A ponte entre a Cidade e o Campo
À frente do Conjunto Farroupilha e da Camerata Pampeana, Tasso Bangel prova que cultura popular e sofisticação estética não são incompatíveis
Renato Mendonça - Jornalista e crítico
Desde a sua eclosão, no final dos anos 1940, a partir da iniciativa de um punhado de estudantes em Porto Alegre, o Tradicionalismo gaúcho tem despertado paixões extremadas. De uma parte, há expressiva receptividade popular, que pode ser medida pela existência de quase 3 mil Centros de Tradição Gaúcha (CTGs) no Rio Grande do Sul, no Brasil e até no Exterior, na manutenção de um vigoroso mercado de shows e na existência, ainda que em número menor que nos anos 80, de dezenas de festivais musicais. De outro lado, questiona-se uma atitude esteticamente conservadora do Tradicionalismo, que seria marcado por um viés folclorista e inibiria avanços e experimentos estéticos.
Entre essas duas posições antagônicas e aparentemente inconciliáveis, ou melhor, acima delas, está TASSO BANGEL.
Aos 85 anos, o maestro Bangel tem defendido, seja como instrumentista, arranjador, compositor e cantor, seja na condição de cofundador do Conjunto Farroupilha e de criador da Camerata Pampeana, a posição de que preservar não exclui inovar, e que cultuar não impede que se ouse ou se busque soluções estéticas de excelência, mesmo e especialmente para manifestações populares. A eterna juventude artística de Bangel o levou inclusive a, em 1991, compor a ópera “Um Romance Gaúcho”, seguida de outras obras camerísticas e sinfônicas.
O surgimento de Tasso Bangel na cena musical se deu em alto estilo, como um dos fundadores daquele que seria o embaixador da cultura regional gaúcha no Brasil e no Exterior, especialmente nas décadas de 1950 e 1960. Criado em 1948, nos estúdios da então poderosa Rádio Farroupilha, por incentivo de Barbosa Lessa e Paixão Côrtes, o Conjunto Farroupilha, dada a sua composição mista e às múltiplas habilidades de seus integrantes, tornava possível exibir no palco a dança e a música do Rio Grande do Sul.
Sem perder suas raízes, o Conjunto Farroupilha se transferiu para o centro do país em 1956, ampliando seu sucesso para uma escala nacional, exemplificado em sucessos como “Gauchinha Bem Querer”, “Os Homens de Preto”, ”Negrinho do Pastoreio”, “Bolinha de Sabão” e “Papai Walt Disney”. O grupo foi pioneiro também ao levar sua arte para a nova mídia de então, mantendo durante seis anos um programa semanal no horário nobre das sextas-feiras à noite na prestigiada TV Record de São Paulo. O grupo merece o crédito de ter gravado pela primeira vez o clássico bossa-novista “Samba de uma Nota Só”.
O sucesso também cruzou as fronteiras a bordo da Varig, parceira do grupo. Dessa forma, o Conjunto Farroupilha visitou praticamente toda a América Latina, Estados Unidos, Canadá e grande parte da Europa. Em tempos de Guerra Fria, capitaneou em 1958 uma delegação brasileira em uma turnê à então União Soviética e à China. Outra façanha foi ter se mantido em cartaz durante um mês como atração do Radio City Hall, em Nova York.
A principal conquista, entretanto, foi ter o talento de não só reconhecer a beleza de temas populares muitas vezes ingênuos, mas fincar pé que chotes, rancheiras e valsas podiam receber arranjos vocais e orquestrações elaborados, quebrando barreiras entre música popular e sofisticada. E conseguiu isso no início da carreira, marcando posição junto às gravadoras da época. Durante o período de vigor criativo do grupo, durante as décadas de 50 e 60, a música gaúcha nunca foi tão regional nem tão internacional.
Depois de viver por mais de 50 anos em São Paulo, Tasso Bangel volta em setembro de 2009 ao Rio Grande do Sul e imediatamente retoma sua cruzada artística. Em 2012, cria a Camerata Pampeana, um grupo instrumental que combina violinos, viola e violoncelo ao acordeão, violão e baixo. O reconhecimento veio com o lançamento do CD “Cidade & Campo”, vencedor do Prêmio Açorianos de Música 2013/2014 nas categorias Melhor Compositor, Melhor Arranjador e Melhor Grupo Instrumental.
A vocação e o talento de Tasso Bangel para trafegar em várias correntes musicais não diminuíram com o tempo. Em dezembro de 2014, a Camerata Pampeana dividiu o palco da Reitoria da UFRGS com o violonista Yamandú Costa, durante a etapa do projeto Unimúsica em homenagem a Barbosa Lessa. Em março de 2016, Bangel foi tema de concerto oficial da Orquestra de Câmara Theatro São Pedro, com regência de Antônio Carlos Borges-Cunha.
O DVD “Alma Farroupilha” surge como um passo adiante nessa caminhada. Através do registro em som e imagem do repertório da Camerata Pampeana, além de traçar uma breve linha do tempo da trajetória de Bangel, pontuada por sucessos do Conjunto Farroupilha como “Gauchinha Bem Querer”, “Sal Grosso” e “Os Homens de Preto”, reforça-se a ponte entre a cidade e o campo e retoma-se o caminho que preserva e renova a tradição. Pode não ser o único – torce-se para que não seja –, mas certamente é uma chama a orientar quem se aventura na desafiadora questão da Tradição gaúcha.
E a imagem de uma chama de alguma forma reverencia Barbosa Lessa, que foi quem estimulou e batizou o Conjunto Farroupilha, e que escreveu no clássico regional “Negrinho do Pastoreio”:
“Acendo esta vela pra ti
E peço que me devolvas
A querência que eu perdi
Negrinho do pastoreio
Traz a mim o meu rincão
A velinha está queimando
Aquecendo a tradição”











