“Me diga, como Ă© viver com um pai em casa? Como Ă© acordar com sua voz bebendo cafĂ©, ouvir seu bom-dia atrasado ao serviço? Como Ă© ter um pai entrando no quarto secretamente, para ver se finalmente dormi? Um pai que confere a extensĂŁo das cobertas e se as janelas estĂŁo fechadas? Um pai que coloca remĂ©dio de mosquito e esfrega a manga morna do pijama em minha testa? Como Ă© ter um pai que me acompanha na consulta ao mĂ©dico? Um pai que assina o boletim? Como Ă© ter um pai perseguindo baratas pela tranqĂĽilidade domĂ©stica? Como Ă© brincar com um pai: aprender a dobradura de papel de chapĂ©u e barcos? Como Ă© ter um pai para perguntar que horas ele voltou do trabalho? Como Ă© empurrar um pai pelos barulhos estranhos no pátio? Como Ă© ter um pai angustiado com a demora materna, e que me dá banho, me oferece janta e esconde sua preocupação? Como Ă© ter um pai para segurar as lâmpadas enquanto ele sobe na escada? Como Ă© ter um pai para se escorar enquanto ensaio a primeira sequĂŞncia de passos? Como Ă© andar de bicicleta com um pai? Observar atrás se ele me segue? Como Ă© escutar o ronco terrĂvel do pai e se sentir protegido? Como Ă© ter um pai para reclamar docilmente da mĂŁe, dizer que ela nĂŁo me entende? Como Ă© ter um pai que nĂŁo me entende? Como Ă© ter um pai para frequentar a casa dos avĂłs no final de semana? Como Ă© ter um pai para xingar e logo apĂłs reaver a gentileza do abraço? Um pai que estará no seu escritĂłrio, num lugar certo, a facilitar minha desculpa? Como Ă© ter um pai para responder com confiança aos seus conhecidos como está meu pai? Um pai para me levar aos jogos de futebol e ocupar o trajeto de volta comentando o resultado? Como Ă© ter um pai para receber presentes de aniversário, e me ajudar a retirar o papel bonito sem estragar? Como Ă© ter um pai para sanar as dĂşvidas das aulas, as operações difĂceis, as curiosidades sobre planetas, estrelas e bichos? Como Ă© ter um pai mais rápido do que o dicionário e que conta o que significa tal palavra? Como Ă© ter um pai com passado? Como Ă© ter um pai chateado, endividado, alinhando contas do que nĂŁo podemos mais gastar? Como Ă© ter um pai com emprego novo, que nĂŁo pára de falar das novidades no almoço? Como Ă© ter um pai para pedir o carro emprestado? Um pai para inventar uma mentira e dormir fora de casa? Como Ă© ter um pai aguardando na saĂda da escola? Como Ă© ter um pai preocupado, confessando que perdeu o sono quando na verdade o esperava na madrugada? Como Ă© ter um pai para me convencer que as dores passam, que amanhĂŁ estarei bom, que eu tive coragem? Como Ă© ter um pai a me orientar - de um modo patĂ©tico - sobre transar com segurança? Como Ă© ter um pai beijando a mĂŁe, sussurrando qualquer coisa que a faça rir, e eu me escondendo para que nĂŁo me vejam? Como Ă© ter um pai para sair ao cinema, e escorrer pipocas pelas suas mĂŁos? Como Ă© ter um pai para sentir saudade devagarinho, de um dia para outro ou por algumas horas? Como Ă© ter um pai preocupado em fotografar a famĂlia nas fĂ©rias? Como Ă© ter um pai festejando uma promoção com jantar no restaurante predileto e sĂł entender sua alegria? Como Ă© ter um pai histĂ©rico, procurando seus Ăłculos, seus livros e cartões extraviados? Como Ă© ter um pai alegando que estava nervoso depois de uma grosseria e compreender que Ă© o máximo que ele se aproximará de um perdĂŁo? Como Ă© suportar um pai cantando desafinado suas mĂşsicas antigas? Como Ă© ter um pai a me socorrer e convencer a mĂŁe a gostar de minha namorada? Como Ă© sentar no sofá com um pai e assistir um filme reprisado e comentar: “esse eu já vi”: e continuar assistindo a amizade de sentar ao lado dele? Como Ă© ter um pai para ser parecido com ele? Como Ă© ter um pai vibrando com minha aprovação no vestibular, pregando faixas na frente da residĂŞncia? Como Ă© ter um pai para procurá-lo nas centenas de poltronas da formatura? Como Ă© ter um pai que explica que “as coisas eram diferentes no seu tempo”? Como Ă© ter um pai que nĂŁo descobriu que envelheceu porque empresto meus olhos da infância? Como Ă© ser espetado no rosto pela barba do pai? Faz coceira, arranha? Sempre quis saber…”