– Bom, você ficaria surpreso com o tanto de coisas que se aprende longe da saia do papai – Donna Jo deu um grande e exageradamente açucarado sorriso, e piscou na direção de seu irmão, antes de fechar a cara novamente e voltar a apoiar-se na barra da sacada. Não daria o gostinho para Brad (ou melhor, para seus pais, que conseguiam arrancar qualquer informação de seu irmão e não demorariam a saber que ele havia ido jantar com ela e todas as circunstâncias daquele jantar), o gostinho da vitória de saber que DJ continuava a mesma pessoa emocionalmente prejudicada, que de relacionamentos frágeis e dificuldades – Tudo que não é uma piscina é um porre pra você, Brad – DJ riu, balançando a cabeça. Ela se lembrava perfeitamente, quando a noite caía e o frio começava, ela corria para a piscina de sua antiga casa com uma toalha e ali ficava dez, quinze, vinte minutos gritando com sua voz ardida para Brad sair da piscina. “Você vai ficar gripado”, “Você tem que estudar”, “Você ficou aí o dia todo”. Até que finalmente, ela se cansava, e se sentava numa das cadeiras até a hora em que Brad decidia sair. Então DJ o enrolava na toalha, apertava seus ombros e dizia algo como “bom trabalho” e o arrastava para dentro de casa. Era cômico saber que aquele garoto magrelo, aquele garoto que ela achava que nunca saberia se defender sozinho, havia se tornado aquilo na sua frente, uma fortaleza. A memória quase a fazia sorrir. Quase.
– E seus amiguinhos? Não consigo imaginar nenhum daqueles pequenos herdeiros no meio do mato – Indagou, com um tom cômico na voz. Apesar da diferença relativamente pequena, 5 anos, os amigos de Brad sempre seriam… Amiguinhos de Brad. Ela se lembrava perfeitamente, do perturbado Heathcliff Travers, dos planos infalíveis de Tristane Nott, do recém chegado Dylan Choe, do protegido de seu irmão Skyler Mulciber e do menor de todos, Amycus Carrow – Hm, Jordan disse algo sobre lobos – DJ observou, franzindo a testa e tentando disfarçar o que parecia ser uma possível e crescente preocupação. Mas Brad estava ali inteiro, então estava tudo bem. As coisas eram assim entre eles. Tudo tão prático, se ele estava ali, não havia razão para se preocupar – Matei a saudade de uma hidromassagem e champanhe caro, mas já estou de volta à vida real – Respondeu, encarando o céu escuro. Tragou o cigarro mais uma vez, soprando para frente e deixando o vento arrastar a fumaça. Seu pai odiava cigarros, talvez por isso DJ insistisse tanto em fazer algo que nem lhe agradava tanto assim.
O silêncio parecia o sinal final daquela conversa. Os irmãos Selwyn eram assim: um não dava abertura e o outro não se esforçava para procurá-la. Ela conhecia bem aquele script, e em alguns segundos, Brad sairia dali sem dizer nada e seria como se nada daquilo tivesse acontecido e os dois ficariam mais meses sem se ver. Mas as coisas não aconteceram exatamente do jeito que ela imaginava, porque… Bem, Brad falou – Oh – A interjeição de surpresa saiu antes que ela conseguisse contê-la. Pensando bem, Brad realmente parecia animado com o bolo de carne, quase metade havia ido só no prato dele – Hm, foi. Fui eu que fiz, sim – Mentiu deslavadamente. Apesar de ser a filha não tão pródiga, ainda sim, era filha de seu pai… E de sua mãe. E uma coisa que os dois haviam lhe ensinado muito bem era mentir. Não que aquela fosse uma grande mentira, mas, novamente: não queria que Brad achasse que ela era aquela mesma menina que havia sido colocada para fora de casa. Queria que ele achasse que ela havia se tornado uma pessoa melhor, uma pessoa que não precisava de empregados e luxo o tempo todo, uma pessoa que ajudava nas tarefas domésticas… E não uma garota que nos dias difíceis queria ajoelhar e implorar perdão – Quer dizer, Tyler ajudou um pouco, mas… – Pigarreou, contraindo os lábios – Hm, pelo visto, sua mãe continua tentando cozinhar em casa? – Questionou. Sophie e Donna Jo tinham as mesmas habilidades culinárias, e se Brad estava assim tão esfomeado, com certeza sua mãe havia tentado (e não obtido sucesso) em preparar algo para o filhinho, algo que acontecia mais do que frequentemente.
Os provocamentos de DJ nunca faziam sentido para ele. Não sabia o que passava na cabeça da sua irmã, mas não era como se ele quisesse ficar perto do seu pai. Qualquer um que o conhecesse teria essa perspectiva, mas haviam inúmeras razões para que Bradford não tivesse a mesma liberdade de DJ. Começando pelo fato dele ser homem, e seu pai imediatamente fazer dele seu herdeiro. Havia o fato de que havia em seu coração, ainda um espaço para sua mãe, mesmo a mulher sendo um péssimo exemplo e nunca cuidando dos filhos. Havia a maneira como ele havia sido criado dentro da igreja que mesmo parecendo sem sentido o fazia pensar de que não deveria se abandonar sua família. Por mais confusos que fossem os sentimentos ou sua relação as outras pessoas, ele ainda seguia os preceitos que havia sido ensinado quando pequeno mesmo que ninguém esperasse isso dele. O que deixavam muitas coisas mais difícil. Ele não conseguia negar que tudo fora a piscina era ruim, mas ele ainda estava ali, para passar a noite com ela, então isso deveria significar alguma coisa. Por menor que fosse, ele poderia estar na piscina treinando e ter esquecido aquele jantar. Não era como se ele também fosse falar isso para a menina. Apenas revirou os olhos e fechou os braços mostrando-se fechado para esse tipo de comentário.
Ele nem queria lembrar do acampamento. Muitas coisas haviam acontecido, mas seus amigos não estavam envolvidos em muitas dessas memórias. “Ninguém estava conseguindo lidar com aquele acampamento. Ou essa coisa de lobos ou ter que ficar algemado a outra pessoa. Sabe aquele cara que fica com a câmera para cima e para baixo? Ele foi minha dupla. Preferia que os lobos fossem real e não uma simples metáfora para ensinar uma lição sem sentido. Como tudo que acontece naquele castelo. Não sei o que o Dawson teve que passar, mas não foi um dos acampamentos mais agradáveis, e olha que eu tive que acampar com o pai várias vezes, mas não foi tão ruim.” O resto não era como se ele se sentisse confortável para falar com sua irmã ou com qualquer outra pessoa, talvez com Ky, mas o mesmo parecia que não estava muito bem depois do acampamento. Aparentemente os estagiários e funcionários tiveram um lazer muito melhor do que eles, e então a irmã começou a fumar e aquilo fez com que ele se afastasse um pouco mais. Não era como se não estivesse acostumado com pessoas fumando. Um de seus melhores amigos era Amycus Carrow, mas ele odiava cigarros. Odiava o que faziam com o corpo das pessoas, a maneira como prejudicava o desempenho e o quanto aquilo o lembrava de seu pai. Seu pai também odiava cigarros, e isso era um ponto em comum deles, e Bradford toda vez que se afastava de um acreditava que estava mais próximo do pai e isso fazia com que ele ficasse com mais medo.
“Não é como se eu tivesse ido para casa.” Não sabia o quanto DJ sabia, mas já fazia um bom tempo em que Bradford não ia para casa. Por mais que ele sempre acabasse indo para pelo menos checar se sua mãe estava bem, e para ir caso seu pai o obrigasse a ter alguma reunião importante não era como se sentisse bem naquele local. Sua mãe geralmente ficava elogiando o quanto ele estava alto e parecia com seu pai, que era um homem maravilhoso e a forma como ela parecia querer prendê-lo, muitas vezes sufocavam o menino. Assim como todas as conversas que tinha que ter com o pai, e a forma como ele parecia ter a certeza de que o caminho do seu filho já estava traçado. Toda vez que ele voltava para casa era como se aceitasse aquele futuro, e muitas vezes Brad não tinha expectativas ou esperanças, então abraçava aquele lado. Ele nunca ia poder ser um atleta. Não quando, seu pai era um mafioso com envolvimento em tantas coisas que se algum dia fossem tentar fazer uma checagem com afinco em sua família, ele jamais teria qualquer oportunidade, e aquela era sua vida. Não importava o que ele quisesse fazer ainda era refém das escolhas de seus pais. “Pelo menos a cozinha de Hogwarts não é tão ruim, mas eles poderiam fazer mais atum ou cavalinha.” Deu de ombros tentando trazer um pouco mais de leveza aquilo.