alto, quem vem lá? oh, é méline roussel, a selecionada da mistralois de vinte e três anos, como é bom recebê-la! não poderia normalmente comentar nada, mas saiba que você é uma das minhas favoritas, já que é tão envolvente e confiante. só espero que não seja tão ambiciosa e competitiva quanto as revistas falam. por favor, por aqui, estão todos lhe esperando!
Nascida sobrinha do Conde de Mistralois, Méline viria a ter uma vida que muitos invejavam. Talvez por ser sua única figura minimamente parecida com uma filha, já que Marcel não possuía seus próprios, foi mimada pelo homem desde seu berço. Recebia apenas os melhores presentes possíveis, vestia os últimos vestidos para a moda infantil e celebrava seu aniversário com a maior — e mais seleta — festa de toda província. Ainda pequena, conseguia fazer com que funcionários que não gostava fossem demitidos e tinha em sua mão tudo o que quisesse. Ou quase tudo.
Seria satisfatório dizer que o que sobrava de dinheiro, faltava em amor, o tipo de ladainha que pessoas menos afortunadas contavam sobre aqueles que invejavam para se sentirem melhores um pouco, mas não era o caso com Méline. Muito amada por seus pais, jamais pensou que os perderia de uma forma tão trágica e tão cedo. Por volta de seus dez anos, estava acompanhando seu tio em um de seus bailes por pura intromissão quando a notícia chegou por meio de um mensageiro: Ladrões haviam tentado roubar a casa da família e feito o casal de vítima durante o assalto. Levou alguns meses para que digerisse sua ausência e parasse de saltar a qualquer mínimo som estranho no grande casarão, mas sua vida seguiu praticamente intacta depois disso.
Sua presença ao lado de seu tio Marcel aumentou depois disso, como era de se esperar já que o homem assumiu sua guarda. Méline se tornou um rosto conhecido por entre a corte francesa, principalmente devido à toda sua graça e simpatia. Os funcionários que a atendiam relatavam uma outra história, é claro, já que era conhecida entre eles por pirraçar quando não obtinha o que desejava. Era inaceitável que vestisse um vestido amarrotado, mesmo que fosse praticamente invisível se não prestasse atenção o suficiente e sua comida tinha de estar devidamente balanceada, afinal, não lhe queriam doente, não era?
A inscrição na Seleção não veio como uma surpresa para ninguém ao seu redor, ainda mais para os olhos que já tinham lhe visto flertar com a princesa da França inúmeras vezes ou para os ouvidos que tinham lhe aturado cantar vantagem por terem, sim, ficado uma vez — ou era o que Méline dizia por aí. Confiante no próprio charme e insistência, tinha certeza que a coroa seria sua custasse o que custasse. Afinal, para vencer a Seleção, tudo é válido aos seus olhos, assim como na política. Os fins justificam os meios... Não era esse o ditado?





