Sorrisos mascarados
7h, o relógio desperta, pulo da cama atrasado, visto minha camisa com listras coloridas, pego uma sacola e saio em direção ao ponto do ônibus que me levará em direção ao Hospital do Servidor Público Estadual, na região do Ibirapuera. No caminho, vejo mil adesivos colados em postes e me lembro que não tinha nenhum do Boulos no canto esquerdo do peito. A vontade era de voltar pra casa, mas por obra do destino, no chão haviam quatro (4, cuatro, quatre, four, IV) adesivos roxinhos da campanha que eu não sabia como agradecer aos céus, mas ainda pensei “poxa, podia pelo menos um ser o amarelo, não?”. Caramba, com certeza que o amarelo ia ornar mais com a camisa do que o roxo...
Como bom filho de Deus que sou e meus desejos se realizam, mal colei um dos roxinhos e não encontro dois adesivos amarelos no chão também? Pra quem acordou atrasado, jogou uma água na cara e nem percebeu se no bolso tinha o mais importante (to falando do bilhete único, gente... imaginem chegar no busão e pagar o mico de ter de descer no próximo ponto?), encontrar aqueles adesivos foi um bom sinal do andamento do dia.
Com o devido adesivo colado no canto superior esquerdo do peito, desfilei como se estivesse numa passarela, com um público formado por garis, trabalhadores de coleta de material reciclável e entregadores de pães que com suas bicicletas tocam o trin-trin anunciando sua chegada no cruzamento de ruas ou caso alguém desavisado e perdido estivesse no mundo da lua (eu estava consciente disso rs).
De olho no Moovit para conferir o horário de chegada do ônibus, em três minutos eu estaria embarcando. Dito e feito, entrei, peguei o bilhete único e passei a catraca. Como nas outras quartas, parei para tomar café com pão de queijo na banquinha do seu João, só que nessa foi diferente: eu mal pisei o pé na calçada e o moço que vende máscaras ao lado dele falou bem alto “É isso aí, vai dar Boulos!”. Eu levei um susto, mas na hora comecei a rir e concordei... foi a deixa para começar a conversar e dizer o quão é importante que a chapa Boulos-Erundina ganhe.
Entre a conversa e serviço de atenção aos clientes, seu João opinava e dizia sua análise sobre a cidade de São Paulo, e não se conformava como o paulista(no) é burro em reclamar dos políticos e eleger há mais de 20 anos o PSDB, não achando justo falar que o Nordeste não sabe votar! Ele ainda argumentava que quando chegou há São Paulo há mais de 40 anos, só viu melhoria de vida quando a Erundina venceu, e sabe que hoje ela é e continua a ser quem sempre foi! Essa atenção à voz desses dois homens, combinada vez ou outra por algumas coisas minhas, me alegrava o coração, acrescentava um pontinho a mais de esperança que um projeto de inclusão pode vencer na maior cidade da América Latina.
Correndo pra consulta no hospital, VÁRIAS e VÁRIOS me olhavam, subindo as sobrancelhas, fazendo o V da vitória, apontando o adesivo, que eu retribuía com gosto, e dava para perceber que por trás daquelas máscaras haviam sorrisos daqueles funcionários públicos estaduais, que infelizmente não podiam ser vistos... mas aquilo, o ser humano cria estratégias de comunicação com o outro, independente das questões que o flagelam.
No atendimento, dois rapazes negros me olharam e um deles disse com as mãos um “espera aí”. Não passaram cinco segundos até que o atendente chegasse e pedisse minha carteirinha. Sentado diante do computador, ele tinha na direção dos seus olhos nada mais, nada menos que o bendito adesivo amarelo, que tirou do seu rosto um sorriso tão grande que fez a máscara baixar diante do seu nariz. Ele tava tão feliz que apontou o dedo pro apetrecho e sem perceber deixou que a máscara ficasse abaixada...
Entrando na sala da médica, fui com a maior sede ao pote esperando que ela também visse o adesivo e expressasse algo, mas como nem tudo na vida pode ser planejado, ela não falou nenhum A, não rolou um olhar, um dedo apontando pra camisa, um V de vitória, um Agora é Boulos... enfim, ao menos ela me tratou bem como das outras vezes e manteve o cuidado no procedimento terapêutico.
No caminho para Pinheiros vi que o Terminal Lapa estava parado no semáforo e não tava acreditando que ia apressar o passo pra pegar ele... a questão é que to com um probleminha nos pés (motivo das idas ao hospital) e fazer aquilo que mais gosto pela cidade, andar, correr e deambular, se tornou um martírio. O adesivo me garantiu uma sorte tão grande que consegui pegar o busão e ainda pedir para o motorista esperar uma senhora que apressava o passo para também tomá-lo.
Mal chego na catraca e o que que a cobradora fala? “Ahhh, eu vou votar nesse Boulos também!” Foi tão engraçado porque eu mal tinha falado bom dia pra ela e nem encostado o bilhete único no validador, e fui recepcionado com uma dessas. Ela engatou dizendo que o voto é principalmente porque o infeliz do atual prefeito pretende cortar os cobradores das linhas de ônibus e isso acarretará a demissão de 19 mil pessoas. Eu sabia da discussão de retirada dos cobradores, mas não tinha dimensão do impacto numérico de desempregados que a medida causaria na cidade. Pois bem, seria aproximadamente a soma de toda a população que reside na Barra Funda e em Marsilac sem ter onde atuar profissionalmente nesse contexto de crise, ao léu, somando-se à taxa histórica dos outros 13,8 milhões de desempregados brasileiros.
Eu não senti um sorriso sob a máscara da cobradora, mas percebia um sentimento de angústia e de possível esperança que com outra pessoa no comando da cidade as coisas ao menos podem melhorar ou não ficar pior do que já estão. Até porque ela mesma mencionou como não aguenta mais viver no Morro Doce, um bairro que não tem nada e quando você precisa resolver algo precisa ir até a Lapa. Nessa, eu emendei que já trabalhei em Pirituba e que ouvia alunos da escola falarem sobre o bairro. Na verdade eu me lembrei de um trabalho de mapeamento social no qual as alunas e alunos descreviam os equipamentos públicos dos seus bairros e construíam uma linha do tempo de quando eles foram instalados, e claro, o Morro Doce apareceu na lista!
Quando passei a catraca, me sentei num dos bancos seguidos, e cobradora continuou falando. Só que o papo foi pra outro rumo, que no sábado ela ia fazer uma escova, passar uma chapinha e ficar gata, no que eu emendei e concordei falando “tá certo, tem que se produzir mesmo”.
Quando eu sento no ônibus, eu juro que planejo ir lendo alguma coisa, mas é impossível, porque toda bendita vez fico olhando os prédios, as calçadas, o trânsito, com um olho na janela e outro olho parafraseando o dito. Aos poucos, a paisagem da Vila Nova Conceição e seus prédios classudos com varanda gourmet abundavam pela janela do Terminal Lapa... logo eu chegaria em Pinheiros.
Na esquina da Fradique Coutinho com a Cardeal Arcoverde, uma colagem do @buenocaos trazia duas mulheres, uma branca e outra negra, segurando placas com os seguintes dizeres: “sem justiça” “não haverá paz”. Eu já tinha visto em stories do Instagram, mas ainda não tinha me deparado com ela ao vivo e a cores. Tirada a foto, segui pro último destino antes de voltar pra casa... eis que não sei o que me fez voltar e conferir se era o que realmente tinha visto. Ambas as mulheres usavam máscaras, e seus olhos e sobrancelhas se destacavam, como as várias e vários que me olhavam dentro do Hospital e que acreditavam na vitória do Boulos!Feito o que tinha de fazer, rumo ao ponto pra voltar pra casa, já esperava que mais alguém me olhasse, fizesse o V da vitória, subisse as sobrancelhas... mas o ônibus chegou, eu subi, encostei o bilhete único no validador, me sentei, vi pessoas subirem e descerem do ônibus... mas não rolou. Para uma manhã que durou pouco menos de quatro horas, aconteceu muita coisa. E tudo graças à sorte do adesivo amarelo. Do adesivo não, dos adesivos! Adesivo amarelo colado no canto superior esquerdo da camisa listrada!
Domingo, aperta 50 e vem!















