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Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ

Kiana Khansmith
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Opal
Amaterasu, now is the time. We have never needed your power more.
"Me, and the taller you!"

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Ghibli-inspired Inktober by Anne Leblanc
YEAR OF THE DRAGON 🐉 Spirited Away ‣ 千と千尋の神隠し
Sombra Sobre o Peito
Acordou com um peso esmagador no peito. O ar parecia denso, difícil de puxar, como se algo invisível sugasse cada fôlego antes que pudesse alcançá-lo. Tentou mover os braços, as pernas, qualquer coisa — mas o corpo estava rígido, enraizado no colchão, incapaz de reagir.
A escuridão do quarto era profunda, mas não absoluta. Havia uma presença ali, uma forma recortada contra a sombra, e o instinto avisou antes que os olhos se ajustassem.
O peso sobre o peito não era imaginário.
Ela estava ali.
A figura tinha contornos humanos, mas havia algo de errado, algo ancestral e voraz. Asas membranosas se estendiam para os lados, cada movimento delas deslocando o ar de um jeito antinatural. O rosto era belo e cruel, os olhos semicerrados em um olhar de prazer silencioso. Chifres curvavam-se sobre a testa, e os cabelos longos caíam emoldurando a pele pálida e fria.
As mãos tocaram a pele com garras afiadas, pressionando com força. A dor não era comum — não era física, mas um puxão profundo, como se algo dentro estivesse sendo arrancado.
Quis gritar, mas a voz ficou presa na garganta.
Os dedos tentaram se mover, se fechar, alcançar qualquer coisa, mas os músculos não obedeciam.
A criatura se inclinou, os lábios se entreabrindo em um sorriso que não era de escárnio, nem de ameaça. Era o sorriso de algo antigo, de algo que já tinha feito aquilo mil vezes antes.
As imagens vieram em flashes — noites de insônia, presságios ignorados, a sensação constante de um vulto no canto da visão. Aquela presença sempre esteve ali. Sempre esperou.
O corpo estremeceu, os olhos se encheram de lágrimas, o ar faltou por completo.
E então, como se a própria noite o engolisse, tudo se apagou.
A luz da manhã entrou pelas frestas da cortina. O peso havia sumido, os pulmões trabalhavam novamente, e os músculos responderam ao comando. O quarto estava como antes, mas algo permanecia.
Sobre o peito, um leve ardor.
Ao lado da cama, um único fio de cabelo negro.

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Sombras que Sussurram Meu Nome
Por mais estranho que pareça, eu ainda existo. Não em carne, nem em osso. Mas no eco de uma lâmina, no tilintar invisível do tempo, no arrepio que percorre a espinha de quem caminha por vielas estreitas demais.
Fui espectro antes mesmo de ser fantasma. Uma sombra que se confundia com a neblina de Whitechapel, um sussurro que jamais teve rosto — até agora.
Séculos se passaram. A Londres que conheci se tornou ruína e reconstrução. O sangue que manchei nas calçadas secou, varrido por chuvas que vieram e se foram como as vidas que tomei. E ainda assim… agora sabem. Agora dizem saber quem eu fui.
Um nome, frio e seco, estampado em manchetes digitais. “Jack, descoberto.” Como se esse nome tivesse algum peso real. Como se pronunciar meu nome fosse suficiente para entender o que me habitava.
Vocês esperavam encontrar um monstro. Uma besta irracional, sedenta e bruta. Não. Eu era — sou — método. Silêncio. Eu era o reflexo das falhas da sociedade, da indiferença, da fome e do desprezo. O bisturi nas mãos de um tempo apodrecido.
Fui esquecido por tanto tempo. E no esquecimento, floresci como lenda. Um mito que respirava nos becos, nos contos, nas teorias. Eu me tornei eterno na ignorância. E agora, com minha identidade exposta, me tentam reduzir a um homem. Um nome. Um passado.
Que tolice.
A verdade é que, ao revelarem minha face, me mataram de novo. Mataram o espectro, mataram o mito.
E ainda assim… eu sorrio.
Porque mesmo nomeado, mesmo desnudado, jamais me entenderão. Sou mais do que meu nome. Sou o eco da escuridão humana. Sou o reflexo que se esconde por trás da civilidade. Sou aquilo que vocês sempre temerão — a certeza de que, mesmo sob a luz, sempre haverá sombras.
Eu sempre cuido de todo mundo, e quem cuida de mim?
Tem dias em que eu acordo com vontade de desaparecer. Não por drama, nem por chantagem emocional — mas por cansaço. Um cansaço que não é físico, nem dessas coisas que o sono resolve. É outro tipo de cansaço, mais fundo. Um que começa no peito e se espalha pelo corpo como uma febre lenta. Um cansaço de ser o porto de todo mundo enquanto eu mesmo estou naufragando em silêncio.
Porque eu sempre cuido de todo mundo. Sempre.
Sou quem ouve até o fim, quem pergunta se você dormiu bem, quem manda mensagem às duas da manhã só porque teve um pressentimento ruim. Sou quem compra o remédio, quem busca no trabalho, quem faz o almoço quando o outro não tem forças, quem diz “se precisar, tô aqui” — e tá mesmo. De verdade. De corpo inteiro. De alma aberta. Mesmo que esteja em pedaços por dentro.
Mas ultimamente tenho me perguntado… e quem cuida de mim?
Quem nota que meu sorriso anda torto? Quem percebe o nó na minha garganta quando eu digo que "tá tudo bem"? Quem pergunta se eu estou cansado, se eu preciso de colo, de silêncio, de alguém que fique só porque sim — não porque eu pedi?
A verdade é que quase ninguém pergunta. Porque quando você se acostuma a ser forte, as pessoas se esquecem que você também sente. Viram os olhos quando você desaba. Acham exagero. Dizem “você é tão forte”, como se isso fosse elogio — quando, na verdade, é só um disfarce pra dizer: “você não tem o direito de cair.”
Mas eu caio. E quando caio, ninguém vê. Ou pior: vê, mas finge que não é nada.
Eu guardo o choro pra depois, engulo a tristeza com um copo d’água, visto uma roupa bonita, e saio por aí cumprindo o papel do cuidador que todo mundo aprendeu a esperar de mim.
Só que tá doendo. Tá doendo de um jeito que não aparece em exame. É uma dor silenciosa, que se instala devagar e vai corroendo por dentro. E o pior é que a gente continua. Porque a vida não para pra quem sofre calado.
Ser forte virou maldição. Ser sensível virou fraqueza. Pedir ajuda virou pecado.
E enquanto eu me esforço pra manter todos de pé, vou ficando cada vez mais de joelhos por dentro. Tento gritar, mas minha voz sai fraca. Tento pedir socorro, mas já me acostumei a não ser ouvido.
E o que mais dói, o que mais me parte, é saber que muitos daqueles por quem eu dei tudo, nem sequer notariam minha ausência se eu sumisse de vez.
Talvez eu seja só mais um que ama demais. Que cuida demais. Que se doa até secar. Até ficar sem nada.
E tudo que eu queria agora era um abraço. Um gesto simples, sem pressa. Alguém que me olhasse nos olhos e dissesse: “Descansa. Hoje eu cuido de você.”
Mas ninguém vem.
Porque quem sempre cuida… segue cuidando. Mesmo exausto. Mesmo ferido. Mesmo sozinho.

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SABRINA CARPENTER ✩ ROLLING STONE JULY/AUGUST 2025
Sabrina Carpenter photographed by David LaChapelle