Ninguém tá nem aí.
Faz tempo que ninguém realmente se importa.
Duvido que tenham se importado em algum momento.
Se importado de verdade, sabe?
Drama? Talvez. Mas baseado em certa materialidade, sem a menor duvida.
Meu descontrole, tristeza ou angústia sempre tiveram "soluções fáceis", afinal. Ao menos essa é a visão das pessoas pra quem eu fiz a merda de pedir ajuda.
"Tô triste". Seja mais prático.
"Não aguento mais". Seja mais homem.
"Não consigo lidar com isso". Aprende a ser adulto.
"Quero me matar". Para de frescura.
Fácil. Inflexível. Frio. Prático.
Além disso, tem a questão de que foi incutido em mim um senso nada saudável de responsabilidade. Talvez um machismo escroto enraizado, ou apenas uma noção deturpada que grudou na minha cabeça na base da porrada.
De um jeito ou de outro: Eu sou responsável.
Responsável por segurar a minha onda e me controlar quando me faltar qualquer âncora. Mas também responsável por segurar a onda alheia, entender o descontrole alheio e oferecer — de bom grado — o acolhimento que me foi negado a vida toda.
Sem reclamar. Sem chorar. Sem fazer careta. Sem demonstrar desconforto, esforço ou qualquer tipo de emoção. Valeu, pai.
Agora, com 30 anos na cara, eu me vejo soterrado de tanta incompletude que não sei dizer de verdade o motivo de eu não ter simplesmente me matado e acabado logo com isso.
Na real eu sei sim. Responsabilidade.
Algumas pessoas ficariam tristes. Algumas delas talvez ficassem bem tristes. Algumas, eu tendo a pensar, iriam se culpar. Pensar se podiam ter feito algo ou até sofrer por não ter apenas me dado a porra de um abraço ao invés de me olhar de longe e mandar eu "virar homem". Essa última, no entanto, é mais wishful thinking do que qualquer outra coisa.
Fui pintado a vida toda como um fracassado e agora que parece que nada mais é o suficiente, descubro que abandonar o jogo seria uma demonstração de fracasso ainda maior.
Acho que no fim isso é bem merda. Eu não me matei até agora pra evitar o julgamento alheio, mesmo que póstumo.
Que parada patética.
Eu nem sei a razão de estar escrevendo isso. Eu não escrevo mais. Desisti disso também. Entendi que não é pra mim.
Talvez eu esteja aqui por sentir isso como um "espaço seguro", já que ninguém nunca se importou o bastante pra ler essa merda. Aqui eu posso dizer que sinto vontade de sumir sem o medo de gente me olhando com aquela carinha de "olha um homem velho desses com esse papo de adolescente". Que piada do caralho.
Não acho que esse vá ser meu último texto. Mas também não acho que meu plano inicial de escrever uma longa e explicativa carta de suicídio faria algo além de causar vergonha alheia nos outros depois de eu finalmente me atirar no trilho do trem ou encher o rabo de remédio até não abrir mais o olho.
Não, a vontade de me matar não passou. O que passou foi a ilusão de que deixar os motivos explicados pra quem ficar ia ajudar em algo.
Fazer o que se é sexta-feira?