Por muito tempo eu quis ensinar as pessoas a me amar. Entregava mapas, manuais, listas de avisos e instruções. Dizia que era praticidade, uma forma de otimizar o tempo, uma seleção natural. Se depois de saber tudo sobre mim você resolvesse ficar, ótimo. Se fosse embora, pelo menos eu teria economizado esforço.
Era uma lógica confortável.
Eu expunha minhas rachaduras, meus defeitos, meus excessos, e pensava: pronto, agora a decisão é sua. Se não desse certo, a culpa já não era minha. Afinal, eu tinha avisado.
Mas a verdade é que ninguém aprende uma pessoa lendo o manual.
Você pode explicar seus medos, descrever seus traumas, listar cada comportamento que considera difícil. A outra pessoa pode entender, pode ouvir com atenção, pode até acreditar que está preparada.
Só que entender nunca foi o mesmo que viver.
Há uma distância enorme entre ouvir alguém dizer "às vezes eu me afasto quando estou machucado" e estar ali no dia em que esse afastamento acontece. Entre saber que alguém é intenso e sentir essa intensidade ocupando espaço dentro da relação. Entre conhecer a tempestade e atravessá-la.
Fugir diante disso não é necessariamente uma falha de caráter. É humano. Ninguém sabe realmente o que consegue suportar até estar dentro da experiência.
E talvez seja aí que mora a parte mais difícil de admitir.
Talvez eu não estivesse entregando um manual para facilitar a permanência de alguém. Talvez eu estivesse entregando um pedido. Um pedido sofisticado, elaborado, racionalizado. Mas ainda um pedido.
Como quem diz:
"Eu sei que sou complicado. Eu sei que carrego coisas difíceis. Eu sei que haverá dias em que não serei fácil de amar. Mas, por favor, fica."
— Atlantic Boy.


















