Turvidão
Estou em casa, encarando meu armário.
Hoje meu armário é branco, ocupa toda a parede e está bem vazio. Tem espaço suficiente para todas minhas roupas em um único compartimento, o que faz com que todo o restante do móvel fique vazio. Esse armário tem um compartimento que gosto bastante, um ambiente na altura do chão e que sobe até minha cintura - o que não é muito alto visto que tenho meus 1,60 de altura - tem espaço suficiente para eu deitar ali com os joelhos encolhidos. Algum dia ainda vou almofadar esse compartimento e ele irá virá meu cantinho de ficar deitado em posição fetal, quando não quiser mais lidar com a vida real.
Eu nunca havia me atentado muito aos armários que tive antes, mas tenho uma lista surpreendentemente diversa de armários anteriores a esse:
Um armário embutido na parede que tinha só um terço do tamanho do atual (o que não fazia grande diferença, visto que nunca tive muitas coisas e elas sempre couberam no compartimento principal e no máximo em uma gaveta). Suas portas eram inconvenientemente projetadas pra fora e ocupavam muito espaço, então as arranquei para que sobrasse espaço para minha cama no quarto. Tenho boas memórias sobre esse armário, visto que foi quando morava com meu irmão.
Tive um armário que era feito de algumas caixas de papelão empilhadas, onde caixas fechadas com coisas pesadas eram usadas como base para dar altura, enquanto cada andar do armário era composto por uma caixa aberta vazia, virada de lado como os ambientes dos armários de verdade. Sinto conforto ao lembrar dessa época.
Houve um armário que era embutido em minha cama, com gavetas-degraus, quando eu era pequeno. Esse era sensacional. Era uma beliche solitária, onde a cama ficava em cima, com acesso pelos degraus que mencionei, enquanto embaixo havia o espaço para deixar meu computador. Lembro-me que havia uma falha de projeção no móvel dentro de um compartimento que havia ao lado de onde ficava minha cadeira, em que no canto superior dele havia uma fresta que levava para uma parte oca da cama. Eu costumava me enfiar lá e me espremer pela fresta pra me esconder dentro da cama, como se fosse um esconderijo secreto.
Outro armário que tive foi um armário de madeira clara, bege meio alaranjado, fixo na parede que herdei quando me mudei para o quarto de meu irmão mais velho, quando ele se mudou de casa. Era um armário grande, mas foi o único armário que foi preenchido completamente com coisas, já que era só um compartimento e o desleixado do meu irmão deixou roupas velhas q não queria mais usar por lá. Esse armário era conectado na estante, com vários livros de sociologia, política e filosofia que meu irmão costumava ler, juntamente com umas fotos antigas dele e algumas coisas que deixavam na estante por não ter mais onde deixar em casa. No dia em que fomos nos mudar, senti muito orgulho do meu irmão ao passar por todos os livros que ele leu, lembrando das conversas que já tive com ele, onde me ensinava casualmente sobre algum conceito sociológico e atribuia os pensamentos a autores com nomes difíceis. Sentirei falta de crescer em sua presença.
Tive também um armário de madeira maciça uma vez - marrom - era novamente grande demais para as coisas que carrego, então dessa vez eu usava apenas uma gaveta dele. O restante do espaço era dividido com as coisas de meu pai. Foi este armário que observou eu escrever a maior parte dos textos que existem aqui nessa página. Não sinto falta dessa época, mas reconheço que quem escreveu estes textos era muito mais introspectivo do que sou hoje.
Tive outros armários também, certamente. Não me lembrarei visualmente de todos, e talvez não apenas suas imagens fujam de minha mente daqui em diante. É importante aceitar que certas coisas irão desaparecer de nossa memória, e consequentemente serão esquecidas não só por nós, mas por tudo. Entretanto irei negar o esquecimento destes armários que mencionei por mais um tempinho, para que fiquem registrados, mesmo que apenas um rascunho, uma ideia, uma tentativa de remanescer para quem ler este texto.
Esse texto era para ser sobre uma caixinha de fotos que se encontra dentro de algum armário, e então se pergunta quais são as histórias que ela guarda, de modo em que a imaginação de como o mundo era naquelas fotos, naquele momento, consome o observador até que ele se dê conta de estar se perdendo em sua imaginação olhando para tempos que já passaram.
Quando abro minha caixinha, encontro as fotos. Olho para elas, as vejo mas não consigo me imergir nas histórias contadas. Sei que há algo ali, consigo ver as silhuetas, mas por alguma razão nesse momento eu não estou conseguindo discernir seus significados.
As fotos da minha caixinha estão turvas, então me restou apenas escrever sobre o armário onde as guardo.
08/04/2026 - M. Castro
















