O Natal era uma época copiosamente dura. Lembrava-se bem de um dia 25 de dezembro específico. Havia completado onze anos no mês anterior e não mais acreditava nos símbolos natalinos tradicionais, não esperava o Papai Noel passar durante a meia noite, porque sabia que as freiras que deixavam os presentes perto da janela. E ele já havia observado que as crianças mais velhas não recebiam regalias, o que não deixava de ser justo, que a alegria e magia do feriado fossem reservadas para os pequenos, para os que ainda sonhavam com um bom velhinho em um trenó.
Havia estado, todavia, cabisbaixo. Crescer significava muitas mudanças importantes, mas Minho ainda se considerava um menino, ainda era um menino. Após o almoço do dia 24, a irmã Heiran o havia puxado para um canto e lhe dado uma importante missão. Ele seria o ajudante do Papai Noel quando e meia noite chegasse. O Kwon havia tentado desconversar, falando não acreditar mais nas histórias natalinas, mas irmã Heiran tratara de ser firme em seu pedido: Era de extrema significância que ele ajudasse na entrega dos presentes durante a noite.
Ele podia se lembrar perfeitamente da animação em véspera de Natal no lar adotivo, afinal, todos recebiam a permissão de aguardar a virada para o dia 25, até mesmo os pequenos. O espírito alegre contaminava até aqueles mais velhos e os dois dias acabavam contendo muita paz e risos. O Kwon pegava-se sentindo falta deles.
Em seu pequeno quarto em Seoul, tão longe de Andong, ele se preparava para mais uma versão da data tão amada por praticamente todo o mundo. Folheava seus cadernos de anotação, mas sua cabeça estava bem longe. Tão longe que viajava para uma terra em que tinha onze anos novamente. Havia passado aquele dia extremamente preocupado, lembrava-se. Por um lado, sabia que Papai Noel e renas e trenós eram histórias contadas e nada mais, por outro, irmã Heiran não era de brincadeiras. No fim das contas, resolveu levar a história a sério.
Sorria agora, ao lembrar-se das palavras da freira. O Papai Noel não pode visitar todas as casas do mundo, então nós o ajudamos. O Kwon fora incluído no grupo de ajuda natalina daquele ano, que acabara sendo apenas o primeiro de muitos. Seu trabalho fora ajudar as irmãs com os presentes e, por fim, exclamar ter visto o bom velhinho. O coração repleto de amor por conta da lembrança, dos rostos iluminados que ele ajudara a causar. Apenas com um gesto. O gesto de uma criança que não mais acreditava em prol das que ainda aguardavam algo.
Ouviu o apitar de uma mensagem recebida, afastando (não completamente) as lembranças. Apanhou o casaco de frio e o gorro vermelho após ler as palavras de Lyla e saiu de casa.
Encontrou-a onde a mesma dissera que estaria. Aproximou-se lentamente, os olhos presos no bom velhinho de carne e osso tocando piano. “Feliz Natal.”, disse fazendo-se presente. Um sorriso se formou, o coração tão coberto de memórias. “Acha que ele me deixaria tocar com ele?”, perguntou, esfregando as próprias mãos por conta do frio.
❛ assim como huiyin, havia outras pessoas gravando a cena. a estação de metrô era grande e bonita. os enfeites natalinos estavam por todos os cantos e as pessoas pareciam felizes em seus caminhos com entes queridos os acompanhando. preferia pensar que cada um possuía alguém do lado e, por mais doloroso que as vezes soava, não estava triste naquele momento. seus olhos pelas gravações observava a estética agradável, o ambiente com o seu som bonito e acolhedor, sentia somente vontade de cantar e viver de maneira diferente.
datas importantes evidenciavam a ausência de seus pais, de seu irmão e até mesmo parte de si própria que fazia sua iridescência tornar-se obsoleta. desconhecia-se novamente as próprias cores, mas era às vezes, só às vezes que isso acontecia. seus olhos ainda brilhavam, seu sorriso ainda crescia e ela batia palmas quando uma canção era finalizada. não era o dia de perder a esperança ou deixar que ficasse irremediavelmente triste. dias bons estavam por vir, afinal.
deixou a câmera de lado para observar se havia alguma mensagem, mas novamente nada. acessou as redes sociais e podia ver os posts de viagem da mãe, eram as fotos com o marido e o meio irmão em almoço onde todos pareciam felizes. ela parecia feliz como poucas vezes pôde presenciar.
o nó que começava a se formar em sua garganta fez com que fechasse o aplicativo e o desinstalasse imediatamente com irritação, mas a presença repentina a assustou, fazendo-a olhar minho e colocar o aparelho no bolso do casaco. ━━ você veio! ━━ o riso era quase surpreso, fazendo-a bater as mãos e levantar-se de imediato. ━━ feliz natal, oppa. ━━ disse para ele também. é natal, n-a-t-a-l, lembrava-se, gostava das cores. ━━ vamos perguntar. ━━ propôs, afinal estava apenas o esperado chegar. seguindo rapidamente em direção ao pequeno número de pessoas que rodeava o talvez-não-tão-velhinho-senhor papai noel que tocava o piano. ━━ qualquer coisa você pode cantar, mas o piano é da estação. todos podem tocar, hoje não é um dia de ser egoísta. ━━ riu e parou próximo do maior. ━━ vai lá. ━━ incentivou baixo, olhando-o e apontando com a cabeça para o homem. ❜