Dengue, zika e chikungunya: as doenças causadas pelo Aedes aegypti
Espalhadas por todo o Brasil, provocam não só uma onda de pânico, mas também de desinformação.
Matéria por João Alves
O Aedes aegypti é um velho conhecido dos brasileiros. Presente no país desde o período colonial, o mosquito ameaçou o Brasil com epidemias de febre amarela no início do século XX e, posteriormente, de dengue. Por volta de 1955, após intensas (e polêmicas) campanhas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o inseto chegou a ser considerado erradicado. No entanto, em um misto de falha das autoridades e rápida expansão da população urbana, focos do Aedes aegypti voltaram a surgir e o mosquito vem assombrando a população brasileira até os dias de hoje. Segundo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, o Brasil registrou 1.487.924 casos prováveis de dengue em 2016. Foi o segundo ano com maior número de casos da doença na história, atrás apenas de 2015, que teve 1.648.008 ocorrências.
A dengue é uma doença febril aguda causada por um vírus, sendo um dos principais problemas de saúde pública no mundo. Existem quatro tipos de dengue, de acordo com os quatro sorotipos: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. Quando uma pessoa tem dengue, tem uma imunidade relativa contra outro sorotipo. Em casos mais graves, pode evoluir para um quadro de dengue grave (conhecida anteriormente como hemorrágica), caracterizada por sangramento e queda de pressão arterial, características que podem causar a morte do paciente.
Além do alarmante número de casos de dengue, 2016 também foi o ano em que o país todo “ganhou” duas novas razões para temer o inseto: o zika vírus e a febre chikungunya. Também transmitidas pelo Aedes aegypti, as duas doenças registraram picos de casos no ano. O número de ocorrências da febre chikungunya, identificada no Brasil em 2014, saltou de 38.332 em 2015 para 263.598 em 2016. Já o zika vírus, que surgiu no país em 2015, teve 211.770 casos registrados.
Embora apresentem sinais clinicamente parecidos, como febre, dores de cabeça, dores nas articulações, enjoo e manchas vermelhas pelo corpo, há alguns sintomas marcantes que diferem as três enfermidades.
Zika vírus: gravidez e doenças associadas
As condições favoráveis encontradas no país realmente contribuíram para a rápida proliferação do novo vírus: a grande quantidade de mosquitos que lhe servem de vetor e uma grande população que nunca teve contato com a doença. Dessa forma, o zika vírus se espalhou rapidamente em nosso território e já foi identificado em outros 38 países, o que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a decretar situação de emergência internacional. O quadro de zika é muito menos agressivo que o da dengue, por exemplo. A evolução da doença costuma ser benigna e os sintomas geralmente desaparecem espontaneamente em um período de 3 até 7 dias.
No entanto, o vírus passou a representar um risco real para grávidas e recém-nascidos de todo o país com a associação do zika com casos de microcefalia. A relação foi confirmada pela primeira vez pelo Ministério da Saúde brasileiro em novembro de 2015, depois da constatação de um número muito elevado de casos em regiões que também tinham sido acometidas por casos de zika.
O Ministério da Saúde orienta que mulheres grávidas ou com possibilidade de engravidar tomem algumas medidas, tendo em vista a ocorrência de casos de microcefalia relacionados ao vírus da zika. Uma delas é a proteção contra picadas de insetos: evitar horários e lugares com presença de mosquitos, usar roupas que protejam a maior parte do corpo, usar repelentes e permanecer em locais com barreiras para entrada de insetos como telas de proteção ou mosquiteiros.
No início de 2016, a preocupação com a microcefalia levou a OMS a considerar o zika uma emergência de saúde global. Diante do que a OMS considera como um epidemia de zika vírus, a organização recomendou oficialmente que as mulheres residentes em áreas de transmissão da doença adiem a gravidez por tempo indeterminado. Apesar da controvérsia gerada pela declaração, muitas mulheres têm tentado evitar a gravidez por medo do vírus. Para o ginecologista bauruense Newriton Alcântara, é preciso considerar os riscos. “Se houver esse desejo, mas for algo que possa ser adiado, realmente esse não é o melhor momento. A gente não sabe direito como a doença provoca esses efeitos, a gente sabe que o mosquito existe no Brasil inteiro e existe a possibilidade do número de casos aumentar ainda mais”, argumenta.
Além da relação entre zika e microcefalia, a OMS comprovou, no início de 2017, as suspeitas de uma possível ligação entre o vírus e a Síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que ocorre quando o sistema imunológico do corpo ataca parte do próprio sistema nervoso por engano, levando à inflamação dos nervos, que provoca fraqueza muscular. Através da análise de 72 estudos publicados sobre o vírus zika, a organização, em parceria com a Universidade de Berna, na Suíça, concluiu que o zika vírus é uma das causas da síndrome.
Segundo o Ministério da Saúde, diferentemente do que ocorre com a zika, ainda não há provas de que o vírus da chikungunya seja transmitido da mãe para os bebês durante a gravidez. No entanto, a doença tem suas próprias peculiaridades. Em seus primeiros dez dias, os sintomas são muito semelhantes aos da dengue: febres, fortes dores e inchaço nas articulações dos pés e das mãos. Em alguns casos, ocorrem também manchas vermelhas no corpo.
Mas mesmo com o fim do período em que o vírus circula no sangue, a dor e o inchaço causados pela doença podem retornar ou permanecer durante cerca de três meses. Em cerca de 40% dos casos, eles tornam-se crônicos e podem permanecer por anos. Nos casos crônicos, os pacientes podem sofrer de insônia, dormência nos membros, cãimbras e dificuldades de caminhar. A doença pode causar inflamação nos nervos ou iniciar doenças reumatóides, como a artrite. Além disso, também pode desestabilizar doenças cardíacas, problemas renais e diabetes. Nos casos mais graves, pode causar a síndrome de Guillain-Barré e outros problemas neurológicos graves, do mesmo modo que a zika.
O desconhecimento sobre a doença é um dos principais fatores que ampliam o risco que a febre chikungunya oferece à população. Essa falta de informação impede que exista um protocolo nas unidades de saúde do Brasil que indique, por exemplo, as dosagens de medicamentos administradas aos pacientes, algo que pode levar a um alívio momentâneo dos sintomas e colocar a saúde do paciente em risco, uma vez que a doença pode evoluir para um quadro crônico.
No final de 2016, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), concedeu registro ao primeiro teste que permitirá diagnósticos simultâneos de zika, dengue e chikungunya. Batizado de Kit Nat, foi desenvolvidos por cientistas da Fiocruz e do Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBPM). Para o imunologista bauruense Marcelo Pesce, alternativas como essa são prioritárias. “A grande dificuldade hoje é que nós não temos um exame de sangue, que seja de fácil execução e rápido, que seria uma sorologia, em que a gente pesquisa anticorpos para saber quantas pessoas tiveram (as doenças), como é que isso está”, diz.
Vacina contra a dengue
Não existe tratamento específico para a dengue, o zika vírus e a febre chikungunya. Isso significa que só é possível aliviar os sintomas que elas provocam nos pacientes. Por isso, vacina contra a dengue, que foi liberada pela Anvisa no início de 2016, não é uma cura para doença, mas um meio de prevenir o contágio.
Atualmente, existe apenas uma vacina liberada no mercado brasileiro, a desenvolvida pela empresa francesa Sanofi Pasteur. Ela é feita com vírus atenuados e é tetravalente, ou seja, protege contra os quatro sorotipos de dengue existentes. Porém, o Instituto Butantan, desde 2008, vem desenvolvendo uma vacina própria. A principal diferença da alternativa brasileira está na quantidade de doses e no tempo de ação. A vacina francesa precisa de pelo menos três doses (uma a cada seis meses) para que seus resultados sejam efetivos, com cerca de 66% de eficácia. Já a que está sendo testada pelo Butantan tem aplicação única, garantindo pelo menos 90% de eficácia entre 15 a 20 dias.
As autoridades estão discutindo o custo e o benefício de incluir a vacina no calendário nacional de imunização e de fazermos campanhas de vacina em massa, se for o caso. Não é uma decisão fácil, pois a vacina francesa é cara: cerca de R$ 80,00 a dose. A versão criada pelo Butantan ainda está em fase de testes e precisas passar pelo processo exigido pela Anvisa.
Segundo Marcelo Pesce, a vacina ajuda no controle da disseminação do vírus da dengue. “A medida que nós tivermos uma população grande imunizada, mesmo que não seja 100%, você começa a reduzir a população exposta e que transmite o vírus através da picada do mosquito”, afirma o médico.












