Depois de sair do paraíso (eles dizem que o paraíso é um lugar na terra); depois de enfrentar um turbulento ônibus de uma noite de domingo, como sempre, caótica; depois de carregar o meu semblante e egue-lo em rostos desconhecidos, porém que carregam o mesmo motivo que eu; depois de passar pelas ruas de um silêncio mais que ensurdecedor, e de uma quietude tão ameaçadora quanto a sombra de uma águia sobre a presa: finalmente chego no lar daquilo que me atormenta toda noite fria, o berço onde meus sonhos, medos e inseguranças plantaram-se e colheram-se (quase nunca nessa ordem).
E agora, a contemplar minha imagem no espelho metafísico e a desmistificar o meu eu que agora é só pura lembrança, tateio meu peito introspectivo e abraço minha leveza suprema. Em minha mente, minha natureza semi-enjaulada grita os signos de meus desejos (que revelam, a gritar, todos os meus medos).
Ela grita: "teu carinho é meu alimento mais necessário"; "meu retrospecto é meu mais puro legado"; "meu anseio é minha mais pura dor"; "meu deleite é a alma morta"; "minha dor é o que sinto a ser puro"; "meu eu é resultado de crer a ser".
A leveza que eu sinto, não só pode, como também é pura palavra; porém, só compreendida com imagens e metáforas metafísicas (como são perigosas). A vontade que tanto me foge é a pena que carrego com vigor e com todas as minhas forças, o frágil chora à presença do menos delicado.
Os meus pés escutam o canto, é o canto da existência. Só mais esse gole de indiferença, só mais esse grito de incerteza e insegurança. Só mais uma noite a dormir em canto de surrealidade. O surreal é irreal, é mais que ultra real, é pluri-real. Quem pode dizer com certeza o que é real?
Oh, ventos do leste que me presenciam, me presenteiem mais uma vez: o que eu desejo é a morfina da alma, fecho-me de olhos em visão simplória, porém é a profundidade que vejo. Essa é a minha revolução, o que eu vivo é a surrealidade de meu ser, o que sonho é a realidade; é uma noite após a outra, um medo também.
E esse é meu hino de hoje, esse é o hino de sempre.