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@rafaelacaffaro
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compra-se filtros, seda e tabaco
primeiro se acaba a seda
compra-se seda, acabam os filtros compra-se filtros, acaba o tabaco compra-se tabaco
eventualmente se perde um isqueiro no fundo da sacola de pano
ressabiada, compra-se um isqueiro, acaba-se a seda, faz-se um amigo.
Quando meu histórico de músicas não for mais uma mensagem secreta de que continuo acordada às quatro da manhã de uma quinta-feira útil;
quando findar o pensamento - que me ocorre nos momentos bons e felizes - de que você estaria orgulhosa de mim se pudesse me ver agora, vivendo;
quando houver momentos bons e felizes e eu não pensar que a vida até que pode ser boa sem você;
quando a tristeza vier e e eu não me perguntar se só há tristeza em mim pelas razões mesquinhas;
quando a mágoa deixar de surgir como um trauma de guerra enquanto trabalho sem muita atenção;
quando o dia for bonito e pouco me importar que você saiba que irei hoje às nove e meia àquele lugar em que fomos felizes um dia;
quando eu beijar;
quando não for uma traição viver de novo as mesmas coisas felizes;
quando eu esquecer que é seu aniversário;
quando eu não sentir mais vergonha de estar infeliz e não cogitar a sua felicidade sem mim;
quando eu quebrar uma perna ou um braço ou me perder no centro e dormir no meio da rua sem te imaginar preocupada;
quando eu viajar sem volta, na surdina, e jogar fora seus presentes sem te perguntar se quer ficar com alguma coisa;
quando a vida não for mais um acúmulo de histórias da vida depois de você,
aí eu terei partido.
Minha mente estará finalmente sozinha, separada da sua existência.
Somente eu e meu corpo
no mundo.
03 sem você (recontagem)
07 de janeiro de 2023
estou voltando para são paulo, como sempre soube que voltaria, mas dessa vez ouvindo mitski. você está com seus amigos em porto murtinho. que bom que você tem eles, V., (eu só fico triste de você ter sempre os escolhido no meu lugar, mas não dá para vencer sempre, às vezes nunca). nos vimos na noite do dia 27, passamos o dia 01 juntas, a manhã do 02, e nos vimos no 04 depois do almoço, quando te entreguei os livros. não me arrependo de nada, estou feliz que você não me odeia e agora eu finalmente posso sofrer exclusivamente de saudade, não mais de medo do seu desamor.
no dia 01 você estava sofrendo por conta seu amigo e da rebordose. ainda assim eu fiquei feliz em te ajudar a não ficar tão mal, porque quando eu estou mal geralmente estou sozinha e quando estou acompanhada automaticamente esqueço que estou em profundo sofrimento. tenho vergonha de sofrer desde sempre, ainda mais porque não estávamos sofrendo pelo mesmo motivo. você estava de luto e eu só estava com saudade, mas foi um dia feliz. o lula é presidente pela terceira vez e eu dormi contigo pela segunda, tudo este ano ainda. foi bom sim.
no dia 04 queria ter me despedido melhor, mas como eu já disse, eu quero muito coisa. por isso sou tão magoada, porque eu quero muito mais do que matar a saudade, quero uma vida inteira ao seu lado. como não vai rolar, fico com esse bico enorme - mas, por favor, seja mais feliz do que eu.
este ano nem terei tempo de ser feliz, eu nunca terei tempo. reservei um pouco do meu último dia em campo grande para a marina, procuramos cafés onde conversar e eu quase fui no Café Beltrão, que se tornou meu café preferido desde que fomos lá dia 09 de setembro de 2021. fiquei com medo de sofrer com essa lembrança e sugeri outro perto da minha casa, que nunca fui. Cheirin Bão, na afonso pena - porém, assim que pedimos o café, percebi que se trata de uma franquia e que já havia ido em Niterói contigo, da última vez que fui te visitei. não deu para fugir, mas não chorei na frente na marina, não consegui.
foi boa a conversa, apesar de que concluí que nós nunca mais vamos nos reencontrar, você e eu, V. digo, nunca estaremos juntas, não teremos um futuro juntas... porque você já escolheu seu futuro. você escolheu seus amigos, escolheu não me avisar antes de partir, escolheu me deixar partir de uber dia 04, escolheu esconder da própria vista os presentes que te dei com tanto carinho no entulhado de passados dentro do seu guarda roupa em campo grande, enquanto ainda carrego uma foto nossa na carteira. não é há futuro para nós.
19 sem você
17 de dezembro de 2022
todos temos medo de ter aquilo que merecemos. V., tenho muito medo de te ver de novo, de saber o que você leva consigo sobre mim. é mesquinho e muito humano se preocupar com esse tipo de coisa, pouco me importa se você ainda me ama ou não. eu só queria muito muito que você não me odiasse, que não me dissesse que te dei o pior amor do mundo. no fundo no fundo eu sei que dei, e torci para que você nunca percebesse. V., eu me sinto muito culpada, e por isso não quero te ver. quando você me disse coisas duras eu não reagi, eu mereço cada palavra, e ainda assim estou desesperada pelo seu carinho. eu nunca vou tê-lo, mas não quero enfrentar seu desprezo.
alguns dias atrás te comprei um livro que eu sempre quis, pensei em te fazer um dedicatória e dar de natal, te surpreender, sei lá. não sei bem porque fiz isso, só passei na livraria e tive essa vontade de que você recebesse um presente meu e gostasse. quando contei para o marcos ele não me julgou, mas outro dia ele comentou, brincando, "toma, um livro, agora você gosta de mim? por favor goste de mim…".
acho melhor não te dar esse livro, V., acho melhor nem nos vermos.
minha previsão astrológica me disse para ser madura, que se eu não fosse madura, jamais me livraria dessa condição em que me encontro. mas eu nunca sei qual é a decisão mais madura. é sempre a mais difícil? a decisão certa me parece ser aquela que não se toma, que fica maturando na cabeça até que seja a hora certa. quero muito te ligar agora mas não parece maduro. quero muito nunca mais falar com você, e parece menos maduro ainda. o negócio é não fazer nada, né?
é isso que gente madura faz. nada.

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02 sem você
07 de dezembro 2022
estou pensando muito na sua raiva. livia sequer me conhece mas me disse que não protegi meus sentimentos, que demorei. essa frase mexeu comigo, agora de noite.
por que eu protegeria meus sentimentos de você? por mais de um ano fomos essenciais uma para a outra, o mais próximo e íntimo que se pode chegar em quilômetros de distância. você é meu amor, minha melhor amiga, minha pessoa nesse mundo. por que eu me protegeria do que você tem a me dizer?
chorei muito no chuveiro hoje cedo, no ônibus chorei cantarolando Martin'alia na pausa de um podcast e outro. choveu muito muito de manhã e de tarde fez sol. fiquei olhando suas músicas no last, para ter a sensação de que há algo em sua vida que ainda acompanho. às vezes acho que vc vai deixar escapulir uma mensagem, às vezes tenho certeza que você jamais me pediria para ficar. aí lembro da raiva.
eu queria te gravar falando, para que você ouvisse na hora da calma. isso não é coisa de quem ama… sim, infelizmente preciso proteger meus sentimentos. estou machucada e com medo, infelizmente.
tento me anestesiar com um mosaico mental de pequenos momentos que guardei na memória e essa é minha fórmula para a saudade. você atrapalhou a minha saudade com a sua raiva, e agora tenho medo de sonhar com amor.
V., eu queria me sentir segura para continuar sonhando com a gente.
01 sem você
06 de dezembro de 2022
acordei vazia, enrolei na cama sem poder, olhei o celular muitas muitas vezes e não vi sua foto de perfil.
hoje levei o livro da adélia para passear comigo em higienópolis, choveu muito muito… lembrei da vez que você me levou de guarda-chuva até o ponto de ônibus e depois foi comprar pão, aqueles pães pequenininhos de mercado. obrigada.
na ida e na volta da rua dr. clementino eu lembro de você caminhando comigo, fumando, falando qualquer coisa. lembro de te encontrar no caminho chegando de viagem, te beijar a boca o rosto o pescoço. em casa mesmo te vejo em vários microcantos, em microgestos que faço. um dia chorei olhando na direção da lavanderia porque lembrei que você colocou uma cadeira lá, para papear comigo enquanto fazia comida. choro quando enxugo a carne de soja. choro muito muito, é complicado.
deve ter algo de mim por aí também, mas logo você vai mudar de casa e eu não estarei mais nos microcantos do seu microapartamento. tudo bem, vai ser melhor morar em um lugar mais silencioso.
pensei muito na nossa última conversa, em como eu queria que tivesse sido diferente em tudo. principalmente porque eu deveria ter dito que te amo, mesmo dissuadida. é que às vezes você fica tão raivosa que eu me calo, por medo de piorar tudo. como pode ser tão dura com alguém que ama? nunca entendi, te ouço pensando "será que agora a raiva rompeu o limite do amor? ou será que há mais amor ainda? ou será que nunca houve amor? ou será que isso tudo é amor demais?". sei, sei que você é assim mesmo, eu não me chateio nem me ofendo, nem te amo menos. mas fiquei triste quando você disse que agora está sozinha como sempre esteve, que não faz tanta diferença assim. aí eu me senti pequenininha.
eu sinto muito, V., por te deixar sozinha. eu me esforcei, nem que tenha sido só na minha cabeça.
eu te amo, não pude dizer. das nossas últimas palavras, tenho pouquíssimas para me agarrar, então eu me agarro no: "o tempo vai nos engolir", você disse. talvez tenha sido sua microtentativa de me dissuadir de ir. te falei para ter paciência, paciência é coisa de quem não tem medo do tempo. às vezes é preciso ser amiga dos invictos.
passei o dia tentando encher minha cabeça de ternuras, beijando a parte de trás da mão todas as vezes que me deu vontade de chorar no trabalho. todas as vezes que lembrei das suas palavras duras me imaginei dizendo baixinho: eu te amo. eu queria ter te acalmado, para que a gente se despedisse com carinho. mas eu quero muita coisa e idealizo demais. as coisas são o que são e você tem raiva. eu só tenho medo.
tenho medo que você queira o livro da paloma pelo uber, ou que queira pessoalmente para me dizer coisas duras, ou que não diga nada, que nem me deixe te abraçar. tenho medo, V., que a mágoa já tenha me engolido antes do tempo. preciso ser paciente.
de tarde tentei te fazer ver (para ouvir) a música "sua estupidez" cantada pela gal, tenho que parar com essas babaquices. meu bem (uh uh uh uuh), meu bem, não dê ouvidos à maldade alheia, creia! sua estupidez não te deixa ver... que eu te amo.
(em andamento)
- Ando, assim, meio inconformada com os rumos que esta vida tem levado, esta vida que me parece cada dia mais medíocre...ao passo de que é dificílima, minha querida! É um fardo, essa é a verdade. Não há recompensa nenhuma nesse exercício de não deixar a peteca cair. E para quê? Essa peteca não vale nada.
- Mas fortalece os braços.
- Os braços? O que têm eles?
- Melhores braços para mais petecas. Você já vai pedir?
- Vou beber o mesmo que você. Eu não quero mais petecas, eu quero as mãos livres, o olhar o horizonte...
- Podemos abandonar a metáfora? - em seguida chama o garçom - dois copos, obrigada! Enfim, estávamos falando sobre a vida.
o sonho te leva para lugares onde és feliz eu sei mas é preciso estar atenta e então voltar e assim se proteger de todos os males que vêm nos dias bons os perigosos dias de esperança em que se abraça o travesseiro e se beija o travesseiro e se esfrega o nariz no travesseiro e se geme um pouco e se diz baixinho sozinha eu amo você e se envergonha pois é preciso estar atenta e ter a coragem ou a covardia de dormir de braços abertos
25.012.2021
Escrevo à mão da mesa da cozinha, antes da louça, sem pensar muito. Faz tempo que não faço isso, e agora mesmo me arrependo de um dia ter largado a letra cursiva, que me pouparia tempo. Escrevo enquanto penso o quanto isso me faz feliz, por me dar um sentido no mundo. Tenho reparado que grande parte de mim no mundo é pura esperança, e que confio demais nas pessoas por uma fé injustificada. Há algo de impulsivo nisso, algo ariano e juvenil, que me custa muito. Ainda assim, confio, corajosa nos inícios, esperançosa no acerto de primeira. E sinto que morreria se assim não fosse, se receosa eu não conseguisse puxar quem quer que fosse para caminhar ao meu lado. Porque odeio ter medo, e talvez por isso mesmo eu tenha tanto, depois dos primeiros passos.
Fiquei pensando que talvez fosse esse energia que me desse um sentido no mundo, que seria por conta dela que consigo viver sem me questionar se vale a pena - mas já acho que não. Minha confiança é esperançosa, e por isso, jovem e desorientada. Uma energia que me joga no mundo e lá me deixa, feito barata tonta. O que me dá sentido de verdade é sentar na mesa da cozinha e escrever assim, sem pensar muito, sem a menor confiança na letra bastão.

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não pare de escrever!
Fiquei deslumbrado com os textosss :00
tentarei! obg <3
aproveitar o amor
os seus olhos, de baixo para cima, me olharam, iluminados pela rua. de baixo para cima me cobriram, como se dissessem “não se preocupe, eu sinto o que você sente”. como eles sabem? fico me perguntando se é porque te olhei da mesma maneira (olhei?), ou se é pela forma que toquei seu rosto, para ter certeza que você estava lá. acontece que tenho um jeito de olhar e sei bem quando faço, sei exatamente - treinei no espelho, tirei selfies me olhando assim -. é uma coisa meiga, mas que devora; um olhar de mulher apaixonada, faminta. é quase como um presente, uma forma de te fazer orgulhosa por eu estar gostando de você. mas os seus olhos, de baixo para cima, me olharam, e não faço ideia qual olhar fiz de volta, se é que fiz algum. onde estavam as minhas mãos? só toquei no seu rosto para ter certeza que eu estava lá. antes mesmo que pensasse em te devorar, já estava dentro de você. nada te prepara pra isso, eu não poderia estar menos pronta para me perder nessa coisa na qual me sinto tão generosa. penso que presente te daria. o que se dá para alguém na qual se está imersa? do que ela precisa? os seus olhos, de baixo para cima, me olharam e me arrancaram a pose, a minha terceira perna. do que ela precisa? é como perguntar aos astros no que posso ser útil, resistindo à arquibancada. a plateia é um ser sem corpo que apenas se deleita do espetáculo. por um instante, sou mera espectadora do seu olhar, das suas poses, do seu desejo: “não se preocupe, eu sinto o que você sente”, e aproveito, sem retoques, esse amor que me toma por todos os lados, que nada me pede além da entrega. os seus olhos, de baixo para cima, me renderam.
As coisas de verdade
Às vezes eu penso que gostaria que pessoas também me poupassem de algumas coisas - mas só quando estou cansada. Na verdade eu gosto mesmo das coisas como sempre foram, ao meu alcance.
Eu aguento, sabe? não me poupe de nada. Só de pensar em ter qualquer coisa menor do que a verdade, eu me sinto traída. Você sabe muito bem que eu aguento tudo! Tudo, não aceito menos do que isso.
Sei que minha força está um pouco em não reagir, em não sair do lugar quando a onda bate no peito, quando o sal da espuma entra nos olhos - e assim tenho tudo: passado e futuro, segredos e mentiras, confissões suicidas no meu colo. Tenho você, a história, e o apresso que ganhei apenas por ouvi-la.
Se ao menos a minha voz tremesse, ou se meu rosto franzisse... se eu ao menos não soubesse o que dizer, me poupariam. Se existisse em meu corpo algo disposto a me salvar, com quem você dividiria essa dor?
E hoje me pergunto se para ser amada é preciso aguentar tudo. Se para viver o mundo de forma completa é preciso estar nele como uma rocha rasgando o mar.
Não me protejo, munida de tudo o que, exposta, me revelam. É só cansaço essa vontade de não saber porque, no fundo, eu gosto de ter tudo, de saber como as coisas estão de verdade. Eu aguento.
eu te furtei um pouco para mim
você vem e fala comigo eu não sei se poderia se quisesse te mandar o clipe novo da sophia ou simplesmente perguntar como foi o dia
penso se tem escrito se entre os sonhos te sobra tempo para pensar em coisas bonitas ou naquelas que valem a pena como seu livro no meu armário, como meu nome no seu poema
com frequência está você pairando no ar eu te furtei um pouco para mim e digo palavras que não são minhas sem precisar
você vai e não sei se posso te citar enquanto ouço "ele ia gostar dessa" seu nome no meu poema interessa?
relatório das últimas semanas
22/07/2021 projeto-era-pra-escrever-um-texto-por-dia-mas-eu-desisti-e-agora-é-projeto-30-textos-2021
Senti falta de escrever na certeza que ninguém leria. Tem coisas que é melhor que ninguém saiba, é a rédea que seguramos, o segredo guardado para Deus. Essa semana pareceu mais longa, fez frio de repente. Conversei sobre a morte e a libertação da alma, sobre amor, sobre derrame cardíaco. Enquanto eu fazia o último trabalho do semestre, um cliente me mandou mensagem perguntando se deveria chamar a polícia caso o vizinho começasse a quebrar o muro. Eu disse que sim, apesar de saber que ele não fará isso, que só queria compartilhar o medo. Eu não tenho sentido muito medo - na verdade, já não consigo pensar na pior coisa que pode acontecer, ainda que a grama dos vizinhos tenha se mostrado cada vez menos verde. Talvez seja exatamente isso. Sinto que não há mais nada de bom para tirar de nós, velhos amantes. Aos novos amantes, sinto que tudo está diluído no tempo. Você olhou as luzes da cidade enquanto girava o volante e disse "essa é a minha casa, sabe? eu sou daqui" e esse retrato ficou guardado em mim, como um sensação que eu só posso observar de longe. Eu sou de onde? não quero me afligir com esse tipo de pergunta, assim como não quero pensar no que não fiz hoje. Só consigo dizer "eu vou fazer já já". Voltei a ter notícias suas, ganhei um texto seu, te amo. Tenho conversado demais com gente demais, e quando fico muito em silêncio penso que queria viver algo bonitinho - mas que, se não der, tudo bem.

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Trechos do livro "erger a voz: pensar como feminista, pensar como negra", da bell hooks.
Conversa online
05/07/2021 projeto-um-texto-por-dia vamos fingir que eu postei mesmo no dia 5
Eu sou boa de conversa online, sempre fui. Nasci e cresci neste mundo, ao ponto de lembrar de muitas conversas mas não saber se elas foram escritas ou faladas. As formas de comunicação se misturam, mas a fonte é a mesma. Talvez você tenha me dito isso por áudio, ou naquele dia que fomos ao parque, ou no comentário de uma foto de uma amiga sua...não sei, não lembro, mas essa informação de alguma forma tem a sua voz.
Quando fico muito tempo conversando por texto, vou esquecendo que a sua voz tem um som, e demoro a entender que esse som é você. Quando te encontro, tenho que me reacostumar com os gestos, com as expressões, com a altura, com o cheiro, com a respiração que sai da sua boca enquanto se move. Parece meio incrível que você seja tanta coisa além do que você tem a dizer.
Na internet você é o que você tem a dizer, e gostar das pessoas aqui é o mesmo que gostar do que elas fazem e mostram, que é só uma parte das várias coisas que compõem uma pessoa. É difícil, por exemplo, gostar de alguém pelo jeito que ela fala. Por mais que eu imagine o jeito enquanto leio a conversa no chat, acabo gostando, na verdade, do jeito que eu mesma a imaginei. No final, eu tenho apenas a informação, um resumão do que ela é.
A conversa online é quase como se a gente pudesse interagir só com a cabeça das pessoas e isso bastasse. Um dos efeitos disso, talvez, seja reduzir você mesmo àquilo que você tem a dizer. Eu nasci e cresci neste mundo em que tanto faz a forma: desde que a informação esteja ali, eu existo, nós existimos e estamos compartilhando o que temos. "Não ter o que conversar" é tudo o que você precisa para se afastar de todo mundo. Mas eu sou boa de conversa online, sempre fui.