Ou como um ensaio do livro “Crítica e Clínicas”, de Gilles Deleuze, pode nos ajudar a pensar o esgotamento dos fluxos da Câmara dos deputados.
_____________________________________
Não vi o debate. Vi muito sobre se gestou e pariu desse trabalho complexo. Inúmeros comentários. Vê-se um campo de batalha. Rastros do que Deleuze chamou de o “amoedamento dos sujeitos”.
Trago perguntas: de quais conexões uma sociedade é capaz? Quantos fluxos ela suporta? Cenas de guerra. Cenas de combate.
Cenas de guerra: a redução de margens, o julgamento que espalha culpa, o Eu toma voz e vez de imperador, decapita-se e se escorraça algozes, cria-se, portanto, um mundo morto. Seus fluxos se esgotam (secos e fétidos). Secam na violência. A destruição do outro é certa.
Cenas de combate: o cuspe. Outra forma de beijo. Uma troca de fluxos, um apelo ao mais temido dos ósculos. Do inimigo. Vida dos fluxos. Que não é calmaria. É rota de colisão. Margens fervilhantes e podres, como o mangue que em sua lama encrusta os rebentos de vida marinha. O combate coloca a alma antiplatônica em cena, desejante por expandir o fio de sua simpatia e antipatia vivas.
No ensaio “Nietzsche e São Paulo, D.H. Lawrence e João de Patmos” figuras emblemáticas e ressaltadas nos discursos “de julgamento”, como os ocorridos ontem, ganham novas percepções. E Lawrence adverte: há um lampejo de poder, mesmo na maior das abnegações, no maior dos desprendimentos (nesse lampejo mixuruca ainda há “vontade de potência”).
E nesse julgamento constante, até o Apocalipse, já se cria e se habita num mundo morto. Nos discursos de ontem, fervorosos, fermentavam a morte (não apenas simbólica da presidenta, ironizada como “querida”, mas também no esgotamento das possibilidades de que os fluxos margeassem os diálogos).
Ontem, o combate não rejeitou a guerra.
Ontem, a possibilidade do nazismo se vê transfigurada no anseio coletivo por um mundo idealizado (sem colisão, combate, higienizado, sem a sujeira).
O que nos resta? Comprar as velas, as coroas do velório?
Acredito que ainda há possibilidades para construirmos passagens para os tais fluxos que permitem dentre outras coisas, deslocar-se da guerra, rejeitar falsas conexões capturadas pelo capitalismo, abandonar salvadores ou mesmo, deixar que os salvadores sejam salvos desse papel salvador.
Paixão em Cristo? Paixão por “crises”.
(imagem: o diálogo “possível”, ou como um fluxo de combate se arma, de súbito)