Depois de tantos anos, caminhando apressada pela rua principal, esbarrei com um rapaz que me pareceu muito familiar. Sabe quando um perfume te trás todas as lembranças de um saudoso passado? Pois é, não me contive, e ao olhar para ele, vi em seus olhos a amizade mais sincera que eu já havia tido. O rapaz agora era um homem feito, nunca o imaginei de barba e com um ar tão sério. Ele era sempre tão brincalhão e idiota, com uma carinha de bebê... Agora ele estava diferente, notava-se pelo ar, mas o sorriso era o mesmo, notei no exato segundo em que o mesmo se espelhou em meus olhos.
— Daniel? — perguntei meio indecisa ainda, apesar do coração já ter certeza.
— Clarice! - ele não teve dúvidas, me deu um abraço apertado, tentando compensar os 7 anos que ficamos sem nos ver, e nos falando pouco, apenas pelo celular.
— Quem diria, você por aqui. — Comentei, ainda refugiada nos braços dele.
— Nem sabia que estávamos na mesma cidade. — Ele brincou. Na verdade, nunca estivemos realmente distantes. Paramos de nos ver assim que ele se casou, havíamos tido um pequeno caso de amizade com benefícios na adolescência e parecia que quanto mais a gente se via, mais inseparáveis ficávamos, e isso, certamente, desconcertava todo o futuro dele, pelo menos, era o que ele achava: que a vida certinha dele não poderia ser comigo, porque sempre fui totalmente fora dos padrões, eu sempre o deixei desnorteado demais para que pudesse 'me domar'. Mas a amizade... Ah, a amizade, era única, nada podia substituir ou apagar. Nem uma esposa perfeita ou o trabalho perfeito. Ele nunca iria se esquecer de mim, nem se quisesse. Isso que a gente tinha nem o tempo pode destruir por completo. Ele sempre vai sorrir involuntariamente quando ouvir alguém pronunciar o meu nome. Uma ponta de nervosismo e saudades me incendeia desde a ponta do pé, até os fios de cabelo.
— Como é que tá a vida? — Confesso que queria perguntar o nome da esposa, se tinham filhos, onde moravam, se ele era feliz, se brigavam repentinamente... Mas nós crescemos agora. Essa de perguntar algo "cabuloso" e depois que a pessoa responder, dizer que tudo é brincadeira não rola mais. Agora o que dizemos é realmente levado a sério, pelo menos eu acho que funciona assim. Esse lance de ser adulto, ter responsabilidades. Eu queria tanto voltar à minha adolescência, quando ainda podia errar, pedir desculpas e depois tudo ficava bem.
— Estou na cidade pra pensar na vida, sabe como é. Briguei com a minha mulher e pensei que vir para a cidade onde nasci me faria refrescar a cabeça. — Olho automaticamente para a sua mão, procurando algum sinal de aliança. Ela estava lá, saliente, brilhando e estampando no meu rosto que o que era antes, jamais será outra vez.
Eu me senti um obstáculo. Como se estivesse ali apenas para causar problemas e impedir que você toque a sua vida pra frente. E aqui estou eu, uma lembrança do passado, te puxando de volta pra perto de mim. Te fazendo repensar seus motivos e vontades. Sabe o que você podia fazer? Podia andar logo e me dizer que adorou me ver, mas precisa voltar para a sua família. Família, ouviu Clarice? Ele agora tinha uma vida feita e o que menos precisava era de uma "menininha" pra relembrar os velhos tempos. Eu não queria ouvir.
— Sim... Eu precisava te ver também, aliás. Tava morrendo de saudades, sabia? Eu ainda imaginava que você sera a mesma pessoa de sete anos atrás, com as mesmas manias e o mesmo modo de pensar. Como está fazendo agora. — Ele me olha e solta um sorriso maroto nos lábios. — Você ainda fica vermelha quando eu falo de ti, como ainda joga a franja na frente do rosto, para impedir que eu olhasse nos seus olhos e descobrisse sobre o que está pensando. — Corro para tirar a franja do rosto e me recomponho de um devaneio.
— E você continua sendo o mesmo espertinho que sempre foi. — Solto uma risada fraca. — Eu não mudei muito, tens razão. Eu ainda fico ouvindo música alta no quarto, enquanto me imagino em um mundo diferente, onde tudo é perfeito pra mim. Ainda sou aquela menininha que sonha alto demais.
— Aquela menininha que eu amava tanto, e ainda amo.
— Só minha. — Te abraço, sabendo que ficarei mais tempo sem te ver, sem sentir o seu perfume revelante. Sei que ficaremos muito tempo sem olhar nos olhos e pensar nisso me faz querer nunca mais te soltar. Mas eu sei que devo. Devo soltar-te, para que possa ser feliz longe de mim. Meu velho amigo, meu único melhor amigo, meu porto seguro. O porto seguro que sempre quando chega, trás consigo um adeus. — Hellen e Maria Clara (s-ufocados)