O Primeiro Concerto (Capítulo 1)
[…] Quando foi que passei a me confessar tão facilmente? Mas estou no céu e aqui nada mais importa, mas admito que as palavras daquele anjo - que fora designado para a tarefa de me guiar até que me adaptasse - tocaram profundamente em meu coração, por falar nele, no céu ainda se existem sentimentos? E por qual motivo um anjo ainda falaria no mundo dos vivos? Existem várias perguntas que preciso responder, mas tenho toda a eternidade para isso.
- O senhor está sendo chamado - o mesmo anjo aparece subitamente em minha frente - imediatamente, e diga-me, pretendes ficar aqui durante toda a eternidade? O mundo dos vivos se fora, e o Senhor quer vê-lo.
- Nossa! Chegue com mais calma senhor! Mas tudo bem, não pretendia passar muito mais tempo observando o nada. - Respondi assustado.
- Desculpe, estamos acostumados a fazer isso.
Andando por aquela curiosa região minhas perguntas continuavam a surgir e meu rosto mostrava-se confuso. Como o céu pode se parecer tanto com a terra? O mesmo asfalto, casas construídas sobre terrenos planos, carros, crianças, adultos e tudo que pertence ao mundo dos vivos mas com diferenças, tudo aqui está perfeito, não vejo executivos estressados caminhando pelas ruas, não vejo diferenças sociais e muito menos vejo assaltos e assassinatos, isso sim diria que é o paraíso, até que um esbarrão toma minha concentração novamente.
- Desculpas!
- Desculpas aceitas. Tudo aqui parece bem confuso, não acha? - Um homem loiro, por volta dos 20 anos estava fazendo a pergunta que gostaria de ouvir por toda manhã e rindo de mim.- Sim, parece. O que acha desse lugar?
- Eu o acho incompleto, afinal, eu o criei.
- Você o criou?
- Sim, e minhas sinceras desculpas por não me apresentar. Me chamo Daniel, sou conhecido pelos humanos como Deus.
- O senhor… - meu corpo fora se curvando instantaneamente enquanto meu rosto aparentava pasmo - É uma glória conhecê-lo senhor.
- Vamos! Levante-se! Sou homem como você.
- É que esperava encontrar um homem mais… - meu interior começava a se acalmar.
- Velho?! - O homem ria de forma incrivelmente saudável
- Sim, senhor.
- Ora meu garoto, aqui o tempo não passa, não ficamos mais novos ou mais velhos, tudo aqui não foi feito para ser perfeito, apenas criei esse mundo com o intuito de fazer com que a nossa eternidade não pareça tão longa. Quando você morre, tudo volta pro zero, nada de lembranças, preocupações, vícios. Damos nossos próprios nomes e continuamos a vida como gostaríamos de ter tido.
Minha mente impressionada não conseguia pensar normalmente, mas uma pergunta ficava perturbando minha cabeça: Sem lembranças? E aquela história da qual me lembro tão bem? Não lembro o rosto do ladrão, não lembro muito daquela cena, mas lembro o rosto da bailarina, a sua boca, o seu corpo, do seu cheiro, do seu figurino, e do seu gesto de desculpas ao sair correndo. Espero que ela se torne uma boa garota.
- Incrível.
- Você não parece muito entusiasmado... Mas tudo bem. Você passou alguns quarteirões da minha casa por isso senti a necessidade de vir até aqui para podermos ter essa conversa rápida. Como devo chamar-te a partir de agora?
- Aaron. Esse nome me agrada.
- Muito bem Aaron, seja bem-vindo ao paraíso. O anjo deixará de te guiar nesse exato momento, mas qualquer coisa que precisar, ou se o quiser ao seu lado por mais um tempo não hesite em ir à minha casa, farei qualquer coisa para atendê-lo.
Senti uma vontade louca de socar aquele garoto mas meu corpo não respondeu aos meus comandos. Eu ainda tinha lembranças, eu ainda tinha sonhos e ainda tinha sentimentos da minha vida passada. Vi aquela garota uma vez, mas a vi. Ao tocar sua perna como ordem para ela correr o máximo que pudesse, eu senti seu calor, quando ela correu, eu senti sua gratificação e a perdoei instantaneamente. Mas não entendo o motivo de todas as minhas memórias estarem ligadas a uma mesma pessoa. Não entendo nada agora, só sei que esse sentimento é bom, e esse sorriso que agora estampo no rosto seguido de lagrimas que caem sem parar são amostras de que é muito bom estar junto dela e que nunca mais irá se realizar, mesmo que eu deseje fervorosamente. [...]















