Certo. Não era como se Briana tivesse uma real desconfiança de que seu marido estivesse traindo-a, não acreditava que ele tivesse coragem de fazer nada para machucá-la de maneira tão intensa ou que sequer capaz de deitar-se com qualquer outra mulher. Entretanto, era engraçado como o bichinho da desconfiança trabalhava, aproveitando-se de momento oportunos, como o que a italiana tinha vivido, para implementar caraminholas na cabeça de pessoas fragilizadas;; criando histórias que pareciam perfeitamente críveis em situações de solidão. ❛ —— Não. Eu não acredito que você seria tão desleal comigo dessa maneira. ❜ A Brunelleschi se preocupou em esclarecer primeiramente, procurando ter a decência de encarar com seriedade o olhar de seu companheiro conforme falava. Era importante deixar claro que não acreditava que ele fosse capaz de ser tão baixo consigo. ❛ —— Acontece que eu não sabia mais o que pensar! Eu fiquei confusa e por um minuto essa pareceu ser uma possibilidade. ❜ Tentou se justificar posteriormente, ainda que soubesse o quão ridículas suas palavras soavam aquela altura. Jamais deveria ter pedido para que Gustav tentasse arrancar aquilo de Xeno, mas, agora, não tinha mais o que fazer.
A espera pela reação do príncipe pareceu ser uma eternidade. As batidas descontroladas de seu coração poderiam facilmente ser utilizadas em uma gravação de enredo de escola de samba, seu peitoral sendo discretamente movimentado com maior velocidade para que pudesse respirar fundo enquanto suas mãos já transpirantes eram deslizadas pelo tecido fino de sua camisola. Não tinha imaginado que seria tão difícil ter aquela conversa com seu marido. Sentia como se estivesse chutando o último pilar de certeza de sua vida e o seu corpo parecia implorar para que acabasse com aquela dolorosa mutilação em seu coração. Podia até sentir perfeitamente a inquietação da criança em seu ventre, como se o bebê também estivesse sofrendo por toda a conversa, mas, ainda assim, procurou se manter o mais centrada possível e segurar as lágrimas. Não poderia desabar em choro. Era muito claro que ainda teriam muito o que falar um com o outro, por isso, precisava se manter firme por mais alguum tempo.
E existiam uma gama de falas que poderia associar para a resposta do ateniense, no entanto, não tinha suposto que aquela pergunta chegaria aos seus ouvidos. Onde ele queria chegar com aquilo? ❛ —— Do que você está falando? ❜ Briana vocalizou em voz alta o único pensamento que assolava a sua mente, uma expressão confusa ganhando espaço em seu rosto sem uma prévia autorização. Seu cenho se franziu e suas sobrancelhas se juntaram conforme sua cabeça era pendida em uma discreta movimentação lateral. Xenófanes não poderia estar mais errado em tudo aquilo que dizia! O casamento deles não tinha sido imposto. Haviam se escolhido há anos atrás e não existia um dia sequer que não se orgulhasse da sua escolha – esse não era o grande problema que os cercava. Seu marido era exatamente quem ela precisava: um homem digno que estava disposto a apoiá-la e mover céus e terras para que ela chegasse aonde quer que desejasse, um companheiro fiel que a amava e estava feliz com toda a família que formavam. O que mais poderia querer? ❛ —— E você é exatamente esse homem quando está aqui, Xeno. Quando te tenho ao meu lado, não existe nada que eu gostaria de mudar em você. É o melhor pai e marido que alguém poderia querer. ❜ A intenção do príncipe de tocá-la chamou a atenção para na sua mão e, automaticamente, o olhar atento da italiana captou os machucados recentes, a percepção fazendo com que ela própria esticasse a destra para segurá-la para que pudesse analisar melhor os ferimentos alheios com uma expressão horrorizada. Estava acostumava com os machucados corriqueiros dos treinamentos do ateniense, conhecia com perfeição o toque áspero de suas mãos – graças a sua rotina de treinamento – logo, poderia afirmar com perfeição que aquilo não fazia parte do usual. Aqueles machucados pareciam ter sido realizados de maneira mais agressiva.
Todavia, a princesa não teve tempo hábil para perguntar sobre aquilo ou sequer teve oportunidade de manipular alguma planta que fosse capaz de ajudá-la, pois fora agraciada com mais confissão forte de Xeno. Era exatamente aquilo que procurava quando começou aquela conversa, não é? E, de certa forma, escutar aqueles fortes desabafos ainda parecia melhor do que nada. Com cuidado, Briana abandonou o toque nas mãos do marido para que pudesse apoiar a sua mão direita sobre o peitoral do loiro. ❛ —— Pois saiba que é desesperador estar sendo obrigada a permanecer em um barco, há metros de distância, assistindo de mãos atadas enquanto você se afoga sozinho. ❜ A analogia deixou a sua garganta com uma tonalidade baixa, seus ombros sendo retraídos à medida um tapinha quase inexistente era deixado sobre os músculos do príncipe. ❛ —— Eu só preciso que você me deixe pular na água para te salvar, Xeno. Você sempre diz que eu sou a luz da sua vida… Me deixe ter a oportunidade de te ajudar a nadar para fora d’água enquanto ilumino o seu caminho. ❜ O pedido desesperado refletia todo o sentimento que percorria seu corpo. Precisava de uma brecha para ajudá-lo, precisava encontrar uma maneira de fazer aquilo voltar a dar certo, mas para isso precisaria de uma brecha para entrar em sua nuvem de preocupações. Precisava conhecer aqueles demônios que o assombravam para ser útil e, consequentemente, salvar seu casamento. ❛ —— Eu não quero ser poupada de nada! ❜ O esclarecimento aconteceu um pouco mais alto do que o restante das palavras, ambas as suas mãos sendo levadas até o rosto do loiro para que pudesse obrigá-lo a olhar para ela. ❛ —— Nem me arrependo de ter me casado com o homem que está na minha frente. Nós podemos fazer isso juntos… Eu só quero estar ao seu lado. Dá pra entender isso? Mas eu preciso que você me diga o que está acontecendo. ❜
Agora, já sem mais toda aquela cólera e confusão acumuladas em seu peito, necessitando serem descarregadas e assim o impulsionando naquela que deveria ser a primeira discussão séria do casal, Xeno só se sentia desgastado, aquele vazio dentro de si mais uma vez lhe consumindo de forma silenciosa. O peito se movimentava de maneira pesada, como se precisasse se esforçar por cada inspiração que tomava, e ele tinha apenas vontade de gritar!! Não com Briana — por Apollo, nunca Briana!! —, mas consigo mesmo, com Aegeus, com Athos, com seu pai, com o mundo. No entanto, nem mesmo para isso parecia ter forças!! Desse modo, se limitou a permanecer calado enquanto ouvia Briana explicar, o bolo em sua garganta parecendo aumentar. As suposições, a interferência de Gustav.. nada daquilo era o problema. Briana não tinha culpa de nada ali e ele se sentia pior por ter que fazê-la se explicar daquela maneira;; ela era perfeita de todas as maneiras, a melhor das mulheres, das esposas, das pessoas! Como poderia culpá-la por aquilo quando era perfeitamente normal que ela desconfiasse de um caso dada a sua ausência nos últimos.. meses?
Veja, não era como se Xenófanes não tivesse consciência que se isolava. Ele próprio notava aquilo e dizia para si mesmo que tinha que consertar aquilo, que deveria ser mais presente, mas... uma coisa é falar, saber o que fazer, mas na prática era só tão difícil, ainda mais quando tudo o que você quer fazer é desaparecer, achando que talvez tudo fosse mais fácil se você só não estivesse ali. E ainda que planos nunca tivessem sido um problema para o louro antes, que já se acostumara em seguir instruções e planejamentos, as feridas eram tão profundas que o reduziam a um mero espectador da própria vida, que conseguia apenas observar os dias passarem rápido ou lento demais, embolando-se diante de seus olhos, percebendo o passar deles porcamente e só por conta das notícias que chegavam sobre as mais novas tragédias que envolviam sua família. E estas apenas o afundavam ainda mais, pois a sensação em seu peito é que ele deveria estar lá para impedir tudo aquilo, e não abandonado eles por um desejo tão egoísta de ser feliz. Mesmo naquele momento, o tempo não parecia passar com clareza naquela pequena bolha deles. O ponteiro simplesmente não parecia se mexer enquanto mantinha as íris claras e atentas focadas na figura de Briana. Não eram poucas as vezes que o ateniense se pegava observando-a, silencioso, fosse enquanto ela dormia ao seu lado ( as vezes ele acabava deixando o sono de lado apenas para ouvi-la respirar, sentir o calor dela junto ao seu ), fosse quando estivesse tão adoravelmente concentrada em um de seus teoremas ou mesmo perdida no misterioso mundo de Briana ( ds ), fosse quando estava ocupada com Cassiopeia nos braços (aquela sim era a visão mais ). Brilhante como Atena e mais bela que todas as ninfas juntas;; o príncipe helênico já seria para sempre grato aos deuses só por permitirem que seus caminhos se cruzassem, no entanto, por alguma razão que ia além de sua compreensão, dentre todas as pessoas na face da Terra, ela o escolhera para amar. E agora que podia observar toda a apreensão e desgaste que vinha despertando na esposa, toda a fragilidade ali exposta diante de seus olhos, ainda que ela se mantivesse forte ( mais forte do que ele um dia seria capaz de ser ), o Karahalios sentia-se o mais indigno dos homens!!
Uma vez que começou a falar, Xeno não se atreveu a parar — não conseguiu parar —, nem mesmo quando a viu se horrorizar ao notar os ferimentos mais recentes. A última coisa que queria era preocupá-la naquele estado, todavia, foi como se abrisse a caixa de Pandora. Um a um, todos seus medos e inseguranças agora escapavam e ainda que sentisse certo alívio ao enfim pôr tudo aquilo para fora do peito, sentia também medo. Um medo que nem as doces palavras de reafirmação sobre ele próprio pareciam aplacar completamente, pois por mais que quisesse acreditar nelas, não conseguia evitar questionar se ela ainda o olharia da mesma forma quando soubesse as monstruosidades de Athos. Os dois eram frutos da mesma árvore defeituosa, afinal, e assustava a próprio Xeno pensar que ele poderia fazer o mesmo caso possuísse a motivação — sabia que seria capaz de morrer pela esposa e filha, mas onde traçaria o limite por elas em vida? Poderia chegar ao ponto de feri-las?? Poderia afirmar de prontidão que preferia se matar antes que o fizesse, entretanto, costumava imaginar a mesma coisa sobre o irmão e Sigrid e veja só onde eles acabaram...
O ateniense só percebeu que havia sido carregado pela enxurrada de pensamentos, quando o toque de Briana o trouxe de volta a superfície. E quando ela tornou a falar, ele foi tomado por uma surpresa tão grande que, por alguns bons segundos ( ou seriam horas? não dava para ter certeza ), sua única reação foi fitá-la, atônito, sem poder fazer outra coisa que não piscar algumas vezes, o coração se inquietando no peito. A verdade é que Xeno não estava acostumado a contar com ajuda;; independência e força foram traços enfatizados em sua criação desde muito cedo ( cedo até demais! ), e com a relação de co-dependência que estabelecera com o irmão mais velho, estava mais do que habituado a ser aquele quem tomava os problemas dos outros para si, que fazia das tripas coração para ajudar a todos, dando seu melhor para se fazer útil. Nós podemos fazer isso juntos — as palavras dela ecoaram em sua cabeça e, sem que o louro percebesse,as lágrimas se acumularam nos olhos e as mãos subiram até o próprio rosto, cobrindo as menores da morena, o rosto pendendo ainda mais sobre o seu toque. O silêncio foi apenas cortado quando ele puxou o ar de maneira sonora, só então sentindo que poderia verdadeiramente respirar. Aquela era a primeira vez em... anos que Xenofanes não se sentia completamente só e podia apenas se perguntar por que demorara tanto tempo para perceber o que estava bem diante de seus olhos. Ele realmente não a merecia.
Diante essa certeza, as palavras escaparam sem esforço. ❝ — Ele está morto ❞, começou pelo início. A confissão não era mais alta que um sussurro, baixo o suficiente para que ele próprio se questionasse se havia mesmo dito. Mais baixo que o soluço que cortou a garganta em seguida, ❝ — Aegeus está morto ❞. Perder alguém é o preço que você paga por estar vivo, o próprio tutor havia lhe dito anos antes, palavras as quais o louro se agarrava tão desesperadamente para se impedir de desabar. Contudo, aquela foi a primeira vez que o louro se atreveu a admitir aquela perda em voz alta e, quando o fez, pôde sentir algo em si se partindo. Era como se alguém lhe abrisse o peito e arrancasse o coração e quando deu por si, já não tinha mais controle das lágrimas que vinha segurando firmemente nos últimos meses. Elas caíam e não pareciam que iam parar tão cedo, porque de repente aquilo era real demais e o príncipe não sabia como lidar, mais uma vez via-se como aquele mesmo garotinho de sete anos que acabara de perder a mãe. Aegeus estava morto. Morto. Não conheceria seus filhos, não veria a pessoa que ele se tornaria, não apareceria do nada em sua casa, cheio de histórias vergonhosas e pronto para reclamar de tudo, com aquele maldito cachimbo em mãos. A única figura paterna realmente presente em sua vida havia partido para sempre e tudo que o restava eram as lembranças da desastrosa despedida que eles tiveram meses atrás. ❝ — O pior de tudo é que ele estava certo! Por Apolo, ele estava certo e eu disse que nunca mais queria vê-lo de novo!!! ❞.