Para a flor, para o anjo, para a paixão, para o amor.
Você se foi e levou minha vontade de escrever contigo. Jogou minhas palavras ao primeiro vento que passou e foi até a janela. E mesmo a te observar de longe minha vontade era de me aproximar e me afundar em seus intensos e curiosos olhos; ou que você me chamasse para um vôo bonito. Te escrevo hoje por ousadia, por ser um idiota-canalha que nunca soube realmente o que quis ou que nunca soube querer o que realmente queria. Alguém que sempre se confundia com o querer. Eu nem sabia o motivo de te querer ali mas lembro-me de cada vez em que você se fez em minha janela; todos os dias no mesmo lugar, eu te desenhava, te esculpia e te sentia. E o vento convidava-te casa a dentro, com o olhar negava querer a entrada mas só com a brisa o teu perfume dominava toda minha morada.
Certas vezes me parecia flor, outras anjo, mas eu nunca soube se era paixão ou amor. Não deu tempo.
O tempo sempre me questionava, ainda mais quando andava a sobrar; questionava sobre a vida, sobre o espaço e até mesmo sobre ele mesmo. Mas todas as vezes que em minha janela você aparecia eu lhe dizia quase sem palavras que a vida era tenra e as perguntas queriam ser apenas perguntas, sem a necessidade de respostas; que o espaço se encolhia até caber naquela janela e escondia sua grandiosidade atrás do móvel da sala para que sua beleza reinasse sobre ele; e o tempo sem pressa e sem ter o que perguntar caminhava ao meu redor só pra te ver refletida em meus olhos. O tempo não é inimigo e muito menos amigo. Ele só é um conselheiro que nos é disposto. A gente que é amigo da gente e amigos das coisas, sem que elas saibam. Mesmo assim o tempo sempre estava comigo. Ou pelo menos eu achava isso.
Lembro que chamava-me para festas de suas inconstâncias de flor. Certas vezes me fez mergulhar em suas pétalas, mas nada mais que isso. Me mostrou a forma de algumas e como isso a deixava intrigada e questionadora - feito o tempo. Lembro-me de sua incessante curiosidade pelas questões do mundo e da vida. Guardo a imagem de seus curiosos olhos desenhados em uma parte do meu peito que se fez pétala pra te ter comigo. E todas as vezes que os vejo acabo mergulhado, novamente, em toda essa sua insana vontade de entender tudo que lhe é dado. A última vez que te vi flor, você pintava o céu com sua cor e brincava com o vento bagunçando a forma das nuvens. O sol apenas sorria por em seus últimos instantes ver a tua doçura e o teu desejo de ser vida. Eu também sorriria assim se soubesse que seriam seus últimos instantes de flor. E eu te sorriria e te lembraria das coisas boas. Te lembraria que muita gente é flor, mas que ninguém conseguiria ser a flor que você foi. A mais pequena, a mais forte, a mais curiosa, a mais doce. A mais flor de todas. Não pude me despedir, você não me deu a oportunidade mas essa não me faltou e nem me falta agora, o que me falta é a vontade de deixar-lhe ir. Deixarei meu peito assim feito pétala guardada que insiste em querer ser flor.
Guardado fui eu em algumas de suas noites de anjo. Guardado naquela canção que cantada por qualquer outro não faz o menor sentir e que só se fez canção quando cantou pra mim. Guardado no teu colo onde as dores não existem e o tempo não tem agir. Você foi minha inspiração, meu suporte, meu alimento, naquela tua noite de anjo. Você me fez sonhar aquelas coisas antigas, aquelas vontades bonitas. Me fez sorrir. Se doou e me recebeu. Espero que não tenha se doído. Não por mim. Porque o que você me ensinou eu aprendi. Sei que ainda há noites em que você me guarda nessas suas asas pesadas de saudade. Pois um dia dissestes que nunca me deixaria partir, mas eu nunca lhe disse que jamais desejaria ir. Você fez mais do que me guardar, você me encantou e cativou. Como deve ter feito a muitos outros que se atraíram por esse seu jeito de anjo. Mas mais do que asas, você se faz anjo sem elas, apesar de muitas vezes se sentir e faze-las voar por ai. E teu voo é grande anjo, ainda maior do que consegues imaginar. Mesmo com essas tuas asas, esses teus vôos longínquos e grandes, e essa tua vontade maior do que a de anjo, não se acanhe em aparecer por aqui e descansar nessa simples janela que é pequena pra ti mas que estará sempre pronta como ninho para teu pousar de asas, pois eu sei que às vezes se cansa; anjo também se cansa meu bem e só não pára por teimosia, por vontade grande de guardar o mundo no peito e carregar toda a saudade sobre suas asas. Calma anjo, você vai fazer tudo que tens que fazer, sem pressa pois não somos deixados ir antes que tudo esteja em seu lugar. Calma, pois anjo também sonha. E tem o tempo para realizar. Não te deixarei ir pois essa noite com calma te guardo.
Me pergunto se todas essas músicas cabem dentro do peito. Se o coração suporta todas essas melodias e melancolias que são compostas por tantos olhares. Me pergunto se as preces desesperadas dançam conforme a música do coração, se elas realmente sabem dançar. E os versos soltos presos no peito será que sabem cantar a paixão do corpo inteiro? Ou só cantam pro raiar do teu sorriso? Teu riso junto ao meu faz palavras bonitas surgirem no canto dos teus olhos e essa paixão pesar no coração. Ao final de cada batida a vontade de querer te compor em músicas perdidas no mar se repete. Essas coisas não se fingem, não se mentem, não são vãs. Todas as cenas que eu poderia te mostrar, mostraria se o mar não as tivesse encontrado e eu me segurado pra não me perder no mesmo azul, pra manter o diagnostico de homem são. Pois essa tal de paixão já tem fama de mexer com a cabeça do sujeito, imagine então do predicado. Não sei como te chamar se não paixão. Nem o que te falar, nem o que te esquecer. Só sei que mais pura que você não houve. Mas só o saber não adianta meu bem, tem que ter o sentir, tem que ter. Por mais que eu diga que não quero mais sentir nada, não vejo outra saída para mim que não seja essa. Meu peito esta fadado a bater por você. Ou por qualquer outra música mas nunca por outra paixão. Você pode me privar de todas as palavras como fez quase sempre, pode me tirar o riso e até mesmo negar toda a história. Mas você e eu sabemos que essa paixão nunca deixará de tocar aqui em meu peito, por mais covarde que seja. Você sabe que é a minha melhor canção. Pode deixar de cuidar das lembranças e por causa de toda tormenta tentar sufoca-las, só não se esqueça de que músicas feitas pelo coração nunca deixam de tocar e onde são guardadas o tempo não tem permissão pra entrar. Acredito que te falar isso não vai mudar nada do que eu fiz não é mesmo? Mas e se eu cantar? E se eu fizer melhor: e se eu dançar? Já sei! Vou tocar. Apenas tocar e se em ti chegar permita-se se sentir paixão, permita-se tocar. E se quiser gritar, grite. Se quiser chorar, chore. Mas sinta paixão. Sinta e viva paixão. Sem explicação. Assim sem medo da noite e medo do que ainda não aprendeu. Não se preocupe paixão porque essas coisas do coração são feito instinto. Você vai saber o que fazer, don’t worry. E com insonia da tua falta deito desajeitado na janela a te escrever em mais uma canção pro coração manhosa paixão.
Escrever sobre o que sinto por você nunca foi tão difícil. Na verdade já foi sim por isso que você não tem muito das minhas palavras mas sabe exatamente que te guardo até entre os espaços das minhas falas.
Ah, a paixão! Te faz suspirar e fundo.
Mas e o amor? Eu não sei. Mas já cansei de dissertar várias vezes sobre ele e nunca chegar a uma conclusão. Só não canso de sentir. Você sabe que o ser humano sente e também sabe fingir muito bem. Sabe também que o amor é pequeno, ou grande, que pode caber em minha janela e mesmo assim alcançar o mundo inteiro. Ele é o que a gente faz dele. Eu fiz dele você. Aquela estrela que sempre está no céu quando olho da janela. Aquele sentimento bom de ter com quem se importar e ter quem se importe. Aquelas palavras que te guardam. Me sinto forte só de pensar em te chamar de amor. Mas eu não chamo, e só não chamo pois acho que se disser tudo vai se desmanchar, então prefiro deixar essas palavras guardadas em minha janela. Você já conhece ela bem. Conhece até mesmo as palavras que ainda nem te dei. Os versos que te fiz, os sorrisos que lhe sorri, os olhares que te sonhei são pequenos, eu sei, mas você percebeu que neles contia parte do amor? Partes de você. E meu bem desculpe por te dividir assim mas é preciso mostrar o amor ao resto do mundo, só que tem que ser assim devagarinho e aos pouquinhos pois tem gente que se assusta com coisas grandes demais e o pior tem gente que tem inveja demais. Não consigo metaforizar o amor, acho que não dá pra mudar esse sentido, ele já é o sentido. Te faz sentir e fundo.
Ainda há um lado meu que é completamente egoísta, então não se preocupe com as dores e nem com os perigos porque você sempre será guardada aqui, não importa a forma, se é numa pétala, ou nas asas, numa canção, ou no coração. O que importa é que você está onde o tempo nunca irá entrar. Só agora consigo compreender tudo isso. Tudo o que vivemos, eu na minha janela e você na sua. Quem sabe um dia tocaremos para o mundo a música composta por nossos corações da nossa janela, quem o sabe? E enquanto isso viva… viva enquanto não realizo nossos sonhos.
Agora da mesma forma que sou levado o tempo também te levou e você se foi. Foi flor, foi anjo, foi paixão, foi amor.
Para a flor, para o anjo, para a paixão, para o amor.