Depois do ultra-realista sonho, Gwaine ficara assustado pela ideia de escolher, voluntariamente, abandonar a magia um dia. Assustado a ponto de ter precisado uns dias para voltar as suas orações matinais diárias, a ponto de surtar e afogar-se nos livros, absorvendo todo e qualquer conhecimento mágico como se bastasse para garantir seu lugar eterno no mundo bruxo. Hoje ele estava melhor, finalmente. Acordara com uma leveza no espírito conhecida de quando passava dias sem dormir direito e depois seu corpo cobrava, fazendo-o dormir doze horas seguidas, e que ele carregou por todo o dia.
Isso significava que era dia de planejar os assuntos que estivera protelando para pensar. Com o fim das aulas do dia, ao invés de se dirigir para a biblioteca como fizera todos os dias daquela semana, Gwaine voltou ao salão comunal da Egalité, jogou-se em um dos sofás e, apoiando os calcanhares na mesa de centro -porque não tinha muitas pessoas ali, não que fossem chamar atenção de um membro do Conselho da Casa-, passou a analisar seu diário de orçamentos e planos. Fazia um mês que não pensava na questão de sua moradia e a ideia de que precisara, no final do verão passado, deixar o apartamento que alugava com seu ex-colega de casa era desesperadora. Oficialmente, ele não tinha um endereço. Estava bem enquanto as aulas continuavam, porém sua formatura estava logo ali no horizonte e ele precisava arrumar um emprego de imediato se não quisesse morar na rua. Voltar para casa de seus pais não era uma opção, principalmente depois daquele sonho.
Usualmente, Gwaine tomava ciência assim que Hercule entrava nas salas, era difícil não notá-lo, afinal. Com sua mente ocupada e os olhos emoldurado pelos óculos finos presos às suas anotações relacionadas a dinheiro e preços médios de alugueis em Paris, foi surpreendido a ponto de pular levemente no lugar onde estava. Recolheu rapidamente seu caderno e a caneta -desculpa mundo mágico, penas são estúpidas- e reprimiu a vontade de xinga-lo. Ok, reprimir talvez não seja a palavra certa, visto que esta -e qualquer outro pensamento, honestamente- sumiu logo que Hercule começou a falar, captando a atenção de Gwaine, sem exigir maiores explicações do comportamento do outro.
Nem tentou esconder o calafrio que o tomou quando o amigo mencionou a magia de sangue, seu desgosto por esse ramo de magia era claro. –”Não tinha pensado nisso ainda. Por que só esses tipos de magia? Devem haver mais, não devem? Se fosse para advinhar eu chutaria que a Ordem está precisando de herbalistas, elementais, profetas, mentalistas, espirituais e, bem, magos de sangue. Eles estão no treinando nessas áreas, e somente nelas, para poderem nos usar depois.”– ponderou, saindo de seu lugar no sofá ao escorregar para sentar no tapete, encarando os livros que o outro juntara mais de perto. –”Para que eles iriam querer nos usar? Se as magias fossem todas de ofensivas, eu sugeriria uma nova guerra bruxa. Mas não são e temer por guerras é muito… Grã-Bretanha.”– continuou enquanto folheava o livro que ele apontara como ‘profetas’ antes de voltar a olhar para o Picques. –”Quais as teorias dessa mente brilhante?”–
Com um movimento rápido de mão ele colocou um feitiço de silêncio ai redor dos dois, algo que havia passado por si na agitação do momento. Ele resolveu se sentar ao lado de Gwaine, fazendo um esforço consciente de não pensar demais no ato, enquanto ele abria o livro de Vim Sanguinis na página onde havia marcado com a sua carta. Deixando o símbolos das cartas e dos livros a mostra e óbvios na similaridade. — Eles fizeram esse livro, claro isso é óbvio, para você ter acesso a cópias e cópias de livros proibidos você precisa ser o produtor do conteúdo. Mas eles controlam só o conteúdo que recebemos desse exato assunto, eles nao nos dão direção sobre o que fazer com os outros ramos.
Ele ajeitou os óculos finalmente quando virou para realmente olhar para o amigo, ele estava empolgado — preocupado, mas empolgado. Era o primeiro mistério de verdade que ele era colocado de frente, a vida inteira Hercule sempre teve uma grande facilidade de obter conhecimento, e apesar das coisas ficarem cada vez mais complicadas com aquilo que ele efetivamente sabia, nada era mais um mistério.
— É como se eles tivessem nos dado algumas peças de um quebra-cabeça, mas estão nos dando a imagem errada de base — ele expressou com cuidado, não era um pensamento que ele andava trabalhando muito com, mas era algo que o invadia a mente frequentemente — Eu não consigo parar de pensar que eles estão nos colocando na direção errada de propósito, que eles estão nos mostrando algo que não é realmente aquilo que é o real. Que tem muito mais que isso, que isso é mais fundo. É pior.
A questão para Hercule era: Ele poderia bancar esse pior? Ele poderia se dar tanto para cuidar da sua família como ele desejava e ao mesmo tempo estar misturado nisso? A Ordem podia realmente ser algo a seu favor ou contra ele ao longo do tempo?