me perseguindo! Vou dar um jeito nisso já!
Retirando um dos livros negros da sua bolsa começou a recitar versos em latim. E disse em voz baixa:
- Agora a sigam!
Enquanto isso Slototh e Ângela permaneciam no pequeno jardim:
- Tá maluca garota? Se ela perceber que for você ela pode retalhar!
- Não me importa! Ela merecia aquilo!
- O como você conseguiu fazer isso mas... – Slototh desviou seu olhar de Angel e paralisado espreitava longe.
- Slototh? Tem alguém aí?
- Ah não...vem! Vamos para o hospital AGORA!
- Não me puxa! O que foi?
- A tal Josi...ela mandou os dois Poltergeists que a rodeavam atrás da gente, eles estão nos observando daquela esquina, vamos!
- Mandou? Então eles estavam sendo controlados?
- Para o azar dela sim. Agora para de falar e vem!
Assim que começaram a correr, os dois Poltergeists se puseram a ir atrás. Por motivos óbvios Slototh corria pela cidade sem conhecê-la, ia por lugares que se lembrava de décadas atrás. Angel demonstrado um bom grau de confiança no novo amigo, simplesmente o seguia sem questionar. O demônio fugia por razões necessárias, batalhas entre espíritos independente do vencedor, se tornam lugares malditos.
Casas mal assombradas ou que possuem ações de Poltergeists e até possessões demoníacas geralmente são levadas a esse ponto por brigas entre entidades pela posse do local. Geralmente elas ocorrem entre espíritos vingativos que são aqueles que perseguem famílias ou determinada pessoa e espíritos antigos que ainda vagam pela Terra a fim de destruir qualquer rastro de felicidade em um local por simples prazer ou por objetivos escusos.
E continuando a correr e se esbarrando em almas que vagam e desviando das pessoas nas ruas chegaram a um beco.
- Ainda bem que correr não cansa! Como vamos despistar daqueles dois? Hey, estamos num beco! Agora eles acabam com a gente!
- Ai droga, onde estamos?
- Em uma rua sem saída oras.
- Perto do hospital?
- Sim, de outro hospital.
- Me perdi...
- Não acredito! Pensei que você sabia onde estava indo Slototh!
- Estava seguindo caminhos da minha memória, oitenta anos atrás...
- Eu não acredito...ah não. Os dois estão na entrada do beco e com a cara de poucos amigos.
- É hora de aprender sua primeira lição.
- Lutar?
- Não. Atravessar paredes.
- Sério?
- É.
- Eu tentei logo que desencarnei, dei uma topada numa bendita árvore.
- Não é tão difícil. Se concentre em algo que você saiba que está nessa direção que da certo.
- Tá bom... – E lá foi ela. – Viu? Não deu certo! Eles estão correndo pra cá.
- Segure minha mão...
- Eu não entend...
Em um movimento rápido o demônio empurrou o jovem espírito de encontro com a parede. Fazendo-os atravessar, rapidamente a impulsionou contra diversas paredes a frente até chegar a rua do quarteirão acima.
- Slototh, você conseguiu!
- Eu não. Você.
- Como?
- Você deve ter pensado em algo nessa rua em que estamos ou nas redondezas. Como não conheço mais a cidade me segurei a você e a segui.
- Pra falar a verdade lembrei da pastelaria de um chinês aqui perto...muito bom.
- Não temos tempo pra isso. Para o hospital já!
- Mas porquê o hospital? Não podemos fazer uma armadilha, se esconder em uma Igreja ou algo assim?
- Não. Eles são Poltergeits, espíritos malditos que movem objetos no mundo humano. E só há uma maneira de pará-los, reverter essa situação. Era hora de você me odiar...conhecer o meu único segredo!
- Segredo? O que você fez?
- Digamos que quando resolvi ser bom, pra sobreviver, tive que fazer uma “poupança” pra força que eu perdia.
- E como se poupa a energia perdida?
- Pra quem sempre foi mal e doentio não é difícil descobrir maneiras pra isso. A necessidade nos faz o que precisamos ser.
- Não estou gostando da sua cara, isso não me parece bom. Agora, deixe-me tomar a dianteira, você está errando o caminho de novo. - Falava num tom sério, pressentia que algo pior ia acontecer.
No Mundo dos Espíritos #8
- E o que aquele tal ceifeiro tá fazendo rodeando a minha tia sem parar?
- Pesquisando, ela é a próxima da lista a passar pro nosso lado.
- Hum. Bom, ela é diabética, hipertensa e fuma. Não é pra menos.
- Nossa, você falou igual médico.
- Andei fuçando em livros da área pra alertá-la. Pelo visto não adiantou. – Disse em tom de angústia.
O enterro prosseguia. Por fim, já na cova. O ritual de despedida ocorreu sem interrupções. Por fim, o caixão começou a descer lentamente. Dizem que na hora da última despedida, os verdadeiros sentimentos são expostos. No enterro de Ângela não foi diferente, uma tia na qual ela tinha muito contato na infância desmaiou. Sua mãe estava tão dopada que mal sabia onde estava, seu pai tentava conter o rio de lágrimas represado em seus olhos.
Uma antiga amiga estava presente, haviam brigado a muito anos por ciúmes típicos da época de transição entre a infância e a adolescência. Dela partiu as ações mais comoventes. Praticamente saltando sobre o caixão implorava por perdão da falecida amiga. Lamentava os anos de ausência, de uma verdadeira amizade que se perdeu em meros detalhes. Tiveram que tirá-la praticamente a força do local e levá-la para casa pra se acalmar. Os presentes que ainda de alguma forma tentavam segurar a tristezas para si, ali a liberaram.
O caixão por fim foi depositado em seu jazigo e selado. Ângela chorava copiosamente, não acreditando na tamanha comoção de amigos e parentes. Ainda mais, no carinho demonstrado por todos os presentes. Ainda voltando das suas fortes emoções, espiava a única que pessoa que ainda contemplava seu túmulo. Notou algo estranho na pessoa, sabia quem era e o porquê estava ali. O jovem sussurrava baixo a palavra perdão, acariciando o jazigo ainda fresco pelo cimento.
- Slototh. – Falou séria. – Agora sei quem profanou meu corpo. Vamos ao hospital, a pessoa está lá.
- Como sabe? – Perguntou assustado.
- Vem, o plantão dela acaba ao meio-dia. Quero que me ensine umas técnicas de assombrar.
Impressionado com a repentina ação de Angel, Slototh corria atrás da garota perguntando sem parar:
- Vai com calma e me explica! Não to entendendo...
- Calma nada! Já são mais de 11 da manhã!
- Ou se acalma e me explica ou nada feito!
- Hum tá. – Disse com uma voz inconformada. – Seguinte, aquele que estava em meu túmulo é meu primo. A namorada dele é meio maluca, já foi até internada e tal. Eu com ele éramos bem próximos e só. A maluca já me ameaçou, teve até polícia.
- Entendi, mas o que tem a ver com a profanação?
- Simples. Uma vez fui visitar meus tios e ela estava lá, mal podia conversar com meu primo por causa daquela maluca. Saíram para buscar algo para bebermos pro almoço e aproveitei pra fuçar na bolsa dela que estava no quarto do meu primo.
- E...?
- Achei três livros de magia negra. Ela mexe com essas coisas, anda de preto e tal, esquisitona. Vendo o meu primo todo murmuroso no meu túmulo, percebi que ele sabe de algo. Ele não é de ficar carregando culpa, nunca foi.
- Se for magia de verdade, os resultados sempre são catastróficas pra quem usa. Mas então pra quê ir ao hospital?
- Ela é técnica em enfermagem bem no seu hospital. Trabalha lá a mais ou menos 15 dias, se não me engano, tenho tanta raiva dela que havia me esquecido.
- Novata...novatas lá ficam no necrotério!
- Bingo.
- Eu vou matar aquela maluca literalmente de susto!
- Se ela mexe com magia negra teremos que ir com cuidado, mal sou um demônio, esqueceu? Se ela for mesmo e nos perceber, já era pros dois. Estamos conversados?
- Sim. – Falou Angel num tom sério.
Enfim chegaram ao hospital. Correram para o necrotério, o local estava lotado de cadáveres e almas recém desencarnadas perdidas pra lá e pra cá. Parecia metrô em dia de pico. Com muito custo chegaram na sala de refrigeração.
- Aposto que é aquela de cabelo bem preto.
- Acertou. Ainda não acostumei com essa...vida. Olha como isso aqui tá cheio!
- Sempre foi assim. Ela está usando duas correntes, uma cruz. Até aí nada demais, cruz não serve pra nada mesmo. Epa, um pentagrama.
- Isso atrai demônios né?
- Errou, espanta.
A namorada do primo de Angel se chamava Josi, obviamente sem perceber as entidades ali presentes, foi a recepção entregar seus relatórios do final de mais um dia de plantão. Saindo daquele local sufocado por um mar de almas perdidas, eles a seguiram. Ao chegar na recepção perceberam que algumas almas a seguiam em fila.
- Olha Ângela, tem cinco seguindo ela...Xiii. Acho que se você quiser se vingar dela, vai dar trabalho.
- Porquê?
- Vou te ensinar tudo que sei. Mas ela atraiu pra si um demônio, que graças ao pentagrama não se aproxima dela e o resto são poltergeists. Pela maneira que andam, ela os invocou! Isso é muito mal garota, muito mesmo...
Ao ver aquela cena inusitada resolveram seguir Josi. Slototh mais uma vez falou para Ângela para permanecerem quietos. Os espíritos que rodeavam a enfermeira poderiam estar ali para protegê-la de ataques, isso poderia incluir o da sua desmorta “prima”. Ela ia a caminho do querido primo de Angel, César. Chegou, alguns familiares que era de outra cidade estavam por hospedar ali por causa do triste evento.
Educadamente a moça cumprimentou a todos e junto a César retiraram em particular para o quarto. O rapaz não estava com cara de bons amigos. Iniciaram uma conversa, Angel e Slototh acompanhavam de um canto do pequeno quarto.
- Foi você, não foi? – Disse César com um olhar de repulsa. – Vamos! Me responda! Foi você que fez isso com minha prima?
- Não sei do que está falando. – Respondeu com uma voz fria.
- Claro que foi! Olha como você me respondeu.
- Não grite, a casa está cheia.
- E daí?! Não banque a cínica comigo! Por favor...pensei que estava tudo bem entre a gente! Mas foi a Ângela morrer e você se aproveita da desgraça e estraga o rosto da garota, ela era realmente um anjo! Uma pessoa do bem, nunca interferiu em nada entre a gente. Tudo por causa do seu ciúme doentio! – Foi as lágrimas.
- Ainda não sei do que você está falando, se foi por causa do enterro eu estava de plantão, esqueceu? – Disse já com uma voz um pouco desconcertante.
- Pois bem. – César havia encostado na janela olhando para o horizonte. – Suma daqui. Suma da minha vida.
- Mas...
- Eu falei AGORA!
Saiu sem dizer nada. A culpa estava estampada na cara, Josi caminhou rapidamente até um pequeno jardim que havia algumas quadras abaixo. Sentou em um banco, acendeu um cigarro e começou a sussurrar pra si mesma:
- Ah César...você ainda vai ser meu, fique tranqüilo, tenho meu meios. Não matei a vaca da sua prima, mas sacaneei com ela no necrotério hihihihihi...bem feito! Se eu soubesse que ela iria morrer tinha feito algum encanto de selamento nela. A dias ando trabalhando num encanto pra ela, que pelo visto não vou precisar mais. E outro pra aquela amiga dela a Adriana, a garota foi parar num sanatório hihihihi. Tudo não poderia estar melhor! – Deu uma forte tragada no cigarro.

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No Mundo dos Espíritos #7
- Nossa...ih, tá amanhecendo! Faz dois dias que não durmo!
- Não precisamos, muito menos conseguimos.
- Ai, ainda mais essa. Caramba, quase me esqueço! Meu enterro é as 8, vamos!
- Desde da inauguração deste hospital, a décadas, eu não saio. E eu tenho uma missão...
- Tá, tá, tá...ouvi essa ladainha a noite toda. Anda, vem!
Com muito sacrifício ela pôs Slototh para fora do hospital. Rapidamente se puseram no caminho do cemitério. No meio do caminho Ângela encontrou com o próprio enterro. Quase todos os familiares estavam presentes, dos amigos, só os devidamente reconhecidos estavam lá. Estranhamente Adriana ainda não havia voltado ou por outro motivo não estava presente. Ouviu a conversa entre alguns que seguiam a triste procissão que sua avó e seu irmão não acompanhavam aquele ritual por ser a antagônica entre a inocência e o sofrimento da velhice.
Pensou que a amiga estive dopada para não conseguir sair. O cemitério ficava no alto de um morro. Pelo horário o céu se maquiava de um rubor digno de um novo dia que amanhece Ângela sentiu como se fosse uma homenagem a ela, o dia estava lindo. No cortejo o silêncio imperava, só era transpassado pelo choro, soluços e lamentações. Emocionada, a jovem alma chorava enquanto acompanhava o destino final do próprio corpo.
O seu caixão era branco, as argolas que serviam para carregar eram dourados, assim como havia detalhes prateados por todo caixão. Reluzia naquela luz de um novo dia. O mesmo era conduzido ao seu leito final pelo pai, dois tios e um primo. Estava encoberto por uma bandeira branca, era o que Ângela sempre pregava desde seus poucos anos de vida: a paz e a compreensão.
Por fim chegaram ao cemitério, Angel se assustou. A quantidade de outras almas perdidas ou assustadas naquele local era impressionante. Algumas até, pelo desespero, simulavam que estavam presos vivos nos próprios caixões. Estavam junto com seus corpos podres ou ossos, pareciam que queriam reencarnar em seus velhos corpos, tentavam incessantemente voltar.
Logo a jovem reparou que muitas seres negros ou com roupa preta zanzavam pelo cemitério em um movimento intenso. Não possuíam olhos, pele extremamente pálida, pareciam que iriam se partir a qualquer momento. Assim, ela perguntou:
- Olha! Quantos demônios!
- Não são demônios, são ceifeiros.
- E o que seria isso?
- Sua origem eu desconheço. Só sei que sua missão é pegar as almas recém desencarnadas e conduzi-las a um destino que eles mesmos traçaram.
- Não me lembro de nenhum deles ter me tirado do corpo ou coisa assim.
- E não foi mesmo. Senão você nem estaria aqui, deu sorte. Se algum deles te pegasse sabe-se lá de seu destino final. Eles são poucos pequena, eficientes, mais insuficientes.
- Entendo. Olha, chegaram na cripta. Vão me enterrar junto a outros familiares. Caramba, quantos mortos em volta do caixão! Vou tirá-los de lá agora.
- Não se apoquente. Está tudo bem. Devem estar procurando sua alma dentro do corpo.
No Mundos dos Espíritos #6
- Perdão. Mas, peraí. Se ela é tão má, porquê você quer que eu vá lá? Sabia que era uma armadilha...
- Escuta aqui garota. – Falou seriamente repousando as mãos sobre o ombro dela. – Você é diferente de tudo que já vi. Não sei explicar, acho que irá resolver esse impasse, sinto isso.
Os olhos se fintavam, Ângela via nos olhos dele que dessa vez ninguém iria mentir para ela. Então se virou e percorreu novamente aquele corredor sinuoso e adentrou na saleta e disse:
- Maria Josefina, precisamos ter uma conversa. – Estava tremendo.
- Rum, rum, rum... – Disse uma voz muito tenebrosa.
A alma, ou algo mais, permanecia encolhida no canto da saleta abandonada. Porém seus olhos emitiam cada vez mais uma luz densa, parecia que iria perfurar Ângela. As coisas na sala começara a emitir uma leve vibração. Ela tentou estabelecer contato novamente:
- Você está me ouvindo... – Esgueirava o pescoço mais adentro da sala, não entrava completamente devido ao pavor.
- Rum, rum, rum... – Repetia.
Voltando seus olhos para o corredor via a distância que a luzes do hospital piscarem incessantemente. Antes da próxima tentativa, a própria Maria Josefina iniciou a conversa:
- Rum... Slototh, sinto o seu cheiro daqui. Ele te mandou jovem espírito? – Falava com uma voz grossa, rasgada.
- J-jovem? – Gaguejava.
- Rum, rum. Exato, seu cheiro criança, seu cheiro. É de coisa nova, faz tempo que não encontro uma. Parece-me ser a segunda vinda sua aos encarnados. Você é clara, límpida.
Maria se levantou e encostou-se a uma maca mostrando sua fisionomia característica. Cabelo loiro escuro, muito comprido. Estava com uma roupa rota, comprida. Ia até os pés, seu rosto estava todo marcado, como se a pouco tivesse recebido bofetões. Os braços cheios de marcas de picadas de agulha, o braço esquerdo ainda havia um manguito preso. Ela não havia mudado nada em si desde a própria morte.
- Rum, me diga o que quer ou será destruída. – Ameaçou. – Nem aquele demônio medroso ali fora, mal pôde me conter aqui e você pretende o mesmo? Já estou presa aqui.
- Porquê?
- Ameaças minha cara, ameaças. Problemas de meu longo passado. Agora me diga porque está aqui. Você é nova, fraca. Não pode me destruir. Ouviu Slototh?
- Nem eu sei. Ele me pediu pra entrar aqui.
- Escolha curiosa a dele. Bom, faz tempo que não destruo ou absorvo outrem.
- Me destruir como? – Falou apavorada.
- A mente e a alma são formas de energia. E como tal, é só convertê-la em outra para destruí-la. Ou como meu caso, absorvê-la pra me fortalecer.
A essa altura Angel já estava dentro da saleta, tarde de mais pra sair. Como um trovão, rapidamente Maria enfiou a mão dentro do corpo etéreo de Ângela. Essa por sua vez, desde a sua morte, sentia uma sensação familiar, a dor. Vagarosamente empurrou Maria Josefina para fora da saleta e soltou um grito.
Slototh por sua vez fez algo incrível, invocou as almas vingadoras de Josefina. Do nada a mesma se viu cercada pelas almas de seus antigos algozes e vítimas. Assustada parou a absorção e Angel se viu fora da roda. A maldita disse:
- Não, rum, não...
Então essas almas mergulhando sob um ódio profundo em Maria, nesse momento o Hospital se viu na mais completa escuridão.
- Mas o que...? – Indagava Ângela mesclada em meio a confusão.
A mesma se mantinha encostada na parede assustada. A luz de emergência demorava a voltar, espíritos não dependem de luz para enxergarem uns aos outros. Ela via muitos, incontáveis iguais desferirem golpes em outro, provavelmente Maria Josefina. Até Slototh parecia assustada tamanha a selvageria instalada no mundo dele.
As luzes de emergência começavam a piscar, querendo voltar. Rapidamente Angel olhava para todos os lados sem entender o que acontecia, em meio aos flashes incessantes de luz via os espíritos sacramentados naquele hospital começaram a se espalhar pela ala abandonada. Por fim a luz voltou, tirando os que já assombravam por ali, os espíritos vingativos sumiram.
- Acabou criança. – disse Slototh apoiando umas das mãos em Ângela. – Finalmente acabou.
- O que aconteceu?
- Nem eu entendi, eu só os invoquei. Ou a destruíram ou a levaram como prisioneira pra outro local... – Disse confuso. – Usei o que tinha sobrado de mim pra invocá-los.
- Agora que essa loucura passou...TÁ MALUCO? QUERIA ME MATAR DE UMA VEZ?
- Uh...calma, me deixe-me explicar garota.
- Estou ouvindo. – Olhava-o com uma cara nada amigável.
- Você é um espírito jovem, por isso, raro. Coisa que não se encontra fácil, e está na segunda encarnação e ainda bem pura.
- Perae, deixa eu ver se entendi. É mesma coisa que gritar “Quem aqui é virgem?!?” num baile funk?
- Er...hum. Acho que entendi sua colocação. Por aí, você nunca cometeu, como vamos chamar...falta grave. Em sua primeira vinda morreu bebê, nessa segunda jovem. Ou seja, pura. Maria Josefina era quase demoníaca, se pudesse visitar os locais maus como o Umbral ela ia rivalizar com os mais antigos de lá. Ela não pôde absorvê-la pois ainda és luz. Aí meu plano se concretizou.
- Você está com uma aparência humana agora. O que é isso?
- Inicio da minha redenção. – Sorriu. – Vem, vamos andar um pouco pelo hospital, descansar.
Iniciaram a caminhada, o demônio convertido ia contando sua história de como mudou de idéia e porquê havia escolhido aquele local, quando de repente fora interrompido. Assustado via um funcionário do hospital atravessá-lo indo a uma ala infantil. Angel não entendo a paralisia repentina de seu novo amigo perguntou:
- O que você tem? Que cara é essa?
- Aquele que nos transpassou, acho que ele pode ser ele que maculou seu cadáver!
- Como...?
- Ele está possuído! Um demônio dentro dele! Nunca o vi por aqui. Vamos! Vamos investigar suas ações!
- Isso é normal acontecer?
- Sim, mas aqui, ainda mais comigo, não!
- Então vamos atrás dele!
Assim o seguiram, apesar de Slototh ter localizado um demônio dentro do enfermeiro, mesmo quando sozinho não aparecia agir como um, basicamente o rapaz ficava na ala da UTI neo-natal e cuidava muito bem dos recém-nascidos.
- Slototh, pra um camarada seu ele não tá fazendo nada!
- Realmente. Não me estranha, deve ser algum tipo de demônio-parasita.
- Um o quê?
- Isso que você ouviu. Não são somente almas denegridas que se alimentam de vivos, como almas de alcoólatras sempre ficarem em bares influenciando os presentes para eles se alimentarem da energia ou atormentados que se alimentam do medo de desafetos. Mas eles fazem isso fora do corpo normalmente, essa classe de demônios se alimenta aos poucos de dentro do corpo o ódio da pessoa, rancores e coisas do tipo. Até matá-la ou enlouquecê-la.
No Mundo dos Espíritos # 5
- Uh...me deixou com medo. Eu tenho que ter medo? – Perguntou Ângela com a voz trêmula.
- Sim, e muito. Espíritos jovens como você são facilmente destruídos. – Disse o ser com voz seca e fazendo uma luz vermelha aparecer de suas órbitas vazias.
-N-nossa. E o que um demônio como...qual o seu nome mesmo? – Disse mais confusa e com medo.
-Slototh. Esse é meu nome, sou quase incógnito neste lado do globo. Mas qual a sua pergunta?
- Vocês...surgem, nascem...?
- Ah, somos criados. Grande parte dos demônios surge quando passam muito tempo em reinos inferiores, mas nos mais profundos. Muitos milênios são necessários.
- E...quantos anos você demorou pra vir pra cá e o que faz aqui?
- Voltei pra Terra depois de 6000 anos. Como disse, busco Ascensão. Quero me livrar do Ciclo, minha aparência atrapalha para que eu guie os recém-chegados para o caminho correto. Estou nesse hospital a quase 10 anos sem nenhum resultado frutífero.
- Que pena. Lamento.
- Não diga isso, minha história é longa, qualquer dia te explico bem resumido. Me acompanhe criança. Hora de começar o treinamento.
Caminharam pelo hospital, o branco do local se confundia com o desespero e a névoa densa e ácida que tinha no mundo dos mortos. Do saguão caminharam por um corredor estreito, a medida que adentravam, no corredor muitas almas perdidas, loucas e sofrendo pareciam em sua frente. Quase todos demonstravam ainda o motivo de suas mortes em seus rostos e corpos. Ainda não sabiam que podiam se reconfigurar e continuaram a sofrer como se estivessem em vida.
- Nossa, como gritam! Vão me enlouquecer! – Falou Angel muito assustada e aterrorizada com a cena que via.
- Calma. Eles não nos farão mal. Estão tão mergulhados em sua agonia e dor que não vêem nada a sua volta.
Continuaram no corredor estreito, atravessaram diversas alas até chegarem a uma semi-desativada. Entraram em uma enfermaria antiga, empoeirada. Tomada por teias de aranha, ainda tinha uns medicamentos e seringas nas mesas. Cadeiras pelo chão, parecia que fora abandonada as pressas. O silêncio era absurdo, nenhuma outra alma parecia se atrever a seu aproximar daquela ala. Aquela sala então, parecia impossível.
Vagarosamente e com muito respeito adentraram no local, como se fosse um santuário. Entre dois armários brancos num canto sujo viram que tinha uma garota encolhida, seus olhos eram vermelhos, exalava loucura e maldade, instintivamente Angel deu um passo pra trás. Slototh disse:
- É a hora de encarar a realidade garota...veja o que será sua realidade de agora adiante.
- Calma aí. Você quer que eu vá lá? Se nem os outros se aproximam daqui. Eu que não vou. Olha lá no fundo, os olhos dela estão brilhando, o cheiro...o ar pesado. O que essa criatura fez?
- Falou bem. Criatura, agora é uma. – Disse Slototh enquanto olhava as próprias mãos.
- Como assim? O que ela fez.
- Bom, vou te explicar resumidamente. Você irá entender o porquê dela ter...virado isso. Mas entra lá, vai.
- Nem vem Slototh! Nem descobri o que e o porquê de tanta coisa acerca de minha morte. Explica logo.
- Hum, tá. O nome dela é Maria Josefina. Nascida em 1912, morreu nesse hospital no dia da inauguração em 1925.
- ...
- Porquê tá me olhado assim?
- Você ainda não me explicou o motivo. Para de enrolar!
- Nossa, mal desencarnou e já tá toda nervosinha hein? Uh...pois bem. Voltemos ao corredor então.
- Não entendi...
- Sabia que quanto você conversa sobre alguém que já morreu, ou a mantém ela em pensamento, não importa em que plano ela esteja, a chance dela ao poucos se aproximar de você vai aumentando?
- Sério? Então se eu pensar demais em uma pessoa querida que morreu a tempos ela aos poucos se aproxima de mim? E se chegar perto?
- Bom, a chance de sua vida virar um inferno é imensamente grande, não importa se ela tem boas intenções ou não.
- E como uma pessoa viva sabe que, sei lá, tem um espírito ou um sei-lá-o-quê tá por perto?
- Simples, cantos frios na casa. Animais inquietos, coceira constante nas pernas...tem um monte.
- Uh, minha amiga Adriana tinha coceira na perna direto, sem contar outras coisas...Calma aí, você tá me enrolando e não quer me contar a história da garota. Tá com medo é?
- Hehehe, bom...eu, eu não. Imagina...
- Tá sim, poxa! Tu é um demônio meu!
- Você quer dizer: ainda sou um demônio. Depois que passei a ajudar outras almas ando perdendo minhas forças. Atualmente não encararia aquela garota de jeito algum. Vamos nos afastar mais, não quero que ela ouça a própria história ou se lembre. Se ela sair daquela saleta vai ser um pandemônio tanto para vivos quanto pra mortos.
- É tão grave assim?
- Muito. Ouça, certas pessoas já nascem malditas. Ou seja, a alma dela vem sendo perturbada por outras, que querem vingança por coisas de vidas passadas. Ela é um bom exemplo disso. Desde o primeiro dia da existência de sua alma, ela vem destruindo e maleficando tudo o que vem pela frente. Essa aí acumulou muitos espíritos vingativos em seu encalço ao longo dos milênios. Muito mesmo, toda vez que reencarnava o mundo dos vivos virava de perna pro ar. Nessa última a alma perturbada e dilacerada desse ser que sofreu muito, enlouqueceu.
- E nessa última encarnação?
- Se prepara, isso não saiu na mídia da época por motivo óbvio. Com 5 anos ela matou toda a família, eram 6 pessoas ao todo. Ela já nasceu além de perturbada pelos espíritos vingativos, ciente das outras vidas, isso raramente ocorre.
- E depois?
- Ninguém desconfiaria de uma criança. Foi adotada aos 7 por um casal dessa cidade.
- Não me diga que ela foi a do Sítio Anhumas? Aquele que dizem assombrado?
- Exato. Com 12 anos ela, como imagino que deva saber. Matou e esquartejou e ainda canibalizou todos os 25 moradores do casarão e ainda os muito mais que se aproximavam daquele local estranhando o sumiço e silêncio dos moradores.
- Que horror. Então foi assim? Até as árvores em volta daquele sítio são secas, retorcidas. Parece que ninguém vai lá a mais de 45 anos, também pudera...
- E não é só. Por meios místicos ela aprisionou essas almas lá. Atormentadas e presas por ela, eu nem nos meus tempos áureos cometia coisa de tal alcunha. Aham, bom. Como deve saber pegaram ela certo dia no terreiro chicoteando em carne viva uma outra criança de 7 anos filha de um empregado. Bom a criança tava tão deformada pelos espancamentos constantes e pelos pedaços tirados...
- Eu já vi as fotos da época, pensei que fossem montagens.
- Não eram mesmo. Daí ela foi pega, ao invés de matarem, amarraram ela naquele quarto lá e a entupiram de tranqüilizante. O medo das pessoas era tanto que depois de um ano mergulhada nesses remédios, erraram a dose e ela morreu por overdose. Aí ela passou a assombrar aquela antiga ala, vários médiuns interviram para que ela não saísse de lá.
- Uau. E como você sabe disso tudo?
- Eu tentava salvá-la a séculos... – Disse virando-se de encontro a parede.
No Mundo dos Espíritos #4
Andou pelas redondezas, amigos de verdade e de mentira e confundiam. Uns falavam bem sobre a vida da garota. A maioria falava mal ou faziam piadinhas. Mas e outras almas por ali? Não perto da casa, outro mistério para um outro momento. Angel via elas afastadas da casa com um olhar estranho, tanto as boas como as más. Resolveu ver Roberto, seu único irmão, com 5 anos de idade.
O garoto estava só em seu quarto, como se estivesse alheio a tragédia que rondava a sua família. Brincava no chão do quarto todo decorado com imagens típicas da infância. Ângela encostou e passou a observar a doce e inocente brincadeira do irmão. Até que ele parou e começou a olhar para onde ela estava, olhou por muitos minutos até que disse:
- Irmãzinha, onde estava? Mamãe está preocupada! Quer brincar comigo?
- Ó meu deus... – Disse ela assustada.
- Vem maninha, vem! – Retrucava o menino.
- Uh...? Você está me vendo Beto?
- Claro Angel!
-...
- Vou chamar a mamãe, ela está até chorando!
- Não faça isso. É...o seguinte. Isso é uma brincadeira tá? Olha só você vai me ver, tudo bem? Daí se eu precisar de alguma coisa você conta pra ela. Mas é segredo hein? Ninguém pode saber de mim.
- Tudo bem Angel...Uhuaaaa... – Soltou um bocejo largo e preguiçoso.
- Vem pra cama, vou fazer você dormir.
Após longos minutos, o menino adormeceu. A essa altura Ângela conseguia identificar qualquer tipo de espírito. Mas não sabia identificá-los como maus, bons ou qualquer outra coisa. Torcendo para que seu irmão, sua única ponte para o mundo dos vivos, não a revela-se a família que podia conversar com ela, ou que ele fosse taxado de maluco tão novo, ela seguiu para o hospital.
No caminho encontrou muitas almas caminhando em direção oposta, vinham do hospital. Boa parte correspondia a pessoas que lá padeciam. Outra porção eram espíritos atormentados que a séculos que perseguiam outras almas por vingança. Havia também as más que lá viviam sugando a essência dos quase-mortos. Ou simplesmente os seduzindo para que se deprimissem até a morte.
O clima do local era muito pesado, mais que a favela onde ela quase fora capturada. Ela não estava preparada para aquilo. Ao adentrar no saguão principal o clima de angústia parecia contaminá-la. Mas antes, em meio aos transeuntes viu uma coisa escura se esgueirando e indo de encontro a ela. Era o comitê de boas vindas...
Angel assustou, o clima dos vivos era até bom. Poucas pessoas na fila de espera, a emergência vazia. A maioria dos funcionários estava aproveitando a pausa para tomar um café e jogar alguma conversa fora. Por outro lado, o mundo na qual a menina agora pertencia não exibia esse clima agradável. A grande maioria das almas eram atormentadas pela morte sofridas que haviam tido.
A maioria revivia de forma incessante o seu último momento de vida terrena, ainda não haviam se desprendido de sua última encarnação. Outras vagando pelo hospital como se fossem pacientes ainda, havia também algumas almas estáticas, paradas, totalmente inertes como estátuas.
Os gritos principalmente, estes a assustavam. Os vivos não ouviam, ela pelo contrário, se sentia dentro de um manicômio. A única alma negra, talvez não fosse alma, se aproximava lentamente dela. Chegou perto dela, a cheirou e perguntou:
- Hum. Morreu a pouco. O quer aqui? – Perguntou o ser negro e sem olhos.
- Quem é você?
- Perguntei primeiro, está em meu território.
- Er...estou aqui pra descobrir quem dilacerou o meu rosto, o do meu corpo.
- Quer vingança pequenina?
- E-eu não sei.
- Sabe o que eu sou? Ou o porquê destes serem diferentes?
- Não tenho idéia.
- E eu?
- Também não.
- Nem suspeita o porquê algum se deu o trabalho de se disfarçar de sua falecida avó?
- Como...?
- Ou a tentativa falha daquilo querer você?
- Estou confusa. Sua aparência é horrível, mas me parece ser bom.
- É raro alguma alma externa ter coragem de entrar aqui. Sou um Ascendente, abandonei as terras baixas dominadas por espíritos, transmorfos e demônios. Aliás, sou um deles e busco um lugar na luz.
- Um demônio?
- Exato. Venha, antes de ajudar em sua busca, vou lhe ensinar o que é este novo mundo.
Olhava assustada, não podia confiar em nada ou alguém. Muito menos se aquilo seria mais uma promessa falsa.
No Mundo dos Espíritos #3
A mãe dela estava em choque e a base de medicamentos. Estava sentada na cozinha, olhando para o nada, alheia para o que acontecia. Muito triste e transtornada Ângela tentava conversar com a mãe, tentava tocá-la. Pedir desculpas das vezes que falhou, dizer que a ama. Tudo em vão, ela permanecia ali, alheia ao mundo.
Ângela permaneceu ali por quase uma hora tentando algum contato com a mãe, no fim quando quase se afastava. A mãe dela olhou para o seu lado e disse:
- Ó minha filha eu te amo tanto...
Arregalou os olhos, parecia que ela finalmente a havia visto, ouvido sua voz. Mas não, parecia que os efeitos dos remédios estavam cessando. A mãe dela se jogou sobre o caixão aos prantos e dizia:
- Porquê você morreu? Que tragédia! O que fizeram com o seu lindo rostinho! QUEM fez isso com o seu rosto, ó meu bebê, eu te amo tanto! Volta! Volta...
A pobre alma não agüentou ver aquilo, se afastava. Enquanto uma de suas tias tentava tirar a pobre mãe de cima do caixão e entupi-la novamente de medicamentos. Resolvera ver o pai. Ele estava pro lado de fora da casa conversando com os tios e alguns primos. Desconsolado segurava uma foto dela e a alisava carinhosamente. Falava com os irmãos e genros:
- Até onde eu sei, ela foi atropelada, pois estava correndo de alguém. – Dizia com uma voz fraca. – Mas se eu pegar o cara que fez isso com o rosto da pobre...
- Tem razão irmão, já conversei com um amigo meu da polícia. Estão investigando esse absurdo. – Dizia o Tio Pança, um velho advogado.
- Eu verei no necrotério. Já trabalhei lá. – Disse seu primo Astolfo, enfermeiro. – Mas e a amiga da Ângela como ela está? Aquela que ela estava na casa ontem?
- A Adriana? Está internada em choque num hospital. Pobre...não diz coisa com coisa. Disse que recebeu uma ligação de minha filha as duas da manhã. A essa hora minha filhinha já estava morta e o registro do celular dela, a última ligação foi às 8 da noite quando ela me ligou avisando que ia na casa dela.
- Estranho... – disse os que estavam em volta dela.
A morta olhava aquela conversa atônita. O celular dela estava sem bateria antes de sair da casa de Adriana e o que teria amiga? Isso ficaria pra depois. Tinha que descobrir quem havia profanado seu cadáver.

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No mundo dos espíritos #2
Depois disso prosseguiram no caminho. Ângela conhecia bem a cidade, estavam se aproximando de um bairro perigoso, o dia já raiava no horizonte. O pensamento e os sentimentos dela não se afastavam da família. Dobrava num beco perigoso, apesar da rápida adaptação, a garota mal enxergava outras almas.
Sentia um cheiro nauseabundo saindo daquele lugar, olhava para o fundo do beco. Parecia que não chegaria nunca ao fim. Lá, viu uma sombra. Era o primeiro pós-mortem que via além de sua avó. Tinha olhos vermelhos, mal via a fisionomia. Seu coração dispararia caso ainda o tivesse. Se conteve no silêncio e ouvia sua avó conversar com o ser:
- Ordem de registro, septuagésima nona geração, terceira reencarnação...
Ela sentia que tinha coisa errada ali, poderia um espírito sofrer mais ainda?
- Hmmm. – Ângela engolia a seco.
Os dois estavam num canto escuro e muito enevoado, cochichando. Parece que planejavam algo. Olhavam para ela toda hora, parecia ouvir risos. Assim, ela tomou coragem e forçou seus olhos para tentar enxergá-los de forma mais nítida.
No início percebeu nada de muito diferente, mas sua avó também agora também tinha olhos vermelhos, ela não entendia o que significava aquilo. Parecia ser ruim, porquê sua avó faria aquilo com ela? Aquilo...aquele lugar cheirava muito mal, sentia um clima de depressivo, melancólico. Sentia vontade de chorar.
Mais uma vez forçou a olhar, e eles conversando. Sua avó já voltava para encontrá-la, apertava os olhos, enfim enxergou a verdade. Começou a ver o que seus olhos até então mortais não viam, os outros mortos. Os espíritos que ainda vagavam pela Terra.
Aquilo não era sua avó, de alguma forma alguma alma má tornara a sua amada avó. E agora a adolescente enxergava tudo. Vagarosamente se afastava, à medida que o ser que ainda julgava se parecer com sua avó, se aproximava. Rapidamente ele apertava o passo e começou a correr.
De longe aquela alma má gritava seu nome, com a verdadeira voz, muito tenebrosa. O clima ainda parecia muito acinzentado, não sabia para onde ir. Estava totalmente perdida. Quanto mais becos cruzava, mais da miséria era captada por seus olhos. Mas não era a miséria humana, que pode se mostrar mesquinha. Era a miséria que se escondia no âmago da alma, agora sendo demonstrada na forma de seus corpos etéreos, para todo o sempre.
Caminhava silenciosamente, tinha medo. Outras almas berravam a sua volta, tinha de todas as espécies e pelas roupas rotas que vestiam, alguns pareciam estar ali a séculos sofrendo. A maioria ainda não tinham saído do estado de semi-morte, estavam em êxtase. Reviviam sem parar o momento de sua morte. Outros, enlouquecidos com a descoberta que não era mais vivos gritavam para os céus implorando para retornar.
Ângela assustada com tudo aquilo começou a ficar extremamente com medo, levou as mãos ao rosto e pensou. Era a hora de escapar daquela loucura na Terra, achar seu caminho, seu destino. Este fosse o céu, este fosse o inferno.
Andou por horas a fio pela estranha neblina, descobriu que espíritos não dormiam. Um forte desespero tomava conta dela. Soltou um grito, alto, condoído...sobrenatural. Na hora as névoas se dissiparam, ela viu novamente a luz do sol. Percebeu que toda a caminhada a levara para o local de origem, onde havia morrido.
O local ainda estava cercado por pessoas, e conversando sobre a brutalidade da morte da pobre garota. Dali ela ouvia todo tipo de coisa que as pessoas diziam sobre o mistério que ouviam sua morte, tudo, menos a verdade. Tudo se cercava das piores hipóteses: bebida, algazarra, drogas...e até se prostituindo.
Ouvir isso a tornava amarga, triste e ainda mais solitária. Novamente começou a gritar e a tentar bater em todos ali presentes. E alguns ali presentes como se sentissem a presença do espírito da garota começaram a se afastaram, exceto por uma velha senhora que ali rezava. E alguns espíritos que estranhamente a cercavam. Mal teve tempo de levar o questionamento adiantes, lhe veio algo de súbito na cabeça:
- Meu deus! Mamãe, papai. Meu enterro!
Dali saiu a toda, em questão de minutos estava em casa. O local estava cercado por amigos, família e pessoas que de alguma forma foram tocadas pelo seu coração. Desesperada se adentrou até a sala. Não via nenhuma pessoa lá dentro, nada. Somente seu caixão branco cercado por flores de todos os tipos: rosas, tulipas, copos de leite...
Não entendia o descaso de todos em se aproximar do corpo, se perguntava se seria pelo cansaço de uma noite em claro ou haviam iniciado os preparativos para o enterro. Vagarosamente se aproximava do caixão...seus passos eram trêmulos, desnorteados. Olhou por baixo do pano que cobria seu rosto...em prantos se afastou. Agora havia entendido a repulsa de todos...
Olhava naquilo e não acreditava. Por causa do acidente, para o enterro, tiveram que costurar toda a sua cara e maquiar. Parecia um quebra-cabeças de retalhos todo remontando. De fato, ficou horrível. Nada que se comparava com a beleza que a jovem tinha em vida. Era outra coisa, muito pior, quem havia reconstruído o rosto de seu cadáver realizou uma brincadeira de mal gosto.
Haviam costurado o rosto de seu corpo com um sorriso...maligno. Parecia que o corpo dela estava debochando de quem olhava pela fresta da pequena janela que permitia verem seu rosto. Se afastou com muita raiva, queria ver seus familiares. Descobrir o que fizeram com seu cadáver.
A Casa dos Espíritos #1
- Ângela, acorda caramba! O filme acabou!
- Hrrrm... - Ai meus ovários, ainda tá roncando...ACORDA GAROTA! OLHA O CAPETA!
- Hrrmm...Huaaa! Poxa Adriana, que susto! Não fale essas coisas, morro de susto! - O que me assusta é esse seu ronco, olha. – Disse apontando para o relógio do corredor.
– Já são quase 10 horas, seu circular vai passar já, já...
- Cacilda, tem razão. Depois você me conta sobre o film...
- Entendi, já sei. Quando chegar em casa entra no MSN que te conto.
- Tá bom, beijo. Fui! Assim Ângela corre pelas ruas a toda velocidade. O circular passava 4 quadras acima da casa de Adriana, sua amiga desde a infância.
- Só falta eu perder o circular de novo e dormir na casa da Dri. Mais uma vez meu pai não vai deixar eu sair de casa tão cedo...sebo nas canelas garota! Tentando se auto-motivar seguia o mais rápido que podia o seu caminho, para seu azar, quando estava contornando já a terceira quadra o circular descia a rua passando na frente dela. Assustada berrava horrores para o motorista parar o ônibus, tudo em vão. O máximo que conseguiu foi a atenção de vizinhos que já dormiam naquele horário.
- Hey, que gritaria é essa! Tenho que trabalhar!
– Gritava um. - Pobre menina, tão novinha e já enchendo a cara tão cedo...
– lamentava a gorda fofoqueira da casa em frente. - Argh, bando de linguarudos. Vou ligar pra Dri e pro meu pai, antes que o velho tenha um infarto. – Lamentava.
De repente parou o que estava fazendo e teve uma idéia. Não queria ficar de castigo, tão pouco incomodar a amiga. Ainda havia um circular, este passava só no bairro ao lado. Ou seja, tinha que caminhar mais 10 quadras e esperar dar umas 11 e meia, hora do último circular para seu bairro. Soltou um profundo suspiro e encolheu os ombros. Era a única solução em vista. Olhou para o céu, estava límpido, as estrelas salpicavam o céu com seu brilho único. A lua cheia disputava a atenção com os outros astros mais afastados. Uma brisa leve e fresca balançava seus longos cabelos negros. Sorriu, e o desespero deu lugar a uma paz quase infinita.
Ligou o seu mp3, traçou mentalmente uma rota mais rápida até o ponto de ônibus e assim seguiu. Ainda tinha quase uma hora até chegar ao seu destino. No caminho parou para admirar as lojas que exibiam seus vestidos e conjuntos, se imaginava dentro deles. A adolescente então se deparou com um dos perigos que envolviam tamanha caminhada. Chegou à avenida principal, o ônibus passava em sua outra extremidade. Entre ela e o local tinham bêbados e mendigos encostados pelos muros e alguns bares ainda abertos. Calada, quase petrificada engoliu a seco. Pendia a retornar, mas já havia percorrido todo aquele caminho, não iria retornar. Iniciou a passos meticulosos na direção desejada, durante o trajeto poucos tentavam atrair sua atenção. Quando estava quase em seu objetivo um engraçadinho pôs a persegui-la. Desesperada começou a correr, não viu o ônibus que se aproximava. A última coisa que ouviu fui uma buzinação incessante em sua direção seguido de um clarão intenso. - Ai, que pesadelo! – Se apalpava para ter certeza que estava inteira. – Dri já falei que esse filme... Subitamente parou. Olhou em volta estava cercada por pessoas com caras chocadas. Começou a perguntar o que estava acontecendo. Percebeu que estava ainda na avenida, não era um sonho ou pesadelo, ela ainda estava lá. Se voltou para o chão, uma equipe de paramédicos estava fazendo uma ressuscitação em alguém.
Devagar se aproximou...era ela que estava ali. Crânio afundado, politraumatismo, perda intensa de sangue. Mal se reconhecera naquele estado. Olhou atrás do próprio corpo, estava o ônibus que ia pegar a pouco. Estava com a frente destruída, a calota do crânio dela estava colado junto com sangue coagulado que ali o prendia. Seus cabelos negros balançavam a calota como se fosse um desses enfeites que ficam no retrovisor dentro do carro. Em choque se afastou rapidamente dali gritando:
- Socorro, socorro, virei um fantasma. Alguém está me ouvindo? Socorro! Corria como o vento, quando viu uma pessoa familiar em sua frente. Era sua avó, falecida a muitos anos antes. Sem se importar, Ângela abraçou-a aos prantos. A anciã dizia a neta: - Calma minha querida, está tudo bem agora. Irei te guiar. Bem vinda ao mundo das almas perdidas...
- Como vovó? - Depois te explico. E não fale fantasma de novo, tudo bem? Não somos fantasma. Agora se acalme.
- M-mas vovó... - Se acalme, você tá se adaptando muito rápido. Por isso o choque.
- Se a mamãe papai virem o meu corpo eles morrem também!
- Minha filha, se apoquete não. Eles vão ficar bem.
- Agora vamos te registrar...
- No céu ou no inferno?
- Hehehe.
–Soltou uma risada a velha olhando alegremente para a neta.
– Eles não existem.
- Não?
– Devolveu um olhar mais assustado que já estava.
- Agora me acompanhe, não quero que você seja contaminada com certas forças. Seu registro aqui vai ser sua garantia de não ser perturbada.
- Perturbada por quem?
- Isso vai ter que descobrir sozinha. –
Disse a idosa num tom sério.
- ...
No mundo dos espíritos
Vem aí! Perguntas?
Capítulo 5 - Consequencias de Guerra
Playmouth Bay, litoral inglês. Novembro de 1948, 6 anos após o seqüestro de Gwendolyn pelo exército. Cais 4:
Dois velhos pescadores conversam:
- Finalmente podemos voltar a pescar em paz, essa guerra quase acabou conosco e com os peixes...
- Pois é, só ando pescando restos de embarcações, armas e pedaços de corpos.
- Seria engraçado se não fosse macabro.
- Só espero que os peixes não tenham ficados surdos ou dilacerados com esta maldita guerra. Sorte que agora só tá lá no Japão.
- É o que dizem. Hitler maldito se...hum. Tá vendo aquilo?
- Parece ser um pequeno barco...
- Deve ser restos de mais um barco...
- Não é não. É um dos nossos, pesqueiro. E tá navegando sem rumo.
- Pode ser um truque alemão...
- Eles se renderam, esqueceu?
- Ah é...calma aí! Tem uma mulher lá e tá caída acenando com a mão, vamos ajudá-la!
E após o resgate...
- Senhorita, pode me ouvir? Senhorita? Estava em um campo de concentração?
- Conc..o que? Onde? – Disse grogue.
Gwen estava perdida no mar por três semanas, não era marinheira, não sabia se guiar por ele. Se soubesse, alcançaria o litoral inglês em menos de uma semana. Vagou perdida no mar gélido do atlântico norte sobrevivendo a base dos poucos peixes que conseguia, ingerindo-os crus. Assim como só bebia a água das escassas chuvas. Portanto estava faminta e extremamente desidratada.
- Como assim? A senhorita não sabe onde está? Lembra da guerra?
- Que guerra?
- Hum. Ela tá mal mesmo. Vamos levá-la pra casa, restabelecê-la. Depois darei algumas provisões para a senhorita e quem sabe ter um pouco de sorte e encontrar sua família.
- Obrigado senhor, muito obrigado.
2 semanas depois...
- Bom, vou partir. Já me lembrei de tudo e de todos. Só tenho a agradecê-los.
- Imagina minha jovem. É o mínimo que poderíamos fazer por uma moça tão simpática como a senhorita.
Assim a viúva partiu. Por todo o caminho que passava só via destruição, corpos espalhados para todos os lados e famílias chorando. O clima mórbido da Inglaterra misturado com seus próprios sentimentos e lembranças de terror só tornavam sua volta mais angustiante. Pensava somente nas suas únicas âncoras com o mundo real. Suas únicas pontes para a felicidade, sua mãe e irmãs.
Mais 8 dias...
Gwen chegou a Londres, a cidade estava devastada. Somente os símbolos ingleses restaram de pé. Assustada correu para a casa materna. Chegando lá viu algo que só aumentou o seu terror. A casa estava de pé para seu alívio, mas contaminada por doentes e soldados mutilados. Procurou por todos os familiares sem encontrar nenhum, desesperada acabou por encontrar uma vizinha que lhe explicara o acontecido:
- Então querida Gwen...sua mãe morreu num bombardeio alemão junto com suas irmãs Jake e Mary...
- Meu deus...e minha irmã mais nova Elizabeth?
- Sente-se querida...
- Como?
- Por favor.
- Tudo bem. – Sentou-se em um pedaço de madeira de uma casa que servira de cadeira para os sobreviventes.
- Ela sobreviveu aos ataques, mas fora sistematicamente estuprada pelos soldados alemães e...
- Pelo rei! Que hediondo! Pobre garota, ela tem somente 17 anos!!! Onde ela está?
- Hum...ela não agüentou de tristeza e sofrimento. Como você desaparecida e o resto da família morta, ela se matou esses dias atrás.
- Ah, não, não!!!
- Você não imagina o horror na qual passamos...pode ficar conosco!
Em choque ela se levantou sem dizer nada. Em sua cabeça, xingava a vizinha por lhe revelar as atrocidades em que sua família havia sido submetida e ainda mais pela mesma não saber o que aconteceu com ela durante o período pré , durante e pós guerra. Assim caminhou para a única ponta de esperança que lhe restou. A sua antiga casa.
Caminhava, o caminho do centro de Londres para o seu bairro que normalmente levaria 20 minutos, se estendera por mais de 3 horas. As ruas estavam destruídas, contando com o tempo fora somada as referências, demorou pra se localizar.
Enfim alcançou a sua rua, milagrosamente todas as casas estavam inteiras. Exceto pela sua casa, consultando os vizinhos que estavam espantados por sua presença, descobriu que um incêndio criminoso havia destruído sua casa a 6 anos atrás. Provavelmente pelos militares, querendo esconder as provas dos seus crimes.
Amuada, seguiu para os destroços esperando encontrar algo de valor, talvez monetário, talvez sentimental. Mexeu e remexeu ali por horas a fio. Só encontrou um vestido todo roto e sujo e para a sua surpresa uma foto em que ela e o falecido marido estavam, era tudo.
Passou-se os meses, Gwendolyn construiu uma espécie de barraco com muito sacrifício em seu antigo lar. Sua vida se tornara extremamente difícil, estava paupérrima. Emprego não havia, os custos das guerras somada aos novos custos haviam destruído a economia. A comida estava cara, tudo estava caro, exceto a bebida que tinha sua origem do contrabando.
Maio de 1952, 4 anos após o fim da segunda guerra mundial:
Gwendolyn Soborn havia se tornado alcoolotra e parecia que nada a motivava a melhorar de vida. A economia inglesa estava em franca expansão. Não se importava, a anos vivia só por viver. No lugar de sua antiga ela havia montado uma espécie de barracão com divisórias e alugou a baixos preços o local para famílias pobres.
Ganhava pouco, porém o suficiente para ter o que comer...e beber. Se tornara descuidada, havia engordado muito. Bom humor não tinha mais, era tida como decrépita pelo seus inquilinos. Murmurava coisas sem sentido, chorava do da nada, sempre com uma garrafa ao seu lado.
Sua vida era negra, sombria. Dias melhores não a esperavam, nada, nem ninguém a cativavam. Os fantasmas de seu passado a assombravam dia e noite. O passado lhe consumia como um todo. Não suportava mais aquilo, sentir tudo que sentia. O coração lhe esfacelava a anos pelas mãos.
Durante esses dias negros, fora presa diversas vezes por brigas em bares e era suspeita de espancar um antigo inquilino até morte. Era uma pessoa completamente diferente, modificada pelo seu estranho passado cercado por tragédias que vão além do limite e compreensão humanas. O pouco que a fez voltar havia de forma horrível sido massacrado pela guerra.
O que Gwen havia se tornado enfim? Um cadáver vivo? Algo menos que humano? Nem ela sabia. A cada dia estava mais mergulhada dentro de si mesma, no âmago de sua tristeza. Ela mal se lembrava de dias felizes que um dia havia povoado sua alma.
Dia chuvoso de verão, estava bêbada a meses já. Gwendolyn mal parava em pé. Tinha acabado de ter uma briga horrível com seus inquilinos. Soltando impropérios saiu na chuva, dirigindo-se para a única parte que sobrou relativamente de pé de seu antigo lar, a garagem. Entrando lá sorriu, parecia que ainda sentia o perfume de seu marido no local. Na hora lembrou que fora ali que ele fora morto ou ele havia se matado? Ela não se lembrava mais.
Encontrou por ali jogada uma corda, amarrou-a na única viga inteira que ainda atravessava ali. Deu seu último gole em um whisky vagabundo que carregava contigo e disse:
- É hora de me juntar as pessoas em que amo. Charles, Chamberlain, mãe, irmãs...
Ali pulou, mas a gordura a impediu de morrer. A viga se partiu caindo de mal jeito no chão molhado. Viu que nada que desde o retornara quisesse iria acontecer. Ao olhar para o buraco viu seus inquilinos a olhando, ali desabou a chorar.
Mas os inquilinos demonstraram alguma compaixão? Procuraram saber o que levava a viúva a atitude tão extrema? Não. Um deles disse:
- Já que essa vaca gorda quer morrer vamos ajudá-la...
Agarram-na e amarraram em um poste. Invadiram seu quarto e pegaram toda a bebida que ali guardava, não para beberem e sim para molhar a viúva. Assim que despejaram a última garrafa sob ela, lhe tacaram fogo. Gwendolyn morreu aos poucos queimada pela própria bebida.
E todos saíram dali satisfeitos, haviam se livrado da déspota e ainda assumido o controle do barracão. E Gwen morreu ali queimada, depois de ter passado por tudo que havia passado, de tentar escapar das inevitáveis conseqüências de guerra.
Fim.
Capítulo 4 - Descobertas
Amanheceu, ambos estavam exaustos haviam coberto uma distância de em torno de 23 quilômetros só naquela noite. Gwen estava desmaiada novamente, não tiveram a chance de conversar. Na cabeça do Tenente só duas coisas o preocupavam: o exército alemão que estava atacando seu país e um claro aviso dado por um dos membros do recém extinto círculo místico, “Se alguém sobreviver, os espíritos arregimentados que não entrarem aqui...irão atrás de quem entre nós sobreviver. Cuidado senhor!”
Só a lembrança de tal aviso já o deixava arrepiado por completo. Mas já havia passado mais de 24 horas desde o massacre, podia ter sido um momento de delírio. Pararam, o Tenente havia encontrado uma mina d’água em meio a densa floresta. Parou ali para se refrescar e dar algo de beber a Gwen. Para tal, teve que acordá-la:
- Gwendolyn acorde. Tome um pouco de água.
- O que...? Aonde...o que aconteceu?
- Não se lembra de nada?
- Só me lembro de você ter me jogado num manicômio! O que está acontecendo? Porque estamos no meio de uma mata?
- Me desculpe, foi necessário aquilo. Ainda bem que não se lembra do ocorrido, tome um pouco de água. Vou ali encher meu cantil e já volto. – Disse com uma voz vaga e distante.
- Não sei o porquê, mas algo me diz que tenho agradecê-lo.
Retomaram a caminhada, e a conversa fluía:
- Ora, me agradecer, depois de tudo que aconteceu...
- Sério, não sei o motivo, mas obrigada.
- Olha eu...paguei caro com as minhas injustiças com você, muito caro... – Seus olhos marearam quase instantaneamente.
- Mas o que...
- Olhe! – Disse interrompendo-a. – Uma clareira! Vamos ver se tem algo!
A medida que prosseguiam a viúva começou a reparar no Tenente, os trejeitos...até os tiques a lembravam de certa forma seu marido.
- Chegamos, estranho. Parece que alguém esteve aqui. Provavelmente uma tropa. Olhe. – Disse apontando em diversas posições. – Muitos restos de fogueira.
- A nossa tropa e nem a tropa inimiga passamos por essa posição, esquisitos.
Quando chegaram no centro da clareira foram surpreendidos por uma tropa alemã que estava escondida no lado oposto.
- Meus deus e agora? – Disse Gwen apavorada.
- São muitos, e estou armado só com essa Winchester. Vamos voltar pra mata, corra!
Assim correram em meio a uma saraivada de balas, ao chegar do outro lado tiveram outra surpresa, até pior...
- O que...você está vendo isso?
- Estou, mas que azar...começou logo agora!
- Hã? Começou o que? E agora?
As tais manifestações haviam começado. Wendigos, lobisomens e poltergeists emergiam da mata indo em direção a eles. Uma visão que congelaria qualquer ser vivo, menos eles que já lidavam com o sobrenatural a um relativo tempo.
- Já sei, droga, isso vai ser arriscado. Antes, tenho que dizer algo. Charles era meu irmão, por isso fiz tudo o que fiz! Agora venha!
Gwen não teve chance nem de argumentar, retomaram o caminho, indo de encontro com as balas.
- < Cessar fogo! Vamos nos entregar!> - Disse o Tenente num alemão impecável.
- Peraí, nos entregar é isso que você está falando, é isso?
- É, mas tenho um plano...
Presos nessa sinuca de bico, aquilo até que poderia ser um bom plano. Se não fosse os outros riscos envolvidos...
- Humpf. Ótima solução marujo...
- Hum. Sou tenent...
- Eu sei, eu sei, oras. – Disse irritada. – Nem ouvi o que você me disse antes de sermos engaiolados.
- Esqueça. Como estamos perto um do outro, segura esse pó um pouco.
- Peraí não uso drogas...
- Anda Gwen, espalha isso na sua cela, vou fazer uma invocação...
- Desde quando...
- Esse tempo todo comandando os místicos aprendi uns truques.
- Mas...vão matar os alemães e a nós.
- Confie em mim. – Disse ele com um olhar que na hora lembrou o falecido marido.
- T-tudo bem.
Assim fizeram, tinha muitos guardas em volta da cela deles, o Tenente invocou os demônios e ao mesmo tempo os protegia com as cinzas. A viúva receosa perguntou:
- Que cinzas são essas?
- Da sua sogra, minha mãe. Fique quieta.
Nesse momento os espíritos da perseguição cercaram o acampamento, tiros e gritos de desespero eram ouvidos. As principais vítimas a não tardar alcançariam em suas jaulas. Como o tenente protegeria a ambos?
Além disso, teriam que escapar da ilha, uma simples evocação já tinha atraído tanta coisa. Ilha? Deve-se perguntar caro leitor. Sim, uma ilha. Voltemos ao papo tenebroso para entendermos melhor:
- As luzes se apagaram! – Disse ela amedrontada.
- Tenha calma, logo sairemos dessa maldita ilha...
- Ilha? Mas a grã-bretanha é uma ilha enorme e...
- Não. – a interrompeu com um tom seco. – Não estamos lá.
- Ora, como assim?
- Quando percebemos que a sua transformação ia se concluir, a tiramos do manicômio militar e transferimos para aqui. Essa ilha era pra contenção do programa Wendigos. Estamos relativamente perto da costa de nosso país. Com esses invasores aqui temo por ele, temos que agir rápido, assim que der.
- Mas...
- Fique quieta. Eu fiz um simples ritual de invocação e já deu nisso. Deve ser pela aquela complexa forma que achamos de salvá-la.
- Porquê me salvaram? Pra quê tanto sacrifício?
- Se você se transformasse, estaria além do nosso controle e possessa ainda por cima. Mataria muito mais que aqueles soldados.
- ...
- Pois bem, você entendeu. Estão se aproximando, fiquemos em silêncio.
Assim o fizeram, era uma noite escura, nublada e fria, muito fria. Aos poucos os gritos foram diminuindo. Um silêncio mórbido recaía sob aquela escuridão plena. Para o tenente seria fácil aquela fuga, agora, se aqueles que foram invocados não se sentissem atraídos para a prisão enfeitiçada poderiam ser perseguidos. Para não se arriscarem mais, esperariam até o amanhecer...
- Gwendolyn acorde, amanheceu...
- Hm? Hrn... Só mais cinco minutinhos!
- Tem dó, estamos no meio do nada! Acorde vamos!
- Ai que coisa...meu, deus! O QUE ACONTECEU?
A cena era estarrecedora para as pessoas não acostumadas com as carnificinas geradas pelas guerras. O pelotão alemão todo estava despedaçado. Eram pedaços de corpos e cabeças espetadas por todo lado, uma cena horripilante. Talvez fosse menos se a sua fonte não fosse sobrenatural.
- Aquela invocação de ontem gerou tudo isso, não esperava tanto...
- Bom, pronto consegui destravar essas gaiolas. Vamos pegar mantimentos, algumas armas e seguir para o cais.
- Tudo bem.
Assim juntaram o que puderam, muitas mochilas de armas e mantimentos. Se fintaram por um momento em meio ao stress e cansaço. Se aproximaram com se fossem se beijar...Quando se houve um barulho vindo dos céus. Para a sorte de ambos não eram bombas e sim o ribombar de trovões interrompendo a cena. E o Tenente disse:
- Maldição, agora essa, vamos nos embrenhar logo na mata. Também existem os perigos selvagens por aqui.
- C-claro vamos sim... – Disse Gwen olhando vergonhosamente para o homem que tanto lembrava seu marido.
Assim partiram para o cais encobertos por uma manta de couro e abraçados de uma forma que parecia ser confortadora. Atrás deles, sem que percebessem havia alguém e o ser misterioso disse para si mesmo:
- Não meu caro, vocês nunca irão abandonar essa ilha, nunca!
Assim o homem de bombachas e chapéu afinalado soltou uma risada quase inaudível e se pôs a segui-los até o cais.
- Xi, droga, chuva de novo! – Disse Gwen num tom desanimador.
- Que droga tá frio e cai essa chuva torrencial! Até parece que estou nos trópicos!
- Hehehe, você parece meu marido quando ficava nervoso...hum, peraí. Você disse que é irmão de Charles, é verdade?
- É sim. Desculpa se menti e...
- Mentiu? Isso não é o pior! Torturou, prendeu seu irmão! Estava tentando transformá-lo numa coisa de outro mundo! ME torturou!
- Hum, calma aí. De alguma ou coisa eu desconfiava que você sabia ou supunha, algumas te contei, mas...tem coisa que você sabe que NEM os meus soldados sabiam! Nem o círculo!
- Ora, você acha que no tempo toda que fiquei possuída pelo meu marido, longe do meu próprio controle, não partilhei das memórias dele? Você acha? Que você o desprezava quando alcançou essa sua patente enquanto ele menor de idade, tentava entrar no exército? Hã? Que o seu desprezo, gerou um ódio tamanho nele que eu nunca soube de sua existência? Sabia?
- Confesso Gwen que no começo eu o desprezava...mas ele se mostrou um grande soldado! Logo me arrependi, e como ele não sabia que eu era o chefe daquela missão, o mandei em um pelotão especial para uma infiltração, queria aumentar ainda mais o orgulho dele. Mas com o rápido envio de tropas, houve um erro e ele foi enviado para o chamado batalhão dos desertores. Lá os transformávamos em Wendigos e...
- Espere aí. – Disse interrompendo-o subitamente. – Foi um erro então? Não uma vingança?
- Exato. Mas meses depois soube que ele voltou salvo desde destacamento e vocês se casaram oficialmente até que...
- Até que? – Gwen já estava demonstrando um crescente espanto.
- Já ouviu falar da fera inglesa? O canibal azul?
- Aquele que matou muitos nos arredores de nosso bairro? Eu lembro, ninguém saía de casa, foi um horror...
- Pois bem, era Charles, sua alma estava sendo transformando e clamava por sangue, ele era o atacante...
-...e ele matou minha querida avó e... – continuava a viúva o seu monólogo parando abruptamente. – Ele matou minha avó? Meu deus...porque vocês não detiveram Charles?
- Eu o encobria dentro das forças armadas. Alterava dados, pistas, tudo enfim!
- Então você o matou?
- Ele se suicidou.
- Impossível, você está mentindo! Durante o enterro vi coisas, o diário...
- O diário é uma semi-farça. Nem tudo lá é verdade. Em uma das caçadas noturnas de Charles resgatei o seu diário e realizei as mudanças necessárias, caso ele fosse morto ou morresse no processo de transformação! A parte militar do enterro em partes foi um ensaio baseado no diário, caso você o encontrasse!
- E Você ainda diz que não matou? E quem foi então?
- Já lhe disse, não foi suicídio.
- Agora quero ver você provar o contrário! – Gritou Gwendolyn já lacrimejosa.
- Reconhece isso? – Disse estendo as mãos com uma chave sob ela.
- Hum, a reconheço. A chave que estava no diário. Do que ela era?
- De um segundo diário onde ele relata que nunca mais queria voltar para uma guerra. Que a outra havia o transformado literalmente num monstro. E junto uma carta...
- Que carta?
- Uma em que o governo o re-convoca para esta guerra que está devastando toda a Europa. Ele se matou não por medo dela, nem de morrer. Mas por medo de perder a humanidade que lhe restava e única coisa que o ligava nisso, você. – Falou de forma astuta e com os olhos mareados. – Pronto, chegamos. Só tem um barco, vamos...
- Tudo bem, eu queria lhe pedir desculpas e...
- Não, fui obrigado a destruir a alma do meu irmão para salvá-la e salvar a terra de nossa rainha. E essa ilha está amaldiçoada pra sempre! Olhe quantos soldados meus tive que sacrificar, olhe!
- Não, pare! Assim eu me sinto mais tortura ainda e...
Os olhos se fintaram, as bocas se aproximavam, até que...
Clap, clap, clap!
- Hã, o que é isso?
- P-palmas? Pensei que todos estavam mortos...
- Muito bem os dois, muito bonito o espetáculo! – Falou a voz do estranho, ríspida e cheia de ódio.
- Ah, não. Isso não, Gwen entre no barco e saia da ilha agora!
- E você?
- Esses olhos...não sei quem é, mas sei o que é! Tenho que detê-lo, agora vá!
A viúva subiu assustada no pequeno barco pensando se aquela nova ameaça era realmente pior que tudo que já havia passado...
- M-mas...
-Entre no raio do barco logo!
- O que é isso, quem...?
- Não sei, olhe nos olhos dele. Foi possuído, sabia se alguém sobrevivesse isso ia acontecer, fiz um encanto que nos protege de possessão, essa ilha tá realmente infestada!
Assim o homem se aproximava com uma arma na mão.
- Só tenho essa Winchester e não vai adiantar...que droga!
- Fique tranqüilo humano, seu sofrimento não se prolongará... – Disse o homem com uma voz rasgada e seca, como se fosse o som de gravetos secos a serem esmigalhados.
- Ah não fode, um demônio ainda? – Não se conformava o Tenente.
- Muito esperto de sua parte descobrir...humano.
- Saco...
E assim iniciou o conflito com uma saraivada incessante de balas. O tenente por experiência acertou o homem em diversos pontos vitais e ele não cedia. Já o possesso o acertara bem no meio do peito um único. Como um guerreiro nato e persistente, o tenente também se pôs a não ceder. Gwen permanecia abaixada e segura dentro do barco apenas rezando para que aquilo cessasse logo e voltar para a ilha britânica, não suportava mais aquela loucura e carnificina. Por fim as balas de ambos acabaram.
- Ah caramba... – disseram os desafiantes quase que juntos.
Se fintaram e partiram para o combate físico, o possuído levava a vantagem da força. O tenente, da experiência. Tudo desenrolava para um equilíbrio de forças.
- Você vai morrer, vai morrer... – dizia de forma incessante o homem.
- É o que veremos. – Retrucava o bravo guerreiro.
Numa virada de jogo o tenente passou a ser espancada ferozmente pelo seu algoz.
- Viu? Hahahahaha! Viu? Vou te matar! – Disse numa voz insana o possesso.
- Antes você que vai...
Utilizando as suas últimas forças o tenente o virou, prendendo-o junto ao chão.
- Você não vai me prender, eu vou ganhar!
- Sanctus espirutus, advectem...
Assim ele começou um exorcismo, automaticamente o demônio perdeu as forças ficando indefeso...
- Não, não! Pare! Eu me rendo! Pare!
A experiência do tenente não o fazia largar o homem, muito menos cair na sua conversa. Por fim o homem soltou um grito gutural caindo morto, a chuva fria se misturava ao sangue desses ferozes guerreiros. Gwen correu ao encontro do tenente:
- Meu deus, preciso te levar pro barco e ir para o continente atrás de socorro e...
- Não. – Disse o tenente segurando-a pelas mãos e com um olhar firme nos olhos da viúva. – Não ia adiantar, a minha hemorragia é intensa, morrerei em minutos. E como um guerreiro!
- Não... – Disse Gwen num choro incessante.
- Me escuta, poucas pessoas sabem meu verdadeiro nome e é Chamberlain. – Disse soltando um riso no canto do lábio esquerdo. – Prazer.
- Por favor eu...
As lamentações de Gwen pararam ao fitar os olhos de seu salvador. Ali se beijaram pela primeira e última. Chamberlain utilizou seu último suspiro naquele derradeiro beijo. Assim a viúva o enterrou ali mesmo.
Assim subiu no barco e seguiu de volta a ilha britânica. Deixando para trás seu último resquício de amor, uma ilhada tomada por cadáveres e muito amaldiçoada.

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Capítulo 3 - Manicômio
Após a pancada na cabeça mal enxergava a sua volta, resmungava coisas desconexas. Olhava a sua volta via tudo meio enevoado, verde...pessoas a carregavam para algum lugar, a dor na cabeça era tanta que desmaiou novamente. Acordou novamente, estava em uma sala toda branca enxergando com certa dificuldade viu uma roda de militares e médicos discutindo na porta desta sala, mal ouvia pois a haviam dopado. As únicas palavras que ela discernia era o nome de seu marido, Charles e Wendigo.
Apesar de extremamente drogada lembrava que uma noite que seu marido havia chegado bêbado, ela considerava as palavras do ex-soldado muito variáveis e sem sentido. “E-eram chaaamados de Wendiiigo o ejérchiito chamavam eles axim meu bem, quáji mi pegaram!” Aquilo não era um delírio provavelmente. O tal wendigo era o nome do bicho na qual os soldados devem ter ser transformados. Nisso vendo que estava acordada, uma enfermeira se aproximou com uma seringa e disse a famosa frase:
- Fique calma, vai ser só uma picadinha... – Dando uma risada nada serena, era sim demoníaca.
Dormiu, acordou amarrada em uma cadeira, tudo rodava, sentiu seu corpo formigando. Mas nem toda droga injetada nela a fez perder um único sentimento que a dominava, o medo. Havia várias pessoas na penumbra junto a parede, como em qualquer interrogatório corriqueiro uma luz forte incidia em seus olhos. A falsa calma sumiu quando uma voz tenebrosa disse atrás dela:
- Bom. Ela acordou senhores, vamos ter o que precisamos, fiquem calmos. Soldado 16 inicie a tortura...
Mais assustada do que nunca e com a boca amarrada implorava mentalmente pra ser salva de alguma maneira. “Quem eram eles? Por que queriam fazer aquilo com ela?” Pensou.
Assim se inicia a tortura...
- Pois bem senhora Gwendolyn sabemos que a senhora descobriu um certo diário que está em nossa posse...a senhora confirma? Me diga...vamos! Fale!
- Senhor...
- Calma soldado! Responda! Senão...
- Senhor...
- Estou no meio de um interrogatório! O que foi soldado?
- A mordaça dela...
- Ah, desculpe. O que a senhora tem a responder hum?
- Não sei do que você está falando...
- Soldado 16... O primeiro nível!
Ela não enxergava nada, os militares estavam cobertos com uma máscara de esquiador. Estavam presentes na pequena sala, o Tenente X, o soldado 16, o soldado 0 e o soldado 214. Junto a eles o médico Stuart e a enfermeira Lola. Apesar de ainda não saber o nome de todos os presentes ou tê-los visualizados logo saberia da existência de todos os presentes.
A sala era composta da cadeira onde Gwen estava sentada e uma mesa onde os instrumentos de tortura brilhavam bem a sua frente, os presentes encontravam-se atrás dela, excetuando-se o torturador da vez. O primeiro nível baseava pela tortura psicológica e ameaças eminentes, ela resistiu com a bravura que vinha demonstrando em suas descobertas, não chorou.
Os presentes do exército basicamente eram formados em tortura, só a viúva não sabia. Impressionados, passaram ao nível dois:
- Ora, ora...estou impressionado com a sua resistência psicológica. Vamos aumentar o nível disso aqui...soldado 0, a sua vez...
Menos piedoso, com um alicate, o soldado 0 começou a arrancar uma a uma as unhas das mãos de Gwen, ela gritava de uma forma incrível...A cada unha extraída a mesma pergunta era feita: “Leu o diário?”. Ela bravamente mesmo com a dor lancinante e com o sangue escorrendo, ainda se recusava a responder, já havia perdido a unha de sete dedos. Estava quase perdendo a consciência quando algo ocorreu.
O soldado 0 estava para tirar a oitava unha e o seu alicate misteriosamente começou a flutuar acima de sua mão. Atônito, começou afastar a passos lentos para trás e aconteceu que uma força invisível o empurrou para teto. Permaneceu colado no alto da parede levando os outros presentes a histeria quando o alicate que flutuava em frente a viúva voou e enterrou na testa do soldado que caiu morto instantaneamente ali. O que estaria acontecendo?
Perceberam que estavam trancados na sala, não tinha pra onde sair. Irritado, o Tenente X resolveu prosseguir com a tortura.
- Não sei o que aconteceu...O soldado Derick (soldado 0) terá o enterro decente, por tentar defender esse país! Agora fale se leu o diário ou não!
- Ahhh...urgh. E que diferença isso irá fazer?
- Basicamente esse diário tem um dos maiores segredos senão o maior segredo deste país! Portanto, não podemos deixar civis sair com esse tipo informação por aí!
- Mas meu marido...
- Seu marido era militar, ele sabia das conseqüências de trair o país!
- Mas e o diário...
- Essa foi a maneira dele nos trair! Quem o tivesse em posse poderia nos comprometer!
- Então vocês admitem que mataram meu marido?
- Senhora, quem faz as perguntas aqui somos nós! Mas sim, nós o matamos. E lhe garanto que não foi por causa desse diário...
- Então porquê...
- Isso não é da sua conta. Soldado 214 é a sua vez...comece!
- Mas senhor...
- O que foi? Está com medo? O soldado 0 morreu para defender o país!!! Não sei o que aconteceu aqui mas não importa! Vamos! A faça falar!
- T-tudo bem...
Reiniciaram a tortura, com certo receio de a algo estranho acontecer novamente. Agora, em vez de fazer uma sessão lenta e dolorosa, queriam resolver logo aquilo. Quando entraram na casa de Gwen iria revirá-la atrás do tal diário, pois ficaram sabendo dele através de outros ex companheiros de guerra de Charles. E acabaram por encontrar ela com o diário em mãos.
Esbofetearam a pobre viúva como um prisioneiro qualquer, 214 estava já com a mão cheia de sangue e dolorida de tanto espancá-la, a mão dele já doía e estava afrouxara. Estava a torturá-la a mais de uma hora, somente a raiva pela morte sem explicação mas certamente ligada a Gwen o fazia prosseguir. Novamente algo estranho ocorreu, a torturada estava desmaiada a mais de meia hora.
Ainda assim a tortura prosseguia, o soldado começou a flutuar no ar como o seu companheiro. Todos estavam muito assustados, 214 começou implorar pela sua vida. Tudo em vão, uma voz tenebrosa disse:
- NÃO!!!
Olhavam em volta, havia mais ninguém na sala. Quando se voltaram para o soldado que flutuava em sua frente ele começou a ser rasgado por todo o corpo por algo que parecia ser garras invisíveis. O sangue começou a lavar toda a sala, as velocidades dos cortes foram aumentando até que já se distinguia o que era ele e que era sangue. Gritava de forma desesperada até que fora por fim esquartejado e seus pedaços jogados sob os observadores.
A enfermeira desmaiou pela tamanha violência que presenciara. Somente o médico e o tenente pareciam demonstrar um pouco de frieza com a situação. X chegou a conclusão que ela não iria falar se havia lido aquele diário todo ou não, não podiam soltá-la mais. Voltou-se para o médico soltando um forte suspiro e disse:
- Doutor só existe uma solução, curem-na e a tranquem no sanatório federal. Irei providenciar junto aos meus superiores uma maneira de ludibriar os familiares dela e justificar o aprisionamento dela. Também irei conversar com os ocultistas do serviço secreto e entender o que aconteceu por aqui, providencie tudo o mais rápido possível.
Abriu a porta e foi atrás do necessário deixando para trás um doutor espantado, uma enfermeira em choque, uma prisioneira semi-morta e uma chacina de origem sobrenatural...
Ínterim...
3 dias após a intensa e não menos sobrenatural tortura, Gwendolyn seguia interna em estado grave no Hospital de Base do Exército Inglês. Já o Tenente X não teve sossego desde então...
O Tenente identificado como X, conhecido no meio militar como Tenente John Soborn Shunt e entre seus jovens cadetes como “Portão do Inferno” devido ao treinamentos cruéis na qual eram submetidos.
John após esse vento sobrenatural e catastrófico se dirigiu ao serviço secreto inglês, o MI-13, especificamente ao departamento de casos não resolvidos. Dentro de tal departamento se encontra um ou departamento ainda mais secreto, o chamado Círculo dos 13. Essa designação era composta por tenentes e agentes do rei das mais altas patentes. Sua função atualmente era a criação de Wendigos que são criaturas devoradoras de carne humana e subproduto das mesmas.
Como sabemos, o exército segundo o diário de Charles produzia essas criaturas por meio do isolamento e inanição dos mesmos em plena 1ª Guerra Mundial. Esse círculo tinha como função investigar casos que possivelmente era de origem sobrenatural ou mística. Tinham como seus subordinados o chamado Círculo Místico que eram compostos por Bruxos e Bruxas, místicos, telepatas, médiuns e sensitivos desde o século XIV.
Este círculo surgiu após a chama Invasão das Fadas Demoníacas em Londres durante a cisão da Igreja Inglesa com a Igreja Católica. Entre investigações suas funções basicamente são de subjugar forças sobrenaturais, acobertar a existência de tais seres, investigar antigas formas de ocultismo e acima de tudo a proteção do rei e do exército por meio da magia e controle sob o sobrenatural. John era o chefe deles a mais de 20 anos e também comandava o Círculo dos 13.
Assim reuniu um de cada especialista somente. Os outros estavam combatendo o surgimento de possessões demoníacas na Escócia e uma linha de frente caçando Duendes insurgentes na Irlanda do Norte, seu material humano estava escasso. E levou-os para a sala de tortura onde Gwen havia sido exposta dias antes.
- Luan, o Telepata me diga o que sente nessa sala!
- Senhor...tem razão. Estou captando emoções recentes do ambiente parece que houve uma guerra aqui...urgh...parece que os presentes presenciaram o verdadeiro terror!
- Hum, pois bem. E você Wanda, a bruxa, o que tem a me dizer?
- Senhor, sinto somente um pouco de energia mística de origem não-humana. Estranho...
- Interessante. Wagner, nosso sensitivo. O que vê?
- A-algo muito assustador Senhor. Os espíritos de pessoas que foram mortas aqui...e que sempre estiveram por aqui. Estão...assustadas e muito. N-não tenho certeza o que é mas estão todos condensados no canto da sala com medo de sair dali, nunca vi nada igual...
- Seria algum demônio ou antigo espírito mal?
- Não. Senão espíritos maus estariam presentes, mas o ambiente tá carregado de uma energia estranha.
- Que coisa. E você nosso médium predileto, Howard. O que me diz?
- Hum,hum,hum...
- Que voz estranha é essa?
- Senhor... – Disseram os outros quase juntos.
- O que foi?
- Acho melhor se afastar dele...
- Ah tá, a voz mudou...ainda é você Howard?
- NÃO!!! JOHN AGORA VOCÊ IRÁ PAGAR POR TUDO!!!
Surpreendidos os atuantes do Círculo Místico preparavam-se para defender o chefe da possessão estranha de seu colega...
A tensão aumentava a níveis sobre-humanos...
- Saco chefe! Se afaste!
- O que está acontecendo?
- Ele está dominado por forças desconhecidas...algo que nenhum de nós está preparado.
- Tipo o quê?
- Não sei, temos que o resto do esquadrão e estudar o caso...
- Oh não, não!!! Capto ódio vindo da mente dele em estão puro! É o caos! O caos!
- Droga, agora o Luan.
- Senhor teremos que apelar contra essa entidade, ou seja, lá o que for, até acharmos uma solução cabível! Eu e Wanda iremos fazer um encantamento para acabar essa possessão e trancafiar essa coisa nesta sala!
- Ele tem razão! Saiam agora!
E assim fizeram, se afastando viram luzes e vozes estranhas saindo daquela sala e um frio que praticamente os congelavam de onde estavam. Ouviram depois gritos de verdadeiro terror e por fim o silêncio. Saíram da sala todos surrados e esbranquiçados sem dizer uma palavra, parecia que haviam visitado literalmente o inferno.
Fim do ínterim.
Sanatório Militar St.Patrick, verão de 1935. 2 semanas após a tortura.
Gwen estava sentada tomando sol naquela manhã quente, distante, perdida em seus pensamentos. Ilusão imposta pelas fortes drogas administradas pelos médicos militares. Parecia até que ela havia sido derrotada de corpo e espírito.
Olhando para uma penumbra de uma grande e frondosa árvores algo lhe tira parcialmente do pesadelo medicamentoso...Aquela silhueta parecia de Charles, seu falecido esposo.
Gwen olhava aquilo de modo estranho... Era ele? Estaria vivo ou seria um delírio? Apesar de torpe não pode deixar de reparar um pesadelo muito mais real a sua volta, os doentes mentais jogados à sua volta. Como todos os governos da época, os sanatórios ao invés de um centro de tratamento estavam mais para um depósito humano dos ditos loucos, malucos, alcoólatras, viciados ou qualquer julgado com desvio psicossocial ficava ali. Por anos, décadas a fio até o dia de sua morte.
O único tratamento oferecido aos internos além do extremo descaso e medicamentos administrados de forma empírica era para os mais “revoltados” o tratamento de eletro choque ou lobotomia. Hoje em dia sabemos que esse tipo de tratamento além de arbitrário torna o doente calmo, mas não pela eficiência do tratamento e sim por prejudicar as sinapses cerebrais.
No sanatório militar ficavam os chamados “casos sem recuperação ou de violência extrema”. Ou seja, além de pessoas com desvios comportamentais a viúva convivia com pessoas perigosas como maníacos. Desde cleptomaníacos à seriais killers famosos por suas matanças intermináveis. Para um pouco de sorte de Gwendolyn estes últimos ficavam em ala separada fortemente vigiada.
O local onde estava trancafiada era composto por um jardim central rodeada por enormes e antigas árvores. Em sua volta, como em vila mexicana ficavam as celas. Sempre abertas, antigas, a construção do sanatório data de 1752. Nunca sofreu reforma alguma nos séculos subseqüentes, exceto a ala médica com seus luxos e claro isolamento da área dos doentes.
A situação dos mesmos era a mais precária possível. A comida era racionada e adquirida de lotes vencidos vendidos a baixo preço no mercado negro. Não recebiam cuidados como banho ou troca de roupas, eram responsáveis por si mesmos. A grande maioria usava as mesmas roupas, agora surradas, de quando entraram na instituição. Fediam de forma desumana, os que se auto-flagelavam tinham suas feridas expostas devoradas por vermes e moscas. Alguns passavam dias deitados ao relento, ignorados por todos. Outros vagavam em bando ou só, alguns não abandonavam a cela por medo.
Era um estado de precariedade e loucura absurdas, uma visão estarrecedora. Pareciam zumbis vagando para todos os lados, seja gritando impropérios, chorando ou esmagando a própria a cabeça contra a parede até morrer. Selvageria louca, completa e cruel. E Gwen ali entre eles, a dias já. Era a única bem cuidada e vigiada por motivos que só nos entendemos.
Obviamente esse status despertou a curiosidade de boa parte dos internos, que por inveja ou direcionamento para extravasar a loucura que os consumia por dentro, voltaram-se para ela. Um dia se viu cercada por loucos babões, outros armados com pedaços de pau e ferro. Dopada mal poderia se defender, os poucos guardas tentaram conter os loucos em vão. Foram espancadas ou aprisionados nas celas deles, era um levante e ela agora estava desprotegida totalmente. Mas algo começou a acontecer para protegê-la, coisa que louco algum jamais delirou...
Iniciaram ao ataque a pobre viúva, primeiramente em ataque solo. Toda vez que se aproximavam chegando a quase tocá-la eram repelidos para longe. Depois tentaram ataques em grupo com o mesmo resultado, afinal loucos não conseguem distinguir realidade de ilusão. Depois de inúmeras tentativas se voltaram para a ala dos diretores, os mesmos rapidamente saíram de lá e o exército cercou toda a instituição.
Não tinham como fugir, muitas alas eram queimadas e junto com elas alguns internos, esses só saíram de sua cela nessa situação queimando vivos, já era noite, pareciam bólidos de fogo sobrenaturais correndo pelos corredores do sanatório. Quando caíam mortos em algum local, outros tendenciados a necrofilia atacavam esses mortos e mastigavam suas cernes com uma voracidade digna de um leão faminto urrando impropérios e palavras desconexas.
Lá fora os soldados tremiam ao ouvir os gritos lancinantes e irreais que ouviam, o medo se misturava ao cheio pútrido de carne humana e gordura sendo queimada. De longe se percebia as chamas que se erguiam do manicômio, era a filial do inferno na Terra, o inferno dos loucos.
Gwen continuava do mesmo jeito na cadeira em que estava a horas, sentada e ainda muito dopada. Via o fogo e a loucura consumir tudo a sua volta e achava que tudo não passava de um sonho. Alguns internos ainda investiam contra a viúva sendo igualmente repelidos. Atônita, a pobre continuava a fintar o vazio. Quando de repente como se saísse do torpor se levantou e soltou um grito aterrorizante, algo nunca ouvido antes. Foi o suficiente, todos pararam e assustados olhavam para ela, lá de fora agora só se ouvia o estralar de madeira queimando e um silêncio assustador...
Os integrantes do secretíssimo Circulo Mistico estavam na sua base discutindo entre outros caso, o mais intrigante, o de Gwen. No exato momento no grito aterrador da mesma os sensitivos tiveram uma sangria pelos olhos nariz e ouvidos. Os médiuns, um breve momento de colapso com o mundo sobrenatural. Já os bruxos e místicos não sentiram nada por exatamente não ter conexão com o sobrenatural, e só saberem manipulá-lo.
A histeria momentânea do círculo passou, apesar de nem desconfiarem do verdadeiro ocorrido. Gwen nesse momento, como se os internos se transformassem em zumbis começaram a admirá-la como se fosse uma deusa. Apesar de estarem nos quase meiados dos vinte, ela adquiriu seu feudo, do nada, todos eram subservientes.
E ali mesmo assustada e sem entender a viúva sentiu que devia fazer aquilo...passaram-se longos 6 meses. A segunda guerra mundial havia estourado, as tropas que faziam o cerco a clínica obrigatoriamente seguiram para o fronte em Flanders, praia francesa. E mesmo assim Gwen mantinha os internos a ferro e fogo. Parecia uma boneco, alheia a si mesma.
Em 23 de julho de 1946 o terceiro reich alemão já tomava conta de meia Inglaterra, aproximaram de seu interior...exatamente onde Gwen e seus “escravos” estavam. Mesmo alheia a si mesma, ela despertou depois de meses e pela janela viu o exercito alemão se aproximar mesmo sem entender nada, afinal passou meses fora de si ou por drogas ou por algo estranho que sentia desde a morte do seu querido marido.
Ao verificar, assustado o internato em busca de armas pra se defender do eminente ataque e convocar os internos, como se nunca tivesse os visto, se sentiu uma marionete e viu no jardim o que havia construído meses a fio. Era a sua única defesa, e tinha a assinatura na maldita arma do seu falecido marido. Recém desperta pensou, o que valia mais a pena. Sua vida e dos internos ou exterminar milhares de soldados que marchavam em sua direção? E como funciona essa estranha arma?
Enquanto isso no quartel-geral do MI13, mais especificamente no secretíssimo Círculo Místico...
- Se-senhor não estou como bom pressentimento...
- Que foi Wagner? Antes atenda o telefone...
- Que telef...ah ouvi. – Ainda não acostumado com seus impressionantes soldados, foi em silêncio atender. – Alô? Hum...COMO ASSIM INVADIRAM O NOSSO PAÍS? E como, quanto? Estão a 87 km de Londres? E porquê me ligaram? Sou de outra divisão...a quanto do Hospital Psiquiátrico? Nossa, obrigado tenente. Era isso soldado?
- Isso é o de menos Senhor. Acabei de ter uma visão, o tal espírito ou sei lá que coisa tenebrosa é aquilo. Sinto que vai voltar, parece que mantê-la trancafiada não adiantou muito. E o exército inimigo tá bem próximo.
- Ora, não sei como, mas se ela der conta de centenas de soldados...
- Hum tem razão, ela deve mandar aqueles loucos babões pra cima deles, hehehe...
- Er...Senhor? – Disse uma voz fria por detrás de ambos que estavam conversando num canto isolado da sala.
- UAH tá louco soldado? Que ir pra masmorra, que susto. Quem é você?
- Sou da equipe de Investigações Sobrenaturais do andar de cima, consegui algumas respostas.
- Sério? Cadê?
- Acho que esse documento responde quase tudo...
E o tenente iniciou a leitura:
“País de Gales, inverno 1789.
Senhor veio por esse documento, avisar de algo importante. Os experimentos para a criação de Wendigos só apresentam um único e grande problema. Em meio a transformações eles não podem ser mortos. Um guarda desavisado aqui do Campo de Concentração matou um semi-transformado por acidente. Até aí tudo bem, o problema é que um dos Místicos que ajudam na administração foi possuído pelo espírito ou sei lá o que é aquilo depois que morre.
Na sétima vez que foi possuído já estava trancado numa masmorra daqui. Soltou um uivo e passou a controlar todos aqui dentro, inclusive os Wendigos já prontos. Só despertamos meses depois, e tudo havia mudado. Havia corpos dos camponeses já pútridos espalhados de forma uniforme pelo pátio, as criaturas dormiam em sono profundo.
O possuído já estava desperto e quase normal, tirando pêlos azuis e marcas que o difere de outros, mas estava normal e bem. Mas quando todos tentávamos entender, descubrimos uma estranha arma no subsolo e já havíamos conseguido chamar reforços para o resgate e a possessão voltou ao pobre.
A tal arma ele utilizou como as coisas, os restos das pessoas. No estranho processo, eu...eu não sei descrever todos os humanos parecem estar serem consumidos, inclusive a tropa que se aproxima, adeus. Espero conseguir detê-lo e voltar para ver minha esposa e filhos.”
- N-nossa...e-eu...
- Erramos Senhor.
- E o que aconteceu depois?
- Simplesmente quase 40 mil mortos, Gales e Irlanda do Norte foram quase dizimadas instantâneamente.
- E como o deteram?
- Não o detemos. Ele governou sob os corpos por quase cem anos quando faleceu. Se isolou em uma mata e levou todos os corpos para lá, dizem os antigos que sentiam o cheiro vindo de lá por quilômetros a fio...
- Droga, pensei que os rituais no enterro do meu...digo daquele soldado resolvia tudo. Temos que ir lá.
- E a invasão?
- Conheço um caminho seguro. Venham...
- Er...não acabei de contar tudo Senhor.
- Termine no caminho, vamos! Matar nossos inimigos nunca deve custar mais que a vida de civis!
Cada um subiu em seu cavalo e partiram, assustados e quase emudecidos....
- Chame as tropas disponíveis também. E você, meu caro...explique essa história direito!
- Tudo bem senhor... – Disse o pesquisador olhando assustado para o chão. – Como sabe, desde a criação do setor de ocultismo o nosso objetivo foi desvendar assim como controlar e ocultar ações ditas paranormais e sobrenaturais.
- Ora, eu sei essa história e conhecimento o regimento de cor! Me fale algo útil.
- S-sim. Primeiramente a 300 anos tentamos controlar lobisomens e foi um desastre. Depois vampiros, foi um massacre. Assim como outras paraformas e espíritos, todos quase em vão ou com um sucesso relativo, nada que ajudasse. Wendigos já massacraram várias tropas alemãs na Grande Guerra, mas pelas minhas recentes pesquisas eles se mostram mais perigosos e descontrolados que imaginávamos.
- Ora, porquê? Pelo visto foi o único que fez sucesso...
- Senhor, leu àquela antiga carta não?
- Sim... – Parou por um instante coçou o queixo e olhou de volta para o pesquisador soltou um forte suspiro e continuou. – Assim que impedirmos esse desastre recomendarei para que se cesse o programa.
- Pois bem senhor. Agora reúna o seu círculo junto a mim. Agora vem o pior.
Assim o fez, parou a tropas onde estava. Já era noite e estavam a menos de 14 quilômetros do hospital psiquiátrico, mas já ouviam algumas explosões vindo daquela direção mais ao sul. Eram tropas alemãs avançando sob alguns regimentos que protegiam o condado, a qualquer momento caso conseguissem seguir, iriam de encontro ao manicômio.
- Pois fale meu bom rapaz, estamos todos aqui. – Disse o Tenente já com a voz amolecida.
- Hum...obrigado. Como sabem, nenhum de vocês conseguiram determinar a natureza do que ocorreu no dia da tortura da moça. Pois bem, ouçam bem o que vou falar. Pesquisei em alguns Tomos Negros que temos a alguns séculos. Uma pessoa quando vende sua alma a algum demônio ou se transforma em um, até quando se transforma em vampiros e outros seres, gradualmente essas pessoas perdem a alma, mas só ela. No caso de Wendigos quando estão se transformando e perecem no processo, a alma se transforma em algo mais. Não pela ação externa ou sobrenatural deles. Tornam o que são pela própria natureza humana.
Todos olham assustados, e o pesquisador para um pouco, retoma o fôlego e continuou:
- Bom, aí que está o problema. A alma delas se fragmentam dentro do ser até perdê-la totalmente tranformando em Wendigo. Se morrer no meio do processo ele precisará se fundir a outro ser para dar continuidade a transformação. No caso da moça o marido a possuiu e ao invés de expulsar a alma dela para a possessão ele está fundindo ambas.
Todos se olhavam assustados, nunca em toda as suas experientes vidas ouviram algo assim. O Tenente tomou a frente e perguntou:
- Então como iremos detê-la?
- Não será fácil, mas acho que sei...teremos que realizar um ritual de exorcismo e um ouija ao mesmo tempo e ah, quase me esqueço. Invocar algum demônio também. Os bruxos realizaram o encanto da discórdia diretamente na pele da moça para que desfaleça e iniciem os outros rituais. A arma construída, não se assustem, pelos restos de alguns internos e tem como função alimentar diretamente das almas para o fortalecimento do semi-wendigo ou sei lá o que aquilo sem uma definição específica. É destruída por sal grosso e alguns tiros, nada difícil.
Assim um dos integrantes do círculo ergue a mão e pergunta:
- Mas alguns desse rituais realizados concomitatemente pode deixar o local infestado de poltergeists furiosos e até alguns demônios...
- Exato. – Continuou um dos místicos – E pelo ritual das discórdia lá vai virar uma prisão pra tais seres e ao mesmo atraíra outros acumulando-os. Não sabemos o que poderá acontecer se acumularmos seres tão poderosos em tal local, mesmo não escapando a longo prazo não sabemos o que pode ocorrer...
- Esse é o risco. Ou isso ou sofreremos as conseqüências depois...
- Então está decidido. Vamos em frente... – Disse o Tenente com uma voz trêmula, quase chorosa...
Chegando já em frente a tenebrosa instituição já sentiram o cheiro pútrido de mortos e um clima agonizante e deprimente, melancólico no ar. Sentiam quase vontade de chorar, antes que pudessem se impressionar, uma sentinela gritou:
- Inimigo a doze horas!
Como despertando de um transe, o Tenente iniciou suas ordens:
- Er...regimento 14 e 16 posicionem nos flancos! 14 e 12 ataquem pelo centro! Utilizem a formação de defesa e fuga! – Gritou. - Equipe mística alfa ajudem a proteger o perímetro com suas magias e invocações! – Disse quase sussurrando.
Após minutos de puro caos e gritos de líderes de batalhões com suas tropas e o ínicio do trabalho da equipe alfa, todos estavam em suas posições. Sobrando somente a tropa de elite e a equipe mística beta. Assim, sem dificuldades adentram no hospício.
Lá dentro caminhavam em absoluto silêncio, o manicômio estava destruído por completo, as paredes rachadas e enegrecidas. Parecia que em menos de um anos aquela instalação havia envelhecido décadas. Chegando na praça central ficaram aturdidos com o que viam, várias pilhas de mortos divididos eqüidistantes e em forma de círculo. No centro, Gwen, diferente de tudo que já viram.
Estava com pêlos brancos pelo corpo, olhos vermelhos; sorria. Os soldados da elite estavam nauseabundos pelo cheiro dos cadáveres. Wendigo era bom de guerra, por isso faziam experimentos para criá-los. Eram ditos caçadores perfeitos, conseguiam ficar invisíveis aos olhos, imitar a voz de sua caça para atraí-la para sua armadilha. Ferozes e vorazes, também tinham força sobre humana.
Macabra Gwen soltou mais um sorriso de cima de sua máquina da morte. Lá fora a guerra havia estourado, lá de dentro mal ouviam ou haviam percebido o que ocorria na parte externa, estavam atônitos, em choque com o que viam. Rapidamente Gwen sumiu da frente de todos, o pânico foi praticamente geral. Os soldados trombavam uns com os outros, não conseguiam realizar uma formação decente.
Rapidamente a viúva obliterava um por um, os despedaçavam, os aleijavam. O cheiro de sangue e os gritos de desespero só a alimentavam. Devido a velocidade que a mesma partia pra cima deles, o único rastro que percebiam era o crescente brilho de seus olhos vermelhos. Em questão de minutos toda a tropa fora subjugada, graças a alguns encantos só o Tenente junto a tropa beta resistiam. A inumana Gwen os observavam nos olhos, pronta para o ataque. As balas dos canhões começavam a atingir o prédio, o mesmo começava a ruir. Era a hora deles ali agirem.
Rapidamente ela partiu pra cima deles, devido ao encanto estava extremamente lenta. Ligeiro, o Tenente a segurou. Enquanto Gwendolyn tentava se libertar a equipe beta iniciou seus encantos, conjurações e invocações. Era dia, anoiteceu. A guerra que ocorria lá fora de repente parou, o frio os invadia até os ossos. Todos olhavam pra cima assustados, os que tinham tendência para o sobrenatural começaram e falar que viam mortos e demônios caminhando em direção ao prédio logo a frente dos dois exércitos, o clima de loucura era tanta que alguns, se não enlouqueciam, se matavam ali mesmo.
O silêncio, assim como a imobilidade de ambos os exércitos continuavam. Todos olhavam para o prédio respeitosamente, como se a vida deles dependesse do que acontecia naquele prédio em chamas e em ruínas.
O tenente a segurava com toda a sua tenacidade, por outro lado Gwen o arranhava sem parar, seu sangue espirrava para todo lado. Firmes, os integrantes aceleraram os seus afazeres. Os raios começaram a cruzar os céus. A equipe lá dentro estava no seu limite gritando e profanando para que se realizasse aquilo que faziam ali. Por fim ouve um clarão e um barulho ensurdecedor.
Quase todos ali presentes caíram desmaiados ou mortos. Lá fora os restantes se mataram, com se soubessem que algo comprometedor que acabara de ocorrer caso os alcançasse, seria pior que a morte. O Tenente permanecia abraçado com ela, Gwen havia voltado ao normal...e viva. Com a voz fraca balbuciou:
- Onde estou? O que aconteceu?
Conseqüentemente desmaiou, um dos únicos integrantes ainda vivos do Círculo disse:
- Não acredito...ela está salva, viva! Seu sangue Tenente interferiu nas nossas conjurações, destruindo a semi-alma que a possuía...que a fundia e se reconstruía. Fujam daqui, o local está cheio de espíritos do mal e demônios. Saiam daqui, vou garantir a segurança de voc...
Não teve a chance de terminar a frase, fora arrastado por uma força invisível para uma sala ao fundo dos dois, ouvindo logo após gritos. Saindo da anestesia com Gwen ao colo se colocaram ilesos do lado de fora. Visto o que viram e sentiram lá dentro, presenciar uma verdadeira carnificina com mais de trezentos mortos empalados a sua frente era praticamente nada. Assim se arrastando para uma mata próxima e chorando muito o Tenente prosseguiu. Semi-desperta a viúva perguntou:
- Chora por seus soldados?
- Não somente. – Disse muito condoído. – Quase a levei a morte.
- Me tortura e sacrifica todos esses soldados por mim? Não entendo.
- Era o mínimo que tinha que fazer era salvar a amada de irmão, e para isso, destruí a vida e a alma dele...
Assustada Gwen começou a chorar muito alto, ambos choravam. Assim sumiram no meio da mata, deixando pra trás uma carnificina sem precedentes e um prédio extremamente mal assombrado.
Capítulo 2 - Assombrada
Na manhã seguinte já sozinha em casa resolveu retomar a leitura do famigerado diário do marido:
Diário de Guerra, dia 22
Ah não pra mim chega! Estou escrevendo até torto, mas é de raiva! Justin hoje matou a gente de rir! Ele pregou mais uma de suas peças de mal gosto em mais um pobre diabo recém-chegado. Praticamente o escaldou em água quente, o incrível é que nenhum oficial o puniu isso merece uma investigação mais profunda.
Após a leitura final deste trecho Gwen respirou aliviada. Mas ainda assim não perdeu a desconfiança que desde a morte do marido a cercava. Continuou sua leitura.
Diário de Guerra dia 42
Hora do embarque finalmente. Quem estiver lendo esse diário ore para nós soldados. Estamos aqui por nossas famílias, amigos e amor a nossas famílias, ontem após o bombardeio sobre Londres os oficiais não pestanejaram, desembarcaremos em solo continental ainda essa noite.
Respirando fundo acendeu um cigarro antes de prosseguir, lembrou que fumava escondido do marido.
Diário de Guerra dia 43
A França está tomada por forças inimigas, hoje começamos a construir as intermináveis trincheiras, já estou farto delas. Mal começamos e já demos de cara, antes das balas, das quedas de barreiras e trincheiras mal concebidas. Ainda não morremos por balas, morremos por que cavamos. A terra nos engole vivo para suas entranhas.
Diário de Guerra dia 47
Finalmente começaram os combates. Encontramos um destacamento alemão, o comandante nos mandou cavar trincheiras para darmos a volta por detrás dos inimigos e pegá-los de surpresa. Me parece um bom plano, espero que funcione, chove muito. Essas malditas trincheiras mais parecem um mar marrom com homens dentro.
Diário de Guerra Dia 56
Está cada vez mais difícil escrever, os bombardeios sobre nós estão se tornando cada vez mais intensos. Já perdi quase metade dos meus companheiros, lutamos com os mortos ao nosso lado. É horrível, macabro. A chuva não cessa a semanas, o frio está muito intenso.
Diário de Guerra dia 63
Acabaram de matar o último comandante, o sol saiu finalmente. Nós, o restos das tropas, estamos perdidos. O rádio pifou, o cheiro dos mortos... A comida está sendo racionada no último. Não temos para onde ir. Ficamos na trincheira pois não queremos ser mortos, existem atiradores de elite alemães pra todos os lados. O jeito é rezar e esperar por ajuda.
A mulher não se conteve ao imaginar a situação, parou a leitura ali mesmo. Começou a chorar copiosamente imaginando os terríveis momentos vividos pelo marido. Ficou sentada por horas na cama tentando se recompor, sempre olhando para o infinito alem de sua janela. Sentiu um arrepio, olhou para trás, viu um vulto atravessar o corredor.
Assustada pegou um pedaço de madeira que sempre guardava embaixo da cama criou coragem e se dispôs de frente ao correr. Havia ninguém, excetuando-se pelo seu quarto e banheiro. No segundo andar, todas as outras portas estavam trancadas. Soltou um forte suspiro e coçou a cabeça. Pensando ser coisa de sua cabeça resolveu se iniciar os preparativos de seu banho, agora quem precisava de um emprego era ela.
O primeiro dia da procura se mostrou em vão, os homens mal conseguiam um emprego quem dirá ela. Novamente se voltou ao diário do falecido esposo.
Diário de guerra dia 67
Somos agora um pouco mais de uma dúzia de homens quase mortos. A fome nos consome a dias. Vejo agora nos olhos de meus companheiros um desespero nunca visto antes, o medo da morte. Agora somos algo aquém de qualquer selvagem, somos menos que animais. Fedendo a carne podre ensopada dos mortos, que começa a tentar os nossos estômagos. Estou nessa trincheira desde o início da guerra. Temo por nossa sanidade.
Dispôs-se mais assustada que já estava. Gwen não acreditava no que lia naquele estranho diário. Sua cabeça já estava enevoada pelo sono merecido após um dia fatigante de qualquer mortal em busca do próprio sustento. Com o diário acobertado em seus braços brancos e rijos adormeceu ali mesmo.
Sono bravo, sono profundo, sono merecedor. Sentiu algo quente e reconfortante ao seu lado na cama, era o calor da segurança. Só sentia-se assim com seu marido, como era bom. Virou-se de lado para abraçá-lo, algo automático. Ao abrir os olhos viu o que não queria seu marido ensangüentado, com a cabeça rachada ao meio. Os olhos esbugalhados como se ele estivesse agonizante, a beira da morte.
Ele não gritava, tão pouco implorava por ajuda. Só dizia as seguintes palavras: “Descubra a verdade, me salve... me abra as portas...” Assim o corpo do moribundo foi pra cima dela. Gwen levantou assustada, era um sonho. Suava frio apesar do frio londrino, do lado, a cama estava remexida. Passou a mão sobre o local onde dias atrás o consorte ainda dormia, sentiu o lugar quente. Se virou para tentar retornar ao repouso, só que dessa vez, duvidando da própria sanidade.
Logo pela amanhã antes da nova peleja se voltou para o diário:
Diário de Guerra...###
Quase todos mortos, quase todos mortos! É o fim, é o apocalipse!
Parou por ali mesmo, o susto foi tão grande. Seria pavor? Medo do desconhecido, algo irretratável? Parou de ler. Foi a procura de um emprego e o do que comer. O estoque, apesar de extenso, não era infinito, precisava de um emprego.
Mais um dia fora em vão, voltou para casa mais extenuada do que nunca, parecia que tinham lhe sugado as energias. Passou-se mais de dois meses desde a morte de seu amado marido. Por causa das desconfianças geradas pelo diário e pelas peculiaridades do enterro se isolara de todos, nesses dois meses, estava mais para um ermitão.
Resolveu dedicar até o máximo possível ao famigerado diário. Reiniciou a leitura, desde a última leitura percebeu que a escrita se tornara mais difícil, tremida. As páginas conseqüentes estavam sem data específica e percebeu que aparentemente foram molhadas, pois estavam borradas.
Diá..####
Estamos a 15 dias sem contato com os Aliados. Sobraram somente a mim e a mais três pessoas nessa fétida trincheira. Não somos mais humanos ####r acabou por perder a racionalidade devido a fome e atacou um cadáver que nem eu mais reconh###. O trio devorou as entranhas de nosso desconhecido aliado como animais. Pela primeira vez nesse buraco infernal, temo por min# ##da.
Gwen parou repentinamente a leitura assustada, finalmente começara a entender o motivo de o marido voltar tão diferente da guerra, era o horror. Respirou fundo, foi ao banheiro lavar o rosto tentado voltar a sua realidade.
Após lavar o rosto resolveu se encarar no espelho depois de meses. Ao olhar viu uma mulher mais magra, cansada, cheia de olheiras. Viu o que começara a se tornar, a casa estava um lixo, pensou. Antes de se retirar do banheiro resolveu se encarar novamente no espelho, como se isso a fortalecesse e talvez lhe desse um novo rumo na vida.
Ao se encarar novamente sentiu um calafrio súbito. A temperatura diminuiu em volta de si, soltava os vapores da respiração pela boca. Ainda olhando pelo espelho, viu aparecer uma par de olhos surgir atrás dela. Petrificou-se na hora. O ser aproximou como uma cão identificando alguém, cheirou seu pescoço por longos minutos e retornou a escuridão atrás da porta dizendo numa voz inumana: “Não se esqueça!”. Atônita, retornou ao quarto, pra ela aquilo só podia ser uma ilusão, seria mais uma noite em claro.
Mesmo tremendo assustada e com a queda brusca da temperatura em pleno verão no hemisfério norte resolveu prosseguir na leitura, agora no diário quase ilegível não se dava para se saber ou calcular os dias, a escrita era direta e sem marcações.
“A meses nessa trincheira maldita coisas estranhas e animalescas começam a ocorrer. Os poucos sobreviventes no meio desse lamaçal, pois chove a dias, começam a se alimentar dos cadáveres semi-pútridos dos já irreconhecíveis companheiros de infantaria. Devoram vísceras de cor arroxeada e extremamente fedorenta jogando sangue meio que gelatinoso para todo o lado e sendo devorado por ratos que saem da surdina. Vejo que abandonaram a humanidade dos olhos, a fome também me aperta, esse cadáveres nojentos começam a me soar apetitosos...”
Gwen não se conteve, correu ao banheiro e devolveu o pouco de pão seco que havia comido horas antes, voltou ao diário, estava quase pela metade. Ao tocá-lo sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo, o frio que já sentia antes se acentuava, apesar de tudo suava. Olhava para a página que acabara de ler, estava com medo de passar a página, começou a sentir náuseas também. Parecia que algo estava para acontecer... seria um mau presságio?
Olhou pela janela, o dia estava para nascer. O sono pesava em sua cabeça mais que os fardos de feno que carregava no sítio de seus avós na infância, porém, os constantes e cada vez mais fortes calafrios aliada a temperatura extremamente baixa de seu quarto não lhe permitiram essa dádiva. Uma vez mais agarrou-se no diário, algo estava para acontecer.
Vagarosamente se aproximou do diário, com um cuidado semelhante em que um domador faz ao se aproximar de uma perigosa cobra venenosa. Assim, segurou o diário e após um forte suspiro passou a página:
“Os rituais canibais prosseguem. Ainda não temos sinais de aliados, sobrevivo comendo os ratos que aparecem por aqui é menos nojento e...estranho. A cada dia que se passa eles devoram nossos companheiros mortos como um ritual mesmo. Se ajoelham cortam seus próprios punhos e enfiam nas entranhas dos mortos. Após isso entoam um canto numa língua que não entendo. Eles estão diferentes, nem sabem mais que estou aqui, estou escondido. Os olhos são vermelhos...devem estar doentes, não sei.”
Aliviada fechou o diário e ouviu um barulho na porta no primeiro andar, alguém tentava entrar. Escondeu o diário rapidamente e se escondeu...ouviu passos lentos subirem a escada, se encolheu onde estava e rezava sem parar e ouviu:
- Gwen querida, cadê você?
Novamente respirou aliviada era a sua mãe, e disse:
- Mamãe vem ao quarto, estou aqui!
Gwen aproveitou e deitou na cama pra fingir que estava dormindo e sua mãe abriu a porta e dali mesmo disse:
- Minha filha vim fazer o seu café da manhã antes de você sair.
- Ora mãe não precisava se enc...
Nesse momento dois pares de olhos vermelhos em um corpo delgado e escuro aparecerem atrás da mãe de Gwen. Mesmo assustada isso ainda não e deteve e disse:
- MAMÃEEE!!!
As ágeis criaturas pegaram a mãe de Gwen e a arrastaram até a porta do banheiro e subiram na janela e olhando a ela com aqueles olhos escarlates agora brilhantes disseram numa voz arrastada, animalesca e nada humana:
- Vocêêê diáááriooo... – apontaram com o dedo. – Cuidaaadooo perigoooo...não leeerrr...
Largando ali a pobre senhora já desmaiada e pulando a pequena janela. Gwen os olhou pular toda aquela altura e desaparecerem agilmente na mata que havia por detrás da casa. Assim ajoelhou e chorou com a mãe entre os braços. O que seria aqueles? O que queriam? Só sabia que sua vida estava em um risco, precisava de ajuda.
Voltou-se a sua mãe que estava desmaiada, a reanimou dizendo que ela havia desmaiado. A mãe desesperada perguntou a filha o que havia acontecido. Disfarçando a extrema palidez disse que ela havia desmaiado bem a sua frente do nada. Confusa Linda se levantou e foi fazer o café da filha, Gwen imediatamente desabou a chorar sem parar. O que eram aqueles seres? Se perguntava. Misturada a um turbilhão de emoções sem nexo resolveu que leria o diário até o fim, as recentes ameaças, eram para ela, provas que o marido não havia realmente se suicidado.
Tomou o café oferecido pela mãe que logo se despediu e partiu de volta para casa. Logo após a saída da mesma voltou para a cama e adormeceu profundamente, não dormia a dois dias. Em seus sonhos via o marido se despedindo e logo sendo cercado pelas horrendas criaturas que o devoravam ferozmente bem na sua frente. Olhando para si, estava cercada de colegas militares de seu marido que a amarraram, torturaram e por fim a esquartejaram.
Acordou suando muito frio, a cama estava molhada pelo seu suor e o seu coração estava tão disparado que pensou que iria morrer naquela hora mesmo. Se levantou, olhou para o relógio na cabeceira da cama e automaticamente para a janela, era dia, eram oito horas da manhã. Se sentido recomposta se levantou animada, mas não menos assustada. Tinha que correr atrás de um emprego, suas finanças estavam um desastre.
Se levantou da cama, voltando-se para arrumá-la. Ao realizar esse movimento sentiu fisgadas nas pernas e ao olhar...viu que estavam cobertas de sangue. Mais uma vez desesperada viu a cama ensopada sim, mas de sangue. Suas pernas estavam todas arranhadas, imediatamente correu para o banheiro para tomar um banho e viu escrito na janela “Não continue a ler!”.
Essa ameaça lhe causara uma náusea instantânea misturada a um ódio profundo, se lavou. Logo desceu a cozinha para comer algo e pegar o jornal. Verificou que na caixa de correio além de contas aos montes, haviam três jornais. Ela havia dormido por três dias seguidos sem perceber, achou não muito estranho visto a tudo que lhe vinha acontecendo.
Logo subiu para ler as duas últimas páginas do diário de Charles, nem que custasse a sua vida o mistério de sua morte seria resolvido naquele momento.
Gwen sentou em sua penteadeira olhando a foto do marido, soltou um longo suspiro e abriu o diário. A hora de finalizar aquele caderno de horrores havia chegado:
“A semanas presos aqui nessa trincheira maldita. Os meus antigos companheiros se transformaram em criaturas que devoram carne humana, algo distante do soldado que um dia foram. Estou assustado pois não sei até quando a minha sorte de não ser detectado e morto continuará. Prefiro morrer com honra todo baleado do que ser devorado por essas criaturas desprezíveis. Minhas forças estão no fim, me parece que vou morrer por inanição mesmo, como um covarde. Não servindo meu país...”
Levantou a cabeça assustada. E começou a ligar as pontas, as descrições do falecido marido batiam com as das criaturas que invadiram seu lar dias antes. Pegou uma garrafa de whisky que escondia embaixo da cama, preparou um drink e prosseguiu sua leitura.
“Estranhamente os sons de tiros e canhões cessaram, pode ser uma maneira de eu fugir desses monstros. Mas...o que é isso? São vários tenentes se aproximando ao longe, parece que a guerra acabou e nós vencemos. Junto com eles parece que vem uns prisioneiros e...que horror como puderam fazer algo tão hediondo? Vou descrever a conversa entre dois tenentes do destacamento:
- Ora, ora...conseguimos mais dois aqui. Soldado dispare a arma tranqüilizante vamos levá-los!
- Esses são grandes hein tenente? Devoraram todo esse batalhão, em breve teremos um exército desses...desses, como chamam essas coisas mesmo?
- São conhecidos por diversos nomes, depende da cultura. Um ser humano depois que pratica canibalismo por muito tempo se torna isso.
- Hum...e com um exército desses podemos dominar todo o continente europeu em semanas!
- Sim, possuem uma força sobre-humana e até onde sei são eternos. Só podem ser mortos com fogo. Temos um exemplar mais antigo dessas coisas, foi capturado pelo exército do rei em 1679.
- Interessante, todos os soldados que passam por...essa transformação. Onde estão?
- Temos vários campos de concentração desses bichos que capturamos ao longo dos séculos nos fiordes escoceses e...ouviu esse barulho?
Droga, me descubriram! Vou dar um jeito de esconder esse diário quem estiver lendo revele esse horror ao mundo! Talvez eu nunca volte para casa...adeus!
Charles Soborn.”
Gwendolyn estava pálida com o que acabara de ler, como aquilo era possível? Ao virar a última página que estava em branco viu uma folha solta dobrada e pegou pra ler, dentro havia uma chave. Assim leu:
“Não tive a coragem de dizer isso a minha esposa, a fome do front era enorme não resisti e me alimentei um pouco de carne humana a transformação foi iniciada. Mas cessou antes que continuasse... desculpe Gwendolyn. A chave em sua posse, é chave do sucesso.”
Chorando se levantou, apesar de confusa sabia que pra sua proteção primeiramente devia contatar a imprensa. Ao se olhar no espelho viu que alguém estava atrás de si, dessa maneira levou uma pancada na cabeça e desmaiou.