“Quando foi que eu descumpri uma ordem sua?” Donghyun respondeu em um claro tom provocativo e sensual.
Ele estava ali depois de uns dois dias sumido, a explicação que ele dera fora vaga––se referindo a um favor que precisava fazer para um amigo de longa data. Belle poderia desconfiar, agora que sabia sobre seu passado, mas o homem afastava estes pensamentos.
A moto dele ainda estava quente no estacionamento, feliz por finalmente ter saído da garagem. Quando ele fazia aqueles “favores”, deixava a moto em casa. Não queria que ela também se impregnasse com o cheiro de peixe, camarão e coisas piores que suas paranóias faziam ele pensar que estava impregnado em sua pele.
A pele de Donghyun em alguns pontos estava levemente rosada, como se tivessem sido esfregadas com muito força ou retiradas de uma água quente demais para se considerar confortável. Isso era reflexo do tempo que ele passava se limpando, como se pudesse arrancar aquela sujeira de crime.
“Alright.” Abriu devagar os olhos e inalou profundamente o cheiro da tinta como se estivesse em um grande campo florido. Suas narinas se expandiram antes de seus olhos capturarem a mistura de cores. Não entendia nada, sua mente se esforçava, mas análises complicadas sobre mensagens que pinturas poderiam transmitir estavam muito além de sua expertise. Vestindo a jaqueta vermelha de sempre, com o cabelo finalmente cortado e a camisa preta pareciam combinar com as cores terrosas. Uma viagem com os pés bem fixos no chão o agradava, qualquer cheiro que não fosse de camarão, frutos do mar, qualquer coisa…
“Eu também não entendo,” brincou, “mas sei que é bonito.”
Pôs as mãos nos bolsos da jaqueta e a seguiu, silencioso pois tentava entender o que ela dizia. Dizer algo além de “bonito”, apesar de que aquela forma de se expressar não fosse a sua. Anabelle falava bonito, sabia o que estava fazendo e merecia reconhecimento.
Seu olhar brincava junto com seu sorriso enquanto acenava positivamente, mesmo sem ouvir nada de verdade, estava perdido nos lábios que se moviam, na mão que apontava e na mulher que mais do que alguns segundos inebriados por álcool, o fazia esquecer do lodo em que estava afundado.
Despertou do hiperfoco quando ouviu ‘Somos nós’ e olhou para o quadro. Tudo combinava, mas ele não conseguia ver nenhuma forma.
Suas sobrancelhas estavam franzidas, teve que se aproximar para reconhecer uma mão, braço e boca.
“Uau,” murmurou, passando a olhar sua própria mão, como se buscasse alguma semelhança com a da pintura, “você está querendo dizer que a gente”, indicou o espaço entre eles, “te inspirou a criar tudo isso daqui?” Seu gesto amplo incluía todos os quadros.
Algo bom estava saindo de sua presença na vida de alguém e aquilo era mais do que ele jamais poderia ter esperado. Uma bigorna desceu em seu estômago quando se lembrou da filha que nunca conheceria e que nem sabia se estava viva. A primeira coisa que pensou ter feito de bom lhe foi arrancada e agora ali estava uma segunda chance de ser alguém na vida do alguém dele.
O peso se foi e o que o substituiu foi uma vontade incontrolável de tocar Belle.
“Eu não entendi metade do que você falou,” a expressão lhe fugiu da mente quando sentiu o perfume dela. Ele lhe dedilhou a nuca imitando a pintura mesmo sem intenção, na verdade, ele parecia estar inalando ela para dentro de si, como se estivesse lutando por ar, “mas eu sei o que é sentir tudo mudar e pela primeira vez não é algo que eu quero fugir. I know I’m fucked, mas ao menos é por você. Obrigado por isso.”
Seus lábios soltaram um ‘Tsc’, pois sabia que não aguentaria mais manter a linha intelectual e precisava partir para o tato, por isso a beijou com urgência. Em uma cópia mais humana, mais intensa do que a pintura representava.
Anabelle riu da confusão de Donghyun diante suas pinturas. Era incrível como a linguagem de afeto dos dois era diferente. Belle era artística, sentimental, profunda. Poderia ficar falando por horas de como ela imaginava a relação deles retratada em formas, traços e cores e provavelmente se perderia nas tintas tentando expressar tudo o que sentia. Felizmente, Donghyun era mais pé no chão e o contrapeso essencial para resgatá-la dos próprios devaneios. A linguagem dele era mais física, urgente e prática. Juntos, eles se equilibravam. Eram o balanço perfeito.
A prova disso veio quando seus lábios se tocaram. Todo o afeto, toda a paixão, estavam ali naquele contato. Assim como retratado em sua pintura, Belle sentiu-se derretendo em seus braços, enquanto os dois mesclavam-se em um só. O toque da mão de Donghyun em sua nuca a causava arrepios no corpo inteiro, e ela tinha certeza que aquela era sua sensação preferida. Deu espaço para suas línguas se encontrarem e enlaçou os braços ao redor do pescoço dele, liberando o espaço da lateral de seu corpo para ser explorado como ele bem quisesse.
Enquanto perdia-se na sensação do beijo, pensava no quanto era grata por ter Donghyun consigo, por ter caído em cima dele quando tentou descer daquele maldito muro. Pensou em tudo o que havia confiado a ele, e no que ele havia confiado a ela. O fato de ser pai, de ter outro nome, já ter sido preso, quase espancado até a morte, de estar ali escondendo-se e possivelmente envolvido em algo ilegal. Aqueles eram sinais claros que fariam qualquer pessoa sã querem fugir, mas eles faziam Belle querer ficar. Ela que sempre fora metida à aventuras, sentia que não podia viver um amor menos intenso que aquele. Todos aqueles pensamentos já haviam a ocorrido dias atrás, enquanto conversava com Agatha e finalmente percebeu seus verdadeiros sentimentos por Donghyun. Não estava simplesmente tomada por uma paixão repentina e irracional. Tivera tempo o bastante para raciocinar aquilo tudo e ter certeza de que o amava. Agora que se beijavam, rodeada por pinturas que representavam os sentimentos mais puros de Belle em forma de tinta e tela, ela sentia que poderia explodir se não proferisse as palavras que a muito estavam entaladas em sua garganta.
- Donghyun, eu te amo. - Sem reticências, pois não haviam dúvidas no que dizia. Havia medo de que o sentimento não fosse recíproco, mas ela não dizia aquilo esperando uma resposta positiva em troca. Dizia pois era a sua verdade. - Eu precisava dizer e.. Tudo bem se você não sentir o mesmo. Só não fuja, ok? Fique comigo. - Sabia muito bem que os dois não eram os melhores em falar sobre sentimentos, então realmente temeu por alguns segundos que ele não lidasse bem com sua confissão. Continuava com o rosto a centímetros do dele, somente o suficiente para ver seus olhos.