Mas ela diz que me ama. Ela chega de fininho como quem nĂŁo quer nada, pega minha mĂŁo, toca no meu cabelo e depois a ouço dizer coisas como - âAh, nĂŁo vai embora, tĂĄ cedoâ. Mas eu nĂŁo dou ouvido, quer dizer, bem que tento. A verdade Ă© que ela nĂŁo sabe falar coisas bonitas, nĂŁo sabe como fazer eu me sentir realmente desejado e quando tenta parecer uma garota normal, acaba parecendo um daqueles pepinos estragados que nĂŁo mudam de cor, sabe? Eles sĂŁo verdes de qualquer jeito. Certo dia ela tentou me matar, digo, falar que me ama, pode isso? Nos conhecemos hĂĄ anos, nos pegĂĄvamos sempre que tĂnhamos chance e essa vadia resolveu estragar tudo falando do seu amor por mim - fiquei triste Ă© claro â mas dei um sorriso forçado e fingi que nĂŁo havia escutado. O silĂȘncio foi nossa conversa pelos prĂłximos 5 minutos, tudo bem, ela sempre faz isso, pensei. Ela sempre gostou de me fazer chegar ao cĂ©u e em seguida me jogar lĂĄ de cima sabendo que eu nunca aguento o impacto. Eu perguntei se ela sabia o que acabara de me contar e ela me responde que sim, com uma cara de quem na verdade nĂŁo sabe nem se comeu. O fato Ă© que a gente se meteu numa confusĂŁo, eu sei e vocĂȘ sabe tambĂ©m que, vocĂȘ nunca sabe o que diz nem o que quer. O que estĂĄ acontecendo? â pergunto â VocĂȘ tĂĄ carente? VocĂȘ nĂŁo conseguiu pegar o cara que planejava pegar na noitada? Porque se for, pode ir parando. â ela responde com um sentimentalismo barato, diz que sou um idiota e que sou sĂł mais um garoto como os que ela pega nas noites da âvidaâ â que seja. Na semana seguinte Ă minha morte, eu a vejo novamente com um vestidinho atĂ© os joelhos e uma blusa com uma estampa âfloralâ, (uma espĂ©cie de estampa com flores). Ela me parecia um pouco diferente do normal, nĂŁo sĂł pela delicadeza que a blusa transmitia, mas pelo penteado que normalmente nĂŁo Ă© penteado e sim sĂł uma âpassada de mĂŁoâ, como eu costumo chamar. Eu nunca fui uma pessoa boa em puxar conversa, muito menos quando preciso conversar. Nunca fui bom em pedir desculpas e sempre achei que meu orgulho nada mais era que minha falta de jeito com esse tipo de coisa. Tudo bem, eu precisava, nĂŁo queria perder alguĂ©m que por mais cretina que fosse, - Ă s vezes, quase sempre â era meu ponto de paz. â Bem, nĂŁo sei como dizer isso, acho que eu acabei exagerando no outro dia e queria pedir desculpas. â ela nĂŁo me olha, sabe que na verdade eu nĂŁo to muito afim de fazer isso. Pedir desculpa, tem coisa mais complicada? â nĂŁo, pensei â Sabe, Yasmin, vocĂȘ nĂŁo pode falar que me ama e em seguida me deixar no silĂȘncio, caramba. VocĂȘ sabe o poder que tem sobre mim e abusa da minha insegurança comigo mesmo pra falar coisas do tipo. VocĂȘ pensa que eu nĂŁo saquei, nĂ©, mas eu saquei. VocĂȘ vem segurando minha mĂŁo e depois toca no meu cabelo achando que isso vai me fazer querer que vocĂȘ faça carinho, pois bem, eu nĂŁo quero. TĂĄ, talvez eu queira⊠Talvez seja legal segurar tua mĂŁo enquanto tu pega no meu cabelo com a outra. Droga, eu nĂŁo queria me apaixonar, nĂŁo de novo. A gente jĂĄ passou por isso antes, nĂŁo? VocĂȘ vai me fazer voar e depois cortar minhas asas, Ă© sempre assim. â ela me olha com um sorriso e me pergunta o que eu tenho contra o amor correspondido â bom, esses sĂŁo os piores, nĂŁo? Ă o tipo de amor que te mata e depois te faz viver de verdade.
Marcos Filipe. Â















