Você não faz ideia do que me aconteceu no último mês. Estamos na metade do ano mas pra mim todo dia é ano novo tirando a parte da comemoração, tá mais pra quando no fim da festa a única coisa que resta é essa pequena e precisa e sucinta e essencial: esperança. Eu estou em pedaços; é o que você precisa saber e esse não é o fim.
Há pelos menos três anos atrás eu percebi que eu sou um porto, não o clichê romântico de ser o porto seguro de alguém. Mas aquele porto velho, triste e abandonado numa ilha qualquer. Eu continuo aqui enquanto todos que conheci vão embora. É exatamente assim que o porto funciona, é preciso desembarcar ou embarcar alguma mercadoria então o barco ancora ao cais e fica ali até que o serviço seja feito.
Imagine a seguinte situação: você é capitã(o) de um barco, talvez tenha sua rota traçada ou talvez prefira que o vento te guie. Em qualquer uma das formas você estará no meio do oceano com um infinito azul acima de sua cabeça e um finito azul mil vezes maior que você abaixo de ti. Você certamente tem tudo o que precisa contigo, um mapa, uma bússola, comida, coragem. Então um dia você enfrenta uma tempestade e perde tudo, não faz ideia em qual metro cubico de oceano a sua coragem foi parar e nem se lembra qual direção precisa seguir. De repente no horizonte surge algo, uma esperança, um porto.
Há três anos atrás eu decidi que não iria ser um porto. Eu queria mesmo é ser barco, viver de um lado a outro conhecendo todos os possíveis tons de azul, todas as possíveis combinações de cores entre o mar e o céu, sentir o vento no rosto, enfrentar essas tempestades sem pensar duas vezes. “Mar calmo nunca fez bom marinheiro!” E então capitã(o), depois da tempestade você não teria onde atracar, sua esperança jamais surgiria no horizonte se eu fosse um barco.
Se eu fosse um barco estaríamos ambos à deriva.
Sinceramente, eu não me acostumei com isso e talvez nunca vá. Todas as chegadas, todas as partidas, devo admitir que há alguns barcos que permanecem, muitos outros que nunca mais verei. Nenhum(a) capitã(o) até hoje soube me dizer se há uma fórmula que deixe a partida menos amarga pra quem fica. Todos estão sempre falando em tesouros, ilhas, monstros, horizonte, próximas viagens. E eu permaneço aqui.
Por favor capitã(o), entenda-me: eu amo as histórias, imaginar tudo aquilo acontecendo comigo, comparando com coisas parecidas que vivi, ouvi tudo o que viveu no mar aberto, o que aprendeu. Eu tento aprender com cada chegada, sei que temos experiências diferentes e eu gosto da troca de conhecimento que há nas histórias. Nesses três anos se tem uma coisa que eu aprendi foi ouvir, então naquele momento em que você estará com seu peito quase explodindo de emoção me contando sobre o ápice da sua viagem só será nós dois; nada mais importa pra mim além de te ouvir com total atenção e tentar sentir todas as coisas que sentiu e tenta transmitir. Depois, quando todas as histórias foram contadas é chegada a hora da partida pois não há mais nada a ser compartilhado. Eu ouvi e pude imaginar o que há além do horizonte, você se recuperou da tempestade e volta mais preparado para o mar. É hora de ir.
Nesse momento só posso pedir desculpa pelo descuido em que se encontra o porto e dizer que estou cuidando de melhorar o cais com fortes pedras.
Faça uma excelente viagem capitã(o) e diga aos seus companheiros que em breve terá um novo porto por aqui que poderão atracar.
ps.: também teremos excelentes bebidas para servir durante a estadia. Traga apenas as histórias.