costumava ser uma sensação tĂŁo boa sonhar contigo. agora eu acordo suando, ofegante, a dor me atinge e Ă© como cair em um buraco negro sem fundo sem sentido sem cor sem nada. gosto quando Ă© o meu sonho recorrente em que sou pequenininha e entra um espinho no meu dedo e corro pros seus braços porque sĂł vocĂȘ consegue me salvar. meu herĂłi. sempre me salvando, me protegendo e mimando. Ă s vezes, nĂŁo sei mais distinguir se sĂŁo sonhos ou lembranças. lembro de nĂŁo termos muito dinheiro e que o senhor sempre economizava nas compras, mas nunca me faltava uma pitchula e um danone. lembro do banquinho que o senhor me deu para catar feijĂŁo com voinha. lembro que, por anos, mainha tentou tirar minha chupeta e toda vez eu sentia chorava, o senhor, que nunca aguentava me ver triste, comprava outra e me dava escondido por um tempo. era nosso segredo. ainda guardo a Ășltima. nossos domingos eram sempre com frango assado e feijoada, o senhor trazia o frango inteiro porque uma coxa era minha e a outra era sua, mesmo que fosse sobrar.
a dor da sua falta nunca vai ser preenchida. nunca vai embora. o senhor sempre estĂĄ por aqui. tenho medo de esquecer seu rosto, sua voz, seu cheiro e abraço. do seu cabelo branco tĂŁo âalvinhoâ. tenho tanto medo que sempre carrego uma foto sua. sinto falta do senhor usando todo o meu perfume e sabonete. pegando todas as minhas moedas perdidas e juntando pra me dar depois. brigando porque eu saia demais. ah, se o senhor visse agora. talvez pedisse pra eu sair mais. porque agora eu gosto de ficar em casa. nĂŁo tenho mais nem vontade de sair. e Ă s vezes, saio sĂł pra ver se esse sentimento muda. mas qualquer tempo livre que tenho, sĂł quero ficar na sua rede deitada lendo meus livros. eu ouço sua voz. Ă s vezes, sinto o seu cheiro. sonho com o senhor sempre deitado em sua rede ou conversando com voinha. e em todo sonho eu peço a Deus, imploro, na verdade, jĂĄ chorando, para que seja verdade. para que o senhor esteja aqui. para que nĂŁo seja sĂł mais um sonho. para que eu acorde e quando sair correndo pro seu quarto, que o senhor esteja dormindo e acorde num susto brigando comigo como acontecia. no sonho eu me desespero, sempre choro, sempre me sinto ser puxada para um buraco negro sem fundo sem fim sem nada. e sempre tento te alcançar, estendo a mĂŁo como o senhor me estendia sempre a sua. e o senhor nunca vem. eu caio. e nĂŁo volto. e acordo. porque o senhor nĂŁo estĂĄ mais aqui. e jĂĄ se foi hĂĄ dois anos. e eu nĂŁo me acostumei. nem nunca vou me acostumar. acho que ninguĂ©m ao meu lado nunca vai entender a dor de perder um porto tĂŁo seguro. nĂŁo tenho mais Ăąncora. nada que me finque por aqui. nada que vale Ă pena me manter. perdi meu maior amor nessa vida. como vou tentar encontrar outro tĂŁo perfeito e tĂŁo grande? o senhor foi meu exemplo em tudo, e acima de tudo, foi meu exemplo sobre amor. o jeito que o senhor sempre me tratou e como sempre tratou todos ao seu redor. como sempre cuidou da famĂlia. como sempre cuidou de voinha. como vocĂȘs se amaram atĂ© o fim, literalmente. assisti de perto e sofri junto tudo o que o senhor sofreu ao perder ela. e como foi lindo e perfeito acompanhar toda a vida de vocĂȘs, como foi incrĂvel ter vinte e cinco anos ao seu lado. o senhor me mostrou como devo ser tratada por outro alguĂ©m. eu tive um pai de criação tĂŁo perfeito que agora, nada parece chegar aos seus pĂ©s. nada que recebi de outro alguĂ©m foi tĂŁo incrĂvel quanto o que recebi do senhor. e agora, como posso aceitar menos? se minhas expectativas foram elevadas ao extremo? se o meu maior exemplo de amor e carinho jĂĄ se foi? as minhas maiores qualidades vieram de vocĂȘ. o senhor me ensinou sobre lealdade, carĂĄter, empatia, fidelidade, cuidado. a minha personalidade foi moldada na sua.
eu tive tudo. nĂŁo me sobrou nada. nĂŁo tenho esperança. parte da minha fĂ© foi levada junto. e ficou aqui tanto amor que nĂŁo sei em que devo direcionar. o que fazer com isso? ninguĂ©m parece tĂŁo digno de receber um pouco. quem dirĂĄ tudo. e acho que ninguĂ©m nunca vai ser. me parece quase impossĂvel encontrar alguĂ©m como vocĂȘ. fiquei em um abismo. sinto como se ninguĂ©m mais fosse me ajudar. era vocĂȘ quem costumava me puxar. e estou caindo e caindo e caindo o tempo todo. nĂŁo chego no fim e nem volto pro começo. onde vou achar um meio termo? se meus momentos de felicidade sĂŁo dormir em meio a queda porque lĂĄ, sempre encontro vocĂȘ. dormindo na rede ou tomando cafĂ© quente, forte e puro. falando para eu me acalmar que ainda tem muito para se andar. mas como vou andar? se nĂŁo tenho mais chĂŁo para pisar. sĂł sobrou o vazio. me sinto o tempo todo como se estivesse em uma queda livre sem fim. fico encarando o abismo e me sentindo sozinha. eu ainda rezo pedindo por alguma coisa que nĂŁo sei o que, mas penso que Deus vai saber. ele precisa saber. porque nĂŁo tenho outra coisa para me agarrar.