O FABULOSO DESTINO DOS GIRASSÓIS.
Fui trouxa.Nosso primeiro encontro pareceu um curta-metragem cult francês. Restaurante famoso, vinho importado. Você de terno e eu com uma bota desbotada. A luz amarelada do ambiente fazendo contornos nos velhos que entravam e saíam. Saímos, nós, te beijei de surpresa entre duas esquinas famosas de São Paulo – milhares de beijos devem ter acontecido ali. Mas em nenhum deles a diferença de altura deve ter provocado uma cena tão engraçada e absurdamente romântica.
Acredito que me apaixonei por você naquele instante. Daquele momento em diante as coisas somente iriam piorar – para mim. As dificuldades de sua vida atribulada, pais idosos, mestrado atrasado, trabalho, medos e incertezas. Eu, muito certo e seguro de tudo o que sentia, me vi como Sir Lancelot lutando por aquilo que via surgir. Fiz loucuras que jamais havia feito. Enchi a portaria do seu prédio com girassóis, entreguei bolos de presente para seus pais doentes. Escrevi cartas e poemas de amor, te enviei de madrugada. Procurei belezas em você que talvez alguém jamais houvesse reparado. Você limpava os óculos de um modo engraçado. No seu apartamento respeitei cada espaço como um recanto sagrado. Tentei preencher cada recanto de sua vida com beleza e candura.
O amor não é um curta-metragem, a vida não segue o roteiro do Fabuloso Destino de Amelie Poulain. Pelo contrário. Muito contrário. Avesso. Foram surgindo vazios, silêncios, distâncias que eram maiores do que Santana e a Vila Mariana. Cada encontro éramos como dois bêbados tentando sugar ao máximo aquela presença. Mas para toda bebedeira há uma ressaca. A minha ressaca era a ausência, a tua, até hoje não sei. Nestes silêncios que criamos com maestria me vi distante e outros próximos demais.
Comecei a acompanhar tua vida pelo instagram, teus sentimentos por conversas com outros no facebook. Estava sendo trouxa. MAS escrevo tudo isso para deixar claro que serei ainda mais trouxa. Que serei ainda mais romântico. Você não esgotou minha poesia, girassóis não deixaram de nascer porque os da tua sala morreram.




















