minha bisavó sempre disse pra minha avó que todos os homens não prestam.
minha avó sempre disse pra minha mãe que todos os homens traem.
minha mãe sempre me disse que todos os homens são iguais.
meu pai cerrava o maxilar, respirava pesado como se engolisse a maior das ofensas.
voltava com aquarelas de batom na camisa quando quisesse, esperando um prato de obediência e café pronto na mesa.
ele gritava, berrava até derramar fúria por todos os azulejos.
quando não o fazia, sumia de vista e nos enterrava em silêncio,
no outro ela não saiu da cama,
quando saiu, quem foi pra cama fui eu, ouvindo a voz de outros homens falando de “amor” do lado de fora.
depois ela voltou pra cama,
os homens foram embora, mas eu nunca consegui sair do quarto.
minhas amigas também não.
nem quando bateram na porta recitando “amor” em voz alta,
se esse não é o amor que eu vi nos filmes,
se esse não é o amor que eu li nos livros,
que humilha, que despedaça, que sangra.
que ergue a mão, que agarra pelo pulso, que sufoca de silêncio.
que tranca, que destrói, que mata.
que fez minha mãe trancar a própria voz na garganta, que colocou minhas amigas na coleira, que me jogou atrás de muros.
agora fujo quando o ouço,
agora me escondo quando o encontro,
e se nunca for diferente?
se amor for deixar pela metade;