O coração pareceu saltar dentro do peito quando entrou em casa e ouviu o barulho da maquina. Depois de tantos dias num silêncio ensurdecedor, ele finalmente não estaria mais sozinho. Aurora havia despertado. Os passos rápidos o levaram no sentido do som, invadindo o espaço sem qualquer anuncio, até que o cumprimento seco o fez travar no caminho. "Bom dia, querida.", replicou num tom ameno, o olhar preso a ela, enquanto se virava na cadeira para ficar de frente para ele. O contido sorriso queria alargar-se nos lábios, mas ele se impediu de fazê-lo diante a expressão de Aurora, tão indiferente e distante, exceto pelas bochechas, mas essas pareceram pouco diante da combinação do olhar distante e do tom áspero que ela usava. "Tempo demais, Aurora. Um mês.", proferiu com pesar. Jamais tinham passado tanto tempo assim afastados, também não costumavam discutir, mas isso parecia ocorrer com frequência agora que as histórias estavam ameaçadas. Podia sentir que algo mudava em Aurora, além da maldição, além da ideia de ter que reviver tudo isso de novo, ele só não sabia o que, e se odiava por não conseguir desvendar, por não conseguir estar lá para ela. As palavras seguintes o atingiram bem no estômago, trazendo o gosto azedo para a boca. "Vai ter que fazer muito mais do que gritar comigo e me mandar ir embora, para que eu realmente vá, Aurora.". Realmente tinha sentido a falta dela, todos os dias, voltando em cada um deles com a esperança que ela tivesse despertado, e quando não tinha, sentia-se frustrado, querendo ignorar o pedido da esposa e acorda-la ele mesmo, como sempre fez. Aproximou-se um pouco mais, medindo os passos que dava, calculando a distancia entre eles. "E você? Não sentiu a minha?"